Reveille
2 Infância
Notas iniciais
Ponto de vista de Renesmee.
Com apenas cinco anos de idade já aparentar ter cerca de quinze anos era confuso, mesmo para mim, Renesmee Cullen, cercada de vampiros e lobisomens. Embora para mim fosse natural, já que isso era tudo o que eu conhecia. Os humanos com que tive contato eram vovô Charlie, Billy, Sue, e às vezes as noivas dos lobos. E Claire. Os passeios na cidade (poucos, aliás), não contam muito.
Não tenho certeza se em algum momento de minha curta vida, minha mente tenha funcionado como talvez devesse funcionar a de uma criança. Mas tenho quase certeza de que aos cinco anos, minha forma de ver e compreender as coisas estão muito mais amplas que há dois anos. Toda minha família sempre pareceu ter consciência -desde que eu nasci- que compreendia muito além do que me explicavam. Mas apenas Edward, meu pai, com seu poder de ler mentes, sempre soube com exatidão como isso era maior.
Cheguei a me perguntar se seria mais fácil ser inteiramente humana. Imediatamente obtive resposta. Claro que sim! Não teria tantos segredos a guardar da humanidade e, teria mais tempo para me acostumar com as mudanças em meu corpo e em meu humor. Mas nem mesmo assim, me imagino sendo de outra maneira. Vivendo de outra forma. Sem meus avós Carlisle e Esme, meus tios Rosalie e Emmett, Alice e Jasper, meu pai, Edward, e minha mãe, Bella. E claro, meu Jacob. Minha amada família.
Lembro-me, sentindo meu coração apertar, de quando apenas em meu quarto mês de vida corri grande risco de perdê-los. Agarrada as costas de minha mãe, rodeada por minha família, e amigos — vampiros e lobos-, assisti vindo em nossa direção, numa sincronia perfeita e pomposa, os mantos escuros dos Volturi.
Depois de uma longa, tensa e ameaçadora conversa, graças ao escudo mental de minha mãe vencemos sem que ao menos houvesse luta. Mas a lembrança da despedida de meus pais é dolorosa como se eu nunca mais os tivesse visto desde então. O lamento do enorme lobo castanho-avermelhado é quase tangível em minha lembrança. Mas tudo acabara bem.
Recordo claramente de como me senti desamparada quando Bella me tirou de suas costas, mas me senti melhor imediatamente quando ela me posicionou nos ombros de Jacob.
Jacob. Ele está em todas as minhas memórias. Sempre com seu sorriso doce, o de lobo ou de homem. Lembro de que o mordia quando ele não era rápido o suficiente em me dar comida. Era melhor mordê-lo do que a meus tios; Jake tem um sabor melhor. Tia Rosalie achava hilário quando o fazia.
Eu não fora uma criança difícil. Apesar da juventude e do estado permanente das personalidades de meus pais, não vejo como poderiam ser melhores.
Minha mãe resolveu que eu não deveria ter tudo, pois segundo ela eu nunca me empenharia em conseguir algo. Assim ela cortou os excessos de mimos da parte da família. Na época, eu não gostei da idéia. Mas a verdade é que sempre tive bem mais do que o necessário e confortável e, bom... Sei que ela tinha razão.
Mesmo com toda a preocupação com a minha educação, eles não puderam evitar alguns acessos de birra. Eu tinha cerca de quatro anos físicos...
Esme, Alice, Jake e eu estávamos em casa.
–Eu não quero! -Queixava-me olhando o prato de macarrão à minha frente, sobre a mesa.
–Coma, só um pouquinho! -Adulava vovó. -Você está crescendo, sabe que só sangue não pode.
–Vamos Nessie... Macarrão é bom. Este molho de Esme está uma delícia, já até comi o meu. -Argumentava Jake.
–Não importa! Não gosto e não vou comer! -Anunciei decidida.
–A levo para brincar com Claire. -Jacob prometeu.
–Agora? -Perguntei esperançosa.
–Quando você comer.
–Jay... -Choraminguei encarando a massa gosmenta que não tinha a mesma aparência e muito menos o mesmo sabor que a cor vermelha do molho me arremetia.
Fiz careta quando ele empurrou o prato para mais perto de mim. Jake foi até a geladeira. Eu, sabendo que Esme preparava apenas a minha porção -e às vezes a de Jake- pensei logo em me livrar do macarrão nojento. Puxei o prato para a borda da mesa, deixando-o balançar e cair no chão. Sorri para mim mesma, satisfeita em não ter de comer aquilo. Ergui os olhos e Jake me encarava de braços cruzados, as sobrancelhas grossas arqueadas numa interrogação clara. Alice estava na soleira da porta.
Rapidamente desfiz o sorriso.
–Eu vi. E alguém, não serei eu, limpará. -Falou ela tranquilamente.
–Renesmee! -Disse Esme de súbito na cozinha. -Se foi proposital, você limpará.
–Mas vovó... É nojento! -Franzi o nariz para a gosma no chão. Não havia pensado na sujeira quando pensei em me livrar da comida humana.
–Não se desperdiça comida, Nessie. -ralhou Esme. -Você fez de propósito.
Eu não prestava atenção. Pensava no sofrimento de mexer com a comida nojenta. Olhei suplicante para Jacob, que estava quieto me olhando.
–Pode deixar, Esme. Eu limpo. -Ele deu a volta na mesa, enquanto minha avó colocava as mãos no quadril. Ele se agachou ao meu lado e vovó abriu a boca para falar...
–Deixe isso onde está, Jacob. -A voz sempre aveludada de meu pai soou dura do lado de fora da casa. Jake parou, congelado. Eu levantei e corri.
Meus pais me abraçaram antes que os encontrasse na porta. Afaguei-lhes rosto mostrando que sentira saudades.
–Nós também. -Disse Bella sorrindo.
–Agora, mocinha, limpe sua bagunça. -papai me colocou no chão. Segurei sua mão mostrando minha aversão àquilo.
–Você jogou de propósito. É justo que você limpe, não que deixe Jacob limpar.
–Mas ele se ofereceu, ele quer, não é Jay? Não pedi que ele fizesse.
–Não se deixa que outra pessoa pague por um erro seu. Você errou, você corrige. -Disse mamãe.
–Isso é gosmento e cheira mal. -Olhei para Jake junto à sujeira no chão.
–Não precisava ter jogado a comida. -disse Bella.
–Não Jacob! Renesmee vai limpar a sujeira que fez, não é Nessie? -Disse Edward sério.
–Jay quer limpar! –Falei.
–Nessie, fico muito decepcionado que você prefira que Jacob limpe sua bagunça. Sabe que isto é errado. -papai olhou para Jake. –Todos nós estamos decepcionados. -ele cruzou os braços.
Eu sabia o que decepcionado significava. Todos estavam assim por mim. Senti meus olhos umedecerem e minha garganta se apertou — isso não acontecia muito.
–Eu quero limpar. — solucei ajoelhando ao lado de Jake.
–Coloque o macarrão no prato e limpe o molho do chão. -Bella me deu um pano úmido. Assim eu fiz.
–Vocês estão decepcionados agora? -perguntei uma vez que o chão estava limpo.
–Não. -responderam rindo em uníssono, enquanto eu sentava no colo de Jake.
–Você entende o erro que cometeu? -indagou-me Edward.
–Não devo desperdiçar comida nem deixar que outra pessoa corrija um erro meu. — Suspirei meio carrancuda. Depois disto fui beijada e abraçada.
Jacob sempre fora o mais indulgente comigo. “Pensei que estragar a educação dada pelos pais fosse missão dos avós, Jacob”, dizia Bella sempre que ele me dava algo que eu queria.
Certa vez, brincando, remexi e espalhei todas as peças e ferramentas da garagem improvisada de Jake. Ele apenas riu. Hoje sei que se outra pessoa fizesse o mesmo certamente perderia os dentes.
–Um banho resolve tudo. Alice... Ela nem usaria esta roupa novamente. -Apaziguou minha mãe, quando Rose e Alice não gostaram de me ver com graxa até os cabelos.
Eu simplesmente amava aquele lugar pequeno em Washington, é onde passei minha infância e sou tão feliz. Era difícil o fato de ainda morarmos aqui. Uma verdadeira proeza, já que os Cullen não moravam oficialmente em Forks. Carlisle trabalhava em Seattle; ia e voltava todos os dias de carro. E para a população de Forks, sua família se mudara um ano após a formatura dos filhos e o casamento da filha do Chefe Swan com Edward Cullen.
Mas a verdade é que todos tinham grande carinho por este lugar, por conta de toda a história que tiveram aqui. Com certeza de todos os lugares que passaram este era o favorito de todos, sem mencionar as nuvens constantes que lhes permite ficar ao ar livre sem chamar a atenção. Era mesmo o nosso lar, embora eu às vezes me perguntasse o que mais haveria mundo a fora.
Às vezes parece magia o modo como eu e Jacob sempre nos demos bem, mesmo com minhas mudanças diárias, ele é sempre meu Jake... Moldando-se a mim perfeitamente. Quadro e pintura. Quase como meus pais, mas diferente é claro. Jacob é meu melhor amigo, como meu irmão mais velho. Nem me imagino longe dele. A única tentativa não deu muito certo.
Ele está em grande parte de minhas fotos de infância — o que minhas tias fizeram quando eu ainda crescia muito rápido, na tentativa de acompanhar meu crescimento.
Meus pais haviam ido caçar esta noite e Jay logo viria me fazer companhia. Não percebi a inconsciência chegando... A praia de La Push passava em minha mente, junto de meus lugares favoritos da floresta e os rostos de quem eu amava. Mas o cenário se fixou e reconheci a lembrança. Jake e eu num dos raros dias de sol sobre a Península Olympic, eu tomava sorvete pela primeira vez. Eu amei, tia Rose precisou levar um balde para casa aquele dia. Aproximei-me da cena achando engraçado, havia muito não lembrava daquilo. Eu tinha apenas dois anos e nenhuma comida humana me atraía a não ser ovos, chocolate e a partir dali sorvete. Ao me aproximar, percebi que não era eu a criança entusiasmada e sentada ao lado de Jay. Ele sorria orgulhoso para a criança que se parecia bastante comigo embora seu cabelo, olhando mais de perto, fosse um tom mais escuro que o marrom acobreado que é o meu, e seu sorriso... De repente a cena mudou. Jacob transformou-se num lobo, a criança não estava mais lá, eu assumira seu lugar, mais me parecendo vampira que humana, com os dentes expostos e uma raiva amarga sufocante.
Não sei onde estávamos, mas minha família começou a formar protetoramente uma linha, um paredão diante de mim, e comecei a ser arrastada para trás; o lobo castanho-avermelhado me puxava pelo casaco enquanto outros lobos firmavam sua posição de ataque frente a nós.
–Não! Jacob, não! -Eu tentava gritar, mas sufocava.
Acordei antes de poder ver a razão de minha raiva e das posições de minha família e dos lobos.
Estava quieto e escuro na nossa casa-chalé, sinais de que ninguém havia chegado. Eu arfava tentando afastar a fúria irracional. Não devo ter dormido muito já que ainda estava só.
Enquanto me acalmava e situava, apenas um segundo passara desde que eu despertara, percebi o ronronar familiar ao pé de minha cama. Virei-me para olhar. Era Jacob, dormindo. Não dava para saber se ele chegara havia muito; dormia mais fácil que um bebê. Eu ri, já calma ao ver a expressão serena em seu rosto.
Estendi a mão para tocá-lo, pensando em acordá-lo, mas optei por não fazê-lo. Tentando dormir novamente, concentrei-me na respiração dele. Mas a imagem da criancinha satisfeita com seu sorvete ao lado de Jacob ficava girando em minha mente.
Estava inquieta, já optava por despertá-lo...
–Nessie, está acordada querida?
–Sim, Jake. -minha voz parecia sufocada.
–Está tudo bem? -Jake sentou-se para me olhar. -Desculpe meu atraso, estava na ronda, para não enferrujar... Não queria tê-la deixado sozinha...
–Não é isso. -derrubei o álbum de bebê que eu olhava ao sentar. -Tive um sonho diferente...
–Quer compartilhar? -estendeu-me a mão.
Peguei sua mão. Seus dentes cintilaram no escuro quando reconheceu a lembrança. Sua expressão tornou-se curiosa quando percebeu que não era eu. Jacob ofegou quando o lobo entrou em cena e ficou claramente confuso com as imagens seguintes.
–Wow. -Disse ele quando o filme acabou. Eu nada disse. Não precisava. -Dormiu vendo isto? -Ele ergueu o grosso livro de fotos.
–Sim... Nossas fotos.
–Ah, eu quase não apareço! -Eu ri. -Foi por isso, Nessie. Ficou lembrando-se de quando era criança, aliás, de quando parecia uma. Por isso a do sonho era um pouco diferente de você, eu acho.
Assenti em concordância. Afinal era só um sonho, apesar de a raiva ser real. Talvez fosse tão real porque nunca senti nada tão intenso. Sentia-me...
–Não me sinto mais criança... -falei sem pensar. -Há tempos que não.
–Acho que está na terrível adolescência. -Disse Jake fazendo careta. Ele então olhou para a porta do quarto como se alguém o tivesse chamado, mas a porta estava aberta e não havia ninguém ali. Era a super audição canina.
–A babá terminou por hoje. Mamãe e papai em casa!
–Não preciso de babás! -cruzei os braços.
–Eu sei, Nessie. -Ele respondeu divertindo-se. -Vai contar a eles? –Sussurrou.
–Preciso? -indaguei confusa.
–Contar o quê? -perguntou a voz que eu amei antes de ouvir como sinos de vento.
–Você é quem sabe. -Jake ergueu as mãos como quem se rende.
–O que houve? Diga Jacob. Renesmee? -Bella já estava nervosa. Antes que eu dissesse algo, Jake respondeu.
–Ai, Ai, Ai Bells, Relaxe! Foi só um sonho que deixou nossa Nessie pensativa.
–Sonho? Quer me mostrar, filha? -ela pegou minhas mãos.
Eu não costumava desobedecer ou negar nada aos meus pais. Mas hesitei em mostrar-lhe, me parecia bobo agora que a raiva havia cedido e Jacob encontrara uma explicação. Porém mostrei-lhe, mamãe parecia interessada nisso, e como meus sonhos pouco variavam... Geralmente era a matilha correndo, nossos amigos e toda a minha família, lembranças... E eu nem sempre recordava no dia seguinte.
Apenas um sonho eu nunca havia esquecido; um pesadelo na verdade. Aconteceu na noite em que os Volturi nos “visitaram”. A cena contrária ao que aconteceu: uivos tomaram a clareira ao mesmo tempo em que o chão tremia com a marcha dos Volturi, que se aproximavam prontos para acabar com aquilo. Mamãe me colocou no dorso do enorme lobo, então sem que pudesse fazer mais, grandes línguas de fogo cobriram minha família e os amigos que eu acabara de conhecer, enquanto o lobo corria comigo agarrada ao seu pêlo.
Concentrei-me para não transmitir as imagens erradas a minha mãe, que parecia tranqüila quando terminei.
–Não se preocupe meu bem, sonhos são assim, os meus eram. -Ela disse docemente, sorrindo.
–Sonhos? -papai perguntou, num átimo estava sentado ao meu lado. Beijou-me a testa. — Não devia estar dormindo mocinha? -Pensei que ele ia me fazer falar sobre o sonho bobo. Mas ele já devia ter visto toda nossa conversa na mente de Jacob e captado na minha que já me cansara do assunto.
–Jacob, não lhe disse que Nessie - Bella há muito desistira de lutar contra meu apelido — não devia ficar acordada até tarde?
Não queria que ela se irritasse com ele.
–Quando acordei, ele era quem estava dormindo, mãe. -Minha defesa não fez com que ele se calasse.
–Bella, você anda muito mal humorada. Isso é mal de vampiro ou o problema é com a senhora diferente?
–Já está tarde... Jacob, Nessie e você precisam dormir. -Edward interrompeu propositalmente.
–É verdade, há dois dias não durmo. O velho Billy deve estar louco. -Disse Jake levantando-se do carpete.
–Acharam o rastro certo? -perguntou Edward.
–Sim, mas nem chegamos a ver os sanguessugas... Eram dois, deviam estar de passagem, o rastro chega à fronteira do estado.
–Alguma baixa?
–Acho que não, mas vou verificar com Sam.
Jacob virou-se para mim e beijou-me a testa antes de me dar seu sorriso que eu mais gostava.
–Boa noite Nessie, Edward, Bella. -Segurei o riso quando Jake disse o nome de minha mãe de má vontade. Isso não combinava com a amizade dos dois.
–Ah, Jake! Não é nada com você! Desculpe-me! -Ela disse enquanto abraçava a cintura de Jacob, que afagou suas costas.
–Tudo bem Bells. -Ele riu. -Você deve estar precisando fazer umas compras para aliviar o estresse. -Ele disse numa péssima imitação de tia Alice. Eu ri, enquanto ele saía.
–Hora de dormir! -Bella me enrolou em uma coberta e deitou-se ao meu lado, me abraçando. Edward manteve a posição na beira de minha cama, cantarolando a cantiga de ninar que fez para mim durante a transformação de minha mãe. Afundei sem me dar conta, em um sono tranqüilo.
Notas finais
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