Notas iniciais
Só uma ideia que tive em conjunto com meu amigo. .

Desbloqueio o celular e risco mais um nome. Suspiro. Outra alma ceifada, mais um turno concluído.

É complicado ser a Morte. Você espera que nesse mundo em que as pessoas vivem pedindo por mim, seria mais fácil trazê-las para o outro lado quando chega a hora. Não é. Elas só falam por falar por que na hora que é pra valer, fazem de tudo para ganharem mais tempo. São raras as pessoas que me acolhem, sempre recebo xingamentos e tenho que sair correndo atrás delas. Pelo menos mantenho a forma, ouvi dizer que esquelético é o padrão de beleza vigente.

Sinto o celular vibrar (sim até seres de outros planos contam com a tecnologia, sinceramente humanos, se fomos criados por vocês é claro que vamos usufruir de suas outras criações). Na mensagem lê-se “reunião das personificações da morte, hoje, no bar do Thanatos, cheguem assim que possível — Anúbis.”

Mais essa, faz um tempo que venho escutando rumores dos outros ceifadores querendo meu lugar. Não é minha culpa que os humanos pararam de cultua-los.

Entrando no bar, todos me encararam. Pude ver pela cara do Ankou que se ele pudesse, já teria se jogado contra mim. Ele clama que eu roubei sua aparência, mal sabe o pobre coitado que sou apenas uma mistura de todas as crenças. Deus achou que seria legal combinar todos os ceifadores em um, para economizar no pessoal e melhorar a coleta. Aproveitou que a humanidade tinha desenvolvido mais uma figura para representar a morte e me incumbiu de levar as almas. Obviamente isso desagradou muita gente.

Anúbis pediu silêncio e começou a reunião:

— Ceifadores, sabeis por que aqui estão. É chegado a hora de voltarmos a ação, quantos de vocês não sentem falta de lá fora estar e almas ceifar?

Um murmuro de confirmação enche o local.

— Devemos a um acordo chegar. A Morte moderna o trono deve repartir.

Então eles querem me ajudar? Interessante.

— Ceifadores, vocês tem noção de como é esse oficio atualmente? Os humanos estão aprendendo novos truques a cada década que passa. Thanatos foi enganado uma vez por um mortal na Idade Antiga.

— Ei!

— Imagina o que aconteceria se ele voltasse agora numa era em que é fácil se distrair com as coisas mundanas.

— Isso não vem ao caso, Morte, apenas teríamos que nos acostumar novamente. Você não faz ideia do que é ficar vagando pela eternidade sem um proposito. — Ankou disse.

— Você monopolizou o trabalho.

— Supay, você não tem muito do que reclamar, ainda é cultuado e sempre deixei suas almas pra você. Olha bem, você ainda está no lucro aqui.

— Vê como ela brinca conosco! Devemos destrona-la agora! Cortar a cabeça assim como fizeram com a família francesa! – Ankou gritou.

O bar encheu-se de barulho. Todos os ceifadores falavam de alguma injustiça sofrida.

— Tudo bem, por que não chamamos Deus aqui para resolver isso? Agora vocês ficam quietos. Covardes. E, Ankou, é impossível matar a morte. Faz tanto tempo assim que você existe que já se esqueceu o significado da palavra “imortal”?

Uma coisa é certa, além dos humanos, dependemos também dos deuses para continuarmos seguindo em paz com nosso trabalho. Somos protegidos dos deuses, mantemos o equilíbrio no universo. Tudo que nasce deve morrer, mas nem todos parecem entender isso. Quantas ameaças o ceifador vigente não escuta das próprias criaturas deste plano. Posso listar as diferentes formas de tortura que escutei ao longo dos anos, mas ninguém realmente ataca por que sabe que irá enfrentar a fúria divina. E nós também não incomodamos os deuses, o último que fez isso perdeu seu posto para mim. Exatamente, Ankou, por isso tanta mágoa com a minha pessoa.

Ankou ia retrucar quando Anubis falou:

— Deus aprovou esta reunião. Disse-nos à um acordo chegar.

— E Ele está se preparando para os Jogos Milenares. Ou você se esqueceu? – Ankou falou as últimas palavras me encarando como se estivesse tentando me petrificar.

— Isso é uma perda de tempo. – Supay, o único sensato neste lugar, disse enquanto desaparecia. Provavelmente voltou para seus domínios.

Morte, acabe logo com isso, você sempre reclamou que precisava de ajuda. Sempre disse como os humanos te drenam e como seria bom ter mais tempo de descanso.

Essas palavras faladas por uma voz profunda ecoaram pelo local. Era ele. O Primeiro Ceifador. Tão velho quanto a humanidade, se aposentou assim que surgiu a Mesopotâmia. Ele é o ceifador mais respeitado e temido, sua figura sombria jazia no canto encostada na parede. Não havia percebido que ele estava lá. Por tanto tempo ter se passado sua forma era quase completamente sombra.

Nós somos imortais mas para isso dependemos que os humanos nos mantenha vivos em sua memória. Quando somos esquecidos, é isso o que acontece. Vamos lentamente virando sombras e voltamos a fazer parte da composição do universo. O primeiro ceifador está quase em seu estado final de transformação.

O bar estava em completo silencio, estávamos todos cabisbaixos, ninguém se atrevia a olhá-lo.

— O Ceifador tem razão. Sempre reclamei de tudo, algo que herdei dessa era da humanidade. Vocês querem o meu trabalho. Conseguiram. Estou tirando férias. – Finalmente falei.

Recebi vários olhares atônitos. Não esperavam essa reação. Nenhum ceifador cede seu lugar assim, mas eu cansei dessa palhaçada. Deixem se virarem sem mim por um tempo.

Alguns meses depois Deus me advertiu que se eu fizesse algo assim novamente perderia meu posto. Foi imprudente e arriscado largar tudo na mão dos antigos ceifadores e sair sem dar explicações. E se os ceifadores não conseguissem lidar com os humanos de novo? Estava tentando replicar os eventos da Peste Negra? (História curiosa, os ceifadores nessa época disputaram para ver quem levava mais almas, resultado, Europa dizimada).

No meu celular não paravam de chegar mensagens dos ceifadores pedindo conselhos de como lidar com o mundo moderno. Tive que rir, logo voltaria ao trabalho e essa bagunça acabaria.

Notas finais
Desculpa qualquer erro cometido com as criaturas mitológicas envolvidas.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!