Retratos da família Inuzuka Aburame.
9 Capítulo 9- Pacto espiritual.
Notas iniciais
O álbum de retratos da família Inuzuka Aburame nunca foi composto apenas por fotografias bonitas ou por aquelas que eles queriam guardar para sempre em suas memórias, mas todas as fotos que compunham o álbum eram importantes, até mesmo aquelas que eles jamais gostariam de rever. Esses registros fotográficos estruturavam a coletânea de fotos da família e muitas delas foram responsáveis por revelar verdadeiros milagres. Uma dessas imagens, que foi anexada ao álbum no final de uma sexta-feira chuvosa, acabou mudando para sempre a história dos dois clãs que deu origem a uma das famílias mais queridas da Vila Oculta da Folha…
Assim que sua cunhada tocou em seu ombro, Shino percebeu que estava na hora do casal ir para casa. A sua direita, acompanhada dos trigêmeos Haimaru, Hana incentivou-o a se aproximar de Tsume e Kiba. Mãe e filho estavam abraçados diante da mesa veterinária onde Akamaru, após ter recebido a medicação receitada pela veterinária no início daquela tarde, ressonava baixinho.
"O elo entre o ninken e seu tutor é uma relação difícil de pôr em palavras." Seu esposo disse isso há alguns meses, quando se preparava para viver o momento atual. O Ômega dizia que um ninken sempre parte antes de seu tutor e aquela era a lei natural da vida. Quando acontecia o oposto, não tendo o cão ninja um companheiro (a) ou prole, como era o caso de Akamaru, muitos deles não superavam a dor daquela separação e pouco tempo depois da morte do seu companheiro humano, morriam também. Essa cruel realidade fazia Kiba aceitar melhor tudo que estava acontecendo com seu fiel escudeiro…
— Leve-o para casa, filho. — A inabitual delicadeza com a qual Inuzuka Tsume ditou a ordem para o filho caçula, era compreensível. Há alguns anos sua sogra havia se despedido de Koromaru, um dos ninkens mais longevos que se tinha notícia no clã Inuzuka, que faleceu aos trinta e seis anos. Se havia alguém naquele recinto que conhecia a dor de seu companheiro, esse alguém era aquela mulher. — Tenho certeza que o Akamaru gostaria de…
— Eu sei mamãe. — Kiba a interrompeu, em seguida se desvencilhou do seu abraço e limpou as lágrimas com as costas das mãos. O Ômega estava consciente que a clínica da Hana era confortável, mas jamais substituiria o aconchego de seu lar. — Irei levá-lo para casa.
Prestes a completar vinte e sete anos, o ninken de Kiba estava perdendo a batalha para um agressivo câncer que havia se manifestado há pouco mais de um ano. Hana e Tsume haviam feito tudo para restabelecer a saúde do cão ninja, porém, esgotadas todas as alternativas de tratamentos possíveis, atualmente as duas só ofereciam ao animal, assistência humana e compassiva, visando ao máximo seu bem-estar.
— Ei amigão. — Kiba cochichou na orelha de Akamaru e sorriu logo depois, mas era um sorriso que não chegava a seus olhos. Ele inclinou o tronco sobre o corpo do ninken e deixou um demorado beijo na testa do melhor amigo antes de abraçá-lo com extremo cuidado. O cão estava sob forte analgesia, uma medida necessária considerando seu quadro clínico.
— Adivinha… — O Ômega soou misterioso e em seguida concluiu: — Hoje o sofá e a TV da sala serão todos seus.
O coração de Shino encheu-se de ternura diante da cena, no entanto, estava ficando tarde e ele finalmente se aproximou da mesa veterinária, enquanto sua sogra fez o caminho inverso e se achegou à filha, que continuou próxima à porta de saída. Foi a vez de o Aburame colocar as mãos sobre os ombros do esposo.
— Kiba…
— Eu sei.
O Inuzuka enrolou Akamaru no edredom que forrava a mesa sem muita dificuldade, visto a quantidade de peso que o cão havia perdido nos últimos meses. Kiba tomou o cachorro em seu colo e, silenciosos, Alpha e Ômega deixaram a clínica veterinária.
O trajeto até a residência do casal, embora curto, foi feito de carro, para evitar transtornos desnecessários para Akamaru. O carro era de seu pai, mas em situações como aquela, Shibi sempre era prestativo e lhes emprestava o automóvel, inclusive, Shino desejava que o Alpha, que estava com gêmeos naquele instante, tivesse conseguido acalmá-los e os feitos dormir.
— Está tudo bem aí? — Shino perguntou e Kiba apenas moveu a cabeça.
A medida que ele dirigia pelas ruas desertas de Konoha devido ao horário, vez ou outra Shino olhava pelo retrovisor interno do veículo, conferindo se estava tudo bem com os passageiros no banco traseiro, mas Kiba estava concentrado demais em Akamaru para conversar com ele. Era engraçado pensar que quando criança sentia ciúmes daquela relação, especialmente por não compreendê-la em toda sua magnitude.
Diferente de Kiba, que conhecia a origem do vínculo dos membros de seu clã com os Marus, Shino não sabia nem como, muito menos quando seus ancestrais se tornaram ninhos de insetos e passaram a usá-los como uma arma mortal em combate. Não havia nenhuma linda fábula infantil recheada de aventuras e mistérios que explicasse a união sobrenatural entre os insetos e seus portadores. Seus antepassados disseminavam a crença sobre em um pacto espiritual feito entre os primeiros Aburame e Shinchū, o grande deus inseto que se alimentava dos demônios e espíritos malignos responsáveis pelos males que afligiam o mundo dos mortais e isso justificava muitos membros de seu clã que ao longo da história sucumbiram a tamanho poder, acabando por, ao invés de controlar, ser controlado pelo poder destrutivo deste poderoso ser.
Com o passar dos anos, além de compreender a singularidade daquela amizade, Shino passou a admirá-la. Entre Akamaru e Kiba não existia submissão ou servidão, tampouco hierarquia. Apenas docilidade, liberdade e equilíbrio. O Alpha era imensamente grato por Himeko herdar do Ômega a afinidade com os fiéis companheiros caninos.
Sua filha havia recebido a tutela de seu ninken há um ano e estava experimentando algo que o Alpha, além de nunca ter experimentado com seus Kikaichūs, receava que Sora jamais experimentasse, visto que, embora seu filho ainda não tivesse evidenciado os sinais característicos de que se tornaria um controlador de insetos no futuro, Shino não tinha dúvidas que fatalmente isso aconteceria, e ele temia a chegada desse dia. Tudo que sonhava para seu filhote, ainda mais sendo ele um Ômega, era que Sora não passasse por dificuldades pelas quais passou até chegar à idade adulta…
— Chegamos.
Shino avisou, estacionando no pavimento ao lado de casa. O Aburame olhou para o esposo através do retrovisor e foi inevitável não sentir o coração apertar de novo. No banco traseiro, Kiba estava tão envolto em cuidados com o ninken que mal notou o motor do carro sendo desligado, contudo, assim que voltou a si, foi bombardeado de maneira abrupta.
— Shino…
— Eu sei. Eles estão acordados.
Os chakras de Sora e Himeko podiam ser sentidos a quilômetros de distância. Os gêmeos estavam tão apreensivos quanto os adultos, em relação à saúde de Akamaru, e mesmo que fossem apenas crianças, percebiam a gravidade da situação.
Kiba sempre foi positivo e não preparou os filhos para o pior. Em seu coração, ainda tinha esperanças num milagre, até receber o último diagnóstico de Hana.
— Não sei como dizer a eles, marido. — Kiba confessou, buscando forças ao encarar Shino através do espelho. Ele estava resistente em aceitar qualquer realidade onde Akamaru não continuasse fisicamente a seu lado. O rapaz tinha consciência do quão egoísta e contraditório estava sendo, afinal, sempre desejou que Akamaru parasse de sofrer.
— A sinceridade é o melhor caminho agora. — Shino disse à queima-roupa. — Precisa de ajuda para levá-lo para dentro?
— Não, só abre a porta para mim, por favor.
Kiba acariciou os pelos claros do cão onde tantas vezes se aninhou em momentos ímpares de sua vida. Akamaru era mais que um amigo. Era um irmão com quem sempre pode contar. Desejava ter feito mais por seu ninken, sentir-se em débito com ele. De todos a seu lado, o cão ninja sempre foi quem o conheceu mais profundamente. Agradecia a Tsume por ter tido a sensibilidade de escolhê-lo como seu maru. Ele nunca teve dúvidas que Akamaru era o carinha certo para si.
— Kiba-tousan! — O chamado de Himeko veio assim que a porta de casa se abriu, revelando, além da menina e Himaru, Sora e seu sogro.
Kiba respirou fundo. Não tinha para onde fugir, tampouco o Ômega conseguiria esconder o turbilhão que estava em seu interior. Atordoado, o assistente social ajeitou Akamaru no edredom e antes de passar por Shibi, trocou um olhar cúmplice com o mais velho. A comunicação visual foi propícia, pois deixou subentendido tudo que precisavam ser dito entre os adultos.
— Pessoal, precisamos que nos deem espaço, Ok? — Kiba pediu gentilmente ao ser cercado pela menina e seu cão ninja. O Ômega caminhou para o sofá e colocou o companheiro canino sobre as almofadas, depois ajeitou o cobertor sobre o cachorro.
— Tousan, por que o Akamaru está dormindo? — Havia desconfiança no tom da pequena beta. — Tia Hana conseguiu curar ele? Ele não precisará mais voltar para a clínica? Ele tomou injeção? Quando ele vai poder brincar com a gente?
A garotinha parecia uma metralhadora giratória, diferente do irmão, que ao lado do outro pai e de seu sogro manteve distância de Kiba e do ninken
— Calma pequerrucha… deixa-me respirar e responderei todas essas perguntas.
O Ômega acariciou os cabelos castanhos da filha. O gesto não foi apenas instintivo, sua intenção era acalmá-la com a sua essência. Era natural que a beta estivesse mais afetada em relação ao estado de saúde do ninken, e como pai isso o preocupava. A pequena Inuzuka tinha sentido demais a partida de Kuromaru, pois o ninken de Tsume também era o pai de Himaru. Aquele foi um período difícil para toda a família, onde inevitavelmente os gêmeos tiveram o primeiro contato direto com a morte de um familiar.
— O tousan tem algo importante para falar com vocês dois. — Kiba procurou o olhar do filho e estendeu a mão para que Sora viesse até ele, algo que o Ômega não fez, preferindo abraçar as pernas do avô e ignorar seu chamado.
Isso entristeceu Kiba.
O menino andava arredio desde a chegada de Himaru, preferindo estar sempre na companhia do avô ao invés de ficar com outros membros da família. A princípio Kiba pensou que fosse ciúme do relacionamento entre a menina e o ninken, pois Sora ainda não tinha manifestado os sinais característicos de sua individualidade shifter, mas as coisas só pioraram após a doença de Akamaru começar a se agravar. Seu filho aparentava estar sofrendo junto com o animal à medida que os sintomas do câncer iam evoluindo.
Naquele instante, Kiba não queria pensar nas batalhas que Sora estava enfrentando sozinho em seu mundinho. Tantas coisas aconteceram no último ano que o Ômega adulto acabou negligenciando seu filhote. O Inuzuka sempre imaginou que seria mais fácil lidar com o gêmeo primogênito, porque ele e seu filho eram irmãos de casta. Ledo engano. Lidar com Himeko era simples, pois, além de tão danada quanto ele foi na infância, sua espirituosa princesinha era parecida com Hana. Não apenas na aparência, mas também na personalidade alegre e comunicativa. Sua maior dificuldade sempre foi o menino, o que era contraditório, pois o pequeno era uma criança extremamente doce, alé, de possuir uma personalidade muito parecida com a de Shino, com quem ele sempre se entendeu muito bem.
Kiba fungou. Seu filhote era um casulo para si.
“Casulos nem sempre são sinônimos de algo ruim, Kiba. Casulos são surpreendentes e apaixonantes, pois revelam a beleza somente aqueles que possuem sensibilidade para realmente vê-la." Era o que Shino costumava responder diante de seus resmungos e anseios desesperados de pai que não conseguia decifrar o próprio filho. Seu marido costumava usar metáforas para explicar que o filho deles não era um minishino, como ele costumava dizer aos quatro cantos, muito menos precisava ser decifrado como se fosse uma esfinge.
Kiba sentou-se ao lado do sofá. A ação foi realizada com estranha calma, mas surtiu efeito. No segundo seguinte Himeko e Himaru imitaram o Ômega. Caso os prognósticos de Hana se cumprissem e Akamaru os deixasse naquela noite, aquele era o momento para todos se despedirem dele.
— Tia Hana e a vovó Tsume fizeram o necessário para que o nosso Akamaru tivesse uma ótima noite… — Kiba procurou o olhar de Shino, que em contrapartida, lhe transmitiu força para e dizer aos filhos o que precisava dizer. — Hoje cedo, ele estava muito cansado e também sentia muita dor, então sua tia...
— Sora…— Himeko ignorou o que Kiba tentava dizer e dirigiu o olhar para o irmão, que apertou mais a coxa do avô. — Por favor! — a menina pediu, iniciando um pranto sentido. Himaru igualmente latiu em direção ao pequeno Ômega.
— Himeko, não! — Sora gritou e em seguida também começou a chorar.
Sem compreender o que acontecia com os filhotes, Kiba e Shino se entreolharam ao perceber a estranha interação dos gêmeos, Shibi por sua vez segurou a mão do menino, que começou a tremer desesperado. O avô abaixou-se diante dele, mas Himeko ergueu-se do chão e foi até os dois.
— Sora…— A menina praticamente empurrou o avô e tomou o seu lugar, segurando a mão do irmão e levando o garoto até bem perto do sofá, onde Akamaru dava os últimos suspiros.
Animado, Himaru começou a balançar o rabo.
Os três adultos ficaram sem compreender o que acontecia. Eles sabiam que Sora e Himeko muitas vezes eram assim. Os dois irmãos tinham uma linguagem intrínseca, um idioma pertencente apenas a eles e que somente a dupla compreendia. Toques, olhares e sentimentos… uma cumplicidade inexplicável e sobrenatural. Dificilmente quem estava de fora os compreendiam, até mesmo seus pais. Os pediatras já haviam lhe antecipado que irmãos gêmeos possuíam esse tipo de relação especial, mas tanto o Inuzuka, quanto o Aburame não esperavam que o vínculo fraternal fosse algo tão… intenso?
— Por favor! — Himeko soou mais desestruturada ao sacudir o menino. Kiba tentou afastar a menina do irmão, ao julgar que ela surtava devido ao estresse.
— Hime…— O Ômega adulto não conseguiu continuar, pois, algo estranho acontecia com seu filho e foi Shino que o alertou ao chamar pelo garoto.
— So… — O Alpha ficou sem voz e a seu lado Shibi também estava boquiaberto.
Sora tocou o corpo de Akamaru e o chakra do menino estava tão forte que paralisou todos que estavam no interior da sala, exceto Himeko.
Foi a vez de Kiba abrir a boca ao notar que as marcas vermelhas no rosto do seu menino ficavam visivelmente mais claras à medida que Sora aparentava estar em transe. Sob sua pele, a começar pelo dedo indicador, saíam pequenos insetos que se misturavam ao pelo do ninken e desapareciam logo em seguida.
Os olhos de Aburame Shibi se arregalaram por trás das lentes escuras e ele sussurrou:
“ Uma espécie completamente nova.”
O entomólogo jamais tinha visto insetos semelhantes entre os membros do seu clã. Seria influência do sangue Inuzuka ou o fato de seu neto ser um Ômega? Além disso, seu neto comandava aqueles insetos com muita autoridade e destreza. Sua experiência o fazia crer que Sora não estava manifestando a simbiose pela primeira vez.
— Sora. — Shino encontrou a voz antes de o pequeno Ômega desabar sem forças no chão da sala. O Alpha acolheu o filho em seus braços. Sua preocupação era indescritível e ele ainda não havia processado o que havia acabado de acontecer quando Himeko gritou.
— Onii-chan, você conseguiu! Ele acordou, o Akamaru acordou! Você conseguiu!
Himeko abraçou o pescoço de Akamaru, que se levantava naquele instante, já abanando o rabo.
Boquiaberto, Kiba também demorou a compreender o que havia acabado de testemunhar. Só quando Sora gemeu nos braços do seu marido é que a ficha caiu. O Ômega então arrancou o filho dos braços de Shino e na sequência passou a lhe apalpar para ter certeza de que o menino estava bem.
— Desculpa tousan. Eu não queria perdê-las. — Sora disse num fio de voz antes de fechar os olhos e adormecer.
Naquele instante, enquanto seu filhote dormia tranquilo em seu colo, Kiba percebeu que o menino falava sobre as marcas que já não trazia mais em suas bochechas. As marcas do seu clã, o único sinal que revelava que os dois eram pai e filho.
A metamorfose é irreversível. Depois que voa a borboleta jamais volta a rastejar. Kiba recordou uma frase de um escritor de nome, Wandy luz.
O Inuzuka apertou mais o inocente Ômega entre os braços, recordando as inúmeras vezes ao longo dos últimos meses que Akamaru melhorava a olhos vistos quando Sora ficava sozinho com ele. Arrependido das muitas vezes que arrotou aos quatro cantos que a única coisa que o filhote tinha dele, eram as presas desenhadas nas bochechas, Kiba deixou um beijinho casto na testa do filho. Como não imaginar todos os dilemas que seu pequeno controlador de insetos vinha enfrentando nos últimos tempos sem que ele soubesse.
Em meio às lágrimas que rolavam por sua face, Kiba sorriu ao notar que diante dele, seu companheiro canino fazia festa ao lado de Himeko e Himaru, os únicos no interior daquela sala que não pareciam chocados com a cura milagrosa que Sora havia acabado de realizar.
Cena extra 1
— Está doendo muito? — Sora apenas tocou na sapatilha de Himeko e a resposta da menina foi um gemido alto assim ela tentou se levantar.
O pé da menina estava inchado e a beta não conseguia apoiar o membro no chão, por isso sentou-se no gramado de novo. A menina queria controlar o chakra e disfarçar a dor que sentia, mas foi em vão. Se seu pai Ômega sentisse sua energia naquele instante, brigaria com os dois, além de colocá-los de castigo. Kiba-tousan já havia os proibidos de subir nas árvores do quintal, mas era tão divertido vê-lo andar de um lado para o outro nos fundos de casa procurando por eles.
— Desculpa onii-chan — Himeko choramingou, enquanto Sora tirava sua sapatilha e avaliava o estrago em seu pé. Akamaru e Himaru se colocaram ao lado da menina, mas ela não conseguiu se levantar, mesmo com a ajuda dos dois ninkens.
— Tudo bem. Eu darei um jeito nisso, mas ninguém pode saber. — O gêmeo mais velho tentou fazer contato visual com a irmã, mas a menina começou a se desesperar ao perceber a piora do machucado. Diante da falta de uma resposta, Sora insistiu, obrigando a menina a lhe olhar. — Entendeu imouto?
Himeko finalmente o encarou e respondeu: — Entendi.
Enquanto Sora cuidava para que tudo ficasse bem com ela, Himeko o observava atentamente e cheia de admiração. A calma na fala dele, a desaceleração nos seus movimentos, os gestos delicados que o menino fazia ao tocar na sua pele, tudo a encantava. Para a menina, olhar para seu irmão era como olhar para Shino-touchan.
Sora e seu pai Alpha eram iguaizinhos, isso às vezes deixava Kiba-tousan triste. Quando tinha festa em casa, seu papai sempre resmungava com todo mundo que seu onii-chan não parecia nem um pouquinho com ele. Por isso, Sora não queria mostrar para ninguém os seus bichinhos. Se ao menos eles fossem poderosos como os do tio Torune, seu pai Ômega ficaria orgulhoso quando seu Irmão perdesse as marcas, mas os insetos do seu nii-chan eram fracos, pois só curavam machucadinhos, nem menos pareciam com os de Shibi-jiji e do touchan...
— Sora! — Himeko colocou as mãos nos ombros de Sora e o chamou quando sentiu que ele perderia as forças.
— Eu estou bem. — Sora respondeu assim que conseguiu fazer as marcas do clã Inuzuka retornarem as suas bochechas. — Você está bem?
— Sim. —Logo que Himeko assentiu, ambos ouviram Kiba os chamando.
— Não conte nada para ele. — Sora alertou-a em seguida respondeu o chamado de Kiba. — Estamos aqui.
Sora de pé assim que seu tousan apareceu diante deles, mas quando Kiba viu Himeko caída no chão e sem a sapatilha, ficou nervoso.
— O que foi filhota? Você caiu? Se machucou? — Kiba encheu-a de perguntas.
— A gente tá bem. — Sora respondeu pela irmã. —Eu só joguei a bola muito forte e ela caiu de bunda no chão quando tropeçou no Himaru. Levanta Himeko! — Sora ordenou.
Himeko olhou para ele, em seguida para o pé machucado e depois para o garoto novamente. Vendo a insegurança da filha, Kiba perguntou ao seu ninken.
— Ele fala a verdade Akamaru? — O Ômega não conseguia imaginar Sora jogando bola no quintal com a menina e o cão ninja.
Akamaru se colocou as costas de Sora e mentiu, dizendo que o menino havia falado a verdade.
— Levanta, imouto. — Sora incentivou-a novamente.
Himeko se ergueu do chão e ao colocar-se de pé, abriu um sorrisão, por não sentir mais nada.
Kiba ergueu a sobrancelha direita, mas ao constatar que a menina estava bem, ficou aliviado. Há alguns minutos ele havia sentindo uma estranha angústia ao pensar nela.
— Graças a Kami-sama, pensei que vocês estavam subindo em árvores de novo. Já falei que é perigoso e que não pode. – Kiba recordou do susto que Sora lhe deu quando era mais novo. Até hoje ele se perguntava como o menino saiu daquele acidente sem nenhum arranhão. — Vamos para dentro, seus pestinhas! Preciso de ajuda para fazer o jantar, pois seu touchan logo vai chegar.
Himeko sorriu para o irmão e segurou-o pela mão. Sora retribuiu seu sorriso, confiante que o seu segredo estaria muito bem guardado com ela e também com os dois ninkens.
Cena extra 2
Sora vem com o tousan. — Fazia alguns minutos que Kiba tentava chamar a atenção do filhote, e nada. Embora tivesse somente onze meses, o minisshino já sabia como se beneficiar dos prós da casta para conseguir o que queria, inclusive do pai Alpha, que naquele momento estava numa saia justa por não fazer ideia de como apaziguar aquele conflito, muito menos a qual dos dois Ômegas deveria amparar em primeiro lugar. — Por favor, filho.
Shino segurava Himeko no colo. A menina dormia tranquilamente, enquanto ele acompanhava a interação, ou melhor, a total falta de interação, entre Kiba e Sora.
O casal e ambos os filhos estavam na emergência pediátrica do hospital de Konoha. Os quatro haviam chegado à unidade no início daquela manhã. O gêmeo mais velho havia sofrido um acidente doméstico enquanto ensaiava seus primeiros passinhos. Segundo o pediatra que os atendeu durante o plantão, algo recorrente entre crianças naquela faixa etária.
Tudo aconteceu muito rápido, Shino estava na cozinha preparando a mamadeira dos filhos, enquanto, no quarto, Kiba cuidava da higiene dos pequenos. Como sempre acontecia quando cuidava sozinho dos gêmeos, o Inuzuka estava com um olho em Himeko e outro em Sora. O menino estava sentado no chão brincando com um mordedor de borracha e a menina estava deitada sobre o trocador na cama do casal, enquanto Kiba trocava a fralda dela. Numa fração de segundos, quando o Ômega ergueu as perninhas da filha para passar a pomada contra as assaduras no bumbum da menina, o filho ficou de pé e deu seus primeiros passinhos. A experiência, que tinha tudo para ser épica e memorável, foi por ladeira abaixo quando o Alpha entrou no quarto e Sora, assustando-se com a sua presença, caiu com o rostinho no chão. O saldo da queda: um corte no supercílio que certamente deixaria uma pequena cicatriz no rosto do menino para sempre, e um Kiba-tousan se sentindo um pai mega negligente no processo.
— Perdoa o papai, filhote. Eu sei que doeu, mas a picadinha era necessária para que o médico pudesse dar os pontinhos em sua testa, meu amor. — Didático, o Inuzuka explicou, mas foi inútil considerando as circunstâncias e o grau de entendimento do bebê.
Sora estava ressentido com Kiba, pois havia sido ele, o carrasco, a contê-lo durante todo o procedimento médico, inclusive durante a aplicação da anestesia. Uma tarefa quase impossível para Shino, um Alpha, cujos instintos de proteção acerca da cria, sempre representavam uma interrogação.
— Me deixa levar ele, Kiba. — Shino sugeriu e um Kiba com lágrimas nos olhos aceitou a sugestão. Com cuidado, O Ômega retirou Himeko do colo do Alpha e a acomodou nos braços. Tudo que ambos não precisavam era que Sora começasse a chorar e seu supercílio começasse a sangrar novamente devido ao esforço.
— Malditos. — Resignado, Kiba pegou a bolsa infantil sobre o leito hospitalar onde a poucos instantes Sora estava sentado. O Ômega virou as costas para Shino e o filhote antes de deixar a enfermaria.
Aquela foi a primeira vez que Kiba desejou, e ele realmente não estava brincando, que Sora fosse um pouco mais parecido consigo ao invés de parecer tanto com seu marido.
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