Retomada.
1 Capítulo 1
Capítulo I
Sofie estava na biblioteca, lendo a correspondência e tentando pôr ordem na bagunça que sua escrivaninha se encontrava. A lareira soltava um leve crepitar e a luminosidade oscilante a convidava a dormir... Mas haviam coisas a serem feitas, a serem lidas e escritas. E, ainda, pensar no dia de amanhã.
Mas o fluxo de seus pensamentos foi interrompido por passos rápidos e o ruído da porta sendo aberta de supetão.
- Senhora, minha senhora...
- O que aconteceu, Phillip? — Phillip era seu servo mais antigo. Quase tinham crescido juntos, embora ele já fosse um menino crescido quando nascera. Rapaz discreto e silencioso, não tinha por hábito ser rude ou mal-educado.
- Notícias da cidade... Alguém andou fazendo perguntas a respeito dele.
- Não temos tempo, reúna homens...
- Estão todos dispersos pela cidade, vigiando.
- Mas que ótimo! Exclamou ela, entre desespero e escárnio, enquanto se encaminhava para fora da biblioteca seguida por Phillip.
Sofie passou pelo aparador e pegou seu punhal e rumou para a porta principal.
- O que nós estamos fazendo, senhora? Aonde a senhora vai?
- Estamos indo tentar cumprir a promessa que fiz....
- Mas a senhora não pode...
Sofie estacou; a essa altura, estavam na frente dos estábulos e, enquanto gritava para John encilhar seus cavalos, olhou Phillip.
- Eu devo. O que mais me sugere, Phillip? Deixar de cumprir minha palavra?
John apareceu com os dois cavalos encilhados: a égua bolonhesa tordilha de Sofie e o garanhão quarto de milha de Phillip. Sofie balançou a cabeça pensando que nenhum dos dois cavalos seria bom para a corrida, não tão curta... Assim mesmo, ela esporeou Margot sendo seguida por Phillip. O ar estava gelado e, no entanto, não havia sequer uma brisa soprando. Tudo estava estático e só eles se moviam.
- Onde ele está?
- Na taberna da Rose.
- Menos mal... — Phillip não pode ouvir isso, pois Sofie não gritara, como fizera antes.
Apesar de tudo, os cavalos conseguiram manter um bom ritmo e eles chegaram antes do que ela imaginara. Phillip quis pará-la, porém sua senhora apenas saltou do cavalo e, mesmo não tendo pernas longas, em poucos passos estava já dentro da taberna. A presença de Sofie calou muitos e fez com que Rose aparecesse rapidamente, antes que Sofie tivesse tempo de procurá-la ou pedir a Phillip para fazê-lo. Por outro lado, esta não deu tempo à cafetina para demonstrar seu espanto.
- Onde está o 'pequeno estrangeiro'?
- No quarto lá em cima, de frente para o meu....
- Por acaso um outro homem desconhecido esteve aqui, procurando por esse?
Rose começara a balançar negativamente a cabeça quando May, uma das prostitutas mais novas, que ainda descia as escadas respondeu, quase num sussurro.
- Deixei-o dormindo, mas antes ele perguntou por ele...
Sofie e Phillip precipitaram-se escada acima, empurrando May e, com o fôlego entrecortado, chegaram em frente da porta indicada por Rose. Phillip apenas deu um rápido olhar e Sofie acenou. A porta estourou secamente e Sofie não teve tempo para pensar ou deixar Phillip agir. Seu braço apenas se esticou e sua mão ondulou soltando o punhal que foi parar no meio do peito de um homem atarracado e alto, enquanto da mão dele caía uma adaga. De fato, não houvera tempo para mais nada: o homem atarracado fora interrompido no momento em que se preparava para atacar um homem com uma grande cicatriz no rosto que, agora, olhava estupefato para Sofie; Lucy, a meretriz que estava com ele na cama, agora se encolhera no chão, encostada à cama e ao criado-mudo. Phillip deslocara-se em silêncio e estava ao lado do corpo inerte.
- Ele está morto?
- Sim, minha senhora.
Sofie suspirou resignada enquanto balançava a cabeça. Seu olhar encontrou o do pequeno estrangeiro e ela não titubeou.
- Vista-se, pegue suas coisas e me encontre lá embaixo, senhor. Não quero perguntas, não quero vacilações. Agora.
Ela saiu do quarto e Phillip a seguiu. Ela parou no meio do corredor, um tanto quanto assustada consigo mesma... mas não havia tempo, não agora.
- Ele tem de desaparecer, hoje.
- Senhora, eu sinto muito que tenha que....
- Tu estavas mal colocado por ter arrombado a porta e eu não teria a força para fazê-lo, e tu não tinhas como ser rápido o suficiente. Mais um segundo de hesitação e ele teria terminado o serviço... Arranje uma montaria para o nosso hóspede. E, diga-me: algum dos nossos amigos fornecedores está atracado?
- Sim, Leon, Claude, Rydder...
- Algum está na parte mais escura do porto?
- Leon e Claude.
- Ótimo, Leon tem bons vinhos e pescado. Vá buscar alguns homens para retirar o corpo, eu falo com a Rose.
Phillip desceu as escadas com passos rápidos e desapareceu pela porta. Sofie foi falar com Rose. Disse que o homem morto foi pego em flagrante numa tentativa de assassinato, mas que o pequeno estrangeiro também não era confiável e, no entanto, não tinha cometido nenhum crime, que se soubesse, desse modo, ela o enviaria para fora da cidade por um dos navios atracados no porto. Sofie deixou entender que isso não era nenhum segredo a ser guardado. Portanto, a cafetina poderia contar toda a história... Depois, ressaltou que se aparecesse mais desses homens atrás do estrangeiro, que seria prudente ficar de olho e avisá-la.
- E, por fim, para compensar todo esse distúrbio tenha aqui um dragão.
- Minha senhora, não é necessário. Num lugar como esse, acontecem problemas...
- Cabe a mim e à guarda evitar que isso ocorra. E isso não deveria ter ocorrido de qualquer maneira.
Phillip apareceu e perguntou se Rose poderia emprestar o seu velho alazão para a montaria do estrangeiro. Sofie assegurou que o cavalo estaria de volta pela manhã, descansado, alimentado, lavado e escovado. A cafetina não se opôs e pareceu aliviada ao dizer que ficava imensamente feliz em emprestar o cavalo, ainda mais se fosse para se livrar definitivamente do 'pequeno estrangeiro'.
A essa altura, ele já estava no saguão sendo observado por todos. Sofie voltou-se e disse alto, para que todos pudessem ouvir:
- Seus dias nessa cidade acabaram, estrangeiro. Devido ao ocorrido, estou determinando que o senhor desapareça daqui pegando carona em algum navio que esteja atracado no porto, indo para o mais longe possível. E fique agradecido — continuou Sofie, interrompendo-o antes que pudesse ter tempo de falar — por não ter o mesmo destino do seu amigo criminoso.
Com isso dito, Sofie abriu a porta e o estrangeiro não teve saída a não ser segui-la, uma vez que Phillip o seguia logo atrás, com mais três guardas e ainda havia mais quatro fora da taberna, já montados.
Phillip ajudou o estrangeiro a montar e, quando ajudou Sofie, esta se certificou que ele entendera o que deveria ocorrer.
Dessa vez, eles trotaram. A noite clara e o ar gelado fizeram com que Sofie estremecesse. Mas não sentia frio, era apenas tudo aquilo. Sentiu o rosto vermelho e a respiração quente. Desde que seu pai morrera muito tinha mudado e, agora, isso. Coisas devem ser feitas. Tudo podia ser mais claro...
A parte escura do porto ficava ainda mais distante da propriedade de Sofie. Quando chegaram perto o suficiente, Phillip desmontou e fez com que o estrangeiro desmontasse. Sofie também desmontou.
- Senhora, eu não acho que seja adequado...
- Eu sou a autoridade dessa cidade e devo entregar esse homem, eu mesma, ao capitão do navio. Além disso, já que estou aqui, vou aproveitar e levar provisões para casa. Vamos.
Os outros guardas fizeram menção de desmontar, porém Sofie lhes disse para ficarem ali, vigiarem os arredores e guardar as três montarias, já que uma nem era deles.
Meia hora depois, Sofie voltou com uma pequena caixa com vinho da Árvore e um saco de pescado seco. O saco e a caixa vinham dentro de um carrinho de mão, levado por um dos marinheiros. Sofie fez com que o saco fosse posto na sua égua e tomou o alazão da cafetina, usado pelo estrangeiro. Phillip montou e o marinheiro lhe alcançou a caixa. Sofie dispensou três dos quatro guardas e tomou apenas um para a volta.
O caminho de volta foi longo, bem mais longo do que ela lembrava que fosse. Além disso, eles voltaram num trote leve por causa da carga que levavam. Quando finalmente avistaram os portões da sua casa, Sofie dispensou o último guarda que os acompanhava e entrou só com Phillip.
- Deixe a caixa aqui e leve o cavalo com o saco para a cozinha. Certifique-se que apenas Marie esteja lá.
Depois, Sofie desmontou e John pegou os cavalos, recebendo as instruções acerca do alazão. Ela mesma pegou a pequena caixa, que continha apenas três garrafas de vinho levando-as para dentro. Já no salão, encontrou Marie torcendo as mãos no avental, sinal que estava angustiada.
- A senhora está bem? Fiquei preocupada, senhora.
- Eu acho que estou bem, Marie. Faça-me um favor, sirva-me uma dessas garrafas e leve algo para acompanhar, na biblioteca. Depois, suba e arrume o quarto de hóspedes dos fundos.
Marie não pareceu entender direito o que estava acontecendo, mas sabia que sua senhora estava falando sério e não toleraria ser interrogada. Assim, saiu com a caixa e foi para a cozinha. Sofie suspirou e foi para a biblioteca. Desabou em cima de sua poltrona e teve vontade de chorar. Balançou a cabeça repetidamente e a inclinou para trás. Marie entrou com o vinho, um pão doce suave e um pedaço de coelho, também havia duas maçãs e ameixas.
- Mais alguma coisa... Eu posso fazer um chá?
- Não, Marie, apenas faça o que lhe pedi. Amanhã é outro dia e podemos conversar.
Marie mal tinha saído quando Phillip entrou, parecia um pouco constrangido e contrariado.
- Senhora, ele quer falar com a senhora, tentei dissuadi-lo, mas ele insiste...
- Eu devia imaginar que ele não iria apenas dormir e deixar isso para amanhã. Deixe-o entrar e me traga outro cálice.
Phillip pigarreou e desajeitadamente pousou o punhal de Sofie sobre a mesa. Sim, ele o havia retirado do corpo do homem e o limpara na capa, mas não o devolvera a sua senhora. Sofie apenas esboçou um meio sorriso.
- Obrigada, Phillip. Pode ir descansar, meu caro.
- Eu prefiro ficar e esperar que a senhora tenha se recolhido.
Sofie assentiu e Phillip saiu deixando a porta aberta. Sofie pegou o punhal e, enquanto o observava viu uma sombra projetar-se. Era o seu hóspede.
Quando ele passou Sofie fixou seus grandes olhos azuis-esverdeados e, numa voz suave e firme disse-lhe:
- Fecha a porta, por gentileza... Senhor...
E, com a porta fechada, terminou a frase.
- ...Tyrion Lannister.
FIM DE CAPÍTULO.
Notas finais
Vejamos a acolhida e, depois, o resto não será silêncio!
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