Notas iniciais
Dalton Kamp é uma cidade fictícia de New Brunswick, no Canadá. É cidade vizinha de Quispamsis, e ficam ao sul, próximas a província da Ilha do Príncipe Eduardo. É bastante óbvio que essa fic tem uma certa inspiração em Anne With an E, então espere vibes bem parecidas! Fiquei muito feliz fazendo esse prólogo, e tenho grandes planos pra essa novela (fic, na verdade). Tenha uma boa leitura!

Era um fim de tarde de setembro, e todas as aberturas e clarões no bosque estavam impregnados com a luz vermelha do pôr do sol. Aqui e ali a alameda era salpicada pela luminosidade, mas em sua maior parte já estava completamente sombreada embaixo dos bordos, e os espaços sobre os pinheiros estavam preenchidos por um claro lusco-fusco da cor de violeta, como um vinho irreal. Os ventos balançavam a copa das árvores, e não havia música mais doce no mundo do que aquela da brisa do entardecer soprando nos pinheiros.

Sentado á varanda, Aidan fumava um de seus habituais cachimbos de barbasco, soprando a fumaça junto ao vento deleitoso. Sua esposa, Giselle, estava ao lado, tricotando novas meias para o inverno que eis de vir.

— Tarde tão agradável, não? Nunca vi o sol se pôr de maneira tão linda. — Giselle encarava o poente com emoção.

— Estou tão... Reflexivo. Não consigo achar isso lindo, porque ainda vou ver muitos fins de tarde. E se existir alguma mais bonita que essa?

Giselle fingiu não ter ouvido tal comentário, mas resolveu dar uma resposta breve:

— Por Deus, seja otimista pelo menos uma vez na vida.

— Sou a pessoa mais otimista e ambiciosa do mundo, mas nada parece correto. — Fez uma pausa e soprou a fumaça de seu cachimbo, respondendo brevemente.

— Porque essa reflexão? Aconteceu alguma coisa hoje?

— Deve ser o barbasco, vi uns homens falando sobre isso hoje no bar. Falaram que ervas no cachimbo é coisa do passado, mas eu não ligo. Mas a pior coisa de hoje foi-

— Bem, hoje tive uma descoberta fascinante, algo que vai mudar nossas vidas. — Interrompeu.

Aidan revirou os olhos e falou:

— Guarde pra você, eu vou me deitar. Leve as vacas pro celeiro e apague as velas. Amanhã será um longo dia, não? — Pôs teu cachimbo sobre o criado mudo rústico, e levantou-se da cadeira de balanço.

— Vamos embora e vamos amanhã, Aidan. — Giselle disse com uma voz sublime, levantando-se no mesmo instante.

O silêncio predominou-se naquela varanda, trazendo uma troca de olhares indecifrável. Um misto de indagação, raiva e precisão definia-se em suas expressões. Aidan tratou apenas de levantar uma sobrancelha, e Giselle assegurou:

— Correnteza de ar em sessenta e oito fahrenheit. Água torna-se cristalina e brevemente esverdeada a partir da ponte que liga a Ilha a New Brunswick, o solo arejado e com sensação de profundidade, mais vegetação ao redor. Não percebe Aidan? Você é um geólogo!

— O que você quer dizer, Giselle?

— Esmeraldas, eu quero falar de esmeraldas! Tudo isso indica que tem uma enorme jazida de esmeralda em New Brunswick, na verdade bem lá pro final, bem perto de Quispamsis. Eu pesquisei, pesquisei mesmo! Fica em um lugarzinho chamado Dalton Kamp! O Canadá é enorme, é cheio de riquezas!

— Era isso que ia deixar minha tarde melhor? Oras.

— Hm, sim. Achei que ficaria animado, você é sempre o animado em relação a tudo. Aidan está tudo bem mesmo?

— Está tudo... — Não chegou a completar a frase. Apenas respirou fundo e foi-se casa adentro, subindo para seu quarto.

E Giselle fez o mesmo. Levou tuas meias não tricotadas para a gaveta, trocou-se, apagou as velas espalhadas por toda a casa e se deitou, assim seu desapontamento tornou-se puro cansaço.

Era dia claro quando Giselle acordou e sentou-se na cama, olhando confusamente para a janela, através da qual vertia uma torrente da alegre luz solar e, fora dela, algo branco e leve como plumas onduladas cruzavam o vislumbre do céu azul. Percebeu então, que Aidan já havia se levantado, e alegre, podia ouvir o barulho de panelas no andar de baixo. Antes de descer, deu mais uma breve olhada pela janela. A grande cerejeira crescia do lado de fora, tão perto que seus ramos batiam contra a casa, e tão cheios de flores que as folhas mal podiam ser vistas. Em ambos os lados da residência havia grandes pessegueiros, também cobertos de flores. Mais além do jardim, um campo verdejante repleto de trevos descia até o vale onde o riacho corria, e onde crescia um grande número de bétulas brancas. Á esquerda estavam os grandes celeiros. Os olhos de Giselle, acostumados a tanta beleza, demoraram-se nesta visão costumeira, porém logo despertou. Fez a cama e desceu, com um sorriso no rosto. Aidan estava á cozinha, com uma cesta de muffins sobre a tábua. Comia um, enquanto bebia teu chá de barbasco.

— Bom dia, dormiu bastante hoje. Comprei esses muffins hoje, e tem chá, chá de barbasco.

— Bom dia. — Era nítido o bom tom e entusiasmo na voz de Giselle — Acordou de bom humor, hm? Fico feliz.

— Pensei bastante na nossa conversa de ontem e você pode estar certa. — Deu uma mordida no muffin e prosseguiu — Me perdoe pela forma que te tratei.

— Está tudo bem. Eu sabia que iria me ouvir, esse é o Aidan que eu conheço. — Lhe ofereceu uma beijoca na bochecha e logo encheu uma caneca com o chá.

— Ah, e outra coisa. Você se esqueceu de levar as vacas pro celeiro, algumas fugiram. Guardei hoje de manhã, não me agradeça. — Finalizou o muffin e se levantou vibrante.

Giselle riu com a situação, e voltou ao seu desjejum. Enquanto comia, Aidan trabalhava na fazenda, empacotando os restos de palha. Passaram-se alguns minutos, foi quando um grito alarmante veio da varanda, tão penetrante que fez as portas balançarem. E então entrou Mrs. Dalila Murphy, uma notável dona de casa, e vivia bem atrás da casa de Giselle e Aidan Monteford, por onde atravessava o riacho cuja fonte se localizava longe na floresta. Entrou exuberante e perplexa, indo direto á cozinha ao sentir o cheiro forte de barbasco. Teus sapatos faziam barulho no assoalho, e seu jeito delicado era irrequieto.

— Giselle! Oh, Giselle! — Sua reação ao vê-la foi tremenda, e logo correu para te oferecer um abraço. Giselle, sem reação, apenas soltou sua xícara e se rendeu ao aleatório abraço, embora não entendesse nada daquilo.

— Algo de errado, Dalila? Nunca te vi dessa forma! Oh, por favor, sente-se! Vou buscar um pouco de água.

— O que significa aquela placa em frente a sua casa? Vai mesmo vender a Harvest Monteford? Porque não me falou nada? O que você pretende fazer? Oh...

— Como é que é? Ve... Ve... Vender a Harvest Monteford? Que delírio é este, Dalila? — Giselle sequer encheu o copo com água. Ajustou-se na bancada e respirou, com os olhos arregalados.

— Está bem lá na frente, “vende-se”. Como você pôde fazer isso sem dizer a ninguém? Ainda finge que não sabe de nada, por Deus...

Aidan entrou bem na hora, suado e quebrantado. Havia um pouco de palha por todo o seu rosto, e seu cabelo totalmente babélico. Quando viu o rosto colérico de Dalila, e o de indiscrição de Giselle, logo foi se explicar:

— Nós vamos nos mudar, o comprador da fazenda deve chegar amanhã á tarde. Está vindo de Spencerville, nós já arrumamos as malas. Conversamos sobre isso ontem mesmo, Giselle. Porque acha que acordei tão cedo?

— Aidan, eu achei que-

— Então é verdade, vão vender a Harvest Monteford! — Exagerada, Dalila cortou a fala do casal, pra deixar aparente sua gana — Uma pena era uma fazenda tão bonita. Tenho certeza que todos irão sentir falta de vocês; Venham, venham cá e me dêem um abraço! Ainda bem que eu consegui me despedir; Agora vão, façam seus afazeres! Charlottetown precisa saber desta ida tão triste. Deixe que eu mesma espalhe a notícia!

E rápida como uma faísca, Dalila Murphy foi-se embora, com um pingo de agrado por saber de tal notícia. Já Aidan e Giselle rapidamente entraram em um consentimento, e ali mesmo na cozinha deram um beijo carregado de fascínio e euforia.

Então pararam seus afazeres e partiram para o quarto, e trataram de arrumar suas bolsas. Giselle levava seus melhores vestidos, e Aidan levava suas gravatas prediletas. Teriam uma vida diferente agora, uma vida cheia de riqueza e opulência. Mas, aliás, o que Dalton Kamp oferecia além de requinte?

Notas finais
Obrigado por ter lido até aqui!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.