Resumption
24 Capitulo 24
Notas iniciais
Pov – Clarie
Observo a fumaça subir alta e cinza além dos muros, amanhecemos o dia recolhendo corpos para depois empilharmos e fazer da morte uma grande fogueira.
Nunca tinha visto aquilo, me causa arrepios, Maggie surge ao meu lado, está tão cansada quando eu.
─Fizemos isso uma dezena de vezes. – Ela me conta melancólica. – Isso e muitas outras coisas. A gente se desdobrava por aquela prisão, nos agarrávamos aquelas grades com unhas e dentes. Glenn está lá colocando fogo nos corpos. Cada um tem seu trabalho, é isso, sempre foi. Realizamos nosso trabalho e seguimos em frente. Beth sabia disso.
─Ainda estamos aqui, os muros estão firmes, o portão...
─Seguro? – Ela me pergunta acompanhando como eu a fumaça subir alta. – Nada é seguro, real, é só...
─Se desistir de acreditar as coisas vão perder o sentido.
─Beth acreditou até o último segundo, meu pai também.
─Não fique tão abatida, o Glenn está aqui, você estava feliz com a casa nova.
─Isso, e então vem um tapa no meio do rosto, a verdade em gemidos e rosnados. Quem pode ter feito algo assim?
─Rick vai tentar descobrir. Não é como se esse lugar não fosse seguro Maggie, foi uma pessoa que abriu os portões, não zumbis.
─Foi uma pessoa que derrubou as grades da prisão, com um tanque de guerra, não zumbis.
─Beth me contou. – Ela me olha, sorri de um jeito triste, sinto pena.
─Queria tentar um bebê, o dia de ontem me deixou claro que é tolice.
─Quando descobrirmos o que aconteceu e as coisas se acalmarem, quando a fumaça ficar branca e depois apenas desaparecer vai se sentir melhor e voltar a pensar nisso.
─Você se parece com ela, é bom ter um pouco dela de volta. – Para minha surpresa Maggie me abraça, eu correspondo, depois nos afastamos, as duas secando lágrimas e rindo ao mesmo tempo. – Que bobas! Cadê seu homem?
─Meu homem, é bom de ouvir! – Digo rindo ainda secando lágrimas. – Está arrumando qualquer coisa no chuveiro da casa nova.
─Que romântico! – Ela brinca. – É hoje que se mudam?
─Sim. Já mudamos, eu vou no nosso antigo quarto buscar nossas coisas que se resumem a duas mochilas, a minha e a dele. É tudo que temos.
─É tudo que precisam, é tudo que dá para carregar quando isso acabar.
─Não quero que acabe e não quero que acredite nisso.
─Sim senhora irmã mais nova e otimista! – Nos abraçamos de novo, então o portão se abre. Glenn surge abatido com um outro homem e ela segue para ele.
Vou buscar minhas coisas e as de Daryl, encontro Tara sentada no sofá, ela ainda está um pouco fraca, mas já se recupera. Sorrio quando passo por ela, ela sorri de volta. Pego as duas mochilas e deixo o quarto, passo pela porta de Sasha e ela e Carol estavam lá, de pé, uma de frente para outra se encarando de um jeito ostensivo, prefiro não me meter naquilo e desço fingindo não notar.
Daryl estava na sala quando chego, a besta encostada ao lado da porta, uma chave de fenda na mão. Ele se precipita quando me vê, tira as mochilas das minhas mãos. Como se eu não tivesse carregado mortos a manhã toda.
─Conseguiu?
─Sim. Está tudo em ordem e funcionando, esse negócio de banho quente é algo que não estou disposto a abrir mão.
─Com fome?
─Vai cozinhar? – Ele ri, dou de ombros.
─Sim. Trouxe suprimentos, Carol me fez um kit casa nova como ela disse. – Sorrio. – Acha demais para você?
─Chuveiro quente e uma namorada que cozinha? É muito para qualquer Dixon, acredite. O que não quer dizer que seja ruim. – Ele me puxa para si, me beija carinhoso.
─Vou guardar nossas coisas, tomar um banho para tirar essa sujeira de zumbi e preparar uma refeição.
─Sim senhora. – Eu o beijo antes de ter forças de me afastar.
Tomo banho e deixo roupas limpas para ele sobre a cama, olho para elas pensando em guardar de volta, e se ele achar que estou passando dos limites? Mordo o lábio, se ele estivesse aqui iria reclamar que faço isso e o desconcentro, desisto de guardar as roupas, se ele reclamar eu mordo o lábio e o desconcentro.
Preparo espaguete, ele adorou o do Eric, agora vai descobrir que o meu é muito melhor. Coloco mesa para dois e quando admiro meu trabalho ele surge com as roupas que separei e os cabelos úmidos. Será que ele sabe o quanto é bonito? Sempre acho que não tem a menor ideia.
─Isso está cheirando muito bem, senti lá de cima. – Sorrio orgulhosa como uma boba, ele se senta meio confuso, acho que nunca esteve num momento como esse e nem eu, é como o primeiro dia de casados, nunca vou dizer isso a ele, mas é como me sinto.
Se durar só um dia já vai ter valido a pena. Eu o sirvo, depois me sirvo, menos que a metade do que coloquei para ele. Algo incrível acontece, Daryl se esforça para comer lentamente, com o máximo de sutileza que consegue e sei que quer apenas ser gentil comigo.
─Gostou? – Pergunto já que ele mastiga e engole antes de outra garfada.
─Muito bom. Não é como aqueles enlatados vencidos do passado. – Ele continua a comer e eu a admirar, mas procuro disfarçar para não constranger Daryl. – Passado? Isso foi há umas semanas atrás.
─Sim. Nos acostumamos rápido!
Ele solta o garfo, toma uns goles de agua e me olha preocupado.
─Não devemos. Entende? Tem sempre que estar pronta para deixar tudo isso para trás.
─Eu estou. Se estiver com você. – Aponto a cozinha a minha volta num gesto amplo. – Nada disso importa.
Ele afirma, depois me encara, busca ter certeza que falo a verdade, mantenho seu olhar e ele volta a comer convencido.
─Ainda quer recrutar?
─É como eu digo, se estiver com você é tudo que importa, então sim, ainda estou disposta a deixar esse cantinho fechado e sair em busca de pessoas.
─Bom. Não pretendia ir sem a senhora da lança! Deu um show ontem.
Meu coração explode de orgulho, eu era ninguém até Daryl Dixon cruzar meu caminho.
─Obrigada! – Queria dizer que o amava, mas apenas digo obrigada, tenho sempre medo de assusta-lo, de com isso perder Daryl.
─Mas quando se afastou de mim e foi salvar pessoas toda dona de si eu fiquei puto! Mesmo! Mas então estava no controle e só pude admirar.
Alguém faça esse homem parar de ser perfeito ou vou explodir de tanta felicidade. Meu sorriso se alarga ainda mais e nem sabia que eu podia sorrir tanto, quero guardar cada segundo desse primeiro dia aqui, para nunca mais esquecer que foi perfeito, para nos dias ruins lembrar que dias perfeitos são possíveis.
─Enterramos sete corpos hoje e eu estou aqui... Feliz, acha errado? – Pergunto terminando de comer e descansando o garfo, ele pensa um instante.
─Antes do mundo acabar um monte de gente morria a todo momento, víamos no jornal um monte de tragédias de todo tipo, não sentíamos culpa, só continuávamos vivendo, acho que tem que ser igual. A gente sofre quando são os nossos e segue em frente quando não são.
─Você está certo! – Volto a sorrir. Penso em Maggie. – Maggie me chamou de irmã mais nova hoje.
─Vocês se dão bem, isso é bom, gosto de saber que tem mais do que eu.
─Porque? – Pergunto tensa.
─Você sabe que tudo sempre pode dar errado.
─Nós não vamos perder. Você disse, foi uma promessa, não descumpra.
Meu olhar assustado o faz me encarar, ele me puxa pela mão, me faz sentar em seu colo quando afasta a cadeira.
─Que tal um acordo além da promessa?
─Qual?
─Quando estivermos aqui. Na casinha branca com jardim e varanda com balanço vamos fingir que não tem apocalipse e que somos só nós tentando viver. Da porta para fora é o apocalipse e vamos lutar, da porta para dentro somos só nós e vamos apenas viver.
Meus olhos ficam cheios de lágrimas, é a coisa mais bonita que ele já disse e ele vive dizendo coisas bonitas.
Ele me beija, sorri logo depois secando minhas lágrimas.
─Essa é uma dessas coisas bonitas que me diz e que me fazem chorar.
─Eu... – Ele se cala, me beija de novo e não é só um beijo, sinto um mundo de coisas vindo junto, coisas grades que ele me diz e adoro sentir tudo aquilo. – Agora meu espaguete vai esfriar, então me deixe terminar. Está muito bom para desperdiçar.
Eu dou um beijo leve nele e volto para meu lugar, fico olhando enquanto ele termina de comer, depois recolho a louça enquanto ele se senta na sala para limpar suas flechas.
Ele está sentado no sofá, achava que ia adorar a poltrona confortável diante da pequena lareira, mas ele ignora, acho melhor assim. Me sento a seu lado, Ele larga as flechas, já é noite, temos luzes agora, mas acho que nenhum dos dois se importa muito e só deixamos um abajur aceso.
─Foi um dia longe. Pelo menos o Morgan te liberou do treino.
─Ele me fez implorar Daryl, não conte com aquele ar de monge que ele tem. – Daryl ri e me envolve. – Que frio. Acho que o inverno chegou.
─Sim. E quero sair mais uma vez. Antes de ficarmos presos aqui por conta do frio, além disso quem sabe podemos salvar alguém de um inverno lá fora?
─Estou pronta! – Digo decidida.
─Eu sei senhora da lança. Mas vamos ver como ficam as coisas aqui. Sei lá quem ou porque esse portão foi aberto.
Penso em Sasha e Carol se encarando, talvez aquilo não seja nada, mas e se for? Se uma das duas fez, se as duas fizeram aquilo? Porque tem que ser alguém de Alexandria?
─Daryl, eu sei que não estou com vocês muito tempo, que não conheço todo mundo como você, não fica bravo, mas já pensou que pode ser alguém do grupo?
Daryl me olha um tanto chocado, nega com a cabeça, eu sei que é difícil tem sete mortos, mas não se pode simplesmente ignorar essa possibilidade.
─Quem? Porque? Não, de jeito nenhum, eu não imagino nenhum dos nossos... – então ele se cala, fica pensativo. – Eu sei, não é impossível, mas o Rick está investigando, ele vai descobrir pode confiar.
Suspiro, quero muito ficar segura, não ter medo, é bom saber quem fez e porque, isso vai tornar tudo melhor.
─Amanhã vou falar com o Rick.
─Desculpe pensar neles em qualquer um assim, todos foram muito bons comigo, mas...
─Não precisa se desculpar, que bobagem.
Ele afasta meus cabelos, me beija, depois me enrolo nele.
─Melhor irmos para cama, está gelada.
─Sou friorenta! – Aviso quando ele me puxa pela mão me ponde de pé.
─E como vai ser isso lá fora?
─Você me esquenta! – Ele ri, me olha quando fico corada, eu disse mesmo isso? Que coisa mais ridícula, balanço a cabeça, ele me puxa pela cintura.
─Gostei da ideia, não precisa ficar assim. – Daryl beija meu pescoço quando entramos no quarto. – Que vamos fazer com o quarto ao lado?
─Nada, deixa ele lá, quem sabe um dia a comunidade fica tão grande que vamos ser obrigados a dividir com outras pessoas.
─Nem pensar. – Ele diz ainda beijando meu pescoço e me empurrando em direção a cama, é outro quando estamos sozinhos. – Mas agora vamos mesmo é descobrir qual é a dessa cama! – Agora sou eu que tenho um acesso de riso, mas ele faz de proposito, gosta de me divertir, me deixa leve.
Minhas mãos seguem para sua camisa, posso ajuda-lo, é sempre mais rápido. Seus lábios vêm de encontro aos meus, estremeço, logo as coisas vão sumindo da minha mente e meus sentidos ganham força e domínio.
Ele me coloca na cama cuidadoso, não deixo que se separe de mim, não quero ficar longe dele, não sinto mais frio, só o que sinto é desejo por ele.
─Você me deixa tonta! Eu não consigo.... Daryl! – Deixo escapar um gemido. – Não consigo pensar em nada.
─Não pense, vamos só sentir! – E é o que fazemos, até que tudo explode e depois se acalma. Fico em seus braços, olhando para ele, perdida naqueles olhos azuis. Tenho que tomar coragem e achar um momento para dizer eu te amo, é o que sinto, disse que me apaixonei, mas eu te amo é especial e quero dizer, quero dizer meu amor. – O que está pensando?
─Nada demais. Só o quanto tudo isso me faz feliz, foi um primeiro dia perfeito da porta para dentro como tinha que ser.
─Você é toda perfeitinha! – Ele me beija de leve, adoro quando ele diz isso. – Gosto de como é delicada.
─Mas tenho uma lança e uma pistola!
─Tem! – Eu o beijo. – É linda! Mas vamos dormir. Foi um dia cansativo.
─Boa noite.
Acordo como todos os dias, com ele espalhado na cama, então como todos os dias ele tateia meio dormindo, me procura, me encontra e me puxa para ele, adoro esse momento, quando ele me encaixa nele, e só continua dormindo, quando sinto que mesmo inconsciente ele me quer por perto.
─Bom dia! – Digo quando sinto seu beijo em meu ombro.
─Bom dia.
Temos ainda muito a fazer e não podemos ficar muito na cama. Eu servia uma xicara de café a ele quando escuto uma leve batida na porta.
─Entra! – Daryl convida, não consigo não me sentir como uma dona de casa recebendo sua primeira visita. Rick surge na cozinha.
─Bom dia. Podemos conversar? – Ele pede e Daryl convida Rick a se sentar com um gesto, ofereço uma xicara de café a ele.
─Querem que eu saia?
─Não Clarie, fique. – Me sento também. – Achei que aqui era o melhor lugar para essa conversa sem chamar atenção. Pedi que Carol e Sasha viessem, fiz isso separadamente, não quero que uma saiba que a outra virá.
─O que foi? – Daryl se alarma.
─E se não foi alguém de Alexandria que abriu os portões? E se foi um dos nossos? – Seu tom é sombrio, Daryl me olha tenso, fico calada, ninguém ficaria mais chocado que ele.
─Acha que é possível? Mas porquê? Quem?
─Carol quer muito esse lugar. – Ele me olha. – Isso é um segredo Clarie, ninguém pode saber, nem mesmo Maggie ou qualquer um dos nossos. Todos querem que isso dê certo, se foi um dos nossos. Se vazar...
─Eu sei. Vamos ter uma guerra interna, uma divisão. – Eu digo.
─Uma rebelião, as pessoas que nos receberam e que estão tentando nos apoiar vão querer nos expulsar daqui. – Rick conta tenso, toma um gole do café.
─E se for? O que vamos fazer?
─Odeio dizer isso Daryl, mas vamos fingir que não aconteceu, vamos ter que conviver com isso. Devo muito a Carol. Devo a vida de minha filha a ela.
─A Carol? Não ela não iria tão longe.
─Daryl, ela já foi uma vez, eu a mandei embora, na época me condenou, mas eu sabia que ela estava indo por um caminho... Acho que Sasha sabe. Por isso quero coloca-las frente a frente.
─Não gosto de pensar nisso! – Daryl diz triste. – Mas se foi Carol ela não vai negar.
─Por isso estou aqui, porque não sei se posso me controlar, não sei se posso... Isso é...
─sombrio! – Daryl completa. Outra leve batida na porta e então eu os deixo para abrir, é Sasha ela não sorri, não é gentil, sempre acho que não está muito viva. Nem quer estar, deixo espaço para que entre e ela passa por mim.
─Bom dia. – Cumprimento.
─Bom dia. – Ela responde. – O Rick...
─Vem. – Ela me segue. – Quer um café? – Pergunto quando ela se sentava depois de acenar para os dois. – Obrigada. – Entrego a ela uma xicara. – Eu tenho que ir para a torre, não posso demorar.
Começa meio se esquivando.
─Carol abriu o portão? – Rick é direto e ela se assusta, para com a xicara no meio do caminho, volta com ela e apoia na mesa, olha para ele.
─Sim. – Meu coração se aperta, Daryl fica de pé furioso.
─O que aconteceu?
─Estava na torre, vi o grupo de zumbis se aproximando, ela não. EU devia ter avisado. Não sou menos culpada que ela. – Ela agora toma um gole do café, ganhando tempo.
─Mas não avisou. Porque?
─Fico... Fiquei cega, acho que só queria ir derrubando um por um. E foi o que fiz, comecei a acertar suas cabeças. Eles não se reproduzem, não é? Um dia não vão existir mais, é só caçar e derrubar um por um. Carol distraiu o segurança, por motivos que pertencem a ela, mandou ele fazer qualquer coisa e abriu, depois voltou para dentro, acho que ela não esperava por tantos.
─Viu?
─Só quando ela já se afastava deixando o portão aberto. Fiquei um minuto sem saber o que fazer, então eles começaram a chegar, o segurança voltou correndo, não chegou a tempo, quando tentou fechar eles o atacaram.
─E aí foi tudo aquilo. – Rick diz com a mão apoiada na cabeça, sem saber o que fazer com a informação, assim como Daryl. Vejo que Daryl está muito decepcionado e sinto vontade de abraça-lo. – Pretendia contar?
─Não. Aceitei não dizer, isso me fez pensar no modo como estava me comportando e vi que não posso continuar assim. Me consumindo, Bob está morto, Ty também, mas eu estou aqui e posso salvar pessoas e não caçar zumbis. Então me decidi por guardar isso e agir diferente de agora em diante.
Ficamos em silencio, todos trocando olhares e tentando entender tudo aquilo. Não consigo pensar em Carol como um inimigo, mas foi assim que ela se comportou.
─Pelo visto já sabem. – Carol surge na cozinha.
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