Resumption

74 Capítulo 74


Notas iniciais
Olá pessoas. Amo vocês, queria antes de tudo me desculpar pela demora, mas não é fácil acabar uma história e essa em especial eu amei escrever. Espero que gostem desse último capitulo e quem puder por favor deixe um oi nos comentários, só para eu poder agradecer pessoalmente. OBRIGADA a todos pelo carinho. Vou morrer de saudades. Não deu para deixar o link aqui da próxima porque ainda não consegui terminar o primeiro capitulo, mas como todo mundo sabe vou começar a postar Apocalipse a era dos mortos segunda temporada. BEIJOSSSSSSSS

Pov – Daryl

Clarie está sentada na varanda, Mel em seus braços, o balanço vai e vem de modo lento, escuto sua voz doce conversando, minha garotinha balança os braços e emite sons tentando conversar com a mãe.

Quando crescer vai ter na memória esses momentos de paz que passam juntas. Subo os degraus da varanda, as duas me veem e fico um momento abobado com a recepção. Mel me oferece os braços, o sorriso largo com dois dentinhos me deixa sempre com vontade de aperta-la.

─O papai chegou! – Clarie diz animada, beijo seus lábios ao mesmo tempo que pego minha filha no colo.

─Estava conversando é? – Beijo sua bochecha rosada, ela ri se contorcendo.

─Ainda vai voltar para o trabalho?

─Não. Passei a guarda para o Glenn, eu e ele armamos uns planos para termos mais tempo livre.

─Os papais de Alexandria. – Clarie me sorri, os olhos brilhando como todo os dias, estamos bem, seguros e felizes. Nem parece ser minha vida, é como se tivesse caído em um conto de fadas perdido no meio de um filme de terror, com o terror eu sabia lidar, com o conto de fadas estou ainda aprendendo.

─Ben está na escola?

─Be... Be... – Mel olha em volta, quer de todo jeito encontrar o irmão. Troco um olhar com Clarie.

─Ele já vem filha. Seu irmão está na escola. – Clarie beija a filha em meus braços. – Vamos dar uma voltinha com ela e depois buscar o Ben?

─Eu carrego ela. – Descemos os degraus, Mel vai em meu colo prestando atenção em tudo a sua volta. Gente indo e vindo, crianças jogando bola, dois cães em Alexandria, isso é mesmo interessante, é quase como se não tivéssemos mais os mortos.

─Me lembro da gente chegando aqui. – Clarie me conta quando passamos pelo portão. – Do medo que eu sentia, da falta de objetivo. – Ela segura a mão pequena de Mel, beija seus dedos. – Se alguém me contasse que essa seria minha vida eu jamais acreditaria.

─Ainda mais comigo. – Ela me olha.

─Mas só poderia ser com você amor. – Isso sim não me acostumo, a ser eu seu amor, ainda quero como no começo olhar em volta a procura de mais alguém.

─Nunca achei que poderia me acostumar a isso.

─Fico pensando se sente falta.

─Não sinto. Acredite, esses meses que pude passar aqui, com vocês me fez ver que posso criar raízes, que não preciso ir lá fora.

─Ben ficou mais feliz tendo o pai por perto. – Finalmente Benjamin agora é só um garoto, brinca com colegas, corre pela casa, joga bola e chega suado, suja o tapete e Clarie briga com ele, são meus momentos favoritos, quando o vejo sendo um garoto feliz.

As vezes passo em seu quarto no meio da noite e ele está brincando com Mel, ela acorda e fica no berço sentada sem chorar, ele se senta no chão e fica brincando com ela pela grade até que ela se deite e volte a dormir.

O garotinho assustado que tinha medo de perder seu lugar se foi há muito tempo, agora é o menino que devia ter sido desde sempre, o garotinho que sempre existiu dentro dele, mas que a vida o obrigou a sufocar.

Eu também não sou mais o mesmo, ou sou finalmente quem sempre devia ter sido, mas assim como Benjamin tive que sufocar. Confio em mim, no que sinto pela minha família e posso mesmo mostrar a eles, não como Clarie, é sua natureza ser carinhosa e suave.

Já eu e Ben, somos mais secos, mais brutos, mesmo assim Clarie e Mel nos fizeram mais suaves.

─Clarie! – Maggie surge empurrando o carrinho com Hershel sentado muito animado. Está prestes a fazer um ano, fala muitas palavras, incluindo Mel e lá está ele chamando minha garotinha. Ela se anima toda, os dois passam sempre muito tempo juntos.

Clarie sempre fica com Hershel para Maggie e se precisamos deixar Mel com alguém, então ela fica com Maggie.

─Oi. – As duas se abraçam, se beijam, é isso toda vez que se encontram, são como irmãs realmente.

─Vão buscar o Ben?

─Vamos. – Clarie avisa enquanto me abaixo com Mel para ela e Hershel se comunicarem do jeitinho deles. Vez por outra os dois lutam bravamente por um brinquedo.

─O aniversário do Hershel está chegando, quero fazer um almoço, me ajuda a planejar? Só nossa família, não dá para convidar toda comunidade, então vamos só fazer um almoço.

─Conte comigo.

─Daryl e Glenn cuidam das crianças, falei com a Mich, ela quer ajudar e vamos comemorar o aniversário da Judy também, a coitadinha nunca pode festejar nada, com tudo que passamos na vida, o jeito que ela chegou. – Maggie me olha, nós vivemos aquele momento de um modo intenso.

─Vai ficar bem com isso Maggie? – Judy foi por muito tempo tudo que Beth mais amou, olhar para ela traz sempre um pouco da memória de Beth, ela era a mãe de Judy ou o mais perto disso.

─Vou, eu acho que as duas gostariam, Lori e Beth, então acho que é perfeito dividir o dia do Hershel com a Judy.

─Conta comigo. – Clarie se compromete. Depois toca meu ombro. – Vamos amor, não quero deixar o Ben esperando muito. Tchau Maggie.

Fico de pé com Mel, aceno para mãe e filho e voltamos a caminhar, Ben agora não fica mais ansioso a nossa espera, acha até bom a demora porque assim ele pode brincar um pouco.

Quando nos aproximamos da escola ele está com outros garotos, Ron inclusive, duas famílias do Morro se mudaram para cá, com eles algumas crianças e Ben agora tem um pequeno grupo de amigos.

─Gosto tanto dele rindo, é meu momento favorito, Benjamin sorrindo em meio aos amigos, vencemos muitas coisas para termos esse momento.

─Muitas coisas Clarie. – Olho para ela ao meu lado. A garota que me irritava nos primeiros dias porque não dava a menor importância para a própria vida, que não se achava boa o bastante para sobreviver.

Clarie aceitou calada toda a maldade do mundo, não se rebelou contra ela, não criou nenhum rancor em seu coração, se sentava ao meu lado na garagem de Aaron para me ver consertar a moto, me pedia incessantemente para me acompanhar no trabalho de recrutar.

─O que foi? – Ela me desperta, pisco algumas vezes voltando a realidade. – Paralisou e ficou me olhando.

─Fiquei me lembrando do começo, de como era quando chegamos, do quanto você mudou, antes mesmo de mim ou do Ben. E sua mudança nos mudou também.

─Amor. Desses que não passa nunca. – Ela diz e puxo sua cintura, beijo seus lábios, ela me faz um carinho no rosto.

─Mãe! – Benjamin chama da porta da escola, corre para nós depois de acenar para os amigos, Clarie ganha um grande e apertado abraço sem precisar pedir, seu sonho se realizando agora muitas vezes ao dia.

─Que saudade. – Ela diz beijando sua testa, ele me abraça e logo Mel está se atirando para ele, não é fácil competir com esses dois.

─Oi pai, deixa que eu levo ela. – Ben toma a irmã dos meus braços, não da tempo de ninguém discutir o assunto, a pequena é dele antes de tudo.

─Como foi a aula? – Pergunto porque acho importante Ben saber que nos importamos. Ele segue para casa contando as novidades, no meio do caminho a irmã fica pesada e eu a pego de volta.

─Mãe eu pensei em levar minha irmã para a escola um dia desses, posso?

─Quando ela crescer mais Ben, ela é muito pequena.

─Você que sabe, só queria ajudar.

─Sabemos disso. Você nos ajuda muito. – Ele sorri, depois ficamos eu e ele com Mel enquanto a mãe vai aquecer o almoço, essa vida suburbana é incrível.

─Pai quando que eu vou aprender a usar a besta e a caçar?

─Daqui a pouco, vamos esperar você crescer mais um pouquinho, se não a mamãe fica muito preocupada.

─Ela sempre se preocupa com a gente. Minha mãe é tão preocupada, ela só fica cuidando de tudo.

─Verdade. Ela ama você.

─E você, e a Mel. E daqueles que não passa nunca.

─Nunca. – Afago seus cabelos. Talvez eu realmente precise cortar meu cabelo para que ele possa também cortar o dele. Já está atrapalhando.

─Vamos deixar sua mãe cortar um pouco nosso cabelo? – Ele me olha achando estranho. – Ela iria adorar, o que acha? Só um pouco.

─Dos dois?

─Dos dois. Sua mãe vai ficar muito feliz.

─Pode ser. – Nos sentamos para almoçar, Mel fica ao meu lado no carrinho, já come sopinhas e normalmente é sempre mais cedo, quando vamos comer ela pede e a mãe sempre lhe dá pedacinhos, fico pensando que dispositivo é esse que transforma as mulheres em mães de um modo tão rápido e perfeito.

Clarie sempre pareceu saber o que está fazendo, tudo que faço, desde trocar fraldas, ninar minha filha a alimenta-la tive que aprender, e muitas vezes errando sempre, mas ela simplesmente sabe o que fazer, como se tivesse feito algum curso. A natureza é mesmo perfeita.

E pensar que isso é só o começo, ainda tenho muito que aprender.

─O que vai fazer agora Clarie?

─Nada demais, lavar os pratos, depois estou livre.

─Então deixa os pratos e vamos cortar um pouco o cabelo do Ben. – Benjamin me olha de cara feia.

─E o seu também pai. Os dois.

─Os dois. Claro, só um teste. – Clarie está muda, me olha sem acreditar muito. – É sério, queremos cortar um pouco, como um presente, só para te agradar. – Pisco para Benjamin.

─É mãe, que a gente te ama muito e quer te agradar.

─Ok. Vamos lá. – Ela tem um sorriso tão bonito no rosto. Sei que para ela isso é muita coisa, Clarie sempre ligou isso ao meu medo de fincar raízes, podia ter feito antes, mas não fiz. – Vão ficar tão lindos.

Vamos para o banheiro, levo uma cadeira, não tenho a menor ideia se ela sabe o que vai fazer, mas minha aparência nunca foi algo que me preocupasse.

─Primeiro meu pai. – Ben determina. – Eu seguro a Mel enquanto isso.

Me sento meio inseguro, desde que cheguei aqui não mudei nada, não passou pela minha cabeça que esse lugar sobreviveria mais que uns meses, então veio Clarie, Ben, e Mel, como posso agora não lutar? Não me adaptar?

Clarie começa a cortar, não curto, só diminuir um pouco, acho que quer nos deixar ir aos poucos acostumando. Ela vai me olhando através do espelho. Sorri, me observa, diz sem palavras o quanto isso é especial e importante para ela.

─Amo você. – Ela me diz quando termina, deixa minhas costas e os olhares através do espelho e se senta em meu colo, me beija com as mãos em meus ombros. – Está ainda mais bonito se é que isso é possível.

─Deixa de bobagem Clarie. – Fico completamente constrangido com esse tipo de elogio, mesmo vindo dela.

─O que posso fazer Daryl? Você é lindo.

─Olha as crianças aí. – Aponto Ben com a irmã no colo.

─Só você que pode me achar linda e perfeitinha?

─Só. Agora me deixa levantar e corta logo o cabelo do Ben, antes que ele desista.

Ela me beija mais uma vez antes de ficar de pé, eu a imito, pego Mel do colo do irmão.

─Vai lá filho.

─Pai... E se eu ficar esquisito?

─Está me achando esquisito? – Pergunto rindo.

─Um pouco pai.

─Pensei que queria ficar parecido comigo?

─Tudo bem. – Ele se senta desapontado, Clarie abre um largo sorriso vitorioso, pega a tesoura.

─Bem curtinho Clarie. – Brinco com ele.

─Para pai. Não é mãe, é igual o dele.

─Eu sei filho, vai ficar igual. – Clarie corta tão pouco quando o meu, apenas o bastante para ele parar de tirar o cabelo dos olhos na hora de estudar.

─Pronto. – Clarie tira os cabelos dos ombros de Ben.

─Ficou bom mãe?

─Está lindo. Um gato. Vai arrumar namorada logo assim.

─Não vou nada mãe, não quero. Vocês dois só ficam de beijos, eu que não quero ficar assim não.

─Então agora vão tomar banho, limpar esses cabelos e espero os dois lá em baixo. Vem filha. Nossos meninos não estão lindos? – Mel resmunga tentando conversar. – É papai lindo, Ben lindo.

─Be.. Be....

─Fala mamãe de vez em quando filha. Só Ben. Toda hora?

As duas descem, eu e Ben nos olhamos. Ele se olha no espelho depois volta a me olhar.

─Ainda estamos parecidos, não se preocupa.

─É estamos pai, agora estamos os dois esquisitos. – Ele me deixa depois de não resistir a uma gargalhada, nunca passou pela minha cabeça que meu garotinho podia ser um dia tão engraçado.

Quando colocamos os dois na cama é tarde, Mel dormia tranquila, não mama mais durante a noite, mas acorda muito cedo. Beijo seus cabelos, afago Ben que fecha os olhos e se enrola nas cobertas, ainda ficamos um longo minuto olhando para os dois da porta do quarto. Nosso tesouro reunido naquele pequeno cômodo.

A porta fica aberta, já a nossa eu faço questão de fechar, quem sabe agora sozinhos a opinião de Clarie sobre minha aparecia não me constranja.

─Que olhar é esse? – Ela brinca quando caminha de costas em direção a cama, os olhos presos aos meus.

─Quem sabe não me mostra o que está achando do meu cabelo?

─Podemos conversar sobre isso amor.

─Conversar? Não sei, acho melhor ver qual é a dessa cama. – Ela ri, meus lábios vão para seu pescoço enquanto envolvo sua cintura, sinto seu perfume enquanto meus lábios saboreiam sua pele macia.

─A cama. – Clarie diz com os dedos mergulhados em meus cabelos.

─Sim, a cama. – Brinco erguendo ela nos braços, eu a levo para cama no colo, deito com ela, nos olhamos enquanto ela mexe em meus cabelos. – Te amo.

─Finalmente está pronto para ficar.

─Estou, é aqui que vamos recomeçar.

─Já recomeçamos, no dia que cruzamos esses portões.

─Demorei a entender. Seu amor me deu certezas que nunca tive.

─Temos tudo Daryl, construímos isso juntos, você disse que não iriamos perder.

─E não perdemos, nós não vamos perder Clarie, se tenho você, tenho tudo.

─Me tem. Sou sua, amo você.

─Palavras. – Brinco com ela. – Mostre. – Seus olhos faíscam, ela me puxa mais para ela, tomo seus lábios, somos felizes, os pés ainda firmes no chão, cientes dos perigos, mas prontos para ele, unidos, tenho uma família, é tudo que sempre precisei e nunca soube, agora entendo o que meu coração buscava.

Tive todos os motivos para desistir, nunca entendi porque continuava, agora eu sei, continuava para terminar aqui, nos braços da minha mulher.

Pov – Benjamin

─Benjamin, não pode sair da trilha, temos ordens para todos ficarem na trilha.

─Jeff, eu vou caçar, não se preocupe. – Aviso ao guarda da trilha que liga Alexandria ao Morro.

─Não posso deixar. – O homem insiste. Suspiro tentando encontrar paciência.

─Sempre faço isso. Não se preocupe. Aprendi a caçar com meu pai, estou seguindo um cervo, encontrei um grupo deles na região, fazia meses que não vinham para esses lados, vocês e suas vigias afastam a caça, prometi levar para o Morro.

─Não sei, acho que é melhor seguir para uma das duas comunidades.

─As regras não se aplicam a ele Jeff. – Enid surge em seu cavalo, Morgan a transformou numa máquina, ela sabe o que faz, lidera um grande grupo que cuida da segurança.

Como meu pai sempre disse que aconteceria somos nós a cuidar de quase tudo agora.

─Oi Enid. Obrigado.

─Tudo bem Benjamin. Vá em frente. Boa sorte.

─Tchau.

─Enid ele não é muito novo para andar sozinho por aí?

─Tenho dezoito anos, meu pai me treinou pessoalmente, também sou livre para ir e vir. Bom dia. – Sigo com a besta meu caminho de perseguir as pegadas do cervo.

A primeira vez que sai tinha doze anos, depois acompanhei meu pai em muitas caçadas até estar pronto para fazer isso sozinho. Não sou homem de ficar atrás de uma mesa, não sei ficar parado, não consigo ficar preso, gosto de estar no mundo, não foi fácil ganhar meu espaço, mas eles tiveram que permitir.

Quando encontro o cervo é quase noite, felizmente estou perto do Morro, levar o bicho abatido nas costas não é nada fácil.

Entrego aos homens do portão, é gratificante ver a alegria deles, depois procuro Carl. Ele e Amber vivem agora aqui, lideram muitos, Amber é o que eles chamam de médica. Denise ficou conosco em Alexandria.

─Fica para jantar? – Carl pergunta quando nos sentamos na frente do grande prédio onde quase todos os moradores tem seus quartos.

─Acho que sim. Vou esperar amanhecer para voltar. Cadê a Amber?

─No consultório. Tivemos problemas. Um casal morreu lá fora numa busca, o resto do grupo chegou hoje cedo, mas um deles foi mordido, ela tentou cortar o braço, não acho que vá funcionar, mas é a Amber, ela não desiste.

─Não. Felizmente.

─Os pais da Sally, o casal que morreu, ela foi atacada, ele voltou para ajudar, morreram os dois. – Sinto pena ao ouvir quem são os mortos. – Ela ficou sozinha agora. Vai ser muito difícil para ela, sabe como ela é.

─Irritantemente indefesa. – Eu digo a ele que concorda, os pais nunca a deixaram crescer, falei duas ou três vezes com ela, a garota mais bonita que já vi, mas é toda quietinha, confusa e assustada. Tem dezessete anos, mas é tão frágil quanto Mel que tem apenas dez. – Convidou ela para ficar aqui?

─Diz comigo e Amber? – Afirmo, ele nega. – Não tenho onde receber Sally, eu e Amber temos apenas um quarto e cozinha, é o bastante para nós.

─Entendo. Como ela vai ficar?

─Sozinha. Não é como todo mundo acaba? – Olho para ele, as coisas aqui não são como em Alexandria, as pessoas não se veem como família. São só um grupo de pessoas se dividindo e se mantendo vivas.

─Talvez ela possa ir morar em Alexandria. Lá tem muito o que fazer. Gente para treina-la.

─Gente ou você? – Ele provoca.

─Morgan fez muito por Enid, pela minha mãe também.

─Morgan está velho, Enid cuida dele como se ele fosse um bebê. Onde ela moraria?

─Lá em casa até achar um lugar. – Dou de ombros, não olho muito para ele. Sei o que está pensando.

─Todo mundo aqui é livre Ben. Ela decide o que quer.

─Ela não decide nada, das poucas vezes que a vi só pude notar que os pais decidem ou decidiam tudo.

─Estou achando que quer ser o cara que decide as coisas agora. – Carl me cutuca rindo.

─Não é nada disso, só sinto pena dela ficar aí joga e indefesa. Meu pai não ignorou minha mãe, ele cuidou dela quando ela era completamente incapaz.

─Conheço essa história Ben, sou seu, se lembra? Eu estava lá.

─É eu sei. Eles fizeram o mesmo comigo. Quando vai para Alexandria?

─No fim de semana, vamos passar uma semana lá. Faz quase um mês que não vejo meus pais.

─Vou assim que amanhecer. Quer mandar algum recado?

─Não. Só diz que levo um lote de munição quando for.

─Eu aviso. – Amber surge um tanto abatida. Abraça Carl. Já sei que perdeu um paciente. Ainda perdemos pessoas as vezes.

─Febre. – Ela diz depois de me acenar sem ânimo. – Sean ficou com ele para fazer quando chegar a hora.

─Sinto muito. – Digo ficando de pé. Pego minha besta. – Vou deixar vocês conversarem.

─Vê se dorme no alojamento. – Carl pede e afirmo. – Não vai comer conosco?

─Sem fome. – Digo deixando os dois. Ando pela pequena comunidade, um casarão que já foi uma velha fábrica foi adaptado como casa, dividido e quase todo mundo mora lá, mas tem mais construções, duas ou três casinhas, um refeitório, animais, horta, a pequena fábrica onde Carl e mais alguns fabricam munição, consertam armas, e resolvem todo problema técnico do lugar, um galpão que serve como alojamento, gente sozinha e quem chega de Alexandria fica dormindo ali.

Descobrimos mais duas comunidades nos últimos anos, as vezes vem gente de lá fazer negócios, mas elas ficam a três e quatro dias de viagem, não é seguro ficar indo e vindo.

Dois homens limpavam o cervo quando passo, eles me acenam gratos. O Morro é como o vizinho pobre, eles têm ainda poucos recursos, é mais seguro, nunca houve um ataque de hordas de zumbis por aqui, quase não se vê zumbis na região por ser alto, por outro lado os recursos não chegam com facilidade e eles vivem muito mal.

Me sento na frente do alojamento, a noite está limpa e clara, o céu estrelado, encosto a besta ao meu lado, sorrio quando me lembro quando a assumi de uma vez por todas. Eu e meu pai sozinhos numa caçada, um dia de distância de casa, era uma noite como essa, clara e silenciosa, nos sentamos em torno de um fogo baixo, a besta encostada a seu lado, enquanto dividíamos um esquilo, então eles chegaram, meia dúzia de zumbis, meu pai tropeçou, a besta caiu e um zumbi avançou sobre ele, outro por cima, usei a besta para esmagar os dois cérebros e o ajudei a ficar de pé.

Nos olhamos um longo momento, estiquei a besta para devolver a ele, meu pai não aceitou, moveu a cabeça negando. É sua, sempre foi. Suas palavras me fizeram forte e corajoso, eu a coloquei no ombro, murmurei um obrigado um tanto confuso, apagamos a fogueira e voltamos para minha mãe e Mel. Eu tinha dezesseis anos e fiquei dono de mim naquele dia.

Fecho os olhos e quando os abro de novo amanhecia, me estico colocando os músculos no lugar. Dormi na porta do alojamento e claro ninguém ousou me incomodar, apenas Carl e Amber fariam isso. Entro no alojamento para me lavar um pouco e usar o banheiro, depois é pé na estrada, duas noites fora matariam minha mãe de preocupação.

─Benjamin. – A voz doce de Sally chega aos meus ouvidos quando deixo o alojamento com a mochila nas costas e a besta na mão. – Mandaram entregar. – Sua voz e sua mão tremem quando me estende uma caneca com café.

─Obrigado. – Encaro seu rosto e os olhos estão vermelhos de tanto chorar. Ela me provoca coisas estranhas. Quero chamar de pena, mas não sei se é exatamente isso. – Sinto muito Sally.

Acho que não tem mais nada a ser dito, ela balança a cabeça afirmando, depois encara o chão.

─O que vai fazer agora? – Não devia me interessar, não é da minha conta, mas não resisto.

─Esperar minha vez. – Ela diz num fio de voz. Que garota irritante. Tanta gente lutando para viver e ela nem se importa.

─Que coisa tola para se dizer, é desrespeito com quem morreu lutando.

─Não. É injusto, eu devia ter morrido e essas pessoas de quem fala deviam estar vivas.

─Mas não estão, você está. Então faça valer a pena, foi como meus pais me ensinaram. – Ela fica calada. – Que mochila é essa? – Pergunto olhando para sua mochila pendurada nas costas.

─Estou me transferindo para o alojamento, é onde fica todo mundo que está sozinho, Peter e Sue meio que se casaram, precisam de um lugar, eles ficam com a minha casa.

─Nem te deixaram chorar em paz e já tomaram seu lugar?

─Não, eu apressei as coisas, me sinto mal, muitas lembranças.

─O alojamento é muito misturado, forasteiros, homens, mulheres, não é muito seguro.

─Sei disso. – Ela ainda olha para os próprios pés. Suspiro um tanto irritado com sua resignação.

─Vou te levar para Alexandria. Vai ficar na minha casa, divide o quarto com a minha irmã, aprende um pouco sobre se defender, arruma um trabalho, lá é diferente daqui.

─Não sei o que dizer, é.... Isso é sério? – Seus olhos encontram os meus e lá está aquela coisa que não sei como se chama. – Benjamin sua família...

─Vai gostar deles. Avisa alguém da sua partida, se despede de quem quiser, eu tenho que ir.

─Não tenho de quem me despedir. – Que coisa mais triste. – Aviso o guarda do portão.

─Então vamos. – Faço sinal indicando a saída. No portão Carl conversava com um homem, sorri quando me vê e rezo para ele não fazer nenhum comentário estúpido.

─Sally vai viver em Alexandria então? – Ele pergunta sorrindo. – É isso que quer Sally, é uma escolha sua ou do nosso mandão aqui?

Eu e Carl olhamos para ela, acho que não dei mesmo escolha a ela, mas ela também não pareceu querer uma.

─Quero ir.

─Nesse caso, boa viagem, vou no fim de semana, te procuro, se mudar de ideia volta comigo e Amber.

Pegamos a trilha, meu pai criou esse caminho, usou tudo que sabia sobre a mata e tornou um lugar praticamente seguro, homens correm a trilha todos os dias, andam pela região e garantem a segurança, no caso de horda um grupo faz o trabalho de desvia-las, vez por outra um zumbi perdido surge, mas damos conta.

─A gente vai a pé? – Ela me pergunta quando o portão se fecha atrás de nós.

─Sim. É como eu ando, as vezes uso a velha moto do meu pai, mas é raro. A pé minha mãe acha mais seguro, porque assim ela sabe que não vou longe.

─Nunca saí daqui. – Ela diz quando começamos a caminhar.

─Quer dizer, depois que cheguei, nunca mais saí. Eu tinha dez anos quando encontramos esse lugar, ficamos desde então e eu nunca mais saí aqui fora.

─Está segura, não tem perigo.

Começamos a descer, ela sempre ao meu lado, são umas horas de caminhada apenas, não é grande coisa. A cada barulho da floresta ela se apavora, usa tênis, nada seguro para andar no meio da terra, pisar no musgo e em folhas, escorrega vez por outra e acabo tento que segura-la.

─Precisa de sapatos decentes. – Reclamo no meio do caminho, ela me olha assustada, eu tenho esse jeito meio bruto as vezes, respiro tentando sorrir. – Minha mãe arruma um para você.

─Benjamin, está certo sobre me receber? Seus pais vão aceitar isso bem? – Afirmo, não tenho a menor ideia, mas duvido que qualquer um dos dois fosse negar abrigo a uma garota sem teto.

Quer dizer, ela tinha um teto, eu meio que a tirei dele, de todo modo eles não sabem me dizer não.

─Pode me chamar de Ben. – Ela afirma. – Não se preocupe, vai ser bem recebida.

Paro para ela descansar no meio do caminho, são mais duas horas de caminhada. Ela toma água olhando em volta. Escuto o barulho comum a zumbis, quanto mais perto de Alexandria, mais chances de encontra-los. Vejo seu rosto empalidecer quando um zumbi surge.

Armo a besta e acerto sua testa, se não estivesse na trilha para casa apenas ignoraria, mas é trabalho de todos manter a região limpa. Sigo até ele e pego minha flecha de volta.

─Está tudo bem?

─Sim. É só que nunca mais tinha chegado tão perto.

Entramos em Alexandria perto da hora do almoço, aceno para Mich que fazia a segurança do portão. Ela sorri ao me ver.

─Carl está bem. Prometeu vir no fim de semana.

─Que bom. Obrigado Ben.

Entramos em minha casa. Sally olha tudo a sua volta. A casa está vazia e silenciosa.

─Vou encontrar meus pais e volto logo, descansa, não demoro.

Saio correndo sem esperar resposta, quero ter a chance de conversar com eles antes. Encontro meu pai na oficina, ele é bom em consertar todo tipo de motores.

─Pai. – Ele me vê, sorri e ganho um abraço.

─Como é bom te ver.

─Cadê minha mãe?

─Trabalhando, ela, o Rick e a Maggie estão contabilizando o estoque. Vou pegar sua irmã na escola e encontrar com ela.

─Vou junto.

─Tudo bem. Como foi tudo?

─Pai eu trouxe uma garota. – Solto a bomba de uma vez, ele larga tudo que está fazendo e me olha surpreso.

─O que... O que disse? Entendi direito? Encontrou uma sobrevivente na estrada e...

─Não, Sally morava no Morro, agora vai viver aqui, os pais morreram, ela ficou sozinha, eu... Ela pode ficar, não é?

─Você diz ficar lá em casa?

─É.

─Ben, eu não sei, só tem seu quarto que divide com a sua irmã, não sei, a casa é pequena.

─Talvez ela goste de casas pequenas, eu gosto. – Meu pai sorri.

─É, você gosta.

─Durmo na sala e ela fica no quarto com a Mel, só até...

─Até?

─Não sei bem.

─Gosta dela?

─Ela me irrita. É indefesa, não se acha muito merecedora de estar viva. – Conto a ele. Meu pai me olha nos olhos com um meio sorriso que me constrange.

─Sua mãe também me irritava. Pelo mesmo motivo.

─O que fez?

─Beijei ela. Depois que comecei nunca mais parei.

─Ah!

─O que pretende? Vocês dois... É um namoro? Mais do que isso? Sua mãe vai ter um treco.

─Talvez eu queira beijar ela, não ainda, ela é bem bonita pai, mas não quero que ela pense que foi por isso que eu trouxe ela, então vamos esperar e ter certeza, é melhor ela estar aqui do que eu ficar indo e vindo para saber se está bem.

─Isso, guarda essa, essa é boa para convencer sua mãe, é só dizer que ficaria indo e vindo que ela traria até um zumbi para morar com a gente para evitar isso.

Vamos ao encontro de minha mãe. Meu pai fica rindo de mim enquanto conto a ela que tem uma garota em casa e que ela vai morar lá, explico todos os motivos.

─A menina está grávida?

─Não mãe. Que coisa, ideia besta, acabei de falar porque ela veio. Não vai ficar falando essas bobagens vai? – Ela me abraça pela quinta vez no último minuto.

─Ela é bonita? Que idade?

─É linda, tem dezessete, mas isso não importa, eu só queria ajudar.

─Ben. Você é mesmo muito solicito, eu te conheço.

Chegamos os três na porta da escola, Mel me vê e sorri, corre para mim e penso que já odiei a ideia de ter uma irmã e hoje é a coisa que mais amo na vida.

─Ben. – Eu a abraço. – Fiquei com saudade, nem conseguia dormir, fui dormir com a minha mãe e o meu pai, depois eles me levaram dormindo.

─Estou aqui, vou demorar para sair de novo agora. – Vamos caminhando para casa. Quando entramos Sally está de pé na sala olhando a decoração.

─Quem que é essa moça? – Mel pergunta.

─Pai, mãe, Mel, essa é a Sally. Sally, esses são meus pais, Daryl e Clarie e minha irmã Mel.

Sally fica toda vermelha de vergonha, minha mãe a abraça, Mel faz o mesmo e depois das apresentações vamos para cozinha.

─A casa é linda, adorei a sala aconchegante.

─A poltrona é do Ben. – Mel avisa. – Se ele deixar pode dividir com ele, vocês são namorados então acho que tudo bem.

─Mel. – Quero morrer de vergonha. – Não fala assim, não somos namorados, gosta quando ficam falando que vai namorar o Hershel?

─Eu gosto, ele que não gosta.

─Ei mocinha! – Meu pai implica com ela.

─É, não tem nada de gostar disso, Maggie fica colocando coisas na sua cabecinha. Agora que a Sally está aqui você não precisa mais ficar na Maggie quando não tiver ninguém em casa.

─Eu fico com a sua namorada? – Ela ri, não sei quem ela puxou esse bom humor, só pode ser da minha mãe, porque eu e meu pai passamos longe disso.

Pretendia brigar com ela, mas então olho para Sally e ela está sorrindo, tem um sorriso tão bonito e meu pai e minha mãe também sorriem e Mel tem aquela risada ampla e viva e gosto de estar ali, cercado das pessoas que me importo, vendo sua alegria, não me importo com mais nada.

Quem sabe Sally um dia não seja mesmo minha namorada? E Hershel o namorado de Mel? O que isso importa? Eu vivi como menos que lixo, agora tenho casa, família, amigos, sou feliz e não vou perder isso.

As marcas em meu corpo podem até contar uma história triste, mas meu coração conta outra história, a história de um menino que venceu e devo isso a Daryl e Clarie, meus pais.

Meus pais se beijam depois de um longo olhar, é bom Sally se acostumar, é isso toda hora. Mel começa a tagarelar sobre seu dia, meus olhos encontram os da minha mãe, eles sorriem para mim emocionados, depois encontram os do meu pai, sinto seu orgulho pela família que construiu. Então meus olhos encontram os de Sally, meu coração dispara, definitivamente ela mexe comigo. Talvez essa seja a nova fase da minha vida, um recomeço, não vou fugir e me esconder, seja o que for estou aqui pronto para viver.

Notas finais
OBRIGADA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Nem sei como agradecer todo mundo que chegou até aqui. O Bônus continua. Posto amanhã. BEIJOSSSSSSSSSSSSS
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!