Resumption
61 Capítulo 61
Notas iniciais
Pov – Daryl
Abro os olhos e a primeira coisa que penso é que tenho que ir mais uma vez em busca de suprimentos e isso me preocupa sempre. Depois que fiquei sabendo da gravidez, sair sempre me assusta. É a última saída. Antes que o frio fique insuportável e perigoso.
O bebê de Maggie está prestes a chegar e depois de hoje nosso objetivo é ficar. Disse ao Glenn que não precisava ir, mas ele não consegue. Depois da morte de Aiden e Noah, Glenn sempre acha que temos que ficar juntos e não confia em ninguém de Alexandria.
Clarie se move na cama. Sua mão me procura e sorrio. Ela está cada dia mais linda. Um tanto emotiva e sonolenta, mas sempre carinhosa e preocupada. Me esforço para estar por perto. Agora que a barriga de seis meses é tão evidente Benjamin está distante e ansioso.
Acho que na cabeça dele quando o bebê nascer ele perde a serventia e é esquecido. Não ajudo muito nisso. Ainda não consigo ser muito presente na vida do bebê. Ele me assusta mais do que uma horda de zumbis. Tenho medo do que ele pode me tirar ao mesmo tempo tenho medo de perde-lo.
Preciso achar um berço, arrumar o quarto para recebe-lo, Clarie não pede, mas sei que ela quer isso e estou sempre deixando para depois. Assim como Benjamin eu ainda finjo que ele não existe e não sei até quando isso vai durar.
─Bom dia. – Ela diz se aconchegando em meus braços quando abre os olhos. Beijo seus lábios e a abraço.
─Como se sente? – Pergunto todas as manhãs com medo de algo estar errado.
─Bem. Preocupada. Com medo de como vai ser lá fora. Com saudade antes mesmo de te ver sair.
─Eu sei. Não gosto disso, mas que escolhas temos?
─Nenhuma. – Ela se move. Seus olhos buscam os meus. – Daryl ando tão preocupada, está dormindo bem?
─Sim. Por que?
─Dorme e acorda na mesma posição. Tem tanto medo de me machucar a noite que nem se move. Fico pensando que passa a noite acordado.
─Eu durmo. Só acostumei a tomar cuidado. Meu subconsciente está treinado.
─Você não pode me machucar só se movendo, então não se preocupa com isso.
─Já disse para me deixar fazer minha parte. Com fome?
─Até que não. De qualquer modo tenho que acordar o Ben para a escola.
─Deixa ele aqui com você hoje. Se fica sozinha eu me preocupo.
─Ele ama a escola. Não quero tirar isso dele. Tem poucas coisas que ainda o fazem sorrir. Eu fico com a Maggie. Uma cuida da outra e o Eric vai nos dar um oi toda hora.
─Tudo bem. – Não quero pressionar demais e acabar por assusta-la, já faço isso quase o tempo todo implicando com escada, panela quente e proibindo Clarie de trancar a porta do banheiro e uma lista de recomendações que ela acata sorrindo mesmo que ache bobagem. – Vem eu te ajudo a levantar.
Uma vez ela ficou de pé e quase caiu numa tontura e agora não consigo evitar a preocupação.
Me levanto e a coloco de pé, espero um segundo olhando seu rosto sorridente em busca de algum sinal de um possível desmaio. Ela aguarda paciente que eu me sinta seguro.
─Tudo em ordem? – Pergunto preocupado.
─Perfeitamente, mas preciso ir ao banheiro.
Solto Clarie, antes de me deixar ela me dá um beijo. Começo a arrumar minhas coisas. Deixo tudo em ordem para sair. Mochila, flechas e besta. Odeio deixá-los.
Quando tudo está pronto eu espero que saia do banho e ela me sorri. O sorriso se desfaz quando vê minhas coisas prontas sobre a cama.
─Desculpe fazer isso. Depois dessa vez....
─Vai de novo todas as vezes que precisar e não tem culpa, apenas é o mundo que temos. Só me importa que volte.
─Prometo. – Abraço Clarie. Seu rosto delicado me fita com olhos tristes. – Amo você Clarie. É a garota mais corajosa que conheço.
─Foi o homem de lata que me deu isso.
─Aquele para quem você ofereceu um coração?
─Esse mesmo. Agora vou lá acordar nosso pequeno OZ. – Rio com a ideia. Fico da porta assistindo ela se sentar à beira da cama e acariciar os cabelos de Benjamin que abre os olhos manhoso e fica ali quietinho ganhando carinho. Sempre tão ávido por um carinho.
─Já tenho que levantar mãe?
─Sim. Se arrumar e ir para a escola.
─Meu pai vai sair?
─Vai.
─Então eu não vou na escola. Fico cuidando de você.
─Obrigada, mas vou ficar com a Maggie. – Ele faz careta.
─Ela ainda é um pouco chata mãe e muito respondona.
─Muito! – Clarie brinca. – Quando sair da escola voltamos para casa só nós dois e esperamos seu pai aqui.
─Eu te busco na Maggie?
─Não garotinho. Eu te busco na escola.
─Certo mãe. – Ele fica de pé. Me vê e acena, me faz sorrir.
─Vejo vocês dois lá em baixo. Ajuda sua mãe na escada? – Aquilo sempre deixa Benjamin se sentindo importante.
Desço na frente, o dia está frio e visto a jaqueta que Clarie me deu. Boas lembranças de quando queríamos ser mais do que éramos um para o outro.
Logo vejo os dois descendo, Benjamin segurando a mão de Clarie. Sei que ele não é forte o bastante para segura-la, mas ele sabe o que fazer numa emergência, correr ao encontro da doutora ou qualquer adulto que possa ajudá-lo. No caso de zumbis... meu coração se aperta. No caso de zumbis se trancar em segurança com ela.
Clarie e Benjamin tomam café com leite enquanto tomo apenas uma xicara de café quente. Ela me estende um embrulho em papel laminado e escondo um sorriso.
─Fiz para levar, sei que pode acabar preso ou tendo algum problema. E água. – Ela me estende uma garrafa de água. Pego tudo e enfio na mochila.
─Achei que o Eric é que providenciaria isso.
─Muito engraçado. – Ela diz passando os braços por meu pescoço. – Eric é sempre intrometido se ele te oferecer comida diz que eu já fiz.
─E magoar o Eric? Nunca. – Beijo Clarie arrependido de provoca-la. Sua cara de decepção é absolutamente honesta. Isso não é brincadeira para ela. – Vou dizer que a melhor cozinheira do apocalipse cuida da minha alimentação.
─Com todo amor do mundo.
─Sempre. Toda perfeitinha também. – Ela se encosta em mim e sinto sua preocupação. É uma droga de mundo esse nosso.
─Vamos levar o Ben. – Deixamos a casa os três. Ben me olha tenso quando se vê na porta da escola. Meu garotinho. Não gosto de despedidas. Elas sempre trazem dor. Gosto de pensar que não tem nada se aproximando. Afago seus cabelos.
─Boa aula. Te vejo a noite. – Ele afirma e meio relutante nos dá as costas. Ficamos eu e Clarie. –Vai indo para Maggie, vou conferir a moto e vou até lá me despedir. Ela sorri. Mentir para Clarie é uma grande tolice. Ela sempre sabe.
─Diga para Denise que estou me sentindo ótima. – Ela caminha para casa de Maggie e eu para a enfermaria. Denise ergue o olhar quando paro na porta.
─Seu filho está bem. Clarie está ótima e temos mais três meses de espera. Talvez mais, talvez menos, mas não hoje.
─Eu vou ter que sair e ela vai ficar na Maggie. Pode ir de vez em quando ver as duas?
─Posso. E você? Pode ajudá-la a esperar por esse bebê? Pode dar uma olhadinha nas roupas e pensar em nomes? Encher Clarie de cuidados não mostra a ela que ama seu filho. Parece muito mais que ela está em uma doença terminal e todos sabemos que ama seu filho.
Quem mandou bater na porta dela? Eu a perturbo tanto que uma hora ela iria se irritar. Não tenho como responder a isso. E então eu faço o que sei fazer de melhor. Me calo e olho para meus pés.
─Pode ir tranquilo. Cuido dela. – Ela diz voltando sua atenção aos papéis que lia.
Morgan caminhava em minha direção quando deixo a enfermaria. Espero por ele.
─Viu o Rick? – Ele me pergunta quando nos encontramos.
─Estamos de saída, então ele deve estar a nossa espera no portão.
─Eu me lembro agora. Vocês têm um mapa? Já sabem onde ir?
─Sim. Glenn cuidou disso.
─Nenhum dos dois devia ir. – Morgan reclama.
─Alguém tem que fazer isso, Glenn não confia muito nas pessoas de Alexandria.
─Nenhum de vocês dá muito chance a eles. Nenhum crédito, mas o fato é que essas pessoas estavam sobrevivendo antes de vocês. – Ergo uma sobrancelha um tanto surpreso.
─Sorte Morgan. Por pura sorte. Não vou arriscar minha família justo agora apenas para testa-los.
─Eu sei disso. Entendo isso. Acontece que Rick insiste em ensina-los a ser forte. Você e Glenn querem tratar a todos como crianças e fazer tudo por eles. Isso é um contrassenso.
─Morgan eu vou ver a Clarie e sair. Podemos discutir essas questões existenciais um outro momento? Agora o que quero é comida na mesa e muros fortes.
─Vai lá. Depois eu passo para vê-la.
─Obrigado. – Suspiro e retomo minha caminhada. Que coisa essa política. Com ou sem mundo isso é sempre uma merda. Conflitos de poder, sempre a mesma droga.
Estava ainda distante quando vejo Maggie, Glenn e Clarie saírem para varanda. Glenn beija Maggie. Depois se dobra para beijar sua barriga. Acaricia e diz algumas palavras, o grande traidor que um dia me procurou cheio de pavor ali rendido. Mesmo olhos seguem para Clarie. Ela tem um sorriso triste. Paro de caminhar. Fico ali olhando como é bonita, corajosa e sozinha. Deixei Clarie sozinha nos últimos meses.
É meu filho ali. Não uma doença. Uma parte minha que cresce dentro dela e eu tento ignorar. Fazer isso não diminui sua importância, não torna nada mais fácil, esse medo que tenho de perder sempre me carrega para o fundo do poço e eu acabo sempre perdendo antes mesmo de conquistar.
Menos Clarie e tudo que veio dela. Minha mulher tem um escudo que a protege. Uma força interna tão poderosa que ela sempre sobrevive e vai estender isso ao nosso bebê.
Não vou mais correr disso. Me esconder na indiferença, sou um Dixon e conheço isso. Foi assim comigo, e estou só repetindo os passos das pessoas que mais me fizeram mal na vida. Meus pais.
Glenn toca levemente a barriga de Clarie, seu sorriso de gratidão por ele ser gentil com nosso bebê me envergonha. Sinto raiva da minha covardia e orgulho da mulher forte que vem aguentando tudo isso paciente e carinhosa quando devia ter me atirado na rua.
Não vai mais ser assim. Vou mudar isso e Benjamin também vai. Nós vamos dar a Clarie o que ela merece. Chega de oferecer a ela apenas o que precisa.
Junto coragem para ir até eles. Glenn descia os degraus sorrindo quando me aproximo.
─Te espero no carro.
─Vou de moto. – Aviso e ele afirma. Não me espera e subo os degraus de dois em dois com pressa de voltar antes mesmo de sair. Envolvo Clarie num abraço cheio de mensagens que ela obvio, entende errado.
─Não faz isso. – Olho para ela e vejo suas lágrimas. – Não me abraça como se fosse o último.
─Não é. – Meu tom firme a tranquiliza um pouco. – Eu volto. Pode apostar todas as suas fichas nisso. Nós não vamos perder. – Beijo seus lábios e me afasto antes que não possa ir. – Cuida dela Maggie. ─Encaro a barriga enorme de Maggie. – Ou cuide da Maggie Clarie. Seja como for fiquem bem.
Aperto a mão de Rick quando já estou acomodado na moto. Nossos olhos se cruzam e não me atrevo a pedir. Não é preciso. Ele apenas afirma. É o que fazemos eu penso quando acelero seguindo o carro de Glenn com Mich, Abe e Rosita.
A estrada está limpa e seguimos sem grandes problemas, passo à frente no meio do caminho e acelero um pouco, tento não pensar muito em tudo que me espera em casa.
Me concentro no caminho e no que temos que fazer. Isso já é coisa demais. As horas seguem e quando chegamos três horas de estrada tinham ficado para trás. A cidade não é grande, tem suas pequenas lojas e ruas cheias de lixo, tudo se deteriorando com a ação do tempo.
O que meus filhos vão encontrar quando um dia tiverem que estar aqui fora. O que vão saber sobre a antiga civilização que um dia povoou esse mundo? Afasto o pensamento e desço da moto diante de uma parede de vidro.
─Muito grande. Acha boa ideia? – Pergunto a Glenn que observava pelo vidro sem conseguir enxergar muito. Era uma enorme loja de departamentos.
─Deve ter muito aqui. Um lugar só seria melhor. – Mich e Abe se afastavam em direções opostas para olhar um pouco a região. Tudo parecia calmo ao extremo.
─Que tal entrarmos antes nas lojas aqui. – Rosita aponta as lojas em frente do outro lado da rua. Não seria má ideia. São pequenas lojas e estão em bom estado. Portas e janelas inteiras. – Diante de uma loja como essa aí, quem perderia tempo com os pequenos comércios?
─Rosita pode estar certa Glenn. Vamos vasculhar tudo aqui primeiro. – Ele aceita. Mich cortava uma cabeça e tinha mais uma vindo para ela. Num minuto eram duas cabeças abrindo e fechando a boca rolando pelo chão. – Vamos logo.
Vamos os três juntos enquanto Abe e Mich cuidavam do perímetro.
A primeira loja está em ótimo estado e conseguimos muitas coisas. Descongelante, óleo para carros, fósforos, não paro para listar, apenas atiro tudo que encontro em um saco grande, Rosita fica na porta. Glenn está ao meu lado fazendo o mesmo e deixamos a loja em cinco minutos. Ao lado um café. Encontramos mais algumas boas coisas e levamos mais dez minutos para recolher tudo e atirar no carro.
A terceira parecia bem trancada. Olho para Glenn.
─Arrombamos? – Pergunto com medo do barulho.
─Daryl eu quero ir para casa e não ter que voltar tão cedo.
Acerto a besta na vidraça e o vidro se espatifa em mil pedaços. Invadimos e o que vejo é um pedaço do paraíso. Alguém estava armazenando coisas ali. Caixas com água. Comida enlatada, macarrão instantâneo, kit de comida desidratada do exército.
─Porra isso é incrível. – Digo abrindo caixas e mais caixas. – Pelo pó isso está aqui desde o começo. Alguém começou algo que não pode terminar.
─Certo. Vamos carregar tudo. Tem suprimentos, remédio, sacos de dormir, barracas. Um estoque e tanto.
─Deve ter umas quinze caixas aqui. – Começo a carregar a picape. Glenn e Rosita fazem o mesmo. Atrás de todas elas tem duas caixas cobertas por edredons. Troco um olhar com Glenn. Ele dá de ombros. Puxo o edredom e são armas e munição. – E não é que Deus lembrou da gente.
Pegamos um de cada lado por conta do peso. Colocamos a primeira no carro e voltamos para buscar a segunda. Rosita sorria vitoriosa.
─Alguém pode por favor me agradecer? – Ela pede e Glenn e eu sorrimos.
─Te amamos Rosita! – Glenn brinca quando erguemos a outra caixa.
─Obrigada. Eu levo o combustível. – Ela brinca apontando dois galões de vinte litros. – Ou vocês fazem isso! – Ela diz quando tenta erguer.
Quando chegamos Mich caminhava em nossa direção com passos apressados. Eu sabia que estava bom demais.
─Barulho demais com essa vidraça. – Ela diz tensa. – Abe vem vindo. – Olhamos para o outro lado e ele parece apressado também.
Volto para dentro da loja e pego o combustível. Nunca se sabe quando vamos ter sorte de encontrar mais disso. Jogo no carro e os primeiros zumbis começavam a surgir pelos dois lados da rua.
─Que merda! – Glenn reclama. – Estamos cercados.
─Entrem no carro e fiquem prontos. Vou de moto pela lateral, eles me seguem e passam, eu pego a floresta e encontro vocês em casa.
─Daryl...
─Não dá tempo Glenn! – Eu reclamo sabendo que de moto corro mais risco ao mesmo tempo que tenho mais chances.
─Coquetel Molotov – Rosita diz pegando o galão de combustível. – Depois que passarmos atiramos e eles desistem da moto por conta do barulho e o fogo. – Ela vai dizendo rápido enquanto rasga a própria camiseta e então a parede de vidro a nossa frente explode e zumbis começam a sair. – Vamos! Eugene me ensinou muito. Vai dar certo.
É o que espero. Corro para a moto e Abe atira derrubando três zumbis que se aproximavam de mim. Acelero ainda ouvindo as portas dos carros baterem atrás de mim. Todos no carro.
Acelero em direção aos zumbis. O que estou fazendo. Prometi a Clarie que voltava. Faço a curva quando estou perto o bastante para chamar atenção e longe o suficiente para não ser tocado. Os zumbis começam a me acompanhar e é horrível não poder acelerar para longe deles.
Preciso levar Glenn de volta ou Maggie não suportaria. Eles vêm lentos e irritantes atrás de mim. Quando começam a me seguir virando a esquina acelero um pouco. Vou até o fim do quarteirão. Está limpo felizmente, se não estivesse eu acabaria encurralado.
Volto para eles. Acelerar a moto em direção aos mortos é estranho, mas não é algo que nunca tenha pensado em fazer. Já passou pela minha cabeça algumas vezes em momentos cruciais, mas não hoje. Hoje quero desesperadamente viver para Clarie e meus filhos.
Sinto vontade de sorrir quando penso em minha família e faço mais uma vez a curva, os zumbis dobraram a rua atrás de mim, escuto o som do carro cruzar o quarteirão e sei que conseguiram, depois tem uma grande explosão e vejo o fogo lamber alguns zumbis pelo retrovisor.
Posso finalmente acelerar sem medo e achar um caminho para longe daquela bagunça, é o que faço, atravesso a cidade e depois pego a estrada contornando aquela porcaria de cidade dos mortos.
Sigo acelerando o máximo que posso e uma hora depois vejo o carro na estrada, eles diminuem a minha espera. Emparelho e Glenn sorri pelo vidro.
─Valeu! – Ele diz me olhando rápido.
─Só vamos logo para casa. – Digo passando a frente e ganhando mais velocidade. Agora é só não parar e mais uma hora vou estar com ela. Vou estar com eles.
Eu gostava de ver as torres de vigia quando me aproximava da prisão, mas nada se compara a minha felicidade ao ver os muros de Alexandria. Ela me deu isso e vou retribuir mostrando a Clarie que eu a amo e amo o filho que ela carrega. O meu filho.
Digiro sem parar até a porta de casa. O resto do grupo que cuide das coisas só quero mesmo tranquilizar Clarie e Ben. É fim de tarde e sei que estão preocupados. Já aceito essa parte, que alguém se importa com o que me acontece e isso é reconfortante e ao mesmo tempo alarmante porque Clarie e Ben são as únicas pessoas que não quero ver preocupados.
Quando desço da moto os dois já estão na varanda. Ergo Ben no colo e ele estranha um pouco. Não faço muito isso. Puxo Clarie para meus braços. Ela me abraça.
Sinto uma mistura de alivio e medo. Toda vez que vou lá fora eu sei que pode ser para sempre. O dia de hoje só reafirmou isso.
─Cuidei de tudo pai, mas minha mãe chorou mesmo assim.
─Tudo bem, agora as lágrimas vão embora. – Beijo Clarie. Coloco Benjamin no chão e entramos os três. Fecho a porta. – Foi um ótimo dia. Encontramos muitas coisas.
─Não ligo a mínima. – Ela diz com um lindo sorriso. – Só quero você aqui.
─Eu disse que não íamos perder e não vamos. – Me sento com ela ao meu lado. Clarie se encosta em mim. – Está bem?
─Sim. – Ela diz tocando meu rosto. – Vocês dois estão aqui. Então o que pode dar errado? – Ela me beija mais uma vez. Ben se senta em sua poltrona.
─E você Ben? Tudo deu certo na escola?
─Foi tudo legal, eu fiz um desenho. Você quer ver?
─Quero. – Ben sobe as escadas animado.
─Ele desenha bem, vai ficar impressionado. – Clarie me conta. – Nosso menino tem talento. Uma pena que... – Ela suspira. – Para que serve isso afinal?
─Muitas coisas. O que acha que é? – Pergunto a ela que me olha com a testa franzida como se não entendesse o que digo.
─O que eu acho que é? Sobre que?
─Nosso bebê. O que acha que é? – A boca abre e os olhos cintilam pelas lágrimas. Ela não consegue dizer nada, está surpresa e será uma surpresa atrás da outra de agora em diante porque vou ser um bom pai. – Quero que seja uma menina, assim vamos estar completos.
─Daryl... – Ela seca lágrimas que rolam, eu a ajudo a secar aproveitando para acariciar seu rosto.
─Vou providenciar o berço amanhã. – Ela afirma. O rosto se ilumina. – Pensei em colocar um tempo no nosso quarto. Ele vai chorar a noite e vai atrapalhar o sono do Ben.
─O que aconteceu lá fora? – Ela me pergunta e dou de ombros.
─O de sempre. O que importa é o que está acontecendo aqui dentro.
Coloco minha mão sobre sua barriga, não é a primeira vez que a toco é claro, mas é a primeira vez que toco meu filho. Esse não é um carinho em minha mulher. Esse é um carinho em meu filho. Ela sabe disso. Sua mão cobre a minha. Seus olhos encontram os meus e acho que finalmente ela está feliz.
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