Resumption
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Pov – Clarie
A morte de Atlanta foi rápida, num instante a cidade caiu e não restou nada além de cinzas, e os mortos caminhando em vão, na macabra sina de caçar vida humana e mastiga-la até a morte.
O ciclo da vida e suas mudanças, morrer não é mais o fim, é pelo contrário apenas o começo. Fico na janela, os olhos fixos na cidade destruída, na morte que passei em baixo enquanto eu fico ali, dia após dia, mês após mês, invejando os mortos e seu andar frenético.
Se tivesse coragem, se não fosse apenas o arremedo do que um dia eu fui, talvez já tivesse me atirado ao poço do elevador, num salto para o infinito, quantas vezes não sonhei com isso?
Mas não fiz, eu não fiz nada, eu fiquei, eu fico, sem qualquer sinal de esperança eu apenas aceito o destino que me foi traçado.
Nada muda no Grady desde que o mundo acabou, somos os brinquedos dos policiais, a razão porque continuam a ir lá fora buscar pessoas e recursos, as coisas ficam boas para eles, não importa o quanto digam que esperam por uma salvação, eles não se importam.
Seco uma lágrima, não sei porque elas ainda insistem em cair, já deviam ter me abandonado, mas elas ainda inundam meu rosto a cada vez que um daqueles monstros invadem meu quarto sem se importar com qualquer coisa que não seja seus desejos.
Penso em minha mãe, no seu pedido, ela não sabia que o mundo estava acabando, não tem como ser feliz, não agora.
Quando Dawn assumiu o poder eu achei que as coisas melhorariam, era finalmente uma mulher no comando, ela olharia por mim, por todas nós, mas não aconteceu, Dawn fechou os olhos e fingiu que não estava acontecendo.
─Para de chorar sua tola, nada vai mudar.
Digo em voz alta tentando com isso me consolar, mas não é o que acontece.
Não tem ninguém ali com quem eu suporte conviver, me encolho e me escondo dia e noite, Noah é o único que consigo olhar com algum respeito, mas não somos amigos, não sou amiga de ninguém todos os bons estão mortos, ele não deve ser assim tão melhor.
Respiro fundo para conter as lágrimas, a noite começa a cair e me preparo para mais uma ronda pelos quartos, depois talvez eu possa me recolher finalmente.
Passo nos três quartos com pacientes, faço o que o doutor Stevens me mandou, e então quando caminhava para voltar para meu quarto Gordmam chega trazendo mais uma pessoa.
Uma pequena confusão começa, o doutor faz o primeiro atendimento com minha ajuda, um pulso quebrado, uma leve cicatriz no rosto.
─Ela bateu a cabeça. – Ele avisa o médico, qualquer idiota sabe não foi isso, aposto que foram eles que a feriram apenas para poder trazer a moça, é jovem, louca e tem um rosto angelical, aqueles homens nunca resistiriam a ela.
─Não é nada grave. – O médico avisa. – Ela vai ficar bem.
─Clarie, limpe e troque ela, coloque no soro e vamos ver se acorda. – Dawn ordena quando todos saem da sala de traumas. – Leve para um quarto.
Ela nem mesmo me encara, não porque me é indiferente, mas porque sabe o que acontece e não consegue nos olhar sem que a culpa a domine.
Empurro a maca para um dos quartos, tiro a roupa da jovem, um blusão cinza, rasgado e sujo, uma camiseta polo amarela e manchada de sangue. Botas e jeans. De onde ela vem? Como uma jovem pequena e delicada pode ter sobrevivido todo esse tempo lá fora?
Limpo seu corpo, coloco nela as roupas do hospital, mas podiam ser uniformes de detentos, não somos mais do que isso. Escovo os longos cabelos e então depois de conferir o soro eu a observo um instante, se soubesse o que a aguarda nunca mais acordaria.
Deixo o quarto e sigo para o meu canto, rezando para não ser lembrada, vou direto para a vidraça, mais uma vez.
─Me esperando? – A voz de Gordmam invade o quarto me causando enjoo, naturalmente sinto meu corpo tremer, não consigo me acostumar como muitas que passaram por aqui.
─Preciso dormir. – É uma tola tentativa, ele não se importa, nenhum deles.
─E a loura? Acordou? – Ele pergunta enquanto afasta meus cabelos e seus lábios tocam meu pescoço, nego em silencio, para o bem dela desejo que não acorde nunca.
─Acho que vou te deixar um pouquinho de lado quando ela acordar.
A língua dele passeia por meu pescoço, depois é o de sempre, não demora muito para acabar, ele sobe as calças, satisfeito e despreocupado, me dá as costas e deixa o quarto, visto as roupas com pressa, me encolho na cama sem mais lágrimas para chorar.
─A moça acordou. – Noah me diz quando levo as roupas de um dos pacientes para a lavanderia, não respondo nada, não gosto muito de falar. – O nome dela é Beth, ela vai se sentir sozinha aqui.
─Preciso de um uniforme limpo, o senhor Tomas me sujou.
Ele sorri, sabe que não vou esticar a conversa, não sei porque insiste.
─Aqui. Podia fazer amizade com ela, seria bom.
─Obrigada Noah.
─Um dia vou embora Clarie, você também pode ir. – Paro para encarar Noah, ele chegou há um ano, já me disse isso uma dezena de vezes, nunca se moveu para partir, porque junto agora conseguiria?
Deixo a lavanderia sem responder, sigo para meu quarto, me visto porque sei o quanto Dawn não suporta uniformes sujos e o que isso pode me render.
É hora da refeição, nunca como muito, não que faça diferença já que minha dívida mais cresce que qualquer outra coisa. Beth, é um nome suave, assim como seu rosto, mas isso vai desaparecer muito rápido, logo sua fé e juventude serão engolidos e ela nem vai se dar conta.
Nos cruzamos no corredor, ela estava acompanhada do doutor Stevens.
─Clarie, essa é Beth, ela vai ajudar como enfermeira, estou ensinando tudo a ela, se ela precisar de alguma ajuda esteja a disposição.
─Sim doutor.
Baixo minha cabeça e volto a caminhar em direção ao meu quarto, Gordmam me esperava na porta, meu coração começa a bater fora do ritmo, ele me sorri e sinto ânsia de vômito.
Ele me pega pelo braço, me empurra para dentro do quarto, fecha a porta atrás de si.
─Tenho que medicar um paciente.
─Depois.
─O doutor vai ficar bravo, Dawn não vai gostar nada se disser que perdi o horário da medicação.
─que se dane. – ele me empurra contra a parede, tento me esquivar, recebo um tapa no rosto, aquilo queima, mal me equilibro e logo vem outro. – Va cuidar do seu paciente, vadia.
Ele sai batendo a porta atrás de si, me ergo tentando me recompor. Dawn entra no quarto.
─É assim que paga por todo cuidado e proteção? Fazendo corpo mole?
─Gordmam esteve aqui, ele... eu não queria...
─O que te custa ser generosa com eles? Cada um tem um trabalho aqui, estamos tentando fazer isso funcionar, quando a ajuda chegar, quando as coisas se resolverem então vai querer os frutos não é?
─Diz isso porque não é com você. – Vejo os olhos dela cintilarem de ódio, sei o que ganho com isso, mas não me importo, não mais. O tapa que recebo é tão forte quando o de Gordmam.
─Vá fazer seu trabalho de uma vez.
Eu obedeço, sem escolha faço o que tenho que fazer e depois me encolho em meu canto, Gordmam não vem e só posso ficar grata.
Nos dois dias que se seguem quase não encontro com Beth, nos cruzamos vez por outra no corredor, meu trabalho continua o mesmo, dias sem fim e noites de terror.
Quando encontro Beth depois de dar o café para os doentes ela tem o rosto marcado, já começou, sinto pena, ela nota meu rosto ferido, somos iguais, mas eu sempre vivi nesse inferno.
─Oi. – Ela cumprimenta, sorrio um tanto forçado. – Está aqui a muito tempo?
─Desde sempre. – Respondo abatida.
─Onde vai? – Ela questiona.
─No terraço m pouco.
─Posso te acompanhar?
Dou de ombros, tenho um tempinho livre e sempre gosto do silencio que encontro ali, será bom ensinar a ela um refúgio para os dias insuportáveis.
─Dizem que foram bombas de napalm, viu acontecer? – Ela me pergunta e afirmo. – Gosta daqui?
Ergo meu olhar, ela nota e afirma. Sei como se sente, se não aconteceu vai acontecer.
─Vou pagar minha dívida e partir, não pedi para ser salva, mas não quero dever nada a ninguém e vou embora.
─Não vai conseguir, ninguém consegue, todo mundo sempre volta.
─Esse lugar é o inferno, chega disso.
─Noah está sempre dizendo que vai partir, um ano disso, e onde ele está?
─Bom saber, gostei dele, foi gentil comigo.
Fico mais uma vez calada, olhando a morte caminhar lá em baixo, suspiro.
─Homens. – Digo com certa raiva.
─Já entendi como as coisas são aqui, vem comigo.
─Você veio de onde?
─De uma prisão, de uma família, das ruas, de tantos lugares, sei me virar, aprendi com o melhor homem que esse mundo já viu.
─Seu marido? Namorado?
─Daryl Dixon. – Ela sorri quando diz o nome. – um homem corajoso e justo, meu melhor amigo, irmão, pai, metade de mim por um bom tempo lá fora, mas não um marido ou namorado, era muito maior que isso.
─Entendo, talvez. Acho que minha mãe era um pouco isso para mim.
─Vê. Não se trata de homem e mulher, e ele está lá fora me caçando, tenho que encontra-lo, Daryl não sabe viver sozinho, ele precisa de mim.
─Como vão se encontrar? – Ela da de ombros.
─Primeiro esperança, acredito e isso é um grande passo, depois ele é um rastreador, deve ter alguma pista de mim, disseram que eu estava sozinha, mas não é verdade, ele nunca me deixaria e sei que estava por perto.
─Confia muito nele.
─Daryl me ensinou tudo, ele é capaz, além disso é leal, um homem que se pode confiar, vai me achar, vai achar o restante da nossa família. E vamos achar um lugar e recomeçar, não será a primeira vez.
─Nunca saí daqui.
Agora seu olhar é de assombro, ela me encara chocada.
─Cheguei aqui pouco antes do caos, nunca mais consegui sair, só uma vez caminhei para o portão juntando minha coragem, me pegaram pouco antes de um zumbi avançar sobre mim, eu queria que ele tivesse conseguido.
─Não diz isso, pode aprender a se defender, não é impossível viver lá fora, por pior que seja será livre.
─Nunca matei um zumbi, nunca nem mesmo estive perto deles, nunca precisei buscar comida, eu simplesmente não sei viver nesse mundo e só quero que acabe de uma vez.
Um nó se forma em minha garganta, Beth percebe, ela se senta ao meu lado, aperta minha mão e depois me mostra o pulso.
─Foi logo que tudo começou, na fazenda do meu pai, quando me sentia como você. Não deu certo, a fazenda caiu, foi invadida por zumbis, ficamos nas ruas, caçando comida e abrigo, chegamos a uma prisão, começamos a construir um pequeno paraíso, com plantação, crianças, e um mundo de sonhos, então um inimigo surgiu e perdemos tudo.
─Sinto muito, parece que era um bom lugar.
─Era, e no fim acabamos apenas eu e Daryl, e um dia eu acabei sozinha tentando deixar uma casa que estava dominada por zumbis e acabei aqui.
─Eu queria ter uma chance a mais, mas acontece que não tem, isso é o fim da linha.
─Não para mim. – Beth fica de pé. – Não fui criada para desistir.
Me levanto assim como ela, Beth chega a me dar um pouco de esperança, será que tenho uma chance?
─Vem, vamos descer, temos trabalho, não podemos dar espaço para mais agressão.
Ela toca o rosto marcado tanto quanto o meu.
─Eu sou forte, não importa o que façam, e você pode ser também.
Ergo meu olhar, pela primeira vez me sinto capaz, se aquela garota franzina e de aparência delicada pode sobreviver a tudo isso eu também posso.
Os dias que se seguem são como sempre foram, mal encontro Beth, muito menos Noah, apenas a mesma violência de sempre, o mesmo horror que vai minando a coragem que Beth conseguiu incutir em mim.
Passo com a comida dos doentes, o doutor Stevens está fazendo seu trabalho, parece mais tranquilo, já vi que ele tenta se aproximar de Beth.
Vou para cama no começo da noite.
─Clarie. – Me viro para encarar Bob invadindo meu quarto, dou uns passos para perto da parede quando ele fecha a porta atrás de si.
─Gordmam vai ficar bravo. – A voz baixa arranca dele risos.
─A loura conquistou o coração de Gordmam, fizemos um acordo de cavalheiros, ele disse que você poderia me servir por um tempo.
─Eu... não... Por favor, tenho que sair...
Me desespero, não suporto isso, as lagrimas começam a correr e ele só fica mais satisfeito.
Quando me empurra de encontro a cama só consigo fechar os olhos e chorar, não sei quanto mais posso suportar disso.
─Clarie! – A porta se abre umas horas depois, Beth entra sorrateira e só de ver um rosto confiável me entrego a uma crise de choro, ela me abraça, soluço, desde a morte de minha mãe que não recebo um abraço, um carinho. Soluço.
─Não quero mais ficar aqui, eu só quero me jogar no poço do elevador.
─Vem comigo, vamos deixar esse lugar e você vem comigo e com o Noah.
─Vou atrapalhar tudo! – Soluço, ela me abraça mais uma vez.
─Não deixo ninguém para trás, vou te ajudar.
─Prometa que não vai se arriscar por mim, se não aparecer, se ficar para trás, apenas vá embora.
─Tudo bem.
Me acalmo, ela aceita o meu medo, me promete ajuda, confio nela e em Noah, quando me acalmo ela vai para o próprio quarto.
Fico em alerta, não demora mais do que dois dias para Beth me dar um sinal, Noah e ela tinham planejado tudo, meu coração acelera.
Termino de medicar o paciente e deixo o quarto, caminho em direção ao poço do elevador, chega do inferno que é viver no Grady Memorial.
Chega de todos os esquemas de abuso e violência, torcendo os dedos em busca de coragem caminho para o tenebroso poço do elevador.
─Onde está indo? – Bob me pega pelo braço, fico tensa, pálida, seu olhar fica severo. – Onde vai? – Ele insiste.
Noah merece uma chance, Beth tem conseguido se esquivar desde que chegou, não posso por tudo a perder, não posso tirar a chance deles de tentar.
─Para o quarto.
─Ótimo, tenho uma hora livre, vamos.
Ele me arrasta para longe do meu sonho de liberdade, sou mais uma vez apenas a presa fácil.
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