Resumption
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Pov – Daryl
Eric estava na garagem quando chego. Eu apenas o cumprimento com um movimento de cabeça.
─Aiden... Clarie devia ter contado. O que fez foi bom, acho que deu uma boa lição nele. – Eu afirmo sem olhar muito para ele, me concentro em apertar parafusos. – Ela é um pouco como você. – Eric ganha meu olhar. – Fechada, cheia de segredos.
─Coisas que não gosta muito de contar, não segredos. – Ao menos eu sei de tudo, não precisamos falar sobre os detalhes.
─Ficou pronta? – Ele aponta a moto mudando de assunto.
─Sim, mais tarde vou testar só estou conferindo.
─Aaron sabe se cuidar, mas eu fico feliz que é você a ir com ele. Me parece o tipo que não deixa amigos para trás.
─Eric! – A voz de Aaron vinda de dentro da casa o desperta, ele sorri. – Eric!
─Bom trabalho, só vim mesmo deixar sanduiches para você e Clarie. Ela vem? – Afirmo, ele sorri. – Certo, te vejo mais tarde. – de novo Aaron grita dentro da casa. – Já vou!
Continuo meu trabalho, mastigo dois sanduiches sem parar o que estou fazendo, depois escuto os passos suaves de Clarie invadindo a garagem.
─Oi. – Sua voz é tão delicada, gosto do timbre, do arrepio estranho que me causa. Guardo um sorriso que se insinua.
─Veio.
─Terminou? – Ela se senta no banco, ajeita o vestido, se soubesse o que me causa cada vez que a vejo assim nunca mais colocaria um ou nunca mais tiraria dependendo de suas intensões.
─Daqui a pouco vou dar uma volta para ter certeza, mas sim, está pronta.
─Vai lá fora? – Ela questiona preocupada.
─Não. Por aqui, pelas ruas de Alexandria mesmo. Afinal é a zona segura não? – Ela sorri de modo triste. – Coma, Eric deixou para você.
─Estou sem fome. – Ela diz olhando para os sanduiches sem ânimo.
─Achei que gostaria de testar a moto comigo. – Olho para os sanduiches, ela me encara, a contragosto pega um deles, dessa vez não consigo guardar o sorriso.
Limpo a mão depois de finalmente garantir que a moto está pronta, Clarie engolia o último pedaço do sanduiche, eu ligo o motor para testar, ele ronca em perfeito estado.
Esse é sem dúvida um dos melhores sons da minha vida, sinto vontade de pegar a estrada, achei que nunca mais teria um momento como esse. Desligo o motor e quando meus olhos encontram os de Clarie eles estão marejados.
─O que foi?
─Está feliz por poder partir. A moto parece fazer você mais feliz que qualquer outra coisa.
Isso parece entristece-la, fico sem saber o que dizer. Coço a cabeça, não é a coisa que me deixa mais feliz, é apenas uma coisa, é só a liberdade, mas não sei como dizer a ela que a coisa no momento que mais gosto é tê-la por perto.
─Ficou pronta? – Aaron surge interrompendo nosso silencio confuso. – Ouvi o motor. Oi Clarie.
Ela só sorri, acena para ele e então Eric também está ali, eu abria a boca para responder, sou interrompido.
─Como está linda! – Eric passa por Aaron e caminha para Clarie, segura sua mão, ergue e faz com que ela de uma volta em torno de si mesma, o vestido gira um pouco, os cabelos acompanham o movimento. – Como pode usar calças e botas? Devia andar sempre assim.
─Não é muito prático.
─Mas é perfeito, me lembra uma daquelas divas dos anos cinquenta, não acha Aaron?
─Fica muito bem. – Aaron é mais comedido, fico grato, não me importo muito que Eric tenha um relacionamento com Aaron, mesmo assim acho que ele exagera nos elogios a Clarie, ela sempre fica tímida com eles.
─Vem tomar uma xicara de chá comigo, assim me conta se está bem, aquele idiota do Aiden merecia uma semana sozinho lá fora.
─Clarie vai comigo testar a moto.
Sou rápido em recusar o convite por ela, me sinto um tanto constrangido com meu comportamento, que se dane, ela está mais triste que todos os outros dias e acho que uma voltinha mesmo que pelas ruas de Alexandria vão deixa-la mais feliz.
─Deixamos o chá para amanhã, quando estivermos sozinhos. – Eric coloca a mão sobre o ombro de Aaron, eles são bem discretos, acho que muito porque a comunidade não parece aceita-los muito bem, nesse ponto me sinto muito parecido com eles.
─Vamos Clarie. – Saio empurrando a moto, ela força um sorriso para os dois em resposta, segue comigo e do lado de fora ligo o moto me sentando na moto. – Sobe. – Convido, algumas pessoas passavam e nos encaram curiosos. – Cuidado com a saia.
Como posso ser tão ridículo? Que tipo de preocupação é essa? Quero morder a língua de raiva de não tomar cuidado com as palavras, se começar a dizer tudo que passa por minha cabeça vou parecer patético.
─É só subir? Nunca andei de moto antes.
─Só senta e se segura em mim.
Ela obedece, passa os braços por minha cintura, seu toque é leve, dou partida e a moto desliza pelas ruas bem cuidadas de Alexandria, ganho um pouco de velocidade e ela me abraça mais, é bom tê-la tão perto.
─Está gostando?
Grito por sobre o ombro, ela se aproxima mais de mim, fala próximo a minha nuca e aquilo me causa um arrepio pelo corpo.
─A melhor sensação da minha vida!
Ando um pouco mais do que precisava, cubro Alexandria toda pelo menos três vezes antes de parar na porta da casa que ocupamos, descemos os dois, seu rosto está corado, ela sorri e parece uma menina.
Clarie me faz sentir um pouco mais vivo, quase humano, sinto vontade de tocar a pele rosada, beijar os lábios volumosos, mas apenas assinto, sempre me esquivando dos meus sentimentos.
Rick nos observava da esquina, próximo ao portão, vestindo suas roupas de policial e acho aquilo tudo estranho.
─Vou falar com o Rick, te vejo depois.
Ela concorda, sobe os degraus com seu lindo vestido, sei que ela e seu vestido rodado vão ocupar minha mente durante minha viagem.
Caminho até Rick, ele tem o rosto impassível, me espera e sei que sente alguma preocupação, para ele e Carol o lugar não está pronto, as pessoas não estão e sei que está certo, mas não quero balas voando por ai e por isso acho que podemos vencer sem usar nossa força física.
─Sabia que conseguiria. – Ele aponta a moto com a cabeça, afirmo. – Deanna me prometeu conter o filho, não sei mesmo se ela pode.
─Você pode, é mais diplomático que eu.
─Ou era. – Ergo uma sobrancelha. – Como ela está?
─Triste é o que parece.
─Não conquistamos completamente sua confiança, tenho medo que ela esconda mais coisas. Se ele tentar de novo por exemplo.
Rick me preocupa, não tinha pensado sobre isso, talvez ele esteja certo. Vou esclarecer as coisas com ela antes de partir.
─Posso confiar que vai mantê-la segura?
─Tanto quanto os outros Daryl, as coisas sempre podem fugir do controle.
─Combinei de partir bem cedo, aproveitar o dia o máximo que puder, mas não vou estar longe.
─Eu sei. As coisas estão tomando rumo, Glenn vai buscar umas coisas que Eugene pediu, ele é cheio de ideias. Abraham está com o grupo de construção, Maggie anda bem perto de Deanna, temos pessoas em todos os pontos estratégicos, e você vai estar lá fora com Aaron, tudo está bem.
─É o que espero. – É meu maior desejo, que tudo fique bem na minha ausência.
─As pessoas daqui, elas não estão prontas, parecem nunca ter enfrentado a morte, são tão fracos que acho que mais atrapalham que ajudam. – Ele olha em volta tenso. ─Deanna precisa enxergar isso, quando voltar quero a ajuda de Aaron para lidar com ela.
─Não sei Rick, não acho que ele tem alguma influência sobre ela, sinto que estão tão descolados quanto qualquer um de nós, mesmo estando aqui há tanto tempo.
─Tem muito que não sabemos.
─Sim. – Eu concordo, Michonne caminha para nós, de uniforme e sem a Katana é quase outra pessoa.
─Tudo tranquilo, Sasha está na torre. – Ela comunica.
─Quando não está? – Pergunto e os dois trocam um olhar preocupado. Sasha não está conseguindo lidar com as perdas e tememos todos por ela, pelo que ela pode colocar em risco.
─Estou de olho. – Mich avisa.
─Vou entrar, tentar dormir, amanhã saio muito cedo.
Eu os deixo, está quase anoitecendo. Em casa, Carol lia sentada na sala, ela ergue o olhar ao me ver, fecha o livro.
─Vou tomar um banho e dormir. – Aviso porque acho que ela quer saber, ela afirma, pensa um instante.
─Se vai partir cedo amanhã tenha pelo menos uma noite de sono descente e durma em seu quarto, fica cada vez mais ridículo você deitado no chão ao lado da janela quando pode ter cama.
─Eu...
─Deixa de ser infantil, não vai se tornar um idiota por aproveitar as coisas que a vida te oferece. – Reviro os olhos, isso não é mesmo da conta dela, mas Carol sabe que pode me dizer qualquer coisa e talvez tenha razão, subo para o quarto, nunca dormi ali, mas deixo minhas coisas jogadas em um canto, tomo banho e quando quero um minuto de isolamento é ali que me refúgio.
Tomo um banho quente, aquilo é ainda estranho para mim, revivo o dia interminável, caçar Clarie, parece que foi há mil anos. Socar aquele idiota, a mão ainda leva as marcas do rosto do infeliz. Passear de moto com ela. Os olhos brilhando quando descemos.
Foi muito rápido, não esperava por alguém invadindo minha vida assim, não queria, estava decidido que nunca mais voltaria a acontecer, mas então ela estava ali e parecia tão indefesa e solitária e ainda parece.
O modo como me sinto sobre ela é algo que me assombra, porque parece que ela toma todos os meus pensamentos, porque todos os passos que dou são sempre em função dela e não podia estar assim, é perigoso.
Visto a camisa e passo a mão pelos cabelos úmidos, olho pela janela, a noite tinha chegado, finalmente, esse foi um dos dias mais longos que já tive. Não vi Clarie quando entrei, onde ela pode estar? Será que lá fora? Olho para cama convidativa, mas decido que antes de me entregar a esse pequeno conforto é melhor ter certeza que ela está bem e segura.
Um homem honesto diria ao menos a si mesmo que está atrás de um último beijo antes de dormir, mas talvez eu não seja esse tipo de homem, que assume os próprios sentimentos. Admitir dá a tudo um significado ainda maior e pode ser que eu não esteja pronto.
Olho para a besta pensando em que desculpa daria para mais uma vez sair por ai em busca de Clarie, não que alguém se importe, as pessoas não ligam a mínima, cada um envolvido em seus próprios medos e problemas. Alguém bate de leve na porta. Carol provavelmente vindo se intrometer na minha vida, porque ela sim acha que pode se meter em tudo como se fosse minha mãe, a mãe que eu não tive.
─Entra. – A porta se abre tão lentamente que instintivamente eu sei que é Clarie.
Ela fecha a porta atrás de si, tão lentamente quando abriu, ganha tempo eu penso querendo sorrir, vem aí o último pedido para ir comigo, faço uma aposta comigo mesmo.
Se não fosse tão linda, tão suave e preciosa, talvez eu arriscasse.
Ela me estende uma jaqueta de couro.
─Encontrei, achei que seria bom levar com você, é quente, e vai protege-lo.
Pego a jaqueta, gosto da preocupação, não me conformo com tanta dor naquele par de olhos escuros, mas tem um brilho comovente neles, algo que sempre me faz desejar tê-la em meus braços e mantê-la ali, segura.
─Obrigado.
─Limpei bem, arrumei o zíper, faz frio na moto.
─Sentiu frio? – Ela afirma. – Devia ter dito.
─Foi o de menos, gostei do passeio, muito, nunca tinha andado de moto, dá para entender um pouco porque está tão ávido para partir.
─Não estou ávido para partir. – Me defendo, no fundo tenho mais vontade de ficar do que ir, mas não posso me render a todos os caprichos do meu coração ou nunca mais saio do lugar. – Quanto mais pessoas, melhor. Além disso se temos um lugar não podemos permitir que as pessoas lá fora morram.
─Você é mesmo assim. – Ela sorri. – Se preocupa mesmo com os que nem sabe que existem.
─Clarie eu não sou esse cara bom que pensa.
─É melhor do que quer acreditar. Não adianta pedir de novo. Adianta?
─Não. – Ela aceita com um movimento de cabeça, torce os dedos olhando em volta, busca assim como eu um motivo para ficar ali mais tempo.
─Espero que dê tudo certo lá fora, que volte em segurança.
Dou uns passos até ela, fico mais perto, ela tem algo escondido que me preocupa e não sei o que pode ser, talvez seja apenas medo do imbecil, mas Deanna é capaz de controlar o infeliz, construiu esse lugar.
─Vai dar.
─Já foi todo mundo dormir, então vou me deitar também.
─No quarto com a Sasha? – Ela nega, não gosto de pensar que vai dormir sozinha na sala, fica muito exposta lá.
─Pode ser tolice, mas ela me assusta um pouco, não acho que quer dividir nenhum espaço comigo.
Desisto da cama, não vou deixar a garota sozinha, além disso é a ultima noite e acho que vou gostar de pegar no sono olhando para ela como tem sido desde o dia que chegou para nós.
─Se nunca mais nos vermos... Se for a última vez, eu quero agradecer por tudo. – Ela fica com a voz embargada, tenta controlar o choro para terminar de falar. – Obrigada pelo cuidado, preocupação, eu acho que nem merecia, mesmo assim me ensinou muita coisa e talvez eu... Pode ser que tenha uma chance lá fora e sempre vou dever isso a você.
─Não me deve nada! – Não gosto daquele tom de despedida. – E pretendo voltar Clarie, não precisa se despedir.
─Oh! Eu sei, acredito nisso, é o melhor nesse mundo e não acho que zumbis possam te pegar, mas...
─Então pare de se despedir de mim e de chorar. – As lágrimas corriam livres molhando seu rosto e me deixando sem reação.
─As coisas aqui podem se complicar, nunca se sabe, se quando voltar eu... Se algo tiver acontecido quero que se lembre que sou grata e que fez valer a pena sobreviver.
─O que está tentando me dizer Clarie? Do que está com medo? Nosso grupo é forte, vão cuidar de você.
─Se você ficasse, se me levasse com você, talvez fosse diferente, mas...
Ela cobre o rosto com as mãos e desaba, tem uma crise de choro que acho que nunca presenciei em ninguém, demoro um tempo para me dar conta de qualquer coisa.
Eu não sei como lidar com todo aquele medo e dor, sempre que me sinto assim me isolo do resto do mundo, não sei dividir minha dor e sem muito jeito eu a abraço.
Não tem muito efeito, ela continua com o rosto coberto, continua a chorar copiosamente. Meu peito se contorce num sentimento que é bom, mas ao mesmo tempo dolorido.
─Clarie talvez eu não precise ficar três dias fora. – Eu posso voltar antes disso, quem sabe dar mais um tempo a ela, quando estiver mais integrada eu faça viagens mais longas.
─Talvez não faça diferença.
Eu a envolvo, é bom ter ela assim, em meus braços, mesmo chorando, ela não se afasta, mas não consegue parar de chorar e não sei como acalma-la. Quem sabe todas aquelas lágrimas não aliviam um pouco a tensão dos últimos tempos?
─Precisa descansar um pouco, dormir umas horas vai te fazer bem.
─Eu vou. Estou indo. – Ela se desvencilha de mim, quer desesperadamente conter o choro, mas não consegue, seca lagrimas para logo em seguida novas lagrimas correrem pelo rosto, nem mesmo consegue ergue os olhos e me encarar.
─Espera! – Não quero que vá para longe de mim, não sei o que é isso, só o que sei é que não consigo mais ficar longe dela. – Não vai. – Peço a abraçando mais uma vez.
─Você precisa descansar.
─E você também. – Levo Clarie até a cama, ela me encara sem entender. – Deita Clarie, vamos ficar aqui hoje, não precisamos dormir no chão da sala.
Ela pensa um segundo, esse é o tempo que precisa para se decidir, depois se senta, tira os sapatos, deita e eu jogo uma manta sobre ela, dou a volta na cama e me deito.
O choro diminui um pouco, ela seca os olhos, puxa o ar com força e quando solta lentamente sinto que fica mais controlada.
─Posso mesmo ficar aqui?
─Pode, podemos! – Tento sorrir. – Quando eu estiver fora, não quero que durma na sala, então vai ficar aqui, é mais seguro.
Ela volta a chorar.
─Devia me contar o que está te deixando assim.
Clarie dá de ombros, não quer se abrir. Respeito, não devia, mas ela está assustada demais para que eu a interrogue, no momento ela precisa de repouso.
─Obrigada. Não se preocupe tanto comigo.
─Não posso evitar. – Me aproximo mais dela, Clarie não se incomoda, não se esquiva, parece confiar em mim de um modo que me comove. – Está se sentindo melhor?
─Sim. Não durmo numa cama desde que minha mãe foi internada naquele lugar, lá eu ficava numa daquelas camas que são na verdade macas, duras, com rodinhas.
─Não dava para chamar as camas da prisão de confortáveis, mas não era tão ruim. – Ela sorri.
─Queria ter vivido lá. – Uma última lágrima escorre, eu me aproximo, seco com a ponta do dedo, ela sorri, meu coração bate fora do ritmo, só quero que a droga do mundo exploda, não consigo pensar em nada além de beijar Clarie mais uma vez.
Ela toca meu rosto, sinto seus dedos finos e delicados me tocando e só consigo envolver Clarie e traze-la para mais perto de mim, aprofundo o beijo, ela passa seus braços por meus ombros, sinto seu corpo colar ao meu.
Meus lábios deixam os seus um momento, nos olhamos, vejo seu desejo estampado no rosto corado, mas não quero ir além, vou deixa-la quando o dia clarear, não posso fazer isso com ela.
─É tão linda.
─Com essa cara de choro?
─Mesmo assim. – Beijo Clarie mais uma vez, depois me afasto. – Eric não cansa de dizer isso. Ele adorou o vestido.
─Eric é gentil, mas apenas isso. Ele ama muito o Aaron, eles venceram muito para ficarem juntos, é uma história de amor muito bonita.
Fica tão feminina quando está assim, em meus braços, falando sobre amor, se eu tivesse um pingo de juízo correria para longe dela. Volta a beija-la só para provar que não tenho juízo.
─Gosto muito quando me beija. Sempre fico me perguntando se vai acontecer de novo.
─Também me pergunto sobre isso, mas agora precisa dormir um pouco e eu também preciso.
─Acho que se ficar acordada demora mais para a hora de te ver partir.
─Será que vai esquecer logo de mim? – Ela me tocava de modo carinhoso, mexia em meus cabelos, acariciava minha barba, acho que nem se dava conta disso.
─Dois ou três dias não é o bastante para esquece-la. – Ela me encara e algo dolorido passa por seu olhar. –Quando voltar vamos dar uma volta de moto lá fora.
Clarie não responde, só me olha, sozinha aproxima seus lábios dos meus, me beija levemente, tenta se afastar mas capturo seus lábios para mais um longo beijo, depois ela se encolhe perto de mim, eu a aconchego em meus braços, nunca dormi assim, com uma garota em meus braços.
Custo a pegar no sono, fico de olhos fechados sentindo seu perfume, sua respiração, percebo quando esgotada ela adormece. Acabo me rendendo ao sono e quando abro os olhos o dia amanhecia.
É hora de partir. Clarie dorme tranquila, parece uma visão do paraíso, me levanto sem fazer barulho, visto a jaqueta que me deu, calço os sapatos, pego a besta a mochila e minhas flechas, para diante da cama.
Não tem porque acorda-la, seria como incomodar um anjo e não posso partir se ela estiver de pé, me acenando por entre lágrimas, simplesmente não conseguiria. Fixo minha visão na beleza daquele momento, sei que de algum modo aquela imagem vai me acalmar nos momentos ruins, me fazer desejar retornar.
Eu a beijaria se tivesse certeza que isso não a despertaria, como não posso fazer isso apenas deixo o quarto, a casa está silenciosa quando atravesso a sala rumo a saída, empurro a moto até o portão principal.
Aaron já estava lá, guardava a mochila no banco do passageiro, me aproximo.
─Pronto? – Ele me pergunta e afirmo. – Então podemos ir. Clarie ficou bem?
─Eu a deixei dormindo. – Aaron ergue uma sobrancelha, não parece aprovar, não paro para pensar sobre isso, agora tenho que me concentrar em ficar vivo.
Deixo Alexandria desejando voltar o mais rápido possível, ao mesmo tempo sabendo que com ou sem Clarie não me encaixo. Não combino com esse lugar, com esse modo de vida.
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