Resquícios
1 Prólogo
Se havia algo que ele sempre soube sobre si, era que era um covarde. Sua família — principalmente seu pai — diria que eram inteligentes, que sabiam cair em pé, que navegavam conforme a maré. Em outras palavras: covardes. Ratos que abandonam o navio quando ele começa a afundar. Não havia vergonha em correr para o lado que está ganhando. Nunca houve um pensamento moral real sobre isso — apenas sobrevivência.
Pensando em retrospecto, simplesmente sair da Batalha de Hogwarts foi o ato covarde mais corajoso que já cometera. Todos entenderam que sua família abandonara o Lorde das Trevas, mas também perceberam que não ficaram exatamente ao lado de Potter. Se pudesse voltar no tempo, faria tudo diferente. Mas, como seu amigo Básio sempre dizia, o "e se" não importa. Não mais.
Parado em frente ao St. Mungus, ele estava trêmulo. As pessoas não gostavam dele. Não gostavam de sua família. Não importava quantos galeões doasse — nada poderia apagar sua história.
Dez anos depois da batalha que matou tantos, o mundo bruxo ainda sofria as consequências. Embora Voldemort tivesse sido derrotado, sua influência — sua maldição — ainda contaminava a sociedade, impedindo sua cura, sua reconstrução. Era um cenário de terra arrasada. Comunidades bruxas de outros lugares do mundo viraram as costas para eles. Ninguém podia culpá-las. Restringir o contato era a única forma de conter a praga.
Quando entrou no prédio, sentiu os olhares se voltarem para ele. Ódio. Rancor. Dor. Desprezo. Olhares que conhecia bem. Seus passos ecoavam pelo salão. Ele não conseguia contar quantas pessoas estavam ali, mas o silêncio reinava. A desesperança corria ao lado da dor, e o sofrimento era silencioso, conformado, indiferente — apenas esperando pela misericórdia do fim. Ele avançou com o rosto sério. Uma curandeira o avistou; seu rosto se contorceu em uma máscara de nojo. Ela claramente não estava feliz com sua presença.
— Bom dia — ele cumprimentou, em um sussurro, sem querer chamar mais atenção.
— Venha comigo — ela disse apenas, sem devolver o cumprimento.
Caminharam lado a lado. As pessoas olhavam e cochichavam; ninguém tentava disfarçar. Os corredores estavam cheios. As conversas, baixas. Havia uma aura de morte no lugar — muito mais do que um hospital deveria ter. Corredor após corredor, a cena se repetia. A curandeira não olhava em sua direção; apenas caminhava rapidamente, ansiosa para terminar aquele percurso. Pararam diante de uma porta, a placa dizia: Diretor Abbout.
Ela bateu e esperou. Momentos depois, um rosto muito conhecido o encarou com absoluto desprezo.
— Seja bem-vindo, Malfoy — ela disse, com a voz contida.
— Obrigado, Granger — ele devolveu, no mesmo tom.
— Vamos começar.
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