Resquícios
4 Poção
Notas iniciais
As pessoas caminhavam apressadas. O Beco Diagonal poderia aparentar normalidade a um transeunte desatento: lojas abertas, o comércio funcionando. Mas um olhar mais atento perceberia o desgaste. Muitos olhavam vitrines e seguiam adiante, reclamando dos preços. O comércio irregular espalhava-se por cada esquina; um vendedor empurrou à sua frente uma flor exótica que prometia curar a “peste”. O Ministério tentava coibir. A cada barraca removida, duas surgiam no lugar.
Ele apressou o passo, atravessando o caos disfarçado. Jogou um galeão para uma criança pedinte — não olhou para ela por muito tempo; não conseguia. Conforme se aproximava do destino, sentiu o tremor — já tão familiar — começar. Parou diante do St. Mungus e levou a mão direita ao braço esquerdo, contendo o movimento involuntário.
Quando entrou no prédio, sentiu os olhares se voltarem para ele. Ódio. Rancor. Dor. Desprezo. Olhares que conhecia bem.
Seus passos ecoavam pelo salão. Ele não conseguia contar quantas pessoas estavam ali, mas o silêncio predominava. A desesperança corria ao lado da dor, e o sofrimento era silencioso, conformado, indiferente — apenas aguardando a misericórdia do fim.
Avançou com o rosto sério. Uma curandeira o avistou; o rosto dela se contorceu em uma máscara de nojo. Claramente não estava satisfeita com sua presença.
— Bom dia — cumprimentou ele, em um sussurro, evitando chamar mais atenção.
— Venha comigo — respondeu ela, sem devolver o cumprimento.
Caminharam lado a lado. As pessoas olhavam e cochichavam; ninguém fazia questão de disfarçar. Os corredores estavam cheios. As conversas, baixas. Havia uma aura de morte no lugar — muito mais do que um hospital deveria carregar. Corredor após corredor, a cena se repetia. A curandeira não olhava em sua direção; apenas caminhava rápido, ansiosa por encerrar aquele percurso.
Pararam diante de uma porta. A placa dizia: Diretor Abbout.
Ela bateu e aguardou. Instantes depois, um rosto muito conhecido o encarou com absoluto desprezo.
— Seja bem-vindo, Malfoy — disse Granger, com a voz contida.
— Obrigado, Granger — devolveu ele, no mesmo tom.
— Vamos começar.
A sala estava ocupada por rostos conhecidos. O diretor Abbout era um homem na casa dos cinquenta anos, com o cansaço estampado de quem não dormia há dias. Granger parecia menos afetada, mas Draco percebia as linhas de tensão marcando-lhe o rosto. Neville Longbottom já não lembrava em nada o garoto desengonçado de Hogwarts; estava sério, firme. Por fim, Potter — que parecia desejar estar em qualquer outro lugar.
Um silêncio constrangedor se instalou. Abbout foi o primeiro a falar.
— Obrigado por se juntar a nós, senhor Malfoy. Gostaríamos de entender melhor sua poção.
O diretor não fez rodeios. Não havia tempo para isso.
Draco sabia que estava sendo testado. Quando escrevera ao diretor explicando sua pesquisa e mencionando a poção que ajudava a conter os sintomas, não esperava resposta. Ainda assim, ali estava ele — diante de um Auror, de um especialista em Herbologia e da futura Ministra da Magia.
— Agradeço a oportunidade, senhor — respondeu com voz neutra.
Não passou despercebido que não fora convidado a se sentar. Calmamente, colocou a pasta sobre a mesa. Abriu-a e retirou um frasco com um líquido levemente azulado. Em seguida, espalhou diversos pergaminhos detalhando sua pesquisa.
— Minha mãe começou a apresentar sintomas há algum tempo. A magia dela tornou-se falha e incontrolável. No início, administrei poções calmantes para que pudesse descansar. Funcionou por um período. As manifestações espontâneas diminuíram…
— Isso não consta em nenhum registro oficial, Malfoy — interrompeu Potter, rápido demais.
Draco ergueu o olhar.
— Nós reportamos, Potter. Os sintomas começaram há quatro anos — fracos no início, agravando-se com o tempo. Quem acompanhava o caso era Sloan, do Departamento de Saúde da Magia — respondeu, sem arrogância, apenas declarando um fato.
Um breve silêncio se instalou.
— Está tudo bem. Eu me lembro disso — interveio Granger antes que a tensão se transformasse em confronto. — Harry, você não faz parte do departamento há tanto tempo. Ainda está se familiarizando. Parte dos registros foi danificada, e estamos em processo de revisão.
O silêncio voltou, mais pesado.
Draco percebeu a troca de olhares entre eles — rápido, cauteloso.
— Como eu dizia, funcionou por um tempo. Foi aprovado pelo Ministério. Mas a condição piorou muito de dois anos para cá. Ela machucou meu pai, liberando magia enquanto dormia. Depois disso, os tremores aumentaram. As manchas não desapareceram. O Ministério deixou de enviar o curandeiro…
— Precisamos fazer ajustes após o incêndio — disse Granger, defensiva.
— Eu entendo, Granger — continuou ele. — Mas eu precisava fazer algo. Sou bom com poções. Iniciei um estudo. Demorei muito até chegar a algo que pudesse ser administrado com segurança. Comecei os testes…
— Você realizou testes em seres vivos sem autorização? — interrompeu o diretor, o rosto ficando vermelho. — Isso é inadmissível.
— Não, senhor. Não utilizei ninguém como cobaia. Nenhum bruxo ou criatura mágica. Testei em mim mesmo. A primeira reação foi uma cólica intensa. Depois, fui aperfeiçoando a fórmula. Está tudo documentado e protegido por um feitiço da verdade.
Os ânimos pareceram se acalmar. Longbottom pegou os pergaminhos e começou a analisá-los, chamando Granger para observar determinados trechos. O diretor juntou-se a eles. Potter permaneceu em silêncio; sua expressão indicava desconforto.
— Muito bem, Malfoy — disse Granger por fim. — Vamos analisar cuidadosamente e enviaremos uma coruja. Por ora, agradecemos por disponibilizar sua pesquisa.
Ele entendeu a dispensa. Despediu-se com um leve aceno e virou-se para sair, sentindo o aperto no peito afrouxar discretamente. Conseguira apresentar seu trabalho. Sabia que poderia ajudar. E, apesar de tudo, contava com Granger para enxergar além da raiva e reconhecer que ali havia algo capaz de trazer alívio.
Já próximo à saída do St. Mungus, viu uma mulher conversando com um curandeiro. Ela estava visivelmente grávida.
Ele parou.
Fazia muito tempo que não via uma mulher grávida.
Ela não parecia feliz. Estava pálida, exausta. Manchas escuras marcavam-lhe os braços. Seus olhos encontraram os dele — e Draco a reconheceu.
Matilda Creswell.
Lembrava-se dela em Hogwarts. Lembrava-se da batalha. Lembrava-se do desespero quando encontrou o corpo do irmão estendido no pátio do castelo — ele tinha apenas doze anos. Escondera-se para ajudar na luta.
A raiva estava ali. Nítida. O nojo, indisfarçável.
Draco desviou o olhar e voltou a caminhar. Precisava usar a rede de Flu. Aparatar tornara-se arriscado nos últimos tempos.
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