Notas iniciais
Voltei, demorei mais do que gostaria, mas a vida adulta acaba com a gente, perdoem os possíveis erros

Passava das três da manhã quando ele despertou, o pesadelo era sempre o mesmo, não havia imagens, não havia rostos, apenas escuridão e uma sensação horrível que se agarrava ao corpo como algo vivo, impossível de descrever em palavras. Seu corpo pálido estava coberto de suor, o tremor era forte o suficiente para fazer seus dentes baterem, e ele teve tempo apenas de virar o rosto antes de despejar o conteúdo do jantar no chão do quarto. Os espasmos contraíam seu peito, roubando o ar, e com a garganta ardendo conseguiu chamar por Finn, a voz rouca, baixa, quase falhando antes mesmo de se formar.

A elfa apareceu em poucos instantes, sem precisar de explicações, moveu -se pelo quarto com uma eficiência silenciosa, acendendo as velas, abrindo as janelas, organizando o espaço enquanto começava a encher a banheira, o cheiro doce da flor de valeriana logo preenchendo o ambiente. Era quase um ritual, algo repetido vezes suficientes para não precisar mais de palavras, embora no início ele tivesse se recusado a aceitar ajuda, passando horas tentando recuperar o controle sozinho, até que Finn o encontrara certa vez naquele estado e, sem hesitar, fizera exatamente o que fazia agora, preparando o banho, trazendo as ervas, oferecendo uma poção que o fazia dormir sem o entorpecer no dia seguinte.

— Vamos, jovem senhor — disse ela, com a voz baixa, carregada de um cuidado que ainda o deixava desconfortável.

Com passos curtos, Finn o ajudou até o banheiro, e ele, doente demais para se importar com qualquer resquício de modéstia, retirou o pijama encharcado e entrou na água quente, sentindo o efeito quase imediato enquanto os tremores começavam a diminuir e o corpo lentamente deixava de resistir a si mesmo. A água lavava o suor, o desconforto, a noite, e ele permaneceu ali por vários minutos, os olhos fechados, tentando se concentrar na sensação de controle retornando.

— Beba, Draco — disse Finn, segurando a xícara próxima aos seus lábios, e ele obedeceu sem questionar, sorvendo um gole do chá de boldo enquanto o estômago ainda protestava.

— Obrigado, Finn — murmurou, e o silêncio que se seguiu era pesado e cúmplice, mas diferente das outras vezes, a elfa não deixou o recinto.

Ele abriu os olhos devagar, apoiando-se levemente na borda da banheira.

— Diga, Finn.

A elfa hesitou, algo raro o suficiente para chamar sua atenção de imediato.

— Meu senhor… Finn está assustada… está com cor diferente… escura.

Por um instante, ele não compreendeu, até que a imagem se formou de maneira abrupta, a coloração escura era uma novidade estranha.

— Recolha, por favor — disse depois de alguns segundos, a voz mais controlada do que se sentia — vou estudar depois.

Aproveitou quando ela saiu para terminar o banho, o tempo já avançava e ele precisava estar pronto, precisava manter a aparência de funcionalidade que o mundo exigia dele, mesmo que por dentro tudo operasse em um ritmo diferente.

Enrolado em um robe branco, parou diante do espelho, observando o próprio reflexo sem realmente encará-lo, notando a palidez mais acentuada, os olhos cansados, e principalmente as manchas que antes marcavam sua pele e que agora pareciam ter diminuído, algumas no peito quase desaparecidas, as que restavam mais claras, como hematomas antigos. Evitou os próprios olhos, concentrando-se nos detalhes mais objetivos, enquanto sua atenção se desviava para os cabelos, mais longos, tocando os ombros, longe do comprimento que seu pai cultivava, mas semelhante o suficiente.

Hesitou por alguns instantes antes de erguer a varinha, murmurando o feitiço e observando os fios caírem na pia, um a um, em silêncio. Respirou fundo antes de avaliar o resultado, não era perfeito, mas era suficiente, e isso bastava. Não se permitiu pensar mais sobre isso, voltou ao quarto, já impecável, sem vestígios da noite que havia começado ali.

Finn o aguardava, segurando um pequeno frasco com um líquido escuro, não completamente negro, mas inegavelmente estranho.

— Deixe no baú, vou examinar quando voltar.

— Sim, senhor. Finn separou as vestes — disse ela, retomando a agitação habitual.

Ele assentiu, voltando o olhar para as roupas dispostas na cama, negras, com fios de ouro, impecáveis, representando exatamente o que se esperava dele, e as descartou sem hesitar. Abriu o armário, percorrendo as fileiras organizadas até encontrar o que procurava, uma calça simples de linho preto, uma camisa sem detalhes, dispensando a capa e optando por um suéter, vestindo-se rapidamente, satisfeito com o resultado, obviamente havia grande qualidade em suas vestes, mas passariam desapercebidas e era justamente o que procurava.

Ao guardar a varinha no bolso, seu olhar encontrou o anel com o brasão da família, e por um instante seu coração falhou. Retirou o anel, tentando não pensar muito e o guardou na caixa de veludo verde, fechando-a com cuidado antes de sair do quarto sem olhar para trás.

Seus pais já estavam à mesa quando ele entrou, a sala opulenta iluminada pelo sol frio que atravessava as janelas e refletia nos jardins perfeitamente cuidados. Narcisa sorriu ao vê-lo, o sorriso suavizando quando percebeu o cabelo, enquanto Lucius o observava em silêncio, os olhos descendo lentamente até sua mão esquerda, notando a ausência do anel.

— O que aconteceu, querido? — perguntou ela, dividindo a atenção entre ele e o marido.

— Precisava de um corte — respondeu Draco, inclinando-se para beijar sua bochecha.

— Então decidiu abandonar tudo que te liga ao sobrenome Malfoy? — a voz de Lucius era afiada, precisa.

— Lucius, por favor — Narcisa interveio, antecipando o conflito.

— Para nós, não é possível abandonar nada relacionado à nossa família — disse Draco, mantendo o tom neutro.

— Você é uma decepção.

— LUCIUS!

Draco sustentou o olhar do pai, lembrando, ainda que brevemente, do homem que já admirara, e de como aquilo agora parecia distante demais.

— Eu não sou o único — disse, por fim.

O silêncio que se seguiu foi suficiente.

— Draco, querido, seu pai não quis… — começou Narcisa, mas ele já se aproximava, envolvendo-a em um abraço leve.

— Comerei algo na rua. Tome a poção.

Afastou-se antes que ela pudesse responder e seguiu para a lareira, sem permitir que o momento se prolongasse além do necessário.

Seus passos ecoaram pela rua deserta, um som seco demais no silêncio da manhã, até que parou diante da loja de aparência abandonada, respirando fundo enquanto, de forma quase inconsciente, levava a mão ao braço esquerdo, pressionando-o por um breve instante antes de tocar o vidro e informar ao manequim que era seu primeiro dia de trabalho. Ao atravessar, a mudança foi imediata, quase violenta, porque o que encontrou do outro lado era completamente diferente: o lugar estava caótico, distante do silêncio sepulcral que presenciara dias antes. Havia movimento. Ruído. Um fluxo constante de vozes, passos e magia em uso.

Draco permaneceu alguns segundos parado na entrada, observando mais do que deveria, absorvendo cada detalhe com uma atenção quase automática, percebendo que ninguém o aguardava, que ninguém parecia notar sua presença, como se ele fosse apenas mais um elemento deslocado dentro de um sistema que já operava além do limite. Curandeiros cruzavam os corredores com expressões cansadas, assistentes carregavam bandejas com pressa contida, pacientes murmuravam em macas alinhadas de forma improvisada, e o cheiro — uma mistura de poções, ervas e algo metálico — tornava tudo mais denso, mais real, mais difícil de ignorar.

— Malfoy.

A voz o alcançou sem esforço, carregada de um desdém que não precisava ser disfarçado. Um homem de meia-idade, com vestes impecáveis demais para aquele ambiente, o observava com uma expressão neutra que falhava em ocultar o julgamento.

— O diretor Abbout solicitou que você fosse alocado temporariamente no setor três. Casos gerais.

Casos gerais.

Draco assentiu uma única vez, sem responder. O homem já havia se virado antes mesmo que qualquer palavra pudesse ser dita, e ele o acompanhou em silêncio, a palavra “temporariamente” ressoando de forma incômoda, repetindo-se com mais peso do que deveria. Conteve o impulso de questionar, e seguiu o bruxo, que caminhava à frente sem olhar para trás.

O setor três ficava em uma ala mais afastada, menos iluminada, com um fluxo intenso de curandeiros passando pelos corredores, como se aquele espaço existisse em um ritmo próprio, mais acelerado e mais desgastado. O bruxo apontou para uma sala pequena, empoeirada, contendo uma maca, um armário e uma mesa, e Draco entrou, observando o ambiente com atenção suficiente para registrar cada detalhe sem permitir que isso se refletisse em sua expressão. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, o homem já havia se afastado, deixando-o sozinho.

Ele voltou o olhar para o local, avaliando silenciosamente se a cadeira suportaria seu peso. Colocou a pasta de couro de dragão sobre a mesa, levantando uma pequena nuvem de poeira, e sentiu uma pontada leve na cabeça, seguida pelo coração acelerando em um ritmo desconfortável. Fechou os olhos por um instante, contando até três de forma quase automática, antes de abri-los novamente, recomposto. Vestiu a veste esverdeada que o identificava como curandeiro e permaneceu ali.

Durante as primeiras horas, ninguém lhe dirigiu a palavra além do estritamente necessário. Não lhe ofereceram pacientes, não explicaram rotinas, não lhe deram acesso a nada relevante, e a sensação que se instalava, pouco a pouco, era clara demais para ser ignorada: sua presença era tolerada apenas porque fora imposta, e nada além disso.

Inquieto, pôs-se a trabalhar com o que podia. Limpou a sala de forma metódica, encontrando em tarefas simples um breve momento de clareza para os seus pensamentos. Levou pouco mais de meia hora para eliminar a poeira acumulada, organizar a mesa, alinhar pergaminhos, tinteiro e penas com precisão quase excessiva, como se pudesse, de alguma forma, impor ordem a um ambiente que claramente não a sustentava. Suas anotações sobre a poção foram empilhadas em ordem cronológica, mesmo que não houvesse qualquer indicação de que seriam utilizadas ali.

Seu olhar então se voltou ao armário.

Ao abri-lo, encontrou pilhas desorganizadas de pergaminhos, frascos contendo poções e ingredientes armazenados de forma incorreta, alguns já alterados pelo tempo ou pela negligência, além de um caldeirão com resíduos de algo que não conseguiu identificar à primeira vista. Não havia escolha. Retirou o conteúdo, um a um, disposto a reorganizar o que fosse possível.

O tempo passou sem que percebesse, e quando se deu conta, já havia catalogado ingredientes, testado a eficiência de algumas poções e limpado o caldeirão. Separava agora os pergaminhos, identificando-os como prontuários, organizando por datas, reunindo duplicatas, reconstruindo um histórico fragmentado, quando a porta se abriu.

O curandeiro que entrou parou por alguns segundos, inspecionando o ambiente antes de voltar o olhar para ele.

— Malfoy? — disse, com uma surpresa que rapidamente se transformou em outra coisa. — Achei que estivesse em Azkaban.

Draco não respondeu.

— Precisa de algo?

O homem pareceu levemente divertido com a pergunta, o desdém evidente no olhar.

— Organizando registros antigos… — ele fez uma pausa breve — parece apropriado.

— Precisa de algo? — Draco repetiu, ignorando o tom.

— Um emplastro para feridas. Sei que tem no armário — disse, já se aproximando.

— O emplastro está inutilizável — respondeu Draco, apontando para o canto da mesa, onde havia separado poções e unguentos comprometidos pelo armazenamento inadequado.

— Quem disse isso? Eu mesmo o utilizei ontem. Estava em perfeitas condições.

— Faça o teste você mesmo — respondeu Draco, a voz mais afiada do que pretendia.

— Casper, precisamos de você — outro curandeiro apareceu na porta.

— Estava levando o emplastro para o leito três, mas nosso especialista aqui quer descartá-lo.

O segundo curandeiro abriu a boca para responder, mas foi interrompido por um aviso de acidente mágico. Sem hesitar, ambos se afastaram, e, após um breve instante de indecisão, Draco os seguiu.

Quando chegou à ala compartilhada, encontrou uma cena caótica: um homem havia tentado aparatar junto à esposa, e o feitiço falhara. Ambos haviam perdido partes do corpo. Curandeiros se amontoavam ao redor, murmurando feitiços com rapidez treinada, tentando conter o dano.

Draco puxou a varinha, pronto para agir.

— Você não, novato — disse o curandeiro que chamara Casper, interrompendo-o sem sequer olhar diretamente para ele. — Não atrapalhe.

A irritação veio imediata, mas ele se afastou. O casal foi levado para uma sala isolada, e o restante dos curandeiros voltou às suas funções como se aquilo fosse apenas mais um evento comum.

Draco permaneceu parado por alguns instantes no meio da ala, sentindo o deslocamento se aprofundar, a inutilidade se tornando mais concreta, mais difícil de ignorar. Se não lhe davam função, ele criaria uma.

Caminhou até o painel com os nomes dos pacientes aguardando atendimento.

Foi então que o cheiro o atingiu.

Um odor ácido, quase orgânico, que destoava até mesmo do ambiente hospitalar. Draco ergueu o olhar e encontrou a origem: um leito parcialmente isolado, cortinas mal fechadas, um paciente que ninguém parecia disposto a atender com qualquer urgência.

Ele hesitou.

Não pelo que via, mas pelo que aquilo representava.

A cada passo em direção ao leito, o desconforto aumentava — não físico, mas aprendido, antigo, enraizado. Aquilo não era o tipo de coisa que um Malfoy deveria tocar. Não era o tipo de situação da qual sua família sequer se aproximaria.

Talvez por isso mesmo ele não parou.

Afastou a cortina.

O homem deitado ali mal parecia consciente. A pele apresentava lesões irregulares, úmidas, como se algo estivesse lentamente corroendo sua superfície, e havia secreção suficiente para tornar o ar mais pesado, mais difícil de ignorar. Não era apenas doença. Havia algo errado ali, algo que não se encaixava em nenhum padrão que ele conhecia.

Por um instante, o impulso foi recuar.

Ele não recuou.

Apenas observou.

Olhou ao redor e encontrou uma curandeira próxima, concentrada em um pergaminho.

— Há quanto tempo ele está assim?

Ela ergueu os olhos, depois olhou para o paciente como se tivesse esquecido de sua existência.

— Dois dias. Talvez três. Não é prioridade.

Não é prioridade.

Draco assentiu lentamente, mas não se afastou.

Aproximou-se mais um passo, observando a respiração irregular do paciente, registrando cada detalhe, cada falha, cada padrão quebrado.

Puxou um pergaminho vazio do bolso e começou a anotar.

O tremor veio leve, quase imperceptível. Sua mão direita se moveu automaticamente para o antebraço esquerdo, pressionando-o com firmeza suficiente para conter o movimento. Não desviou o olhar.

— Você vai tratar isso?

A pergunta veio carregada de descrença.

Draco não respondeu de imediato. Terminou de escrever. Releu. Ajustou uma palavra.

Só então falou:

— Sim. Alguém precisa começar.

O silêncio que se seguiu não foi de aprovação.

Mas também não foi de recusa.

E, pela primeira vez desde que entrara no hospital, Draco percebeu que o peso constante que o acompanhava nos últimos dias havia mudado de forma — não mais apenas algo que o pressionava, mas algo que agora exigia uma resposta.

E ele não tinha certeza de que conseguiria oferecê-la.