Resquícios
3 Ecos
Notas iniciais
Ele respirava profundamente. Contava até três. Soltava o ar.
Fechado no banheiro do Ministério, longe dos olhares, perdeu um pouco da compostura que sustentara no salão. O tremor agora era visível. Mais forte. Os dedos denunciavam o que o rosto não permitia. O braço esquerdo queimava.
Não era dor real – ou talvez fosse.
O coração batia rápido demais. Descompassado. Mas para além das batidas irregulares, havia outra coisa. Um vazio. Algo sem nome, sem forma. Algo que ele não conseguia verbalizar nem para si.
A mente insistia em devolver a imagem projetada minutos antes — o horror coletivo ao reconhecerem o rosto de Snape. O homem que matou por ele. O homem que matou para honrar não apenas um Voto Perpétuo, mas seu papel como padrinho.
Draco ergueu os olhos para o espelho. Estava levemente corado, os cabelos impecavelmente penteados, a gravata alinhada. Os olhos, ocos.
Respirou outra vez. Três tempos. Soltou o ar devagar.
A mão direita pressionava o braço esquerdo, quase inconscientemente, como se pudesse conter algo que insistia em latejar sob a pele. O tremor começou a ceder. O coração desacelerou.
Mas o pensamento veio, inevitável.
A última vez que realmente se olhara no espelho.
O banheiro do segundo andar. A torre de Astronomia. O rosto pálido demais. As mãos trêmulas.
A missão que o esmagava.
Matar Alvo Dumbledore.
Lembrou-se do choro que não conseguiu conter. Da sensação de estar sendo comprimido por algo maior do que qualquer feitiço. Então Potter surgira. Feitiços lançados. A dor cortando seu corpo. O gosto metálico do sangue. E depois, Severo Snape curando suas feridas com precisão quase impaciente.
E então a torre.
— Você não é um assassino, Draco.
A voz – misericordiosa demais. O movimento sutil da varinha. O clarão verde.
Voldemort em sua casa. A guerra.
As memórias vinham sem ordem, como se não pertencessem à mesma vida. Ele apertou a borda fria da pia até os nós dos dedos embranquecerem. Fechou os olhos, forçando a mente ao silêncio.
Respire.
Quando tornou a abri-los, o rosto já estava recomposto. Arrumou o colarinho, endireitou os ombros. A disciplina sempre funcionara melhor do que o desespero.
Abriu a porta.
A opulência do Ministério da Magia poderia rivalizar facilmente com a Mansão Malfoy. Lustres dourados, mármore polido, vozes ecoando em tons controlados. O evento havia se transformado numa reunião improvisada da alta cúpula — ou ao menos daqueles que detinham influência.
No caso de sua família, dinheiro.
Seus pais não eram respeitados. Não realmente. Eram tolerados. Úteis. E naquele momento já se falava em liberar terras para construção de moradias — uma medida apressada, quase generosa demais, como se caridade pudesse neutralizar o desconforto que a imagem de Snape provocara.
Como se a história pudesse ser editada.
Draco caminhou pelo salão com cuidado calculado. Tentava não esbarrar em ninguém. Ainda assim, sentia os olhares. Em um canto mais reservado, viu o trio. Granger gesticulava com intensidade, a fala acelerada, como se organizasse o mundo com as próprias mãos. Weasley escutava com atenção distraída. E Potter parecia contrariado. Não irritado. Não exaltado. Apenas tenso.
Draco desviou o olhar primeiro. Ele não pertencia àquele espaço.
Não importava o sobrenome. Não importava a fortuna.
Para muitos, ele continuava sendo apenas: Covarde. Traidor. Comensal. E talvez o mais insuportável não fosse o julgamento externo. Talvez fosse a dúvida silenciosa de que, em algum ponto, ele mesmo acreditasse nisso.
Fale com o autor