Notas iniciais
Volteii, o TCC está acabando comigo. Espero que gostem desse capítulo. Desculpem os erros. Comentem e faça uma autora feliz!!!

Passava das oito horas quando finalmente emergiu na lareira da Mansão, o silêncio era um contraste enorme com o hospital agitado. Sua cabeça latejava fortemente, e seu corpo estava exausto. Seguiu até o quarto; seus olhos percorreram o cômodo, estava impecável, sem sinais visíveis da noite anterior – como se nada tivesse acontecido. Colocou a pasta em cima da escrivaninha, ela pesava mais do que no começo do dia. Com calma, retirou cuidadosamente o conteúdo reunido no dia, alinhou os pergaminhos, tinteiro, penas e, por fim, o frasco com inúmeras larvas. A luz alaranjada pulsava fraca.

Com a pasta vazia, caminhou até seu armário, guardou a pasta no espaço designado, abriu o baú ao lado da escrivaninha, retirou mais frascos, ingredientes, penas, pergaminhos e o caldeirão. Seus olhos demoraram por alguns segundos no frasco que Finn havia guardado naquela manhã; pegou o frasco, sem olhar o conteúdo, e guardou junto a outros frascos com conteúdos distintos, reorganizando o baú.

Voltando para o seu closet, escolheu uma roupa confortável, uma calça de linho e uma camisa de mangas longas na cor azul-marinho. A água do banho estava fria, muito diferente do banho na madrugada; seu intuito agora era apenas cumprir a higiene roteirizada. Quando voltou ao quarto, seu jantar estava posto na mesa do canto; o cheiro de carne assada o lembrou que não havia comido nada durante o dia. Serviu-se de uma dose de whisky, encarou o prato, ele não estava com fome. Ainda assim, comeu, mastigando metodicamente, sua mente pensando no material que precisava reunir para seus estudos. A aparição repentina de Finn o assustou.

— Jovem senhor, chegou tarde. Finn separou o jantar — Draco assentiu, num agradecimento mudo — separei também a correspondência.

Essa última parte, ela disse baixinho, retirando de dentro das vestes algumas cartas e o jornal do dia. Ele pegou os papéis, observando quando a elfa se mexia de um lado para o outro.

— Obrigado, Finn — disse, mantendo a voz controlada; sua cabeça ainda doía, e qualquer deslize faria que a elfa percebesse e tentasse ajudá-lo. — Precisarei de alguns livros da biblioteca, e depois você deve ir descansar.

— Finn pode ajudar — a voz dela subiu alguns tons.

— Livros e descanso, Finn. É uma ordem — não evitou o tom cortante.

Ela se curvou antes de sair. Ele ignorou a pontada de culpa, tinha muita coisa para fazer. Terminou a refeição rapidamente, serviu outra dose de whisky e parou em frente à escrivaninha; em um pedaço de pergaminho, listou os livros que precisaria e deixou a lista sobre a mesa. Conferindo a correspondência, um pacote pardo chamou sua atenção; não havia remetente, apenas seu nome escrito em uma caligrafia elegante. Dentro havia uma cartilha, o nome Comissão dos Direitos dos Bruxos brilhou em dourado.

Observou a cartilha, contendo o impulso de abri-la; a dita comissão havia crescido nos últimos anos, sua propaganda chegando de forma regular. Ateou fogo com a varinha; as chamas brilharam, o papel foi consumido lentamente. Passou pelas outras cartas, separando o Profeta Diário e o exemplar de O Pasquim. Leu o jornal rapidamente, nenhuma notícia surpreendente, apenas uma pequena nota, onde o Ministério comunicava a adição dele e mais três bruxos ao quadro de funcionários. Cortou a nota, descartando o restante; olhou pela última vez antes de guardar no baú junto com o exemplar de O Pasquim, intocado.

Ele já havia listado tudo o que se lembrava sobre o caso um quando Finn apareceu com os livros e os depositou cuidadosamente ao lado.

— Finn acrescentou dois livros, jovem senhor — não havia entusiasmo em sua voz.

Draco parou de escrever por um instante. Acima da dor em sua cabeça, um sentimento inquietante se instalou. Ele olhou os livros e depois para a elfa, parada ao seu lado com a cabeça baixa.

— Obrigado, Finn, agora você deve ir descansar. — Seu tom era baixo, mas firme.

Finn pareceu querer discordar, mas apenas disse um boa-noite baixo e saiu.

Draco puxou a vela próxima, garantindo mais iluminação, e se pôs a trabalhar.

Ele riscou a linha que havia acabado de escrever pela terceira vez; as palavras não faziam sentido, nenhum dos livros que consultara explicava a reação do paciente aos cuidados. Pegou uma pasta fina, na cor verde característica do St. Mungus; na capa havia apenas o nome do paciente e o número de controle. Dentro, um único pedaço de pergaminho. Draco abriu o prontuário.

Draco permaneceu alguns segundos olhando para o pergaminho, como se esperasse encontrar ali o que havia visto no leito. Não encontrou.

Estável.

A palavra parecia zombar dele. Fechou os olhos, lembrando da cena; não havia nada de estável, nada lógico naquele caso.

Retirou da pilha o pergaminho da sua avaliação; a diferença era inegável. O feitiço diagnóstico havia sido transcrito pela pena de repetição rápida: paciente não correspondente, temperatura corporal indefinida, diagnóstico inconclusivo. Então havia as suas anotações: pústulas disformes, tamanho e cor desiguais, temperatura elevada e baixa em pontos específicos, sem transição. Pupilas dilatadas. Não havia lógica. Seus olhos pousaram na página aberta do livro; as pústulas eram o único sintoma que constava na literatura sobre a Varíola de Dragão e suas variantes. A dor em seu crânio o impedia de pensar. Serviu-se de outra dose de whisky.

Pegou, na pilha, um dos livros que Finn acrescentara para ele. Falava sobre as ervas; procurou pela Noctifera. O livro era surpreendentemente completo, com verificações e cruzamentos que ele não conhecia. Draco se concentrou na leitura; a cada página, fazia marcações, sua mente trabalhando freneticamente, buscando pela lógica para explicar o que havia visto. A palavra Igníssia trouxe uma nova energia; os efeitos adversos eram extensos, o livro recomendava cautela no uso da erva, havia um limite seguro e a precisão era inegociável.

Ele parou por alguns instantes; em sua surpresa com o agravo do quadro do paciente, o emplastro havia sido esquecido no bolso de duas vestes. Seu corpo reagiu antes que pudesse realmente processar; voltou ao armário, buscando a amostra em sua pasta. De volta à escrivaninha, observou seu progresso: os pergaminhos que descartara, sua caligrafia irregular e riscada, os instrumentos espalhados, o caldeirão frio. Organizou os objetos com precisão, acendeu o fogo do caldeirão. Separou a amostra do emplastro e, utilizando o livro novo como guia, testou a amostra.

Os resultados seguiam a lógica, aumentando a frustração de Draco.

Se o tratamento estava correto, então a doença era a errada.

O último teste estava na nota de rodapé, quase passou despercebido. Respirou fundo, separou a quantidade com exatidão, verificando duas vezes antes de adicionar o reagente; um minuto passou, então dois e três. Draco percebeu que estava segurando o ar.

Então aconteceu.

A amostra brilhou, intensa e estabilizou. Ao longe, um relógio badalou três vezes, despertando-o do entorpecimento.

O estômago revirou sem aviso.

Draco se apoiou na borda da mesa, o movimento abrupto o suficiente para deslocar uns frascos. Não tentou conter. Virou o rosto a tempo, o líquido escuro atingindo o chão com um som abafado.

Permaneceu imóvel por alguns segundos, a respiração curta, irregular.

Observou.

A coloração era densa demais, escura demais.

Secou a boca com as costas da mão, sem expressão.

Endireitou-se.

Anotou no pergaminho o resultado que havia obtido, ignorando o leve tremor. Limpou os materiais, deixando apenas o resultado do último teste à vista; a amostra estava quente e não podia ser descartada assim.

Ele deveria dormir. Em seu baú, pegou uma dose mínima de poção do morto-vivo; recorria a esse extremo apenas em poucas ocasiões. Ainda assim, não hesitou: diluiu a poção em água antes de beber em um único gole. Agitou a varinha; o quarto mergulhou na escuridão. Fechou os olhos e esperou pelo efeito.

— Jovem senhor — a voz fina de Finn o trouxe à consciência lentamente. Abriu os olhos, piscando repetidamente; a claridade o incomodava. — Seu banho está pronto, e a senhora Narcissa o espera para o café.

Draco resmungou, cambaleando para o banheiro; a poção do morto-vivo, mesmo diluída e em dose mínima, ainda deixava seu corpo entorpecido. Tomou um banho frio, demorando um pouco mais que o necessário, tanto para despertar como para adiar o encontro com seus pais. Saindo do banho, vestiu as roupas que Finn havia separado; a elfa saltitava pelo seu quarto, organizando e limpando.

Ele caminhou até onde a amostra estava exposta, pronto para descartá-la, então parou.

Seus olhos desviaram para a mancha escura no chão, estava seca nas bordas, mas ainda densa no centro. Abaixou-se, observando, recolheu os frascos caídos, a pena e um pedaço de pergaminho. Alinhou os matérias, olhou novamente para a mancha, por alguns segundos.

Então voltou sua atenção para a amostra.

Estava diferente: a cor amarelada anterior havia mudado para um acobreado; um cheiro almiscarado, inexistente anteriormente, exalava. Buscou o livro rapidamente; essa reação não havia sido descrita. Seus olhos bateram na capa.

Ervas e seus cruzamentos, por Neville Longbottom.

Draco parou; o título pouco criativo arrancando um eco automático de desdém, combinava com o grifinório amante de plantas. Ele balançou a cabeça, como se pudesse espantar a zombaria; tinha que se concentrar no resultado e nas implicações que ele traria.

Ele segurou a amostra, trazendo-a à altura dos olhos, revisando mentalmente tudo o que tinha lido. Não fazia sentido, não havia uma explicação. Draco observou a capa do livro, manteve o olhar fixo por alguns segundos, avaliando suas opções.

Ervas e seus cruzamentos, por Neville Longbottom.

A escolha não parecia razoável. Ainda assim, estava ali.

Colocou a amostra na escrivaninha, puxou um pergaminho. A pena pairou por um instante acima da superfície, imóvel, como se a própria ação exigisse uma justificativa que ele ainda não havia formulado completamente.

Não precisava.

Mergulhou a pena no tinteiro e começou.

Longbottom,

Estou em posse de um caso cujo comportamento não corresponde à literatura disponível sobre varíola de dragão em fase necrosante. Os feitiços diagnósticos retornam leituras instáveis e inconclusivas.

Há interferência consistente no processo de leitura mágica, além de variação térmica localizada sem transição. O tratamento padrão com Igníssia, associado à calêndula e babosa, não apresenta resposta adequada — ainda que a composição esteja correta.

Identifiquei reação atípica ao cruzamento com Noctifera. A amostra, após estabilização, apresentou alteração de coloração e odor não descritos nas referências consultadas.

A pena parou. A tinta ainda brilhava úmida no pergaminho.

Draco permaneceu imóvel por alguns segundos, o olhar fixo nas próprias palavras. Não havia imprecisão. Nenhuma lacuna técnica.

E ainda assim—

Baixou a pena novamente.

Necessito da sua avaliação quanto a possíveis interações não catalogadas entre essas substâncias.

Draco Malfoy.

Objetivo. Suficiente.

Se endireitou lentamente, afastando o pergaminho alguns centímetros, como se a distância pudesse conferir alguma clareza adicional ao que estava diante dele. Não conferia.

Seu olhar desviou, inevitavelmente, para a amostra sobre a mesa. A coloração acobreada parecia mais intensa agora. Ou talvez fosse apenas a luz.

Ou o cansaço.

O cheiro almiscarado persistia, mais definido do que antes, como se a substância tivesse se estabilizado em algo que ele ainda não compreendia. Então voltou ao pergaminho.

A assinatura estava firme. A escrita, precisa.

Nada que denunciasse seu confronto.

Draco enrolou o pergaminho com cuidado contido, selando-o com um gesto breve da varinha. O selo se fixou sem resistência.

Houve uma pausa.

Curta.

Quase imperceptível.

Como se ainda houvesse tempo para reconsiderar.

Não havia.

Com um movimento seco, convocou a coruja.

A ave surgiu na janela aberta, silenciosa, observando.

Draco estendeu o braço, prendendo o pergaminho à pata com firmeza suficiente para não precisar ajustar.

— Entregue diretamente — disse, a voz baixa, estável.

A coruja partiu sem demora. O quarto voltou ao silêncio.

Draco permaneceu de pé por alguns segundos, o olhar ainda voltado para o ponto onde a ave havia desaparecido.

Então desviou.

A amostra continuava ali.

Inalterada.

Ou talvez não.

Ele não tinha certeza.

E, desta vez—

isso não era algo que pudesse ignorar.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.