Notas iniciais
Volteiii, demorei menos do que imaginei. O capítulo, pode ser sensível para algumas pessoas, não fui muito descritiva, mas cuidado. Espero realmente que estejam curtindo. Os comentários são sempre bem-vindos.

Draco fechou as cortinas do leito do paciente, criando uma barreira parcial entre eles e o barulho constante do hospital. O som não desapareceu, apenas se tornou mais distante, filtrado o suficiente para permitir foco, ainda que permanecesse ali, contínuo, como um lembrete de que nada naquele lugar realmente cessava. Por alguns instantes, manteve o olhar fixo no paciente, como se esperasse que, no silêncio relativo, algo se revelasse por conta própria — uma lógica, um padrão, qualquer elemento que organizasse o que via, sem a necessidade de intervenção.

Aproximou-se do leito com cuidado, inclinando-se o suficiente para observar as lesões mais de perto. O cheiro era intenso, agressivo, carregado de um odor que remetia à decomposição, mas não de forma linear. As feridas não seguiam um processo contínuo de deterioração; ao contrário, pareciam alternar entre estágios distintos. Hesitou apenas o tempo necessário antes de lançar um feitiço diagnóstico. A magia respondeu, mas de forma incompleta — a luz verde surgiu fraca, instável, oscilando com uma irregularidade sutil que não deveria existir.

Repetiu o feitiço, desta vez com maior precisão, ajustando a intenção, refinando o fluxo mágico com a disciplina que dominava. Ainda assim, o resultado veio fragmentado. As informações não se organizavam, como se algo interferisse no processo de leitura. Baixou a varinha devagar, sem desviar o olhar, enquanto reorganizava mentalmente o que sabia, descartando hipóteses com rapidez automática.

— Você vai mesmo mexer nisso? — a voz veio de algum lugar atrás dele, carregada de ceticismo.

Draco não respondeu.

— Há registros dele? — perguntou, ainda observando o paciente.

— Deve ter. Ninguém teve tempo de olhar.

Claro.

Draco assentiu quase imperceptivelmente, já esperando aquela resposta. Recuperou o próprio pergaminho e anotou o resultado do feitiço, organizando mentalmente os próximos passos. Por um instante, permaneceu imóvel.

O feitiço deveria ser suficiente. Sempre fora.

Seu olhar voltou ao paciente, agora mais atento ao que a magia não havia entregue. Aproximou-se um pouco mais, reduzindo a distância entre eles. Hesitou. Não era o procedimento padrão. Ainda assim, levou a mão até o braço exposto.

O calor não era uniforme — concentrado, excessivo, quase localizado demais. Manteve os dedos ali por um segundo a mais, registrando a intensidade e a pulsação irregular, antes de mover a mão alguns centímetros adiante.

Frio.

O contraste o fez parar. Retornou ao ponto anterior. Calor. Avançou novamente. Frio.

Não havia transição.

Draco manteve a mão suspensa por um instante, como se a ausência de contato pudesse tornar aquilo mais compreensível.

— O que você está fazendo?

A voz veio novamente, agora mais próxima, com um incômodo menos disfarçado.

Ignorou. Aproximou-se ainda mais e levou a mão ao rosto do paciente, erguendo levemente a pálpebra. A pupila reagiu, mas com atraso — a contração irregular, incompleta, desalinhada do estímulo. Sustentou a observação pelo tempo necessário antes de liberar a pálpebra com cuidado.

Desceu então o olhar para a respiração, captando o ritmo instável, as pausas deslocadas, como se o corpo falhasse em manter continuidade, e levou dois dedos ao pulso. O batimento estava presente, mas sem consistência — um ritmo fragmentado, incapaz de se sustentar.

— Você sabe que existem feitiços para isso, não sabe? — a voz insistiu, agora mais próxima da irritação.

Draco soltou o pulso devagar e se endireitou, ainda organizando o que via.

— Eu usei — respondeu por fim, a voz baixa, controlada. — O resultado não foi conclusivo.

O curandeiro o observava com evidente descrença. Com um movimento curto, um pergaminho surgiu flutuando acima do leito.

— Finley Scroumaut. Cinquenta anos. Diagnóstico: varíola de dragão, fase de necrose mágica.

Seus olhos voltaram para Draco.

Draco não desviou.

— Emplastro de Igníssia a cada seis horas.

O curandeiro soltou um breve som, algo entre um riso e um suspiro.

— Funciona muito bem em casos comuns. — Inclinou levemente a cabeça. — Esse não é um caso comum.

Fez um pequeno gesto com a varinha, como se descartasse a simplicidade da resposta.

— O abuso da Noctifera — continuou lendo o prontuário — atrapalha o processo de cicatrização do corpo, além de causar instabilidade nos feitiços diagnósticos. Quando usamos apenas a Igníssia, o efeito é praticamente nulo.

Ele o olhou, cansado e impaciente.

— E então, Malfoy, o que você faz… quando o básico não funciona?

Draco ficou em silêncio.

— Nesse caso, você controla. Não resolve. Pó de papoula para a dor. Emplastro com Igníssia, calêndula e babosa. Mantém estável.

Retirou um pequeno frasco do bolso e o estendeu.

— Passe uma camada superficial para proteger as pústulas. O suficiente para ele se manter funcional.

Draco pegou o frasco, observando rapidamente o conteúdo.

— Há algo de errado com—

— Isso é básico.

A interrupção foi imediata.

— Você não é um curandeiro treinado. Então faça o que está no prontuário.

Uma breve pausa.

— Ou eu reporto à direção.

O silêncio que se seguiu foi curto, mas suficiente.

Draco observou o curandeiro se afastar. O som de líquido sendo chocalhado o trouxe de volta ao foco. Estava tremendo — muito mais do que conseguiria justificar. Fechou os olhos por um instante e respirou fundo. Tinha um trabalho a fazer.

Aplicou o tratamento conforme indicado, com movimentos precisos, econômicos, sem hesitação visível. O emplastro formava uma camada uniforme sobre as lesões, selando a superfície sem alterar o que havia por baixo. Observou por alguns instantes após terminar, como se esperasse uma resposta que não viria.

Não permaneceu mais do que o necessário.

Draco retornou à própria sala com o frasco ainda na mão, o peso do protocolo mais incômodo do que o confronto em si. Organizou a mesa quase por reflexo, alinhando pergaminhos, reposicionando o tinteiro, como se a ordem externa pudesse compensar a ausência de coerência que começava a se formar em sua mente.

Retomou as anotações, mas a sequência lógica já não se sustentava. Os dados não se encaixavam; a explicação era funcional — e apenas isso. O turno avançou de forma irregular, como se o tempo naquele lugar não obedecesse à mesma lógica do mundo externo.

Uma batida breve interrompeu o pensamento.

— Tem outro pra você.

O curandeiro não entrou completamente, apenas abriu o suficiente para transferir a responsabilidade.

— Está no leito do fim do corredor.

E desapareceu antes que qualquer resposta fosse possível.

Levantou-se.

O corredor parecia mais silencioso naquela extremidade, não pela ausência de pessoas, mas por uma espécie de afastamento deliberado. Alguns olhares se desviaram quando ele passou. Outros sequer se moveram.

O leito estava parcialmente isolado. O paciente estava sentado, parecia consciente e bem. Draco se aproximou — e entendeu imediatamente.

O cheiro era peculiar. Excremento, abóbora e algo em decomposição.

Com um feitiço, formou uma barreira, mantendo apenas ele e o paciente dentro.

— Senhor? — chamou, aproximando-se ainda mais.

O homem o olhou; parecia estar perto da idade dele. Os olhos estavam avermelhados, assim como o nariz; o braço esquerdo enrolado em um pano imundo, manchado com o que parecia ser sangue seco.

— Você vai me ajudar? — a voz estava carregada de dor.

Ele parou em frente ao rapaz, girou a varinha, mas o prontuário não apareceu.

— Ninguém falou comigo… meu cheiro — ele deu de ombros, envergonhado, antes de acrescentar — dói.

Draco assentiu, captando o que não havia sido dito.

A vergonha. O abandono. O fato de ninguém ter se aproximado até então.

— Deixe-me ver o seu braço — pediu, com a voz calma, ignorando o cheiro e o próprio nervosismo.

O homem estendeu o braço; a mão que aparecia sob o pano aparentava estar inchada e avermelhada, o paciente tremia visivelmente. Draco o olhou novamente; havia lágrimas em seus olhos, estava encolhido, parecendo miserável. Ele hesitou por um instante, lembrando da própria vulnerabilidade. E da forma como Finn o tratara. Murmurou um feitiço, trazendo uma cadeira próxima. Sentou-se, dizendo a si mesmo para permanecer calmo.

Pegou o pergaminho e a pena.

— Qual o seu nome? — começou novamente, sentindo-se levemente estranho.

— Iago Saxton. — Draco anotou a caligrafia fina e requintada.

— Sua idade?

— 19 anos, senhor. — A idade o surpreendeu um pouco, mas não demonstrou.

— Vou ver o seu braço agora, Iago. Ok? — O rapaz assentiu, o braço ainda esticado.

Draco começou a remover o pano; o cheiro piorava, ainda mais confinado na barreira. Quando desenrolou a última volta, a visão não era nada agradável.

— Está muito ruim, né? — Iago disse; algumas lágrimas haviam escapado de seus olhos. — Eu já tive outras vezes, mas nunca assim.

Draco não disse nada, manteve o rosto sério enquanto observava. Havia várias lacerações redondas em sua pele, algumas tão próximas que pareciam uma só; as bordas estavam avermelhadas e irregulares. Ele podia ver pequenas elevações que se moviam sob a pele; algumas passavam pelas feridas abertas. A coloração alaranjada não deixava dúvidas.

Cucurbita Sombria.

Essas infestações de larvas de abóboras geralmente não ocasionavam visitas ao St. Mungus; os bruxos resolviam em casa, utilizando um feitiço simples de remoção. Em casos mais comuns, removia-se cerca de 3 a 4 parasitas, menores que uma semente do fruto. Ele sacou a pena de repetição, sua mente trabalhando freneticamente.

— Eu vou perder meu braço? — a voz desesperada de Iago o tirou dos seus pensamentos.

— Vamos retirar as larvas e tratar as feridas — conseguiu dizer, com a voz plana, lutando contra a necessidade de catalogar tudo até que pudesse entender. — Você me disse que já teve outras infestações, qual a frequência com que isso acontece?

— Várias vezes, temos colheita quase todos os meses — a pena trabalhava, enquanto Draco executava o feitiço diagnóstico — temos as melhores abóboras do país. Meus pais vendiam para toda a Europa.

— Você sempre removeu os parasitas em casa? — Draco perguntou, listando os procedimentos necessários.

A mente já trabalhava mais rápido do que o corpo.

— Sim, aí elas começaram a estourar...

Draco parou.

— Estourar?

— Sim, tinham três. Minha mãe foi remover, ela sempre remove pra gente. O primeiro que ela tirou estourou em outros menores, e toda vez que ela tentou tirar, explodiram em mais, até ficar assim — Iago apontou com o queixo para o braço.

Draco assentiu. Isso não fazia sentido; as larvas eram sensíveis, mas raramente explodiam, ainda mais todas as vezes. Ele precisava pensar rápido.

— Quando isso aconteceu?

— Tem alguns dias — Iago falou com a voz baixa, como se estivesse com medo de que algo pudesse acontecer.

Sua mente trabalhava nas opções; ele não tinha muito tempo. A infecção, geralmente inofensiva, estava descontrolada e podia causar danos irreversíveis. Ele olhou ao redor; a barreira os deixava completamente isolados. As poucas pessoas que passavam por ali não dirigiam nenhum olhar naquela direção.

— Está doendo muito. — Iago estava chorando livremente.

Draco leu o pergaminho, avaliando os dados que o feitiço diagnóstico havia trazido; o braço estava mais quente que o resto do corpo, cerca de 5 graus. Ele tinha febre. O nível de infecção era crítico.

— Vou te dar uma poção pra dor — Draco disse, ordenando os passos do tratamento em sua mente. — Aguarde aqui.

Ele voltou pelo corredor; em sua mesa havia poções para dor. Sabia que iriam funcionar — tinha-as verificado naquela manhã. Fora da barreira, o barulho voltou com força total. Percebeu alguns olhares e conversas, mas ninguém falou diretamente com ele. Ainda assim, ouviu claramente quando um curandeiro disse que ao menos o cheiro tinha sido restringido. Pegou a poção para dor de forma automática, pensando em como tiraria as larvas, buscando no fundo da sua mente todos os feitiços que conhecia.

Foi quando seu olhar pousou sobre os instrumentos ao lado do caldeirão. A pinça se destacou. Permaneceu imóvel por um instante, avaliando. Não seria um trabalho rápido, mas poderia ser seguro. Pegou-a antes que mudasse de ideia.

Iago estava encolhido no leito, seus olhos fechados.

— Iago — chamou baixinho — beba isso.

Observou enquanto o paciente bebia, esperando os poucos minutos que a poção precisava para fazer efeito. Respirou fundo, clareando a mente.

— Eu tenho uma ideia para retirar as larvas — começou com a voz calma — vou retirar de maneira manual.

O paciente o olhou, surpreendido.

— Vou precisar fazer pequenos cortes com uma lâmina. Prefiro não usar nenhum feitiço que possa fazer com que elas explodam. — Mostrou para Iago os materiais que iria utilizar, sabendo que provavelmente estava pedindo algo que o paciente não iria aceitar.

— Vai doer?

— Vai — respondeu Draco, sem suavizar. — Mas eu consigo controlar.

Iago ficou em silêncio por alguns segundos. O olhar passou pela barreira, pelo vazio do corredor, antes de voltar para Draco.

— Você não vai parar no meio… vai?

Draco sustentou o olhar.

— Não.

Silêncio.

— Então… faz.

A resposta o surpreendeu, os argumentos que já reunira para convencê-lo se perdendo.

— Ok, vou arrumar o material e começamos.

Draco conjurou uma mesa para ajudá-lo, alinhou os materiais necessários, tomando tempo para verificar se estavam perfeitos. Ao lado da pinça, deixou um recipiente para depositar as larvas que retirasse e uma cuia com água e sabão. Durante esse processo, respirava profundamente, acalmando a agitação interna.

— Deite-se e mantenha o braço esticado — ajeitou o paciente na posição que teria pleno acesso. — Está pronto?

Iago assentiu.

Ele lavou as mãos, observando a parte exposta, o sangue corria em uma linha fina, observou algumas larvas que apareciam pela ferida exposta. Aplicou o emplastro na pele intacta, com cuidado para evitar as partes machucadas, a mistura em contato direto com a ferida poderia causar ardor.

Pegou a pinça, focado no que estava vendo, sentia sua mão tremer levemente.

Fez o primeiro movimento com precisão contida. Alcançou a larva e a prendeu com a pinça, ajustando a pressão com cuidado calculado. Puxou devagar, controlando cada milímetro, atento a qualquer sinal de ruptura.

Por um instante, pareceu resistir – como se recusasse a ceder.

Então cedeu.

Depositou no frasco e manteve o olhar fixo. Esperou.

Nada aconteceu.

Levantou os olhos, encarando Iago, o alivio em seu rosto foi tudo que precisou. Voltou a trabalhar.

Perdeu a conta depois da décima primeira. Ainda assim, manteve o ritmo lento e constante. Reaplicava o emplastro a cada poucos minutos, controlando o sangramento que insistia em retornar em pontos específicos.

Não havia margem para erro.

Iago permaneceu em silêncio, mas seu corpo permaneceu em movimento. A respiração irregular, o corpo tenso a cada nova aproximação da pinça, como se antecipasse a dor mesmo sob o efeito da poção.

Ele retirou a ultima larva que conseguia ver pelas lacerações, depositou a pinça na mesa, com cuidado utilizou a mão esquerda para tatear a pele, encontrou outro foco, pegou a lâmina, Iago suspendeu a respiração, ele olhava a lâmina, ombros tensos, mas assentiu para que Draco continuasse.

Ajustou a lâmina na posição correta. O corte veio limpo, preciso, sem qualquer resquício do tremor anterior — como se a repetição tivesse eliminado completamente a hesitação.

Trabalhou em silencio pelo que pareceu horas, ninguém o interrompeu, ninguém se preocupou em saber o que estava fazendo. Quando depositou a última larva no frasco, só então percebeu o próprio corpo. O suor frio nas costas, a tensão acumulada nos dedos, a mão ainda rígida ao redor da pinça.

Iago havia dormido em algum momento do procedimento. Ele limpou o braço, repetiu o feitiço diagnostico. Não havia resquícios de infecção. A temperatura corporal estava estável. Começou a trabalhar em fechar as feridas, apontou a varinha, havia sido necessário 8 incisões na pele, o feitiço que utilizou não era o convencional, era o mesmo que seu padrinho havia utilizado para curar as feridas do sectusempra. Em poucos instantes a pele ficou intacta, não havia nenhum sinal de cicatriz. O cheiro pungente, havia desaparecido completamente.

Draco anotou o procedimento no pergaminho com a mesma precisão com que havia conduzido cada etapa, registrando não apenas o que fizera, mas o que observara — a quantidade incomum de larvas, o comportamento atípico durante a remoção, a ausência de resposta mágica adequada. Incluiu também as recomendações para continuidade do tratamento em casa.

Recolheu os instrumentos com movimentos mais lentos do que o habitual. A tensão que sustentara durante todo o procedimento começava a se dissipar agora, deixando para trás um cansaço mais denso, mais silencioso. O frasco com as larvas foi o último a ser guardado. Hesitou por um breve instante antes de fechá-lo completamente, observando o brilho alaranjado fraco que pulsava de forma irregular no interior.

Fez uma anotação mental, sobre estudá-las depois.

O som baixo do relógio em seu pulso o trouxe de volta ao ritmo do hospital. O tempo não havia parado. Não parava. Nunca ali dentro. Draco respirou fundo uma vez, curta, controlada, antes de se levantar.

Manteve a barreira ao redor do leito de Iago, desta vez não como contenção, mas como proteção. O rapaz dormia, o rosto finalmente relaxado, distante da tensão que o atravessava quando chegou. Por um instante, Draco permaneceu ali, observando-o em silêncio, como se confirmasse que aquilo — ao menos aquilo — estava resolvido.

Mas a sensação não se sustentou.

Virou-se e deixou o leito.

O corredor pareceu mais estreito no retorno, o barulho mais presente, mais intrusivo. Não era diferente de antes. Ele apenas o percebia mais. Ao chegar novamente ao leito de Finley, não precisou se aproximar completamente para notar.

As pústulas haviam se agravado.

A superfície da pele parecia mais instável, mais tensionada, como se o corpo estivesse sendo forçado a sustentar algo que já não conseguia conter. Algumas lesões haviam se expandido, outras assumiam colorações que não estavam presentes antes. O padrão — se é que havia um — não seguia progressão alguma que reconhecesse.

Draco não falou.

Aproximou-se.

Seus dedos pairaram no ar por um instante antes de tocar a pele novamente. O calor permanecia irregular, deslocado, como antes — mas agora mais intenso. Mais definido. Ou talvez apenas mais evidente.

Se endireitou lentamente.

Não havia conexão suficiente para afirmar.

Mas também não havia ignorância suficiente para descartar.

Seu olhar permaneceu sobre o paciente por mais alguns segundos, sustentando a observação como se, dessa vez, exigisse uma resposta que sabia que não viria.

Havia feito exatamente o que fora instruído.

E ainda assim...

Não era suficiente.

O protocolo estava correto. O tratamento estava correto.

Mas algo, ali, não estava.

Draco desviou o olhar por fim, não por resolução, mas por escolha. Voltaria à sua sala. Registraria. Compararia. Revisaria cada detalhe, cada variação, cada inconsistência.

Porque, se havia um padrão—

Ele ainda não sabia qual era.

E, desta vez, não podia se dar ao luxo de errar.