Respiração, foco nos sentidos!
7 Capítulo 7 - Mentira
Katsuki tinha algumas reclamações quanto ao seu quarto no dormitório, sendo a principal estar no quarto andar. Normalmente, isso não seria um problema, mas considerando que as missões que ele teria que fazer aconteciam à noite, especificamente na madrugada, isso agora virou uma questão para se lidar. Ele não tinha medo de ter que saltar da sacada do quarto andar, e pular de novo pra voltar. Mas manter a discrição com isso ao longo do tempo não seria uma tarefa fácil.
O layout desse prédio também o incomodava. Veja, Katsuki entende a necessidade de manter as garotas e garotos separados. Meninos no lado esquerdo e meninas a direita dentro do prédio, menos na área comum. Mas ele se desacostumou com essas coisas depois de ficar no castelo infinito por tanto tempo. Lá, era diferente, não existia separação de gênero. Katsuki e Sakeme já tiveram que dividir o quarto mais de uma vez, Aurora praticamente os obrigava a isso. De acordo com ela, ajudava a criar caráter e a melhorar a relação dos dois. Nenhum dos dois realmente se importava com isso, mas não tinham problemas em obedecer.
Agora, Bakugou estava sentado em seu quarto, tendo terminado de abrir a última de suas caixas. Após toda a organização, tudo estava relativamente comum. Nem em sua casa seu quarto tinha muitas decorações, ele vendeu a maioria faz muito tempo. A única adição notável era principalmente suas katanas.
Aurora o ajudou com isso também, recomendado alguns suportes de katana que poderiam ser úteis. De início, Katsuki comprou um katanakake pra por na parede. Um suporte tradicional feito para exibição. Ele colocou sua katana velha lá, e as de madeira encostadas em algum canto. A mais recente ainda estava na bainha em seu cinto, junto com sua arma de apoio na outra ponta. Sua mestra também deu leques extras que ele deixou em uma mesinha próxima.
Já eram seis da tarde, e ele passou todo o momento, desde que foi aceito novamente na U.A, até agora, organizando as coisas. Logo, Katsuki ouve algumas batidas na porta. Ele estava tentando adiar esse momento, mas supõe que é algo "importante" de ser feito. Mesmo sem sua audição nova ativada, dava pra ouvir as vozes do outro lado.
Bakugou suspirou um pouco com isso, estava na hora. Ficou frente a porta por um momento, abrindo-a como se estivesse tirando um curativo de uma ferida.
Ao abrir, ele quase se surpreendeu. "O que vocês todos estão fazendo aqui?!" Katsuki esperava seu pequeno grupo ali, não todas da 1-A, até mesmo o Todoroki estava ali. Mineta felizmente foi inteligente o suficiente e se manteve longe. Katsuki odiava aquele merdinha pervertido. O olhar de Bakugou passa por um Midoriya visivelmente nervoso, mas não dura mais do que um segundo.
Que idiotas...
—Isso é quase fofo. Quase.
"Não é óbvio?" Mina que começa, com as mãos gesticulando para todos os colegas atrás e ao lado dela.
Katsuki apenas levanta uma sobrancelha com isso, em dúvida. Não foi isso que eles combinaram antes. Quando Aizawa disse que ele estava novamente aceito na U.A, Mina e Kirishima praticamente pularam nele o abraçando, deixando a katana dele cair, além de fazer todos os três cair no processo, arrancando algumas risadas dos presentes que estavam observando com expectativa. Eles combinaram de fazer uma pequena comemoração, com Katsuki aceitando apenas por não querer passar batido por isso. Mas o combinado com certeza não envolvia todos da 1-A.
"Você não tava aqui quando fizemos a competição de apresentações de quarto! Então, vamos resolver isso!" Mina explica como se fosse óbvio, olhando por cima do ombro de Katsuki para o quarto. "Aquilo são mais katanas?!"
Bakugou passou os olhos pelos outros ali, e viu alguns olhares curiosos para seu cinto, a katana e o leque especificamente. Isso faz ele dar um suspiro pesado, não tinha nenhum problema com eles vendo seu quarto. Mas, nada disso foi planejado, e querendo evitar dor de cabeça, resolveu aceitar o pedido aparentemente inocente.
"Tsk... tá, mas sejam rápidos seus idiotas!" Katsuki abre um pouco de espaço na porta, deixando-os entrar ou ver os seus aposentos livremente.
Com isso, Mina e seu grupo são os primeiros a partir em arrancada para dentro. Alguns decidem ficar olhando com um pouco mais de cautela, sem entrar. Todoroki parece entrar sem medo, Lida e Uraraka também, com um Izuku nervoso os seguindo. Por um ou dois segundos, os olhos de Katsuki e Deku se cruzam, e o tempo parece ficar em câmera lenta para ambos. Os verdes dele encontram os vermelhos de Katsuki, mas, um parece não reconhecer o outro muito bem, principalmente o esverdeado.
—Esse merdinha acha que realmente consegue esconder algo da gente?
...
—Diz algo!
E o que teria para dizer? Eu já suspeitava.
—Huh... que chato.
A primeira a comentar algo é Jirou. "Esse quarto parece estranhamente... simples?" Ela comentou, olhando ao redor. Nem mesmo a televisão estava ali.
Os outros parecem perceber isso também. "Eu não imaginava que você fosse ter tão poucas decorações, Bakugou." Tsuyu diz enquanto olha ao redor do quarto, que parecia super básico.
"Eu admiro seu minimalismo, Bakugou! Isso demonstra sua evolução!" Lida fala, movendo as mãos em posições robóticas como sempre.
O comentário de Lida quase faz uma veia saltar do rosto de Bakugou.
Minimalismo?! Quem esse quatro olhos de merda acha que é em?
Katsuki se inclina um pouco em direção a Lida ao ouvi-lo."EI!" Ele grita brevemente para chamar a atenção para si. "Isso não é minimalismo, eu só não tenho grana pra comprar todas essas merdas que vocês tem!" Alguns olhares se arregalaram ao ouvir, e outros parecem engasgar com o ar. "Por que esses olhares?! Não é todo mundo que tem dinheiro pra gastar como se fosse água, porra!"
Isso faz todo mundo ficar em silêncio por um tempo, até mesmo Mina e Kirishima, que estavam focados na katana que estava no suporte, ou nas de madeiras encostadas no canto do quarto. Ninguém realmente esperava que justo o Katsuki não tivesse dinheiro. Izuku tinha uma boa noção disso, por conta da mudança de bairro. Seu grupo também tinha consciência de que Bakugou não era rico. Eles visitaram a casa dele, e notaram isso, embora, não comentaram nada por conta da privacidade dele. Mas nem eles esperavam que estivesse nesse nível.
Por que todo esse silêncio?!
—O que você esperava?
—Não tem uma decoração sequer nesse quarto!
E a merda do pôster do All Might na parede?!
—Esse um único pôster tem o mesmo efeito de um livro sozinho em uma prateleira. Todo mundo tem, mas ninguém nota.
—Ou seja, ele não conta como decoração.
...
Merda.
Como sempre, Todoroki é o primeiro a quebrar o gelo, com seu tato social mínimo. "Bem que eu achei esse quarto parecido com o da Uraraka..." A mão dele estava no queixo, como se estivesse falando algo inteligente.
"Ah?!" Uraraka reage, ainda meio atordoada pela comparação. "O meu quarto não é tão vazio assim!"
"É sim!" Um coro inteiro de vozes responde, deixando Uraraka branca por um momento, como se sua alma estivesse saindo do corpo. A atenção nela dura o suficiente até que as katanas fiquem em foco, ou seja, menos de dois segundos depois.
"Isso... são realmente katanas?" Katsuki ouve Toru perguntando, próxima do katanakake em que ele pôs sua antiga arma.
"Não é óbvio?" A voz sai com alguma rispidez, só que sem a arrogância forçada que ele teria antigamente. Katsuki aproveitou isso para se virar em direção a todos os colegas dele que ali estavam. "Eu sei que vocês idiotas devem estar cheio de dúvidas e todas essas merdas." Katsuki suspira um pouco, se preparando para as explicações inventadas de sempre. Já estava quase ficando profissional em enganar as pessoas nesse ponto. "Vamos, podem perguntar o que quiserem. Vou responder logo, e sejam objetivos!" Bakugou enfatiza a última palavra, mesmo sabendo que eles vão ignorá-la completamente. Conhecia muito bem todo mundo ali.
Logo, todas as perguntas usuais começaram. "Onde?" "Como?" "Quando?" "Quem?" Vindo de todas as direções, Katsuki já podia sentir a cabeça latejando só por conta do barulho. Muitas pessoas falando ao mesmo tempo ainda o deixava confuso, mas, ele treinou o suficiente para lidar com isso.
Enquanto Katsuki se encarregava de responder todas as perguntas mais comuns, duas pessoas se mantiveram inesperadamente em silêncio. Deku e Uraraka.
.
.
.
.
.
.
.
Uraraka estava pasma, pra começo de conversa. Inicialmente, ela até prestou atenção nas explicações que Bakugou dava, mas seu olhar rapidamente começou a varrer o quarto, e percebeu que realmente não era tão diferente do dela. Na verdade, o quarto de Katsuki era até mesmo mais vazio que o da própria.
Óbvio, ela não esperava que fosse a única com dificuldades financeiras na U.A. Mas ninguém realmente esperava que Katsuki tivesse uma dificuldade desse naipe, ou de qualquer outro na verdade. Ela sabe que Bakugou não devia ser um exemplo de qualquer coisa, mas não tinha como evitar admirá-lo depois do festival esportivo. Na luta deles, ele lutou de verdade, sem subestimá-la, foi o único que realmente a levou a sério, e tratou-a como uma adversária à altura.
Ela nunca contara nada disso a Katsuki, afinal, não tem como saber o tipo de reação que ele poderia ter. Só que o vendo agora, e sabendo de suas condições financeiras, ela não pode impedir a si mesma de se sentir um pouco mais conectada a ele. Ao menos de modo superficial.
Bakugou... você também passa por isso?
Eu... não podia imaginar.
Seus pensamentos giravam exclusivamente em volta disso agora, sem conseguir realmente focar em qualquer coisa que Bakugou pudesse estar explicando sobre suas katanas ou leques.
A maioria das pessoas tratava isso como brincadeira, ou só não se importam. Sempre achavam divertido brincar como Uraraka comprava a comida mais barata quando saiam juntos, ou como seu celular ainda tinha botões e uma tela pequena menor que a de alguns relógios atuais. Ela tentava levar na brincadeira, e fingia não ligar, mas machucava. Só pensar nisso faz Ochako fechar os olhos com uma força surpreendente, além de deixar seu semblante significativamente mais escuro.
Será que... ele também passa por isso?
...
Acho que não... é o Bakugou afinal.
Não acho que alguém realmente tenha coragem para falar isso na cara dele.
Então, um pensamento veio à sua mente, fazendo seus olhos abrirem um pouco, arregalados em surpresa. Katsuki Bakugou não tinha mais poderes, e ela dúvida muito que uma katana possa compensar isso. As pessoas devem achar ele fraco agora que não tem mais suas explosões tão características dele.
Não, isso não pode ser verdade...
O Bakugou não é fraco!
Uraraka pode não ter visto ele usando aquela katana, mas tem a mais absoluta certeza de que Katsuki deve saber usar aquilo como ninguém.
Desde a luta deles no festival, Uraraka vem se esforçando quatro vezes mais para aumentar ainda mais sua força. Isso culminou, entre outras coisas, nela indo para a academia mais cedo do que toda a turma, ao menos, era isso que ela achava. Sempre que chegava para treinar, Bakugou estava lá, tendo chegado talvez dez minutos antes dela. E, meia-hora depois, Kirishima também costumava vir, comprintado os dois e indo para o lado de Katsuki treinar.
Ela sabe que ele é esforçado, talvez o mais esforçado da turma inteira. Por conta destes fatos, Uraraka fica tranquila em ter a certeza de que Katsuki não iria se deixar ficar para trás por conta de perder algo como sua individualidade.
Sim! O Bakugou que eu conheço não iria ficar pra trás por conta de algo assim!
Por um momento, um sorriso se forma no seu rosto. E ela olha diretamente para o rosto de Bakugou, que estava ocupado aparentemente abrindo o leque e mostrando como as pontas são extremamente afiadas. Katsuki estava explicando tudo com uma paciência surpreendente para seus antigos padrões. O que fez o sorriso de Uraraka aumentar ainda mais por alguns poucos segundos.
Ele parece estar mais paciente...
Talvez... ele finalmente pare de ser mal com Deku!
Isso tira um pouco do sorriso do rosto dela. Ochako odeia lembrar dessa parte do Katsuki. Ela sempre tenta não interferir muito nisso, até porque é um assunto pessoal que envolve Izuku e Bakugou, e mais ninguém. Só que ainda incomodava ter essa incerteza sobre como andava a relação deles dois. Ela já conversou com suas amigas e Lida sobre isso mais de uma vez.
Uraraka deu alguns tapinhas leves na cabeça com as duas mãos ao pensar nisso.
Não! Eu prometi pra mim mesma que eu não iria me envolver!
Esse assunto é entre Izuku e Katsuki, e é melhor deixar assim. Ela passa o olhar no melhor amigo por um momento, percebendo o olhar fixo de Deku até o loiro.
Esses dois tem realmente muita bagagem pra resolver...
.
.
.
.
.
.
.
Nada estava fazendo sentido para Midoriya. Desde crianças, mais de dez anos, esse é o tempo que ele vem escrevendo sobre Bakugou. Izuku sabia cada detalhe possível sobre o amigo, sobre a individualidade dele, sobre a família dele, a vida inteira dele.
Depois que Katsuki se mudou da antiga casa, as coisas mudaram bastante, sim. Mas, Deku ainda continuava observando e estudando-o, categorizando cada coisa que via, anotando cada detalhe. E, desde que se lembra, Katsuki nunca fez aulas de katana, e muito menos teve interesse nisso em algum momento da vida. Então... por que ele estava mentindo falando que fazia aula a meses? Deku não conseguia entender.
P..por quê?
Desde que se encontraram acidentalmente na pizzaria ontem, essa pergunta ronda sua cabeça.
Por que mentir?
Você é forte Kacchan! Não tem porque as pessoas duvidarem de você...
Isso... não faz sentido!
Uma das principais regras sobre Bakugou é: Ele nunca mente. Mesmo quando eram crianças, Katsuki abominava a mentira, e sempre abominou. É por isso que mesmo hoje em dia, Bakugou não troca muitas palavras com Izuku. Até hoje, ele deve imaginar que Deku estava mentindo sobre não ter individualidade antigamente. Isso foi algo que Izuku sempre admirou no loiro, nesse ponto Katsuki é o ápice da integridade.
Ou era. Agora aqui estava ele, mentindo. Com esse pensamento, Deku fixa seu olhar em Bakugou, com seu semblante preocupado de sempre, os olhos grandes e levemente arregalados, fixos no rosto do amigo de infância.
Kacchan...
.
.
.
.
.
.
.
Katsuki ficou cerca de meia-hora tendo que dar falsas explicações para todos os que estavam ali presentes. E isso o deixou mais no limite do que queria admitir, até que ele decidiu acabar com isso o mais rápido possível, especialmente depois de uma pergunta perigosa até demais, a qual ele não estava pronto para contar ou sustentar uma mentira sobre.
"Espera, o que é isso no seu pulso?"
—Ihhh... Fudeu.
Bakugou não sabe de quem veio essa pergunta, mas veio do meio do grupo, então deve ter sido de algum idiota. Kaminari talvez. Isso ativou um alerta nele, ainda não tinha feito uma mentira para explicar a marca. Claro, ele poderia só falar que é uma tatuagem e tentar sustentar isso, mas, ele sabia que isso iria acabar indo parar nos ouvidos dos professores, principalmente por conta de Lida. E considerando sua quase expulsão, Katsuki sabia que estava em cordas bambas aqui, e não queria atiçar mais ainda os responsáveis por essa decisão.
"Chega!" Katsuki grita, apontando para a porta aberta em seguida. "Todos, pra fora! Agora!"
A maioria da 1-A não parece entender o porquê disso, mas alguns dão um passo pra trás, apenas para garantir.
"Mas por quê?" Kaminari pergunta, meio perdido.
Mina concorda com o amigo, balançando a cabeça. "É, fizemos algo errado?" Ela diz isso enquanto bota a katana de madeira que estava segurando de volta no mesmo canto.
"Eu só preciso de um tempo sozinho." Katsuki tenta responder sem tanta animosidade para seus amigos, mas afia os olhos assim que se vira para o pequeno grupo da 1-A agora reunido frente a si. Alguns já tinham ido embora durante as explicações básicas, então, estava bem mais vazio que antes. Lida, Uraraka, Koda, Ojiro, Aoyama e Sato, por exemplo. Eles se despediram falando que tinham outras responsabilidades ou algo assim, pelo que Bakugou lembra.
"Ainda vamos comemorar sua volta pra U.A, não é?" Kirishima que fala dessa vez, segurando uma outra katana de madeira apoiada nos ombros, só por diversão. Em seguida, jogando-a no canto igual Mina fez.
Katsuki assentiu lentamente. "Me esperem lá embaixo. Agora, todos vocês idiotas, vão!"
A maioria parece entender a mensagem, e começam a sair sem muita demora. Em especial, Mina e Kirishima apertam levemente seu ombro antes de descer.
"Fique bem, Blasty!"
"É Kats, estamos aqui pra qualquer coisa que precisar!"
Os dois falam, segurando um ombro cada um. Katsuki não se encolhe nem um centímetro sequer. Depois do abraço deles dois mais cedo, isso parecia até... comum.
Porra... eu tô gostando demais dessa merda né?
—Sim.
Eu tô ficando mole demais...
—Isso é ruim?
...
—Você não sabe né?
...
—É claro que não sabe... por quê saberia?
Bakugou não consegue responder o toque deles dois, então apenas acena com a cabeça pra eles, torcendo para entenderem seu "obrigado" indireto. Felizmente, eles não questionam nada, e apenas saem pela porta. Quando todos já tinham saído, apenas uma pessoa ficou em pé sem mover um músculo sequer... Deku.
Izuku estava parado em um canto do quarto, perto da porta, olhando fixamente para as katanas de Katsuki.
"Tá esperando o que em Deku?! Vai embora logo, porra!" Bakugou disse já se sentando na cama, esperando que Midoriya fosse embora sem querer causar mais nenhum alvoroço entre eles.
Inicialmente, Deku se vira em direção a porta, começando a andar. Isso faz Katsuki soltar um suspiro que ele estava guardando a um tempo, todas aquelas pessoas no seu quarto era cansativo, muito mais do que ele esperava. Mas Deku mais uma vez o surpreende. Ao invés de passar pela porta, Izuku a fecha, deixando os dois sozinho no quarto, e trancando-a em seguida. Um pequeno click é ouvido.
Katsuki levanta a cabeça com isso, olhando quase diretamente para Deku.
Porra... o que esse merdinha quer agora?
—Ele é um yandere e vai matar a gente, eu to avisando...
Cala. A. Boca.
Agora, Deku estava em pé na frente de Katsuki, olhando para os próprios pés enquanto pensava no que fazer. Já Bakugou estava olhando diretamente para Izuku agora, ainda sentado na cama, e olhando pra cima, para conseguir alcançar seu olhar sem ter que se levantar.
Ambos estavam em um silêncio tenso, ao menos na perspectiva de Izuku. Para Katsuki, estava tudo, menos silencioso. Graças à sua nova audição, ele arranjou um novo truque para identificar mentiras ou outras emoções mais silenciosas que as pessoas ao redor dele podem estar tentando esconder. As batidas do coração. Ansiedade costuma acelerar o coração, e Katsuki seria capaz de apostar muito dinheiro que Izuku com certeza tem algum nível disso, principalmente agora.
Dito e feito, quando ele focou no corpo de Deku, ele foi capaz de ouvir tudo. O coração dele estava batendo mais rápido que o comum, e também dava pra ouvir até as gotas de suor em sua testa. Esse truque não é perfeito, e Katsuki ainda não sabe como diferenciar uma simples mentira de um episódio de ansiedade, por exemplo. Mas, já era uma nova arma silenciosa que ele poderia usar em muitas situações.
Depois de mais de cinco minutos parados, com Deku olhando para os próprios pés e Katsuki o observando, Bakugou já estava ficando de saco cheio. E, quando ele sentiu que iria rosnar para Deku falar o que queria logo, finalmente Izuku decidiu se pronunciar.
"Por que..." Deku engoliu em seco, ele não sabia como perguntar isso. "Por que você... mentiu?" Ele levanta a cabeça em direção a Katsuki com isso, olhando diretamente para seus olhos.
Bakugou já esperava algo assim, se fosse sincero. O coração do Izuku estava muito acelerado, e não parecia uma mentira, era ansiedade. Ele acreditava no que estava dizendo, mesmo com seu nervosismo de sempre. Katsuki suspirou um pouco, cansado de conversar sobre isso, mas precisava falar, principalmente com Deku. Aquele merdinha era extremamente observador, em um nível quase assustador.
"No que eu teria mentido?" Katsuki disse rapidamente, de forma seca.
Deku olhou novamente para os pés com isso. "Você disse que... fazia aulas de katana. A meses..." Ele respira um pouco antes de continuar, reunindo o máximo de coragem que pode. "Mas, isso não é possível! Eu fiz minhas pesquisas, o professor de katana mais próximo da sua casa fica a quase três horas de distância, e o local de trabalho deles sendo a mesma coisa!" Deku faz uma pausa, reunindo as informações na sua mente. "E o mais barato deles já é bem caro! E dado a sua... situação financeira, eu duvido que a tia Mitsuki tenha dinheiro pra isso."
Agora, Izuku levantou a cabeça mais uma vez, segurando o máximo possível o olhar aparentemente neutro do amigo. "Um professor privado seria ainda mais caro que esses outros, então... não tem como você ter tido aulas." Fechando os olhos e elevando um pouco o tom de sua voz, ele continua. "Por que você mentiu?! Você é Katsuki Bakugou, e nunca mente! Nunca..." A voz abaixo um pouco na última parte, como se estivesse sussurrando, mas Bakugou escuta perfeitamente, não querendo perder nenhuma parte.
Katsuki poderia inventar uma desculpa. Porra, ele poderia só gritar para Deku ir embora e nunca mais responder tais perguntas, afinal, não tinha nenhuma obrigação em responder qualquer uma dessas coisas. Mas, se fosse sincero, Bakugou não aguentava mais mentir ou gritar. Ele sempre abominou a mentira desde que se reconhece por gente, e isso realmente o fazia se sentir mal, principalmente quando envolvia Mina, Kirishima, Jirou, e todo seu grupo. Katsuki valoriza aquelas pessoas, e mentir pra elas era quase uma traição implícita na sua perspectiva.
Só que ele não poderia dizer a verdade. Katsuki prometeu a Aurora que não diria isso para ninguém, e manteria essa promessa. E se contasse para Deku sobre os onis e ele não entendesse? E se Deku não concordar com a forma como os caçadores agem e tentasse intervir? E se Deku fosse alvo de um oni por tentar comprovar a existência deles? Eram muitos riscos envolvidos em contar isso para um não caçador.
Com isso na cabeça, Bakugou resolveu ir pelo caminho mais... complexo. O da meia-verdade.
"Por que eu minto...?" Katsuki repete a mesma pergunta de Deku a ele mesmo, com o rosto ainda desligado e fechado. "Pelo mesmo motivo pelo qual você esconde que sua individualidade na verdade veio do All Might."
Os olhos de Deku se arregalaram com isso, e Katsuki pode ouvir o coração dele acelerando a níveis quase assustadores.
Tsk, que idiota...
—...Vai realmente revelar isso logo agora?
Fica na sua Kizu.
Eu tenho um plano aqui.
—Ok né...
Katsuki não deixa que Deku comece a tentar dizer algo, e continua falando. "Vendo agora, eu consigo ver como isso era quase... óbvio." Ele se levanta da cama em que estava sentado, ficando frente a frente com Izuku, tendo como diferença só a altura agora. "Desde que o All Might apareceu na cidade, você foi... mudando, evoluindo, subindo. Eu já estava suspeitando de algo assim desde Kamino." Katsuki levanta um pouco a mão esquerda, com a palma virada para cima. "Mas quando percebi que perdi meus poderes pra sempre, eu parei de pensar sobre. Só que lembrando agora, também tem o que o All Might disse quando derrotou aquele desgraçado que roubou meu poder."
Bakugou não consegue evitar apertar um pouco a mão ao relembrar de All For One. "Dá próxima vez, será você." Ele repete em referência a All Might. "Naquela hora, só você realmente pareceu entender essa mensagem de um jeito diferente das outras pessoas." Bakugou suspira um pouco com essa fala, mantendo a voz controlada. "Eu nunca cheguei a perguntar isso pro All Might. Minha mente tem tido muitas outras preocupações, como deu pra perceber." Gesticula rapidamente para sua katana no cinto. "Mas agora eu te pergunto. Você recebeu seu poder do All Might, não é?"
Vendo a calma estranhamente passiva de Katsuki, o coração de Deku parece acelerar ainda mais, e um pouco de suor parece escorrer em suas bochechas, poucas gotas.
Depois de alguns segundos de silêncio, um sorriso de canto de boca surge em Katsuki, com um "Tsk." audível e característico. "Você não nega nada disso, então tudo é verdade, não é?" Os olhos de Bakugou se fecham um pouco mais com isso, como se tivesse a certeza da resposta.
"O que vai fazer, quando você souber?" Deku perguntou com o rosto um pouco tenso e rígido.
Katsuki dá de ombros com isso. "Nada."
Isso deixa Izuku de boca aberta por um momento. "N..nada?"
"Na verdade, eu diria que estamos em uma situação... parecida agora." Katsuki agora levanta o braço direito, tirando as pulseiras grossas que estavam no pulso, deixando a marca totalmente visível.
Ao ver a marca, Deku parece ter um mini treco. "Kacchan!" Deku inconscientemente segura o braço de Katsuki vendo-a. "Isso é uma tatuagem?! Por que você fez isso? A tia Mitsuki sabe? E os professores? Aizawa? Isso vai diminuir muito su-"
Katsuki não deixa que Deku continue nesse surto dele, e dá um tapa leve em seu rosto com a mão livre, também aproveitando para tirar a mão dele do seu braço. "Se acalma! Seu nerd idiota! Isso não é uma tatuagem!"
Deku nem parece se importar com o tapa ao ouvir a última frase do amigo. "Não é uma... tatuagem?"
Bakugou assentiu, fazendo a marca brilhar em branco por um momento e gerando um pequeno redemoinho de vento em sua mão. "Digamos que... eu também arranjei alguém para me dar um poder."
Vendo isso, o olhar de Deku praticamente começa a brilhar. "Uau..." Ele aproxima a mão levemente do redemoinho, apenas para conseguir sentir o vento e ver se é realmente real. Izuku pôde sentir o vento gerado pela mão do amigo, além da marca brilhando em branco.
Depois que Katsuki desfez o redemoinho, uma pergunta mais importante surgiu na mente de Deku. "Quem te deu esse poder?" Ele falou isso com mais medo do que gostaria de admitir. Tinha completa noção de que seu amigo nunca viraria um vilão ou se submeteria a alguém assim. Mas, ele perdeu os poderes, então não dava pra adivinhar.
"Eu chamei ela pra vir esses dias pra conversar com Aizawa." Katsuki comenta sem muito medo, ele já começou, agora teria que sustentar essa história até o fim. "Você pode conhecê-la assim, e por extensão, All Might também poderá. Pode ficar tranquilo, ela não é nenhum tipo de vilã." Bakugou tenta tranquilizar Deku, com algum sucesso razoável.
Isso faz Deku suspirar de felicidade, mas antes que ele possa dizer algo, Katsuki se apressa. "Eu não vou falar nada sobre o seu... poder, pra ninguém. E espero que faça o mesmo." A cara de Bakugou é séria enquanto fala, sem nenhum tipo de brincadeira ou sequer a raiva de sempre que Deku esperava.
O rosto de Izuku também tinha um semblante sério enquanto respondia. "Sim! Pode contar comigo, Kacchan!"
Izuku estava... feliz. Vendo agora, esse Katsuki é diferente do de antes de Kamino. Agora, ele estava menos raivoso, gritando pouco, e parecia mais paciente com seus amigos próximos, até mesmo com os que ele não conversava muito. Isso deixava Deku orgulhoso do amigo, toda essa mudança de comportamento significava evolução. Mudança. E uma mudança muito boa, para Katsuki e todos ao redor dele.
Um sorriso bobo e inocente surge no rosto de Deku em direção a Katsuki, e ele nem pensa direito quando faz isso. "Kacchan, eu estou tão feliz por vo-"
"Ei! Que sorrisinho de merda é esse na sua cara?!"
Ah... aí está o antigo Katsuki. Deku pensa, levantando as mãos em sinal de uma rendição falsa. "D..desculpa!"
Katsuki suspira um pouco. "Você pode ir embora agora? Eu realmente apreciaria um tempo sozinho agora."
"Ah, claro! Desculpa por ter incomodado!" Deku se apressa em dizer, andando até a porta e destrancando ela. Mas, antes de sair, se vira em direção ao amigo. "Eu... posso participar da comemoração com você e seu grupo lá embaixo...?" Izuku não é bobo, sabe que provavelmente nunca seria convidado por Katsuki. Pelo contrário, ele seria desconvidado se tentasse entrar de penetra.
Katsuki apenas dá de ombros mais uma vez. "Faça o que quiser." Bakugou se vira até a sacada do quarto com isso, olhando para o céu do lado de fora. "E avise aqueles idiotas me esperando que vou demorar só mais vinte minutos no máximo para descer."
Deku se vê sorrindo novamente com essa resposta. Ele não o desconvidou como o esperado. "Certo! Até mais tarde, Kacchan!" Izuku finalmente saiu do quarto após isso, fechando a porta com cuidado. E quando Katsuki ouviu um pequeno click, foi como se um peso de uma tonelada tivesse saído de suas costas.
—Cacete... isso demorou mais do que eu esperava.
Humph...
Não demorou tanto assim.
Katsuki focou seu olhar no céu, apoiando os braços na sacada. Ele não planejou nada do que aconteceu hoje, mas, tudo acabou dando certo no final. Ainda odiava ter que mentir só pra ter alguma explicação para o Deku, mesmo que ele não tenha mentido por completo. Tecnicamente, a marca pode ser categorizada como uma espécie de poder, mesmo que não seja uma individualidade propriamente dita.
Por um momento, Bakugou fixou seus olhos na lua, que já estava perto de chegar em algum ponto verdadeiramente alto no céu. O sol já não podia mais ser visto direito, e daqui a poucos minutos, os demônios escondidos na cidade iriam começar a agir. Suas missões seriam principalmente feitas na madrugada, então ainda lhe restava muito tempo para planejar e descansar.
—Você está... feliz?
"Por que acha isso?" Katsuki diz em voz alta. Depois de tanto tempo, Bakugou pegou o costume de falar com Kizu naturalmente enquanto estava sozinho sem mais ninguém por perto. Isso o ajudava a não achar que estava ficando louco, embora, qualquer um que visse acharia o extremo contrário.
—Ué, porque você está sorrindo!
Realmente, Katsuki tinha um meio sorriso na boca enquanto olhava para a lua. Quase como se ele pudesse ver seu próprio reflexo nela.
"Algum problema com isso?" A voz de Bakugou sai calma, seca. É como se ele nem estivesse prestando atenção direito.
Se Kizu tivesse um corpo, Katsuki tem a mais absoluta certeza de que ela estaria engolindo em seco agora.
—Nenhum, é só... você está calmo demais.
—Não pensei que a conversa com o yandere maluco realmente fosse te afetar tanto...
Isso acaba fazendo Bakugou soltar um pequeno e distante "Tsk."
"Não foi a conversa com o Izuku que me fez ficar assim."
—...
Kizu notou que Katsuki chamou o Deku de Izuku. E ela decidiu não comentar.
"Eu só estou... animado. Agora sim as coisas vão ficar... interessantes." Katsuki segurou o cabo da katana por um momento ao dizer isso, fixando ainda mais seu olhar na lua, e no próprio reflexo que via ao olhar para o astro no espaço.
Desde que se lembra, a lua sempre teve um efeito estranho sobre si mesmo. Antigamente, quando era pequeno, o astro conseguia acalmá-lo a níveis assustadores. Mitsuki vivia contando sobre como ele tentava alcançar a lua com os bracinhos sempre que via, mas, nunca conseguia. Não importa o quanto tentasse, nunca iria conseguir.
Kizu via isso com algum grau de preocupação. Esse Katsuki olhando para a lua parece... diferente. Ele era calmo. Preocupantemente calmo. Mas a próxima coisa que ele viu Bakugou fazendo a preocupou... muito.
Quando a Lua chegou em um ponto alto o suficiente, Katsuki levantou o braço direito na direção dela, quase como se estivesse tentando alcançá-la.
—Porra...
Fora dos dormitórios, no chão, em uma distância segura. Aizawa olhou pra isso com olhos em desconfiança.
Fale com o autor