Respirando a morte
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O homem é o câncer do mundo, ser maldito capaz de destruir o planeta, pelo menos foi o que nos disseram. Isso até que não era uma mentira, mas ninguém esperava que forças divinas fossem se pronunciar tomando providências pessoalmente. E estes escolheram nos isolar, cercaram a sociedade de maneira que aprisionasse também a poluição. Os enviados decidiram que o mundo devia ser corrigido, mas não antes dos malfeitores serem punidos. E assim declararam: “Se gostam tanto de destruir, vão e destruam a si mesmos.”
Desta forma vivemos produzindo e consumindo, proibidos de tomar qualquer medida que dê qualidade ao ambiente que não nos dá nenhum apreço em chamar de lar. Qualquer milímetro de óleo que não é descartado na pia gera penalidade, se a cada mês não houver troca de celular, magicamente o lítio de baterias podem acabar parando na água que sua família bebe. E se tentar recolher água da chuva para lavar o carro, o seu destino é pular em um rio escuro onde há incontáveis sofás. Nos disseram para tomar o que um dia foi a China de exemplo, só que não haverá mascaras.
E quando o último ser humano cair na própria sujeira, o mundo será recuperado, corrigido por nossos espectadores.
Pensei por muito tempo que nos tornamos como ratos de laboratório, aprisionados, esperando o próximo experimento, até que um nos levasse a morte. Mas não é bem assim, nenhum experimento nos aguarda, apenas o fim, uma morte podre e feia. Para nós, estar engaiolados é uma punição.
Não é como se eu não soubesse que estive errado, sei que a legislação poderia ter me punido se tivesse provado que minha organização despejava resíduo tóxico de maneira irregular. Mas eu gostava de dinheiro, da minha vida de luxo e se parasse para me importar com os danos que estava causando, teria que perder parte da riqueza que eu adorava. E pensar que um dia manter a pompa seria uma obrigação, e sequer precisaria me preocupar em conseguir notas para isso. Era ostentação em meio a uma paisagem cinzenta.
Não demorou muito para alguns acharem que aquele castigo não era justo, que mereciam sobreviver invés de perecer na imundice. Os que não foram pegos se organizaram e após sufocamentos de tantos, um deles atravessou a enorme barreira que nos separava do oxigênio praticamente puro. Por um momento eu tive esperança que respirar um ar limpo novamente era possível. Mas em seguida veio o medo, medo de que meu esforço poderia ser em vão.
Apesar de ter desistido de fugir, minha punição ainda sim foi aplicada, beber da água que eu mesmo contaminei. Até que a quantidade de metais pesados no meu organismo fosse suficiente para me matar. E agora, enquanto me afogo em meu próprio sangue e sinto meu coração desacelerar, entendo como fui idiota. Tive mais medo de morrer lá fora pelo desconhecido do que aqui. Sinto também inveja do desgraçado que nesse momento pode estar respirando profundamente sem tossir. Ou estar morto, mas minha chance de saber se o que me aguardava era vida ou morte, deixei escapar.
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