Notas iniciais
Olá novamente, queridos leitores! Mais um capítulo para vocês, e este eu dedico inteiramente à minha primeira leitora, AS Kiara Ogden. Muito obrigada pelo comentário extremamente fofo no capítulo anterior. Espero que goste desse novo cap ♥ Beijos e boa leitura!

Tomei meu café da manhã em menos de quinze minutos. Antes que eu pudesse me levantar e vestir o uniforme para a escola, no entanto, minha mãe aparentou estar preocupada comigo.

— Estou bem, mãe – tranquilizei-a.

— Deve estar preocupada com a questão da faculdade, Margareth – sugeriu meu pai, que lavava o prato que havia utilizado – Não é, minha querida?

Sorri.

— Também, pai. Estava conversando sobre isso com Tina agora há pouco... É tão estranho saber que vou viver alguns anos como o Vicente... Longe de vocês – mencionar o nome de meu irmão dois anos mais velho que eu me fez ficar com saudades dele, sobretudo de seu sorriso angelical, que contrastava lindamente com a pele, morena como a minha; sorriso este que sempre me acalmava quando ele ainda vivia conosco.

Vicente, assim como meus pais, tinha uma habilidade inacreditável com a Biologia, e também foi enviado para a faculdade de ciências biológicas dois anos atrás. Normalmente, era apenas no terceiro ano que os mestres revelavam à pessoa a especialização que ela iria fazer dali em diante. No entanto, devido às suas notas simplesmente excelentes e a seus trabalhos magníficos, meu irmão estava entre os cinco melhores alunos da faculdade, e, portanto, recebeu, um ano antes do que deveria, a notícia de que seria neurocirurgião. Em sua última carta para nós, ele nos dava, radiante de alegria, essa notícia e a de que conseguira dois dias de “folga” da faculdade para nos visitar e presenciar minha formatura. Era o orgulho da família.

Depois de lavar o que eu havia usado no café da manhã, dirigi-me para o meu pequeno quarto. Tirei o uniforme do armário e comecei a me vestir. Hoje era o penúltimo dia de aula. Teríamos a última prova do ano, que, para mim, seria a última da minha vida escolar. Não sabia se devia ficar feliz ou triste com isso. Como de costume, não havia estudado. Tina, como já citei, havia virado a noite refazendo centenas de exercícios e relendo todas as páginas de nossos livros. Eu ainda não entendia o porquê de ela se sacrificar tanto, já que, naturalmente, tiraria a maior nota da sala. Não, a maior nota da escola. Como sempre.

Em casa, eu estudava pouco para o colégio. Sempre prestava muita atenção nas aulas e isso já era o bastante para que eu absorvesse o conteúdo e fosse uma aluna na média. Matemática era a única matéria à qual eu me afeiçoava e me dedicava mais quando não estava no ambiente escolar, e, por isso, era aquela em que eu tirava notas realmente boas. Amanhã, receberíamos os resultados de todas as provas e eu, como de praxe, precisava tirar a média em todas – menos em Matemática – para passar. Não estava muito preocupada, essa era sempre a minha situação... E eu sempre conseguia. Nunca havia sido um grande orgulho para os meus pais durante minha vida acadêmica, diferentemente do meu irmão, embora também nunca os houvesse dado nenhum desgosto. Três vezes, no entanto, havia sido campeã de shows de talento no colégio, cantando, e isso aliviava um pouco a minha consciência. Pelo menos não era uma inútil.

Involuntariamente, comecei a cantarolar uma música antiga. Ajeitei meus cabelos, peguei a mochila e saí do meu quarto. Despedi-me dos meus pais, que também já estavam indo para o trabalho, dos nossos três enormes cachorros e dois gatos pretos. Meu pai havia os levado para casa após terem sido abandonados pelos donos na clínica onde trabalhava. Ele não podia ver sequer um animal desamparado. Às vezes, parecia que amava mais aqueles animais do que sua própria família. Eu não o culpava.

Quando coloquei os pés fora de casa, notei que Tina já me aguardava no portão de sua residência, do outro lado. Atravessei a rua e ela veio em minha direção; fomos, então, caminhando juntas para o colégio pela penúltima vez. Fazíamos aquilo desde que tínhamos dez anos e nossos pais deixaram de nos acompanhar, considerando que já estávamos “grandinhas”.

— Estudou? – perguntou-me ela, prendendo os cabelos cor de fogo, que haviam se soltado, em um rabo de cavalo no alto da cabeça.

— O que você acha? – foi o que falei.

Ela gargalhou com a minha resposta.

— Não sei por que ainda pergunto... Você nunca estudou. Lembro-me de quando éramos pequenas e eu a chamava para ir à minha casa estudar... Eu ficava fazendo os meus e os seus exercícios enquanto você jogava videogame com o meu irmão – ela balançou a cabeça negativamente para mim, em sinal de censura. Eu ri com a lembrança.

— Eu ganhava dele em todas as partidas, mesmo ele sendo bem mais velho.

— Eu também ganhava, isso não significa nada – ela sorriu – Ele vai vir para a formatura. O seu também vem? – quis saber.

— Sim. Estou muito ansiosa para vê-lo. E o seu irmão...

— Vai se formar ano que vem. Professor de engenharia... Estou tão feliz por ele! – comemorou.

— Eu imagino... – já estávamos em frente à escola. Enquanto entrávamos pelos portões e cumprimentávamos nossos colegas, que pareciam estar tão ansiosos para receberem suas designações para as faculdades quanto nós, Tina lembrou-me da festa de aniversário dela, que seria no domingo, o dia logo após a formatura. Justamente quando chegariam as cartas.

— Talvez eu ganhe um bom presente... – conjecturou – Vou lembrar todos que eu convidei a respeito da festa depois da prova. Vamos, está na hora da formação – ela pegou minha mão, entrelaçando nossos dedos, e me puxou. No caminho, olhou para mim, e, pelo seu olhar, eu sabia que sentia perfeitamente o mesmo que eu quando fazia aquilo. Algo estranho, diferente, e, ainda assim, muito bom, como se cada um de nossos nervos se conectassem quando dávamos as mãos daquela maneira.

Todos os dias, antes de nos dirigirmos para nossas salas no colégio, tínhamos de formar, para cantar o hino de Evlade e, assim, demonstrar nossa adoração e nossa lealdade à pátria, garantindo que nos obrigávamos a defendê-la quando fôssemos requisitados para tal. Depois, uma maquininha nos aguardava na entrada de cada sala, onde deveríamos passar nossos cartões de estudante quando entrássemos e quando saíssemos. Controlados praticamente vinte e quatro horas por dia, era assim que vivíamos. Perguntava-me se somente eu achava aquilo um pouco demais.

O céu prateado com algumas listras azuis não apresentava nuvens naquela manhã de quinta-feira. Cantamos o hino como sempre fazíamos. Depois, erguíamos nosso braço direito e jurávamos sempre servir a Evlade, como bons cidadãos. Professores, diretores e os demais funcionários da escola também o faziam. Todos eram obrigados a isso, e a naturalidade com que fazíamos chegava a ser espantosa, pelo menos para mim. Como tudo naquele dia, lembrei-me de que era a penúltima vez que fazia aquilo, ao menos no colégio, e, apesar de ter minhas próprias críticas a essa rotina rigorosa de cantar o hino e fazer juramento, sabia que iria sentir saudades dela, ou, pelo menos, das pessoas que a executavam comigo desde os meus dois anos de idade. Ainda teria de fazer aquilo na faculdade, e, depois, no emprego que viesse a ter.

Ainda em forma, dirigimo-nos para nossas salas. Sentamo-nos nos mesmos lugares de sempre, que eram demarcados conforme a ordem alfabética. Como não havia ninguém cujo nome se iniciasse com a letra U em nossa sala, eu e Tina sentávamos uma ao lado da outra desde sempre, fato que ajudou nossa amizade a tornar-se o que era.

Embora não houvesse estudado, não achei a prova, que era de Geografia política, difícil. Os assuntos eram interessantes e, para a minha sorte, havia refletido sobre alguns deles mais cedo, na praia, como a união dos grupos terroristas que dominavam o restante do mundo e a resistência de Evlade. Busquei louvar ao máximo nossa luta em algumas de minhas respostas na prova, embora, particularmente, não a louvasse tanto assim. O Sr. Bernard, nosso professor, era extremamente patriota e gostava de quando enaltecíamos nosso vilarejo – que, para nós, era um país – e suas “boas e democráticas qualidades”, como sempre dizia.

Terminada a prova, devíamos apenas cumprir mais alguma atividade na escola e estaríamos liberados para voltar às nossas casas. No dia seguinte, apenas receberíamos as notas finais e tudo estaria terminado.

Sob chantagens de Tina, acompanhei-a na aula de natação, e tive de ouvi-la comentando a respeito de todas as suas respostas na prova, que eram, como sempre, simplesmente impecáveis. No vestiário, enquanto vestíamos nossos maiôs, ela avisava a nossas amigas sobre seu aniversário.

— Finalmente dezoito, hein, Tina! Você é a mais nova entre os formando deste ano – comentou, brincando, Alexa. Todas nós rimos. A mais nova e a mais condecorada entre os formandos. Assim era minha melhor amiga.

Depois de alguma conversa jogada fora, as meninas dirigiram-se para fora do vestiário.

— Venha – Tina, como sempre, era quem me puxava para as atividades – Ande, anime-se! Sei que você consegue.

— Natação nunca foi a minha especialidade, você sabe – comentei, seguindo-a pelos corredores do vestiário, um pouco mais animada.

— Não tem problema – ela parou e me olhou – Eu estarei lá, pode me usar como inspiração – brincou, sorrindo angelicalmente, e encostou levemente os lábios nos meus, para depois me puxar de novo para a piscina.

Segui a orientação de Tina, e a aula até que foi interessante. Passou mais rápido do que eu esperava.

Quando saímos da escola, fomos ambas para a minha casa e nos deitamos na grama que recobria o solo do pequeno quintal dos fundos. Ficamos conversando por horas e horas a fio, sobre diversos assuntos, sendo que muitos não tinham a mínima conexão entre si. Permanecemos por alguns momentos em silêncio, apenas ouvindo os sons da natureza que ainda nos restava, ou dos poucos carros que passavam na rua.

— Tina – comecei, de repente, até assustando-a um pouco – Tenho pensado muito nesse assunto recentemente... Você não acha estranho que os Oito tenham “desistido” de nos atacar nestes últimos vinte anos?

— Um pouco – ela respondeu, sem hesitar – Mas isso é bom, menina. Não reclame. Sinal de que nós os assustamos mais do que eles assustam a nós – ela se sentou e eu fiz o mesmo, olhando para ela.

— Não tenho tanta certeza disso... Você acha?

— Sim, acho – ela me encarou por alguns minutos. Desviei os olhos para o chão e senti o peso do seu olhar avaliador em mim – Assim como acho que você deve parar de se preocupar tanto com isso...

— Não tem como – protestei – Não consigo parar pensando que existe gente lá fora morrendo de fome, sendo escravizada. Não consigo não ficar preocupada sabendo que eles deixam as pessoas cegas apenas para que não se revoltem. Você consegue?

Ela suspirou e olhou para o céu, o qual já estava a dar sinais de que começava a anoitecer. Nossos pais chegariam dali a pouco.

— Não, eu não consigo simplesmente ficar calma, mas digo a mim mesma que isso não é minha culpa. Você se culpa demais por isso, Vany, sendo que é inocente – Tina pegou minhas mãos entre as suas e as acariciou – Também temos uma vida para viver. E, sabe, existe algo sobre o qual precisamos conversar há anos. Acho que você sabe do que eu falo...

Prestei atenção no que ela dizia. Sem que eu ao menos pudesse pensar em outra coisa, vieram à minha mente o longo beijo daquela manhã, na praia, e o inesperado selinho no vestiário. Todos os outros também despontaram, involuntariamente, em minha cabeça. Aquele no quarto de Tina enquanto terminávamos o projeto de Química quando tínhamos quinze anos; outro sob as arquibancadas após sua conquista no futebol, com dezesseis; depois novamente, no aniversário do Joe, nosso amigo; e outro sob uma tempestade, quando voltávamos da biblioteca, no ano passado, e mais um, e aquele outro... E, sem dúvidas, o primeiro de todos: aquele no porão da casa de Tina, no seu décimo quarto aniversário. O nosso primeiro beijo.

— Sim, eu sei o que é – disse, por fim – Desde aquele seu aniversário... Nossa, já se passaram quatro anos!

— Pois é. E já foram... O quê? Oito beijos desde lá? Algo assim – ela deu de ombros – Dá uma média de dois beijos por ano, Vany...

Ambas rimos.

— Isso é pouco – concluí, após um minuto de reflexão.

— Muito pouco – ela concordou – É sobre isso que precisamos conversar. Você é a minha melhor amiga, não tenha nenhuma dúvida disso, mas... Vanessa, eu... Eu gosto de você. De outro jeito. Você, com certeza, já percebeu isso também, e talvez já pudéssemos ter algo mais que a amizade que temos, mas você às vezes não parece sentir o mesmo.

Naquele momento, senti-me mal. Eu, realmente, não tinha certeza dos meus sentimentos com relação à Tina, mas nunca fora minha intenção magoá-la ou dar-lhe falsas esperanças. Eu simplesmente estava confusa, e não sabia o que responder naquele momento.

— Tina, eu... – suspirei. Não iria mentir – Você pode me dar um tempo para pensar sobre isso? Eu... Eu não sei.

Ela baixou os olhos e, sem que eu esperasse, abraçou-me fortemente.

— Claro que sim. Pense o quanto precisar – ela respondeu – Sei que daqui a poucos dias vamos começar a nos separar, mas isso não será para sempre. Um dia a faculdade acaba e poderemos nos encontrar de novo, e aí... Quem sabe? Mas quero que você tenha sempre certeza de uma coisa, minha querida – ela me libertou do abraço e olhou fundo nos meus olhos – Eu amo você – cada palavra foi dita pausadamente. Seus cabelos ruivos escondiam um de seus olhos e davam um charme a mais para seu rosto de anjo – Independentemente do que aconteça, ouviu?

— Também amo você – abracei-a novamente, sem conter uma lágrima que escorria do meu olho.

Ficamos assim por algum tempo. Todas as minhas preocupações e frustrações de mais cedo desapareciam enquanto eu estava abraçada com aquela que era minha melhor amiga e talvez minha futura namorada, quem sabe esposa. Quando ouvi a voz de minha mãe no portão, soltei-a do abraço e levantei-me. Ela fez o mesmo.

— Daqui a pouco meus pais também chegam. Está tarde. Até amanhã – foi o que ela me disse, antes de dar-me um beijo na bochecha e ir embora.

Observei os movimentos de sua silhueta enquanto ela caminhava sem pressa para casa, até que finalmente adentrou o portão e desapareceu. Repassei mil vezes nossos beijos em minha cabeça, a sensação que havia tomado conta de mim em cada um deles. Eu gostava, isso era certo. Sentia algo que não sentia com nenhuma outra pessoa. Gostava de Tina, só não sabia se podia corresponder à paixão ardente que ela nutria por mim, e aquilo estava me matando.

— Filha? – era a voz e minha mãe, que abria a porta dos fundos às minhas costas – Venha me ajudar a preparar o jantar.

Fiz um coque com meu cabelo cacheado e corri para dentro de casa, assim como eu corria das perguntas para as quais eu não tinha as respostas certas.

Assim como todos corriam dos Oito.

Notas finais
Não deixem de comentar! Brigadinha ♥