Resident Evil: Dark Heart

11 Capítulo 11 - Passos na escuridão


Rebecca Chambers fechou os olhos. Por um instante ela se viu de volta à sua infância, um recôncavo isolado de sua mente que evitava visitar desde que... Desde que se tornara uma adulta, talvez cedo demais.

Enquanto interpretava Moonlight Sonata, de repente, ela viu a mãe tocar piano enquanto o pai fumava um charuto e lia o The Washington Post. Ele sempre se irritava com as notícias sobre a bolsa de valores, mas não as evitava. E havia, também, a invasão da América pelo que ele chamada de “gente de cor”. De repente a culpa de todos os seus problemas era por causa dessa gente. Rebecca tinha dez anos, e não entendia nada sobre bolsas de valores ou cores.

Um estrondo interrompeu a música. Rebecca abriu os olhos e, viu uma passagem secreta se abrindo na parede ao fundo da sala onde estavam.

— Uau! Isso foi certeiro demais para um chute – disse ele, encarando-a.

Rebecca deixou o piano e, orgulhosa, apontou para a passagem. Os dois entraram, e encontraram o emblema dourado (como ela dissera). Substituíram pelo de madeira, e retornaram à sala de jantar. Com o emblema dourado no lugar, o relógio deixou de funcionar e revelou um compartimento secreto com uma chave dentro.

— Aposto que você sabe exatamente onde devemos usar essa chave – disse Chris, com um sorriso amarelo.

Rebecca assentiu.

— Na porta que leva ao sótão.

— Então, o que estamos esperando?

Rebecca hesitou. Sabia como aquilo terminaria – era assustador, mas também era verdade. Albert Wesker era um traidor e tinha a família de Barry como reféns, obrigando-o a colaborar com ele à custa de ameaças. Em algum momento eles deixariam a mansão, que explodiria em milhares de pedacinhos. Mas isso era apenas o começo – depois a cidade inteira seria contaminada e dizimada por um míssil nuclear.

— E se nós pudéssemos mudar tudo? – perguntou Rebecca.

Chris ergueu uma das sobrancelhas.

— Mudar o quê?

— Mudar o final desta história... Eu sei como ela termina, ou melhor, como ela prossegue... Talvez, se nós...

Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Rebecca sentiu uma tontura. Sua visão começou a ficar desfocada, e ela desfaleceu.

***

Rebecca abriu os olhos.

Estava em uma pequena sala abarrotada de produtos químicos, e o cheiro de mofo era quase insuportável. O barulho de uma pia gotejando era o único som que ela ouvia. Lentamente, a paramédica ergueu sua cabeça, sobre a qual pendia uma preguiçosa lâmpada de vapor de sódio, cuja luz deixava tudo meio amarelado.

Um eterno pôr do sol, pensou. O sonho de muita gente. Mas não seu. Com que sonhas? Eu não sonho, eu vivo um sonho. Ela riu, então gargalhou. Estou louca, não estou? Não, não está, responderam as paredes. Havia números rabiscados em um dos cantos, e Rebecca pensou em fórmulas químicas. Fazia algum tempo que não balanceava uma equação, na verdade, depois que se formou, nunca mais pensou na importância de se balancear alguma coisa.

Ela se levantou. A sala parecia cada vez menor. Caminhou até a porta. Antes de girar a maçaneta pensou no que poderia estar lá fora, no tipo de criatura que saltaria sobre ela quando se atrevesse a sair. Se lugares pudessem ser maus, com certeza aquela mansão era um bom exemplo.

Evocando toda a sua coragem, Rebecca girou a maçaneta.

E a sala estava vazia. Havia uma porta à sua frente e do lado dela um corredor. Mais um corredor à esquerda. Outra porta às suas costas. O corredor da esquerda terminava em uma enorme colmeia (todas as vespas estavam mortas, Graças a Deus). O corredor da direita terminava em uma porta dupla (trancada). Rebecca entrou na porta que sobrou, e encontrou um quarto com uma estante no fundo. Mexendo nos livros, Rebecca liberou uma passagem secreta. Ao atravessar a porta, a garota encontrou Chris Redfield preso a uma enorme árvore.

— Chris!

— Rebecca! Fique longe dessa árvore!

Rebecca parou onde estava. As raízes daquela árvore haviam tomado conta de toda a sala, penetrado nas paredes e pelo teto. Agora, as raízes haviam envolvido Chris Redfield, e sugavam sua vitalidade lentamente.

— Rebecca, me ajude a sair daqui... Como eu posso sair daqui?

Rebecca começou a sentir a tontura novamente. E tudo ficou escuro novamente.

***

Em algum lugar tocava Black Velvet.

Rebecca andava no meio de uma multidão de jovens. Alguns consumiam bebida alcoólica, outros fumavam. Isso não pode estar acontecendo, eu nunca fui a nenhuma festa deste tipo... Terminei a graduação aos 18 anos, não tive tempo de ser jovem...

Rebecca continuou a caminhar.

Precisava acordar, mas não sabia como. A queda a levara de volta à mansão de Spencer, então, não era um sonho. Mas, se não era um sonho, então, o que era? A multidão de jovens não tinha fim – quanto mais Rebecca caminhava, mais perdida parecia estar.

De repente começou a prestar atenção nos rostos daquelas pessoas. Eles eram todos iguais... Todos eles eram... Bernard...

— Olá Rebecca – disse um dos Bernards.

Rebecca estava apavorada. Nunca tinha trocado uma palavra sequer com Bernard Salvatore. Amou-o em segredo durante a graduação, e quando todos se arranjaram com alguém, ela ficou sozinha. Talvez, se tivesse a coragem de...

— Bernard... É você mesmo?

— Claro que sou eu, quem mais seria?

Ele sorriu, e aquele sorriso a preencheu completamente. Já tinha esquecido como a voz dele era doce, e como ele era bonito. Bonito não, lindo. E agora parecia ainda mais lindo para ela. Rebecca Chambers estava paralisada.

— O que você está fazendo aqui?

— Esperando por você, claro.

Rebecca sorriu. Não poderia ser verdade. Bernard não poderia estar esperando por ela, nem mesmo em um sonho.

Bernard Salvatore estava morto.

***

Carlos Olivera parou e esperou.

Do meio da escuridão, Seth Marshall surgiu, o rifle apoiado sobre o peitoral musculoso.

— Se você veio para tentar me impedir... – começou a falar Carlos.

— Eu vim ajudá-lo, Olivera.

Carlos assentiu com um movimento da cabeça. Não sabia se poderia confiar em Seth, mas tinha de admitir que gostava dele. Continuaram a descer a montanha, agora lado a lado.

— Qual o seu plano? – perguntou Seth.

— Chegar lá e detonar tudo o que estiver entre mim e a Rebecca.

— Gosto de planos assim.

Os passos dos dois ecoavam pela noite adentro. Carlos não sabia exatamente o que faria para encontrar Rebecca, mas sabia que precisava encontrá-la. Devia isso a ela. Talvez os outros não entendessem, mas ele tinha suas razões para arriscar a vida por ela.

— O que você acha que está acontecendo com essa floresta? – perguntou Seth.

— Acho que ela tentando nos matar...

Seth esboçou um sorriso. Uma floresta assassina, por que isso não o surpreendia?

— Bem-vindo à Rússia, certo? – perguntou.

Carlos concordou.

Então chegaram ao lugar onde lutaram com os animais enlouquecidos – e não havia nenhum deles lá. Desapareceram feito fumaça.

— A última vez que Rebecca foi vista... Estávamos aqui... Para onde ela poderia ir? – perguntou Carlos.

Começou a procurar por marcas no chão. Rebecca não poderia ter ido muito longe... Carlos ligou o infravermelho e começou a olhar em volta. Viu um Seth Marshall feito de manchas vermelhas, verdes e azuis. E nada da Rebecca.

Ninguém desaparece assim.

Carlos sentiu alguma coisa cair em seu ombro – uma folha, talvez. Então olhou para o alto. E, lá em cima, entre as folhas da árvore, encontrou Rebecca Chambers – uma personagem pintada de vermelho, verde e azul, recém saída de um quadro de algum pintor expressionista.

No fim das contas, aqueles passos na escuridão valeram a pena.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.