1945

Oswaldo Antunes era um homem de poucas posses, vivia com um pequeno salário e vivia em um cortiço bem humilde.

Ele lavava carros para os ricos em um hotel, e qualquer bico que pudesse encontrar.

Ele era um homem que nem de longe poderia ser considerado de boa aparência. Sua pele marcada pela acne e pela catapora, era cheia de cicatrizes, lábios leporino, alto, magro e desengonçado. Olhos castanhos sem brilho e cabelos ralos e sem vida.

Um dia, ele estava arrasado com sua vida sem perspectiva de melhoras e triste com sua aparência ele falava sozinho:— Eu daria minha alma para ser diferente, ter posses, ter poder, ser respeitado. Ser assim, viver assim não é viver.

— Então meu rapaz, quer dizer que você daria sua alma por tudo isso? – disse um homem ao seu lado.

Oswaldo olha para o homem e vê diante de si um homem bonito, alto, elegante de terno, com um sobretudo bem chique e com um corvo no ombro.

— Eu... eu... só estava falando sozinho, senhor. – Oswaldo diz envergonhado.

— Ah, meu rapaz, não precisa ter medo ou vergonha, eu entendo você. Já ajudei centenas, milhares de pessoas como você.

— Como? Como você poderia me ajudar? – Oswaldo já animado com a possibilidade de seus sonhos se realizarem.

— Seria bem simples na verdade, você só teria que me entregar sua alma, eu te darei tudo que você quer, beleza, riquezas, poder...

— Eu topo! – Oswaldo grita e se levanta.

— Ah, meu rapaz, mas tenho condições...– o homem com o corvo diz — Seria por um período de 30 anos, depois sua alma será minha.

— Eu não me importo, eu aceito. – Oswaldo diz.

— E tem mais um detalhe, você ficará para sempre a minha disposição, pela eternidade. Se eu te colocar em um lugar, é lá que você ficará. E lá, você conseguirá almas para mim. Mas, não como eu consegui a sua, você deverá as levar até a ruptura e elas virão para mim. Você entendeu? – O homem corvo perguntou.

Na verdade, Oswaldo não entendeu muito bem, mas aceitou mesmo assim.

— Entendi, eu topo, eu quero ser alguém.

— Que assim se faça então. – o homem corvo sorri e faz um gesto para o corvo e ele vai em direção a Oswaldo e pousa no seu ombro, Oswaldo sente a energia correr por seu corpo e tudo dentro dele ferver e todas as luzes se apagam e ele cai ao chão.

Oswaldo volta a si e percebe que está deitado em uma cama com lençóis macios, travesseiros leves como plumas estão embaixo de sua cabeça e ele nunca se sentiu melhor e mais confortável na vida.

Ele levanta e se olha no espelho e vê diante de si um homem bonito e charmoso, com olhos verdes, cabelos castanhos claros, corpo tonificado e com a pele dourada e saudável. Lábios perfeitos e carnudos. Ele sorri e vê dentes brancos perfeitos.

Oswaldo ri, ri e ri, jubilo percorre seu corpo e ele começa a dançar em frente ao espelho.

— Se divertindo? – o homem corvo está ali com ele e ele nem percebeu.

— Sim, eu estou ótimo. – Oswaldo não consegue parar de sorrir.

— Maravilhoso... lembre-se, 30 anos e depois, sua alma, seus serviços serão meus.

Ele fala e some, e nem diz seu nome.

1975

Oswaldo está de pé em seu prédio Residencial Casablanca e dando os últimos retoques no apartamento 46. Os últimos anos foram perfeitos, mulheres, dinheiro, poder. Ele construiu empresas, derrubou empresas, foi implacável e cruel e amou cada segundo.

Residencial Casablanca era um dos seus xodós, ele sentiu um enorme prazer em comprar do antigo dono por um preço ínfimo, ele fez o imbecil perder muito dinheiro no jogo e depois comprou tudo a preço de bananas. Oswaldo estava tão envolvido com suas tramoias e canalhices que esquecerá do preço que pagou para ter tudo isso, até aquele dia, no apartamento 46.

— Olá, Oswaldo, vejo que se divertiu bastante nesses últimos 30 anos. Espero que tenha válido a pena.

Oswaldo vira e vê o homem corvo nas suas costas, ele realmente não acreditou que o veria de novo e o homem não mudou um fio de cabelo naqueles 30 anos, se possível, ficou mais jovem e bonito.

— Eu, sim, eu aproveitei, – e ele continuou corajosamente — e não estou pronto pra desistir dessa vida.

O homem corvo ri e balança a cabeça.

— Ah, Oswaldo, quem disse que você tem escolha? – o homem corvo faz um gesto com a mão e aparece ali na sala uma forca pronta para ser usada.

— Chegou a hora, Oswaldo, venha me entregar o que é meu. – o homem corvo lança o corvo no seu ombro e seu corpo se move sozinho até a forca e chegando perto, ele não vê mais nada depois.

Ele abre os olhos e o homem corvo está acima dele, rindo e fala para ele.

— Agora, você fará as pessoas enlouquecerem, até que o destino delas seja igual ao seu. Você me entendeu? Esse apartamento, esse chão, é seu domínio e você fará isso eternamente.

Oswaldo balança a cabeça e observa o apartamento 46, seu chão, seu domínio.