Resemblance
1 Capítulo Único
Notas iniciais
O menininho estava na ponta dos pés, vendo-se ao espelho. Olhava sério para os seus traços: cabelos castanhos desalinhados, grandes olhos azuis, um pequeno narizinho e uma pequena boquinha também, porém contrastando com o seu grande sorrisinho. Esboçou um largo sorriso e acabou dando uma gargalhada, notando-se o dente que lhe havia caído.
-Qual é o motivo do riso meu garoto lindo? – Kate falou rodeando o filho com os braços e dando-lhe um beijo na bochecha de seguida pegando nele ao colo.
-Não sou garoto mais, tenho cinco anos! – Beckett sorriu da atitude séria do filho que continuou. — Acho que sou parecido com o papá. – E de novo o garotinho gargalhou. – Olha! – Ele disse apontando a testa com uma pequena cicatriz. – O papá também tem uma!
Beckett riu da inocência do filho, perguntando. – E de mim, não tens nada, Alex?
-Ah, tenho! O papá diz que a teimosia e o mau-humor matinal!
-É mesmo? – Beckett perguntou de desdém mas não contendo o sorriso que brincava com os seus lábios.
O menino arregalou os olhos enquanto tapou a boca com as duas mãos e depois falou. – Não lhes digas que eu te disse isto!
-Não digo nada, mas com apenas uma condição… — O rapaz aguardava sério pela condição imposta pela mãe. – Tens que ir já já para a cama!
-Combinado!
Assim que Beckett o colocou no chão ele correu para o quarto, começando a tirar a roupa. Ele meteu-se debaixo das cobertas, puxando-as até perto dos olhos, ficando muito quieto.
Kate, assim que entrou, fez-se despercebida procurando o menino que não conseguia aguentar o riso e ria baixinho. Ela então falou perto da porta levando a mão ao interruptor da luz. – Bem, acho que não está cá ninguém então vou apagar as luzes!
-Estou aqui, mãe, estou aqui! – Ele disse atirando as cobertas para a frente numa gargalhada. – O pai não vinha me contar uma história?
-Ele deve ter adormecido a escrever outra vez!
Beckett ia procurá-lo no escritório mas pressentiu o filho vindo atrás dela. Então ela agarrou na mão dele e os dois foram procurar por Castle. E lá estava ele, dormindo sobre os braços.
Beckett abanou-o ligeiramente e ele acordou estremunhado e depressa foi tranquilizado por Kate. Depois ele olhou o filho, e ela explicou. – Já é tarde, Castle. Além disso, o Alexander quer que lhe contes uma história.
-Não, não. – O menino falou. – O papá está cansado. Fica para outro dia.
-Não senhor. – Castle falou com um sorriso que mal lhe cabia no rosto. O carinho daquela criança era extraordinário. – Eu vou contar-te uma história.
Castle levou Alex para o quarto. Ele deitou-se na cama de novo e Castle foi-lhe contando a história. Passado algum tempo o menino dormia, e Castle afagava os cabelos dele, não sabendo que Beckett estava a espiar na porta.
-Tens muito mais de mim do que algum dia imaginaria. – Pegou na mãozinha do menino, comparando-a com a sua. – Nunca me pude comparar ao meu pai, mas eu prometo-te que isso nunca acontecerá contigo. Eu vou estar aqui, sempre.
Castle deu um longo suspiro e deixou um beijo na cabeça do filho e saiu do quarto, sendo apanhado de surpresa por Beckett que deitou os olhos ao chão, dando pequenos passos para próximo dele. Era desolador ver Castle daquele jeito, já adulto e ainda se perguntando sobre quem era o pai. Kate deu um abraço forte nele, sussurrando-lhe.
-O Alex tem muita sorte em te ter como pai. – Depois de grudar os lábios nos dele lentamente, falou. – Não penses mais nisso.
Ela conseguiu colocar um sorriso na cara dele, e os dois foram para a cama. Porém, durante a noite memórias da infância de Castle apareceram-lhe em sonhos.
A azáfama dos bastidores do teatro era sempre a mesma, e Rick adorava isso. Ele adorava ficar vestindo todos aqueles fatos, escondendo-se em cada recanto do teatro e à noite sentar-se na primeira fila para ver a atuação da mãe. Porém, agora, enquanto decorria o ensaio final da peça, ele ficava no camarim da mãe. O menininho estava na ponta dos pés, vendo-se ao espelho. Olhava sério para os seus traços: cabelos castanhos desalinhados, grandes olhos azuis, um pequeno narizinho e uma pequena boquinha também, porém contrastando com o seu grande sorrisinho. Esboçou um largo sorriso e acabou dando uma gargalhada, notando-se o dente que lhe havia caído.
-Mãe? – Rick falou baixinho assim que ela entrou. – Quando é que o pai nos vem visitar?
Martha respirou fundo. Era difícil inventar uma desculpa nova a cada dia, até porque aquele menino tinha uma mente prodigiosa para inventar as mais mirabolantes histórias e uma vontade insaciável em quer saber sempre mais, fazendo perguntas incessantes.
-Richard, eu vou contar-te a verdade… — Martha sentou-se e fez sinal para que Rick se sentar ao lado dela. O que ela ia contar era demasiado duro para ser ouvido por uma criança de cinco anos. – Eu não sei quem é o teu pai…
-Como assim? Não disseste que ele estava a trabalhar em Los Angeles?
-Eu menti, querido.
-Mas… — Ele recuperou o fôlego, quase chorando. – mas e as prendas que ele mandou?
-Foi eu quem as comprou.
-Mas disseste que ele era um mágico…
-Eu menti… e não gostei do que fiz, mas foi pelo teu bem. Espero que um dia me perdoes.
Nesse momento Rick começou a chorar e a mãe o consolou.
Castle acordou sobressaltado ainda com o sonho ecoando em seus pensamentos. Lembrava-se que após ter chegado a casa nesse dia partiu todos os brinquedos que supostamente lhe tinham sido enviados pelo pai. Levantou-se e caminhou até ao espelho em frente da cama. Beckett acompanhava com os olhos o caminhar dele, esperando que ele estivesse bem.
Até hoje, Castle não sabia quem era o pai, e ainda assim gostava desse mistério de considerar todas as hipóteses. O pai poderia ser mágico, bombeiro, polícia, advogado, espião. Mas Rick não se importava mais com isso. E não só perdoou como louvava a mãe pelo esforço, empenho e dedicação com que o criou.
Olhou-se no espelho. Ainda tinha os cabelos desalinhados e os olhos azuis de quando era garoto, as feições da cara envelheceram, naturalmente, mas ele não se preocupava mais em saber se era parecido com o pai. Para ele, mais importante é saber que Alex é parecido consigo.
O grande sorriso que sempre tivera desde miúdo apareceu-lhe no rosto de novo e ele voltou para a cama, aconchegando Kate no seu peito. E ela sorriu também sabendo que ele estava bem.
Fale com o autor