Rescue Mission
1 Rescue Mission
Notas iniciais
Eu não deveria estar brava.
Meus dedos não deveriam estar contorcidos e escondidos, com minhas unhas marcando as palmas de minhas mãos. Eu não deveria estar sentindo as lágrimas se acumulando no canto dos meus olhos e nem o soluço querendo rasgar minha garganta dolorida.
Eu evito até mesmo olhar o meu reflexo no espelho do banheiro, sabendo que a imagem refletida estará rindo debochadamente para mim. O esgarçar dos lábios pálidos, os olhos opacos e o cabelo como um ninho de pássaro serão suficientes para minha mente terminar de ser estilhaçada.
Estar sentada no azulejo gelado, com as costas apoiadas no armário de madeira com cheiro de lavanda escapando pelas portas mal fechadas e os joelhos dobrados quase encostando em meu peito me traz um gosto amargo à boca, um gosto conhecido de um passado não distante.
Qual a porra do seu problema, Swan? – é a minha própria voz que soa como um grito na minha cabeça e meu punho bate em minha têmpora direita, como se eu pudesse remover meus pensamentos com um pouco de violência.
“Você sabe qual o seu problema, Isabella? É que você é essa coisinha inútil que nem deveria existir. Você atrasa minha vida, garota.”
A outra voz feminina soa mais velha, baixa, com a rouquidão produzida por anos de cigarros e doses de uísque barato. A velha repreensão entredentes que Renée dirigia a mim quando estávamos em público. Quem nos via pensaria que era apenas uma mãe murmurando um segredo divertido no ouvido da filha, mas a realidade dolorosa era que seus sussurros cheios de escárnio eram reprimendas por qualquer mínima coisa e meus sorrisos para quem estava nos olhando era para disfarçar o lacrimejar que quase me afogava por dentro.
- Cala a boca, Renée. – eu peço, sentindo as lágrimas acumuladas encontrando seus caminhos por meu rosto, como um rio com o fluxo quente e volumoso – Por favor, cala a boca.
Eu não deveria estar brava.
Eu não deveria estar me lembrando.
Além da lavanda, consigo sentir o cheiro de camomila que vem de meu quarto, através da porta entreaberta. Fecho os olhos e bato em minha têmpora de novo, castigando-me pelas memórias e por minha estupidez.
Já se passaram dez dias e eu continuo cometendo o mesmo erro. O chá de camomila espalhado pelo chão de meu quarto, manchando o piso de aroeira mal encerado, é a prova de minhas decisões estúpidas. As duas xícaras caídas parecem ecoar seus barulhos de quebra de forma incessante, um som que zomba de mim, servindo como uma sinfonia que bate ritmicamente com meu coração destroçado.
O que Edward diria quando visse sua xícara preferida espatifada em três partes imperfeitas? O nariz comprido e reto de Woody agora está lascado, as botas longe de suas pernas e sua mão erguida em um aceno simpático está debaixo da cama. O que a Disney pensaria quando visse o que fiz com um dos protagonistas de uma de suas franquias mais famosas? Será que ainda me deixariam andar na Slinky Dog Dash na Toy Story Land ou eu seria banida?
Eu sinto meu corpo tremer em uma risada histérica quando percebo que minha mente está focada em uma montanha russa e não no motivo que me fez correr para me esconder no banheiro como a maldita covarde que sou.
Há dez dias Edward não mora mais aqui e há dez dias eu continuo trazendo duas xícaras com chá de camomila para o nosso, ou o mais correto agora, o meu quarto. Era nossa rotina sagrada todas as vezes que seus plantões o permitiam dormir em casa. Deixávamos apenas a luz amarela de nossos abajures nos iluminar, nos enfiávamos debaixo do edredom roxo quentinho e com nossas xícaras de chá líamos nossos livros. Edward ama livros de suspense e eu sou uma voraz leitora de romances. Líamos por pouco mais de uma hora, o suficiente para acabarmos o chá, escovarmos os dentes e deitarmos novamente. Ele me contaria o desdobramento dos mistérios que lia e eu suspiraria para ele o beijo que o mocinho finalmente teve coragem de dar na mocinha. Então, ele me abraçaria, me ninando em seu peito, cheirando meus cabelos e dormiríamos embolados até a manhã seguinte.
- Você é uma idiota, Swan. – eu confesso para mim mesma, tentando secar as malditas lágrimas com minhas mãos trêmulas.
“Você é uma idiota, Isabella. O erro mais idiota de minha vida.”
Eu solto um grito abafado por minhas mãos e me debato como uma criança birrenta, sentindo o frio do azulejo penetrando meu moletom. Após meu ataque, onde eu termino deitada no chão do banheiro encarando o teto branco, decido me levantar e jogar uma água em meu rosto, tentando inutilmente limpar o rastro de meu choro. Meus olhos estão inchados e vermelhos, assim como a ponta de meu nariz, e me forço a desviar o olhar de meu espelho quando me vejo abrindo o sorriso irônico.
Hoje não, Swan. Vá limpar sua bagunça.
Dessa vez é minha própria voz que me comanda e volto para o quarto, ajoelhando-me onde o chá não derramou e recupero os pedaços do caubói Woody e de minha xícara da Boo, a criança de Monstros S.A., que acabou decapitada quando no meu momento de raiva joguei tudo no chão, inconformada em cometer o mesmo erro pela décima vez.
Deixei os cacos na cozinha e mecanicamente fui até a área de serviço, pegando tudo o que eu precisava para limpar o chão. Passei mais minutos esfregando o chá derramado do que deveria, como se eu precisasse polir e arear a madeira e também a voz que continuava me reprimindo em minha mente.
Só parei quando uma tosse por intoxicação do cheiro do desinfetante se iniciou, então guardei tudo novamente e voltei para o quarto vazio. A cama com os lençóis embolados, a mesa de cabeceira com o livro que eu estava lendo intocado há semanas e as flores murchas na janela me fazem cerrar os dentes com tanta força que me pergunto como não os quebro.
Eu me enfio debaixo do edredom, tentando buscar algum tipo de calor e conforto, mas me encontro quase sufocando ao notar que será mais uma noite sozinha. A décima.
- Está tudo bem, ele está em mais um plantão noturno. É só mais uma noite de plantão noturno. Você está acostumada. – eu minto para mim mesma.
E abraçando o travesseiro de Edward que ainda tem o seu cheiro impregnado, eu fecho os olhos e digo para mim mesma que é hora de dormir.
- Boa noite, meu amor. – sussurro para o vazio, apertando ainda mais o objeto contra meu rosto, absorvendo todo o cheiro de mel e lilás que me intoxicou desde o primeiro momento em que o vi.
“Boa noite, minha Bella.”
A voz masculina é um sopro distante, uma alucinação nova e recente, mas que quase diminui a dor em meu peito.
(…)
Um baque surdo e próximo me faz abrir os olhos, mas preciso fechá-los assim que quase sou cegada pela luz solar que invade meu quarto pelas janelas que não me lembro de ter deixado abertas.
- Isso ao seu lado é um shampoo, Swan. – escuto a voz de minha amiga perto e abro os olhos minimamente, vendo a figura loira parada ao pé da cama com os braços cruzados – Lave esse ninho que você chama de cabelo, tome um banho quente e pelo amor de Deus, troque esses lençóis nojentos. Quando terminar, me encontre na cozinha. Estarei esperando sua bunda sentar à mesa para comermos os croissants que eu trouxe para o café da manhã.
Rosalie não espera minha resposta ou minha reação, ela apenas se vira e sai balançando os quadris perfeitos apertados em uma calça jeans clara. Eu chuto a coberta para longe de mim, mas permaneço deitada, tentando processar o que eu ouvi e tentando encontrar alguma coragem para enfrentar o que me espera no dia.
- Se eu tiver que ir aí te dar banho, Swan, eu juro que farei isso com um balde de água fria na sua cama mesmo. – a voz irritada de Rose soa alta pelas paredes e me vejo pulando para o banheiro, depois de agarrar o shampoo na mesa de cabeceira – Boa garota!
Eu demoro mais do que é considerado normal, deixando a água quente enrugar meus dedos das mãos e dos pés. Eu agradeço Rose mentalmente por ter comprado um shampoo com cheiro de coco e não de morango, mas até mesmo o gesto singelo me faz chorar. Edward amava afundar o nariz em meus cabelos para sentir o cheiro de morango.
“Morango e frésias, a combinação perfeita para um viciado em Isabella Swan.”
Quase consigo sentir os seus lábios beijando meu pescoço, a risada escapando de mim e o toque macio de suas mãos em minha cintura, enquanto me puxa para mais perto, com a necessidade de nos tornamos um só.
A água esfria drasticamente, talvez para combinar com meu humor, e imagino que já devo estar mais apresentável. Eu me arrumo lentamente, não querendo enfrentar o que me espera fora de meu quarto e quando enfim termino de pentear meus cabelos, dou um passo em direção à cama, encarando os lençóis brancos que estão encardidos. Eles realmente estão nojentos, mas prefiro sair do quarto ao invés de lidar com isso.
- Eu estava preocupada se você ainda estava viva, entre os soluços que ouvi e quantidade de água caindo. Não sabia se estava se afogando, mas confiei nos seus braços para te fazerem nadar para fora do chuveiro. – Rosalie fala, antes de jogar uma cereja na boca de lábios volumosos e naturalmente rosados – Venha se sentar aqui, Swan. Eu trouxe todas as frutas que mais gosta, panquecas, croissants, suco de laranja e acabei de fazer um café fresco. – seus olhos azuis profundos buscam pelos meus castanhos e quando tenho coragem de olhá-la sua voz se suaviza – Você precisa comer, querida.
Eu puxo a cadeira à sua frente e sento-me, olhando a mesa farta sem fome alguma. Rose me serve com o café cheiroso, um croissant recheado com queijo e presunto e um pote com iogurte e frutas vermelhas.
- Coma, Bella. – ela pede, empurrando o prato em minha direção com seus dedos de unhas longas pintadas de vermelho – Por favor.
O tom de sua voz faz as malditas águas se acumularem novamente e eu preciso fechar as pálpebras, o que não impede que meu conhecido choro se inicie novamente. Eu escondo o rosto entre as mãos, apoiando os cotovelos na mesa e escuto a cadeira dela se movendo.
- Chore, Bella. – ela sussurra em meu ouvido, me abraçando e eu encaixo meu rosto na curvatura de seu pescoço longo – Pode chorar, querida. O quanto quiser e o quanto puder. Eu estou aqui.
Sinto seu corpo balançando com a força de meus soluços, que mesmo abafados por mim, saem altos e dolorosos. Há uma dor crua e nua que não consigo mais ocultar, derramando-a em meu pranto como um desabafo espasmódico.
São longos os minutos em que agarro minha amiga, minutos esses que me fazem questionar todo o conceito de tempo. Seriam apenas sessenta segundos em um minuto ou os meus minutos sem Edward tornaram-se maiores como um castigo por sua ausência provocada por mim?
"E lá vem a patética Isabella com seu choro. Cresça garota, suas lágrimas não valem nada para mim e nem para ninguém.”
A minha mão direita vai direto para minha têmpora, na microagressão a qual me acostumei para remover a voz indesejada de mim. Rosalie se assusta e agarra meu punho, puxando-o para baixo. Seus braços já não me rodeiam e sim me restringem, como um porto seguro temeroso por sua embarcação histérica.
- Conte-me o que aconteceu, Bella. – ela pede, afastando o rosto o suficiente para tentar ler minhas expressões molhadas pelo choro – Deixe-me te ajudar.
- O que você está fazendo aqui, Rose? – pergunto com a voz grossa, arranhando minha garganta.
- Tanya pediu para eu vir. Você não apareceu em nenhuma reunião da editora, assim como não entregou as páginas que deveria mandar para a revisão. – eu sinto vontade de me bater novamente, incomodada com minha negligência e sinto os dedos de Rosalie apertando meus punhos – Ela te ligou algumas vezes e todas as ligações caíram na caixa postal, as mensagens que ela te mandou nem ao menos foram entregues. Tanya acabou ligando para Edward, que está em primeiro nos seus contatos de emergência, e ele contou para ela sobre o término e que agora está morando em Seattle. Então, ela me chamou e eu estou aqui.
- Ele... Ele está bem? – eu sufoco um soluço com minha hesitação e os olhos dela ficam mais ternos.
- Eu liguei para Edward depois que desliguei a ligação de Tanya. Ele não quis falar comigo, apenas me mandou uma mensagem me perguntando a mesma coisa, se você está bem. – ela suspira e decide finalmente soltar minhas mãos, segurando meu rosto delicadamente com as suas – Conte-me essa história, Swan. Deixe-me te ler.
E meu conto triste sai de minha boca em palavras sussurradas, com frases do passado misturadas com a do presente e me ouço pela primeira vez contando para alguém sobre minha vida antes de vir morar na agitada Nova Iorque, a quase três mil milhas de distância de meu estado natal, Washington. Eu vejo as lágrimas começando a se acumular nos olhos de Rosalie, o seu belo rosto se contorcendo com a angústia que sente no que ouve, os lábios perdendo a cor e as mãos se tornando frias sem saber como me consolar.
- Bella... – é o único som que sai dela quando termino, encolhida em minha cadeira, com meus próprios braços ao meu redor, os únicos que me acolheram quando precisei – Eu... Eu realmente não sei o que lhe dizer.
- Não há nada que você precise dizer, Rose. – eu a conforto e consigo sentir a ironia escorrendo em minha voz de forma inconsciente – De verdade, não há o que dizer.
- Não é justo, sabia? – ela praticamente rosna e me assusto com o som – Não é justo que tudo isso tenha acontecido com você, entre todas as pessoas. – um calor surge no azul parecido com lápis lazúli que são seus olhos e quase sinto-me aquecida pela raiva efervescente – Você é a mulher mais forte que já conheci e quem está falando isso sou eu, a mulher com a triste história: a noiva que sobreviveu ao noivo escroto que tentou estuprá-la quando chegou bêbado de sua despedida de solteiro. – eu quase me sinto patética em estar vomitando para ela meus traumas sendo que ela também tem seus fantasmas de quando se relacionou com o nojento do Royce King – Mas, Bella, porra, Edward não é Renée.
- Mas, no final, ele foi embora, não foi? – eu rebato, secando as lágrimas com o dorso de minha mão com força, sentindo a ardência do movimento brusco.
- Você também não teria ido se ele te falasse que não a ama como você falou para ele? – suas palavras reabrem as feridas em meu coração e fecho os olhos.
- Por que ele acreditou tão facilmente nessa mentira, Rose?
- Porque você mais do que ninguém sabe o quanto dói quando a pessoa amada diz que não te ama.
“Eu nunca te quis, Isabella. Às vezes eu me perguntava se algum dia eu te amei, mas chegando aqui, nesse momento, eu vejo que não. Você nunca esteve no meu coração.”
De alguma forma eu mesma seguro meu punho para não bater em minha têmpora novamente, quando a voz de Renée avança em minha mente como um câncer necrosante, sabendo que isso assustaria Rosalie muito mais do que suas palavras me assustaram, cimentando em mim meu erro e estupidez.
- Oh, Rose... O que eu fiz?
Minha pergunta ecoa pela sala, bate nas paredes e nos livros das estantes, parecendo uma cacofonia eterna que servirá de castigo para minha alma perturbada. Uma nova onda de choro me atinge e novamente Rosalie me abraça, enquanto eu murmuro o tempo todo o quanto sou idiota.
- Eu não irei discordar de você, Bella. Realmente, para uma escritora premiada e dona de um best-seller mundial, você é uma idiota.
- E agora? O que eu faço? – minha voz está nasalada e sei que tem catarro sujando sua bela blusa vermelha, mas ela não parece se importar.
- Você precisa responder algumas perguntas, Bella. – ela alcança um mirtilo e o joga em sua boca, mastigando demoradamente apenas para me punir com o suspense – Você ama o Edward? Você o quer de volta? E se sim, o que está disposta para tê-lo novamente?
- Eu o amo incondicional e irrevogavelmente, Rose. – afirmo, sentindo meu coração batendo tão alto que abafa qualquer som ao nosso redor – Eu o quero e farei qualquer coisa para isso.
- Ótimo! – ela bate as mãos nas pernas e se levanta bruscamente – Porque Jasper está vindo com o carro para irmos atrás de Edward.
- O QUE?
A loira diabólica nem ao menos se digna a me responder, voando para meu quarto e escuto suas mãos puxando minha mala de cima do guarda-roupa.
(...)
Em menos de uma hora eu me encontro parada em frente ao meu prédio, com uma mala que Rose fez para mim, vendo sua espaçosa Mercedes se aproximando com seu irmão no volante. Jasper Hale, advogado e gêmeo de Rosalie, me cumprimentou com um abraço tranquilo e um sorriso que derrubaria qualquer júri aos seus pés. Sua voz calma ainda mantém um leve sotaque de quem viveu a infância inteira em um rancho no Texas, sotaque esse que Rosalie perdeu há anos. Ele não nos fez pergunta alguma, apenas carregou minha mala até o carro e a entregou para sua irmã, que arrumava nossas coisas da forma mais Rosalie Hale possível.
- Conseguiu falar com Tanya? – Rose me pergunta fazendo um pequeno Tetris com a guitarra de Jazz que ele insistiu em trazer – Ela estava bem preocupada com você.
- Eu disse que recuperei minha lucidez graças à você e que você está me sequestrando para uma missão de reconquista do meu grande amor. – seu sorriso branco quase me cega em meio ao céu nublado de Nova Iorque e eu pisco para minha amiga – Tanya apenas respondeu: “eu sabia que a loira psicopata saberia o que fazer”.
- Tenho certeza que ela já vê que essa história dará um bom livro que a ajudará a comprar mais uma casa na praia. – Rosalie responde, alisando os cabelos com os dedos enquanto confere se guardou tudo – Jazz estava cansado do escritório e eu entediada com minha pesquisa. Uma road trip é tudo o que precisamos. Você pega de volta o que é seu e, enquanto isso, seus bons amigos curtem uma mini férias.
Jasper se aproxima passando o braço por meu ombro e encaramos sua irmã, que parece ansiosa com seu sorriso arrogante que é um prelúdio de que ela tem tudo arquitetado em sua cabeça loira.
- Ok, aqui está o plano. – Rose anuncia, abrindo um mapa enorme e estendendo-o à sua frente o máximo que seus braços conseguem. – Sairemos de Nova Iorque agora, seguiremos pela I-80 até o meio do estado, evitaremos os trechos mais movimentados perto de Chicago e só iremos parar em pontos estratégicos para abastecer.
Jasper olha por cima dos óculos de sol, os usando mesmo com o céu nublado, tampando seus olhos idênticos aos de Rose. Ele segura o celular em uma das mãos, onde o GPS já está aberto e pronto para nos guiar.
- Um mapa, Rosie? Sério? Por que você está agindo como se estivéssemos em 1970? Quer que eu te arrume uma bússola também?
- GPS falha, Jasper. Sinais falham. – ela nem levanta os olhos do papel amassado para o responder – Você pode confiar no seu aplicativo, mas eu prefiro confiar na minha capacidade de leitura de mapas.
- Ah, claro! – Jasper diz, me soltando e apoiando-se no carro com um sorriso sarcástico. – Porque a civilização caiu tantas vezes por causa do terrível GPS. Aposto que, de repente, a gente vai parar no meio do oceano porque ele confundiu um rio com uma ponte e seremos os primeiros a irmos para Atlântida.
Eu não consigo me segurar e solto um riso baixo, mas rapidamente paro quando Rosalie me lança um olhar afiado.
- Você quer um exemplo? – Rosalie começa, gesticulando com o mapa como se fosse uma bandeira de guerra – Em 2019 eu estava dirigindo para Boston e o aplicativo me mandou para uma estrada fechada por obras. Eu fiquei presa no trânsito por duas malditas horas.
- E foi aí que você jurou nunca mais confiar na tecnologia? – Jazz cruza os braços, claramente se divertindo – Isso explica tanta coisa sobre você.
- Isso explica por que eu sou mais preparada do que você. – Rosalie retruca, voltando a alisar o mapa como se fosse um bem precioso – Quando estivermos no meio do nada e seu precioso sinal do celular desaparecer, eu quero ver como você vai se virar sem mim.
- Primeiro, eu provavelmente só esperarei cinco segundos até o sinal voltar. Segundo… – Jasper estende o celular para mim, como se estivesse me apresentando um artefato sagrado – Eu já marquei a rota no aplicativo, com paradas para banheiro, postos de gasolina e, ah, veja só, até uma cafeteria bacana em Ohio. – seu dedo vai passando pela tela e me mostrando todo o roteiro programado – É quase como se esse pequeno aparelho móvel fosse… útil.
Eu tento me manter neutra, sendo acostumada com a dinâmica caótica dos irmãos Hale, mas não consigo mais esconder meu sorriso, nem mesmo com o olho esquerdo de Rosalie tremendo levemente.
- A cafeteria em Ohio parece interessante, Rose. – eu digo, olhando para o perfil no Instagram que Jasper me mostra.
- Ah, claro que parece interessante! – Rosalie exclama, guardando o mapa de forma dramática no seu bolso. – Mas, quando estivermos seguindo esse troço – ela aponta para o celular de Jasper com uma careta engraçada – e ele mandar a gente para uma estrada que não existe, não me culpem. Eu avisei!
Jasper sorri vitorioso, pescando sua guitarra do Tetris de sua irmã e fechando o porta malas.
- Relaxa, Rosie. Se isso acontecer, você pode puxar o mapa e salvar o dia como a heroína que sempre quis ser.
Rosalie bufa, nos dando as costas e entrando no carro, girando a chave na ignição com mais força do que deveria.
- Só entra logo no carro e cala a boca, Jasper.
- É exatamente para isso que eu trouxe a guitarra. – ele diz, segurando o instrumento com um sorriso presunçoso – Quem precisa falar quando pode tocar?
Jazz se acomoda no banco de trás e eu sento ao lado de Rose, no banco do carona. Um suspiro escapa de mim e olho para a estrada à frente. É só o começo da viagem e já estou imaginando como será sobreviver ao trio Hale-Swan por mais de quatro dias dentro de um carro.
Rosalie nos conduz para fora de Nova Iorque e sinto meu coração errando uma batida, já sentindo falta de casa e ele acelera conforme a ansiedade parece substituir o sangue em minhas veias. Minha mente começa a imaginar vários cenários, desde os mais trágicos aos mais esperançosos.
- Então, alguém me dirá o porquê de eu ter ido buscar seu carro e estarmos agora indo para Seattle ao invés de Las Vegas? – Jazz pergunta, enfiando sua cabeça entre nossos bancos com seus cachos loiros caindo displicentemente por sua testa com o movimento – O que há em Seattle além do Space Needle?
- Edward Cullen. – Rose responde por mim, com os olhos fixos na estrada e eu me remexo no banco – É uma missão de resgate.
- Resgate? – ele inclina a cabeça e seus óculos escuros balançam um pouco – O que houve com Edward?
Rosalie suspira como se a pergunta de Jasper fosse uma provocação infantil. Sem tirar os olhos da estrada, ela começa a respondê-lo com seu o tom impaciente que só usa com o irmão gêmeo.
- Nada aconteceu com Edward, Jazz. Ele só… foi para Seattle. Bella terminou com ele e agora está arrependida. Estamos indo consertar isso antes que ele arrume outra namorada ou, pior, se afunde no trabalho e vire um daqueles caras que só sabem falar sobre os casos médicos mais intrigantes dos plantões noturnos.
- Eu terminei com ele porque eu tinha razões válidas. – murmuro, mas minha voz soa tão fraca que não tenho certeza de que os dois ouviram.
- Razões válidas... – Jasper repete, como se testasse o sabor da frase na língua. Ele estala os dedos e aponta para mim, ainda inclinado entre os bancos – Deixa eu adivinhar. Ele deixou a tampa da pasta de dente aberta? Não compartilhou as batatinhas fritas? Foi porque ele é daqueles que manda figurinhas demais nas mensagens?
- Jazz, não seja idiota. – retruco, revirando os olhos.
- Não, não, espera! – ele continua, ignorando minha tentativa de encerrar a conversa – Você terminou porque ele sempre está muito bonito. Eu entendo, é uma ameaça à autoestima de qualquer pessoa normal.
- Jasper! – Rose interrompe, sua voz cortante o suficiente para calar até mesmo ele por um segundo.
- Ok, ok… – ele levanta as mãos demonstrando sua rendição, mas ainda com aquele sorriso irritantemente divertido no rosto – Sabe, eu não tenho problema algum em afirmar que Edward Cullen com toda certeza é um cara ridiculamente lindo. Eu sempre me senti meio acuado com a presença dele, vocês não? Os olhos verdes, o cabelo ruivo brilhante, o queixo quadrado e nem vou falar sobre como ele fica atraente vestindo o jaleco branco – ele morde os lábios e pisca para mim em deboche – Sério Bella, eu ainda estou me perguntando... Se não foi por nenhuma dessas razões incríveis que eu citei, por que você terminou com o pequeno grande deuso?
- Porque Edward recebeu uma oferta de trabalho em Seattle, e Bella aqui decidiu que prefere viver uma tragédia pessoal digna de uma música de Taylor Swift a resolver seus problemas. – Rosalie responde antes que eu consiga abrir a boca.
- Eu não sabia que era uma tragédia até você transformar isso em um roteiro para uma comédia romântica. – murmuro, afundando ainda mais no banco.
- Você está reclamando de mim por isso? – Rosalie arqueia uma sobrancelha, tirando os olhos da estrada por um segundo para me fuzilar com o olhar – Eu só estou tentando consertar a confusão que você criou.
- Confusão é um pouco dramático, Rose. – começo a dizer, mas Jazz me corta, rindo.
- Não, não, eu gosto disso. “Missão de Resgate Edward” – ele usa as mãos de maneira teatral, como se realmente estivesse criando uma grande campanha publicitária – Podemos fazer camisetas! Quem sabe até um slogan? Algo como: "Salvem o Cullen – Bella Swan está arrependida!”
- Jasper! – Rosalie bufa, mas ele ignora completamente o tom de advertência dela.
- Você já pensou no que vai dizer para ele, Bella? – ele pergunta, inclinando-se mais perto, os olhos brilhando com a diversão de quem claramente não leva nada a sério – Vai ser algo épico e romântico? Ou você vai improvisar? Tipo: “Ei, voltei porque percebi que você é a única pessoa que entende minha obsessão com livros velhos e doses exageradas de cafeína durante o dia?”
- Eu ainda estou pensando. – respondo, cruzando os braços e mordendo o lábio inferior, tentando esconder o fato de que não pensei em absolutamente nada.
Jasper sorri como se tivesse acabado de descobrir um segredo meu e sinto um pequeno arrepio com seu olhar.
- Ah, entendi. Você vai improvisar. Isso vai ser ótimo. Quero uma cadeira na primeira fila para essa cena.
- Você vai ficar no carro. – Rose corta, ajustando o retrovisor para olhá-lo.
- Claro, porque nada diz “apoiando minha irmã e a melhor amiga dela” como me deixar de fora do momento mais emocionante da viagem. – ele diz, recostando-se dramaticamente no banco de trás – Não se preocupem, eu só estarei aqui, sozinho, provavelmente chorando em solidariedade.
- Você não vai chorar. – digo, revirando os olhos pelo que parece ser a décima vez em poucos minutos.
- Não mesmo. – ele concorda, sorrindo – Mas é bom ver que você finalmente está relaxando, Bella. Isso é progresso.
E, contra todas as probabilidades, percebo que ele está certo. Mesmo com o caos e as provocações, a tensão que estava comprimindo meu peito desde que saímos de Nova Iorque parece ter diminuído um pouco. Talvez, só talvez, essa viagem não seja tão ruim assim.
(...)
Rosalie ainda está ao volante mesmo após mais de seis horas dirigindo, com os olhos fixos na estrada, como se sua determinação sozinha pudesse nos levar à Seattle mais rápido. Meus olhos observam o cenário passar enquanto tento não parecer muito nervosa com as curvas fechadas que minha amiga faz sem diminuir a velocidade. Jasper está no banco de trás, após desistir de enfiar sua cabeça entre nós a cada quinze segundos, e está dedilhando distraidamente sua guitarra enquanto cantarola uma música inventada.
- Precisaremos abastecer novamente em breve. – Rose anuncia, olhando de relance para o relógio – Mas, sem enrolações, crianças. Precisaremos parar em breve quando o sol se pôr e quero avançar mais algumas milhas.
- Concordo totalmente. – respondo, mais por medo de contrariar Rosalie do que por verdadeira convicção.
- Eu discordo. – Jasper interrompe, colocando a guitarra ao seu lado e se inclinando entre os bancos da frente novamente.
Ele aponta para uma placa azul no meio da estrada que diz: A maior abóbora do estado — próxima saída.
- Não. – Rosalie nem sequer titubeia em sua resposta.
- Rose, pensa só. A maior abóbora do estado! Você realmente quer passar por isso sem parar? – Jasper dá uma risadinha, claramente já planejando a provocação seguinte.
- Sim, eu realmente quero. Porque isso é uma perda de tempo.
- Ah, entendi. Você tem medo que a abóbora seja maior que seu ego. – ele provoca gratuitamente, cruzando os braços e recostando-se no banco.
Novamente eu não consigo segurar o riso baixo, mas me calo imediatamente quando Rose me lança um olhar mortal.
- Não vou cair nessa, Jasper. Eu sei o que está fazendo, usando sua psicologia barata e estamos atrasados, então…
Rosalie não tem tempo de terminar. Jasper já está com o celular em mãos, digitando freneticamente e esticando o aparelho entre nossos bancos.
- Acabei de pesquisar. Esse lugar não é só famoso pela abóbora gigante, mas também tem morangos premiados. Rosie, você adora morangos, não é?
- Não tanto quanto eu adoro ignorar você. – ela rebate, sorrindo ironicamente.
- Você pode continuar ignorando enquanto estaciona. É só sair na próxima à direita.
- Rosalie, talvez uma pausa não seja tão ruim. – eu intervenho – Quero dizer, estamos viajando há horas, em uma missão de resgate e também em uma road trip para nos divertimos. E, bem, eu nunca vi uma abóbora gigante ou morangos premiados. — seus olhos giram rapidamente e sinto todo a sua irritação por ser contrariada virando-se para mim.
- Eu também nunca vi um tornado, mas isso não significa que quero me aproximar de um. – ela bufa sua resposta.
Mas antes que ela possa continuar, Jasper dá seu golpe final de irmão gêmeo irritante.
- Rose, eu sou seu irmão. Se não pararmos agora, passarei o resto da viagem cantando músicas tristes sobre como você me privou dessa experiência única.
- O que mais há de novo? – Rosalie responde dando os ombros.
- Eu começarei com uma balada country. Algo como: Minha irmã quebrou meu coração… e não me deixou a abóbora gigante… – Jasper já está testando os primeiros versos, com a mão alcançando a guitarra esquecida ao seu lado.
Rosalie revira os olhos tão forte que penso que ela pode perder o controle do carro por talvez nunca mais conseguir virá-los de volta para a estrada.
- Tudo bem! Vamos parar. Mas, só porque não quero ouvir você cantar por duas horas seguidas.
Jasper joga os braços para o alto em triunfo, com uma pequena gargalhada vitoriosa escapando de seu peito.
- É assim que se faz, maninha!
Quando finalmente estacionamos no pequeno rancho, Rose sai do carro murmurando algo sobre como nunca mais irá viajar com Jasper. Enquanto isso, ele está ocupado tirando fotos da placa na entrada.
- Esse momento vai entrar para a história, Bella. – ele sussurra se aproximando de mim – Hoje, vencemos a ditadura de Rosalie Lillian Hale.
Eu deixo uma gargalhada baixa sair de mim, estranhando o som que parecia esquecido por mim há dias. Olho para a placa e depois para Rosalie, que finge que não nos conhecer e entra na pequena estufa onde a abóbora está sendo fotografada por outros turistas curiosos.
(...)
Nós seguimos pela rodovia por algumas longas horas, mas dessa vez com Jasper no volante e Rose o incomodando no banco de carona com sua playlist de músicas pop dos anos 2000 que ela faz questão de cantar bem alto.
- Há um pequeno parque para acampamentos a alguns quilômetros daqui, quase na entrada da cidade mais próxima. – Jazz anuncia, olhando para o mapa que aparece no multimídia do carro após ele conectar seu celular mesmo com as reclamações de Rosalie – Eu trouxe tudo o que precisamos para acampar, o que acham?
- Acho que eu trabalho o suficiente para ter dinheiro e pagar uma boa cama de hotel. – loira resmunga cruzando os braços.
- Rosie, nós combinamos que essa viagem será uma aventura. – ele a cutuca com uma das mãos, a fazendo se contorcer no banco.
Rosalie empurra a mão de Jasper com um tapa exagerado, lançando um olhar mortal para ele.
- Aventura não significa dormir no chão, com mosquitos e provavelmente um urso rondando a barraca!
- Ah, claro! – Jasper responde, rindo enquanto mantém os olhos na estrada – Porque os ursos estão só esperando a chance de invadir acampamentos. Tenho certeza de que estão até organizando reuniões sobre isso.
- Não estou brincando, Jazz. – ela fala, virando-se no banco para encará-lo – Se eu acordar e der de cara com um urso ou com você roncando, o que é quase a mesma coisa, eu juro que vou te amarrar a uma árvore como oferenda.
- Eu não ronco. – ele retruca ofendido.
- Ronca sim! – Rose e eu respondemos em uníssono, trocando um olhar cúmplice pela primeira vez na viagem.
- Traidoras. – Jazz murmura, mas o sorriso nos lábios denuncia que ele está mais entretido do que ofendido.
- Olha... – eu decido intervir tentando ser a voz da razão em meio ao caos dos Hale – Não seria tão ruim passar uma noite acampando. É só por hoje, certo? E, Rose, você pode fingir que está em um reality show de sobrevivência. Tipo Survivor ou algo assim.
- Se fosse um reality show eu seria a vencedora – Rosalie responde, levantando o queixo – Mas isso não significa que quero participar.
- Exatamente por isso que você deveria aceitar. – Jazz rebate, piscando para mim pelo retrovisor – Nada como um pequeno desafio para provar que você é durona.
- Eu não tenho que provar nada. – Rosalie dispara, cruzando os braços e com o azul disparando adagas para Jazz – E não me chama de durona como se fosse um elogio disfarçado de provocação.
- É totalmente um elogio. – ele diz com um sorriso sacana.
Eu suspiro, vendo que a discussão não tem fim e quase agradecendo por nunca ter tido irmãos.
- Rose, só vamos tentar, ok? Eu prometo que se for horrível, a próxima parada será em um hotel de luxo, com spa, eu pago.
Rosalie hesita, seus olhos azuis fixando-se em mim, com desconfiança brilhando neles.
- Com spa? Você me garante? – ela me pergunta como uma criança perguntando se Papai Noel realmente existe e preciso disfarçar um sorriso.
- Com a mais absoluta certeza.
- Tá, tudo bem. – minha amiga cede, embora claramente contrariada – Mas se houver qualquer inseto dentro da barraca, eu vou dormir no carro. E vocês dois podem lidar com isso.
- Sem pressão. – Jasper comenta casualmente – Mas eu espero que você saiba montar barracas, Rose. Porque eu vou estar ocupado acendendo a fogueira e sendo incrível.
- Montar barracas? – Rose repete, arqueando uma sobrancelha – Nem pensar. Essa é totalmente sua tarefa.
- Aventuras. – ele nos relembra sorrindo enquanto Rosalie bufa.
Eu me afundo no confortável banco de trás, sentindo o carro fazer uma leve curva em direção ao parque de acampamento que já é anunciado por grandes placas espalhadas pelo acostamento da rodovia. Conseguimos ver ao longe as luzes da próxima cidade acesas, um ponto luminoso distante em meio à escuridão da noite.
Quando chegamos ao parque, com apenas a luz da lua cheia e dos faróis do carro iluminando o caminho, conseguimos alugar sem problemas um espaço, tendo direito a usarmos a sede com chuveiros aquecidos para tomarmos banhos e o vigia nos aponta uma pequena lojinha que fornece comidas típicas de acampamento. Rapidamente tomamos um banho, trocamos nossas roupas, compramos suprimentos e seguimos para nosso local para estacionarmos.
O local é sereno, mas vazio, com apenas algumas clareiras disponíveis. Jazz segue para uma mais ao fundo e um pouco mais afastada, mas que nos dá privacidade, longe das famílias cheias de crianças e dos casais em um passeio romântico.
- Escolha perfeita. – Jasper diz, saindo do carro e respirando fundo – Sintam esse ar fresco!
Rose sai com menos entusiasmo, olhando ao redor como se esperasse ver algo sair correndo da floresta.
- Sinto cheiro de terra. E mosquitos.
- Eu gostei. – comento, pegando minha mochila no porta malas – É tranquilo.
- Vamos começar os trabalhos, garotas. – Jasper ordena, batendo palmas e pegando todos os seus itens de acampamento que me surpreendem por caber em apenas uma mochila camuflada que está no fundo do porta-malas.
O acampamento improvisado fica em uma clareira ao lado de um lago, cercado por pinheiros altos e o céu aberto pontilhado de estrelas. É bonito, mas o silêncio do local me deixa um pouco inquieta. Jasper e Rosalie já estavam empilhando as coisas enquanto eu observava as sombras alongadas das árvores.
- Isso aqui é isolado demais. – murmuro, cruzando os braços enquanto o vento frio me arrepia.
- Bem-vinda ao mundo real, Bella. – Rosalie diz, puxando a barraca com uma expressão que diz claramente que ela preferia estar em um hotel cinco estrelas – Vocês queriam aventura, não é?
- Vocês, garotas, são impressionáveis demais. – Jazz se aproxima, equilibrando sua guitarra e um saco de marshmallows enquanto joga um olhar sugestivo para mim – Considere que isso aqui é perfeito para criarmos memórias, Bella. Quem sabe isso não pode se tornar cenário do seu próximo lançamento?
- Se a gente sobreviver... – respondo, olhando nervosa para o mato ao redor.
Depois de meia hora e várias reclamações de Rosalie sobre como “esses ganchos idiotas” não ficavam no lugar, as barracas estavam armadas. Jasper já tinha acendido a fogueira, com uma maestria digna de quem assiste Largados e Pelados aos finais de semana, enquanto Rose e eu nos sentávamos próximas ao fogo recém-aceso.
- Certo... – Jazz diz, jogando mais lenha seca na fogueira e sentando-se em uma tora que serve como um banco improvisado – Quem quer contar histórias assustadoras?
- Não me faça rir, maninho. – Rosalie resmunga, mexendo na unha quebrada que tinha conseguido enquanto ajustava os ganchos da barraca – Se você contar histórias assustadoras, Bella vai passar a noite acordada. E aí, adivinha quem vai ter que ouvir os surtos dela? Eu.
- Ei! – protesto, mas antes que possa continuar, ouvimos um barulho alto vindo das árvores perto de nós.
Rosalie congela, os olhos azuis arregalados girando para todos os lados.
- O que foi isso? – questiono com um fio de voz.
- O vento. – Jasper responde casualmente, mas até ele começa a olhar ao redor.
- Isso não foi o vento. – digo, já me levantando.
O barulho se repete, mais próximo, e Rosalie imediatamente também se ergue, puxando Jazz pela manga da camisa para se juntar a nós.
- Se for um urso, não corram. – Rosalie comanda com a voz trêmula – Eles perseguem presas que fogem. Fiquem parados.
- Ótimo, Rosie. – Jasper diz, levantando as mãos para os céus – Porque ficar parado enquanto um urso avança soa tão natural.
- Natural é… – Rosalie começa sua resposta mal educada, mas sua frase é cortada por outro som alto vindo das árvores atrás de nós, um estalo de galho, seguido por algo pesado pisando na vegetação.
Nós três congelamos e consigo ver pelo canto do olho Jasper se encolhendo levemente atrás da irmã.
- Vocês ouviram isso? – pergunto em um sussurro, não querendo atrair a atenção do que quer que esteja ali.
- Eu te avisei, Jazz! – Rosalie diz, com os olhos arregalados – É um urso!
- Não é um urso. – Jasper responde, embora sua expressão pareça menos confiante.
Ele pega uma lanterna e aponta para a escuridão, iluminando os grossos troncos dos abetos gigantes que nos rodeiam. Verde e marrom confundem-se em meio à floresta que parece mais sombria do que eu imaginava.
Do meio das árvores, vimos surgir uma figura alta e volumosa. Antes que qualquer um possa reagir, Rosalie põe as mãos no rosto em desespero e sua voz sai estridente demais para meus ouvidos.
- É UM URSO! EU SABIA! – Rosalie se agacha em uma velocidade inumana, pegando uma pedra e erguendo sobre a cabeça, pronta para se defender.
- Urso? Acho que não, loirinha! – a figura responde, e de repente, percebemos que é um homem enorme, usando uma camisa de flanela e segurando uma mochila. Ele ergue as mãos, como se estivesse rendendo-se sob a mira da lanterna e sua risada parece balançar o chão – Sou só eu. Relaxem.
- Emmett?! – Jasper pergunta, reconhecendo o rosto que eu nunca vi.
- Quem mais seria? – o tal Emmett responde, rindo – Vocês estão armando um acampamento ou uma peça de teatro de terror?
- Você quase matou a gente do coração! – Rosalie dispara, jogando a pedra no chão com raiva.
- Eu?! – Emmett exclama, ofendido – Você gritou como se eu fosse devorar alguém!
Antes que Rosalie possa responder, uma figura menor e ágil surge atrás de Emmett, com um sorriso encantador.
- Eu falei para você não sair correndo, Emm! – a baixinha de cabelos escuros repicados comenta, colocando as mãos nos quadris – Mas, foi divertido.
Rosalie ainda parece abalada, os braços cruzados e o olhar fixo em Emmett como se pudesse fulminá-lo com a força do pensamento. Ele, por outro lado, parece completamente alheio à tensão, sorrindo largamente enquanto observa nós três.
- Então, o que diabos vocês estão fazendo aqui? – Rosalie finalmente pergunta, o tom ainda mais afiado do que o habitual.
- Eu é que pergunto. – Emmett responde, ajeitando a mochila em um ombro – Achei que só eu e Alice éramos loucos o suficiente para acampar no meio do nada. Eu vi vocês saindo da sede e decidi vir visitá-los. Pelo visto, vocês também gostam de viver perigosamente.
- Falando em perigosamente… – Alice interrompe, caminhando até Jasper e oferecendo a pequena mão com um sorriso contagiante – Oi, sou Alice Brandon. E você?
- Eu sou Jasper Hale. – ele responde, com o sotaque texano se intensificando, assim como seu olhar e ele aperta a mão dela com um sorriso capaz de ofuscar qualquer luz por perto – Essa é minha irmã, Rosalie e aquela é nossa amiga, Bella.
Rosalie bufa impaciente, ignorando o flerte descarado de Jazz e as apresentações, lançando seu melhor olhar irritado para Emmett.
- Você sempre foi inconveniente, McCarty, mas aparecer assim, do nada, no meio da floresta? Isso é um novo recorde.
- Espera aí! – eu me intrometo, levantando uma mão – Alguém pode me explicar como vocês já se conhecem?
Rosalie suspira, parecendo querer esquecer de onde e como conhece o grandão.
- Emm estudou conosco no ensino médio, ele era o terror do time de futebol americano. – Jasper explica, apontando para o cara que já parece à vontade cutucando com o pé a pequena pilha de lenha que juntamos para a fogueira.
- Time de futebol? – eu pergunto, olhando para Emmett de cima a baixo, pensando na máquina que ele deve ter sido levando em conta seus músculos gigantes que se pronunciam por baixo da camisa e sua altura.
- Linha de defesa. – Emmett responde com orgulho – Ninguém passava por mim. Eu ainda sou meio que uma lenda no colégio.
- Lenda urbana, isso sim. – Rosalie resmunga para si mesma, claramente ainda irritada, mas todos nós conseguimos a ouvir em meio ao silencio da clareira.
- Depende para quem você perguntar. – Alice intervém com um sorriso – Mas, e vocês? Por que estão acampando no meio do nada?
- Estamos em uma missão. – Jasper responde dramaticamente, acenando para mim como se eu fosse a protagonista de um grande épico – Uma busca para recuperar o amor perdido.
- Ah! – Alice suspira apaixonada, enquanto Emmett ergue uma sobrancelha.
- Não é nada disso. – eu protesto, sentindo minhas bochechas ficando quentes.
- É exatamente isso. – Rosalie retruca, cruzando os braços e olhando para Alice – Ela está tentando reconquistar o namorado. Estamos indo para Seattle.
Alice sorri ainda mais, me lembrando o Gato de Chesire de alguma maneira.
- Que romântico. Eu adoro viagens com um propósito.
- Não é romântico. – eu murmuro, mas ninguém parece ouvir.
- E vocês? – Jasper pergunta, mudando o foco – O que estão fazendo aqui?
- Explorando. – Alice responde, dando de ombros – Tiramos uns dias de folga e Emmett disse que queria ver “a natureza em seu estado bruto”. – ela faz aspas com os dedos pequenos.
- Tradução: eu queria fazer um bom churrasco em um lugar bonito. – Emmett acrescenta, rindo.
- Bom… – Alice começa, com o tom animado de quem quer nos convencer de algo – Já que estamos todos aqui, por que não acampamos juntos?
- Ótima ideia! – Emmett concorda, jogando sua mochila no chão com força suficiente para fazer Rosalie pular – Eu trouxe carne. Vocês têm marshmallows?
- Isso não é uma boa ideia… – Rosalie começa, mas Alice a interrompe.
- Vai ser divertido. Confie em mim, loirinha.
Rosalie estreita os olhos, claramente sem vontade de ceder, mas eu a cutuco de leve no braço.
- Pode ser bom ter companhia. – digo suavemente apenas para ela escutar – E, pelo menos, se aparecerem ursos reais, eles vão servir de distração para nos salvarmos.
Rosalie suspira, derrotada, esfregando os olhos cansados com uma mão.
- Tá bom. Mas se alguém tocar na minha barraca, eu vou embora! – ela diz com o dedo em riste.
- Prometo que não toco. – Emmett diz, com um sorriso que parece dizer o contrário de suas palavras – Apenas se me pedir.
Com isso, nós cinco começamos a nos organizar ao redor da fogueira e é inevitável o pensamento que me atinge, de que a imprevisibilidade da viagem acaba de se tornar ainda mais caótica.
Jasper e Alice discutem a melhor forma de organizar a fogueira, com Alice insistindo que existe uma estética correta até para isso. Eu decido não ficar perto deles, indo organizar a pequena mesa de apoio onde estão nossos alimentos.
Vejo Emmett se aproximando de Rosalie, que está ocupada tentando ajustar uma lona por cima da nossa barraca para protegê-la do sereno noturno.
- Precisa de ajuda? – ele pergunta, com um sorriso travesso, cruzando os braços enquanto parece admirar os movimentos descoordenados de minha amiga não acostumada com a vida no campo.
Rosalie lança um olhar breve e calculado na direção dele antes de voltar ao que está fazendo.
- Não. Eu sei o que estou fazendo.
- Ah, claro que sabe. – responde, sem perder o tom descontraído – Você sempre soube como comandar qualquer situação. Lembro disso desde o colégio.
- Ótimo! – ela diz seca, puxando a lona com um pouco mais de força do que o necessário – Então deve lembrar que não preciso de você me ajudando ou comentando.
- Mas você tem que admitir que naquela época a gente fazia uma boa dupla. – Emmett continua, se aproximando um pouco mais.
Rose parou por um instante, os dedos afrouxando seu aperto na lona, quase destruindo seu esforço inicial. Ela o encara, com os olhos estreitos em fendas ameaçadoras.
- Dupla? Você está se referindo àquele trabalho de ciências em que você praticamente destruiu metade do laboratório enquanto eu fazia todo o experimento sozinha?
- Ei! – Emmett coloca a mão no peito, fingindo indignação – Eu chamei aquilo de inovação criativa. E não destruí metade, foi só um microscópio que eu juro que caiu sozinho, uma clara tentativa de suicídio após décadas sendo usado por adolescentes idiotas.
- Havia um bico de Bunsen também, pelo que me lembro. Ou também foi uma tentativa do objeto inanimado de escapar das mãos nojentas de adolescentes idiotas? – Rosalie acrescenta.
- Detalhes. – ele responde, com um sorriso que parecia ainda mais largo à luz da fogueira.
Rosalie revira os olhos e volta a amarrar a lona.
- Você não mudou.
- E você também não. – Emmett retruca, a voz mais suave – Ainda é a garota mais determinada e cabeça-dura que já conheci.
Ela para novamente, dessa vez hesitando um pouco antes de olhar para ele.
- E isso é um elogio?
- Depende… – ele fala, inclinando-se ligeiramente para mais perto – Funcionaria como um elogio?
Rosalie o encara por um longo momento, os olhos brilhando com algo entre desafio e curiosidade. Então ela ergue o queixo, um pequeno sorriso nos lábios.
- Não.
Emmett ri, recuando, mas claramente se divertindo com a resposta petulante e querendo continuar o jogo entre eles. Um sorriso se abre em seu rosto, expondo duas covinhas que o deixam com o ar infantil. Covinhas essas que parecem querer se exibir para a loira.
- Tudo bem. Só estou aquecendo. Tenho mais alguns elogios guardados.
- Ótimo! – Rose responde, voltando à lona – Enquanto isso, por que você não vai ajudar Jasper? Aposto que ele precisa de alguém para carregar madeira ou algo assim.
- Ah, você só quer se livrar de mim. – ele diz, fingindo estar ofendido.
- E está funcionando, não está?
Antes que ele possa responder, Jazz o chama do outro lado da clareira.
- Ei, Emm, vai me ajudar ou vai continuar flertando com a Rose?
- Já vou! – ele grita de volta, mas lança um último olhar para Rosalie, piscando para ela – Você ainda me deve uma revanche de queimada, lembra disso?
- Você não vai ganhar. – ela retruca sem olhar para ele.
- Vamos ver.
Quando ele se vira e vai até Jazz e Alice, eu que estava assistindo a interação à distância, me aproximo lentamente, sabendo que minha expressão não esconde minha curiosidade.
- Você e Emmett… já tiveram alguma coisa? – eu pergunto direta, sem rodeios.
Rosalie suspira, ajustando o último nó na lona.
- No ensino médio? Não exatamente. Ele era… Como sempre. Barulhento, irritante e convencido. Mas… – ela para, franzindo levemente a testa como se ponderasse – Ele sempre soube como chamar minha atenção.
É impossível não erguer uma sobrancelha, vendo um brilho em seu olhar que há muitos anos eu não notava, principalmente no que se refere à homens.
- E agora?
- Agora ele continua sendo barulhento, irritante e convencido... E continua sabendo como chamar minha atenção. – Rose fala, levantando-se e limpando as mãos na calça,
Eu reprimo um sorriso enquanto Rosalie se afasta, claramente tentando fingir indiferença. Mas, algo em seu tom deixa claro que o reencontro com Emmett pode trazer muito mais do que apenas uma companhia inesperada para nossa viagem.
Quando me viro para voltar à minha tarefa de organizar nossa comida, Alice se aproxima de mim com um sorriso conspirador, como se estivesse prestes a compartilhar um segredo valioso.
- Você está se perguntando como eu e o grandão nos conhecemos, não está? – ela questiona, cruzando os braços e inclinando a cabeça para o lado.
- Admito que estou curiosa. Ele parece… uma presença difícil de ignorar.
Alice solta uma risada leve.
- Isso é um eufemismo. Nos conhecemos no trabalho. Ambos estamos em uma agência de marketing em Portland. Ele cuida das contas de grandes empresas e eu sou a estrategista criativa. Emmett é basicamente o cara que consegue fechar qualquer negócio porque ninguém tem coragem de dizer não a ele.
- Isso faz sentido. – comento, olhando para Emmett do outro lado do acampamento, onde ele carrega uma pilha de lenha com facilidade, ainda conversando animadamente com Jasper.
- Mas, o mais engraçado, – Alice continua, seu sorriso crescendo – é que nos demos bem instantaneamente. É como se ele fosse meu irmão perdido ou algo assim. Eu cuido de dar as ideias malucas e ele é o maluco que encontra um jeito de torná-las realidade.
- Imagino que vocês dois sejam uma dupla interessante no escritório. – digo, rindo.
- Ah, interessante é pouco! – Alice exclama, os olhos brilhando e o corpo balançando de um lado para o outro em animação – A última campanha que fizemos juntos envolveu uma corrida de kart no estacionamento da empresa. E sim, foi ideia minha. Mas ele convenceu o chefe de que seria ótimo para o espírito de equipe. E, surpresa, funcionou!
Eu balanço a cabeça, ainda rindo, desacreditada com a dupla dinâmica que parece uma bola de energia sem fim.
- Ele definitivamente parece o tipo de pessoa que faria isso.
Alice olha para mim, me examinando por um momento antes de falar com uma voz mais suave.
- E você, Bella? Qual é a sua história? O que te trouxe para essa viagem maluca com os irmãos gêmeos?
Eu hesito, meus olhos desviando para o chão por um instante.
- Ah, é uma longa história…
- Eu tenho tempo. – Alice afirma, sentando-se em um tronco próximo e indicando que eu faça o mesmo.
Após um momento de relutância, eu suspiro e sento-me ao lado dela, contando, de forma resumida, sobre minha relação com Edward, nosso término abrupto por uma decisão equivocada minha e a decisão impulsiva de tentar reconquistá-lo. Omito as partes mais obscuras do porquê de tudo isso e ela não parece se incomodar.
Alice ouve atentamente, balançando a cabeça em compreensão.
- Uau. Então essa é uma missão de amor, hein? É muito corajoso da sua parte.
- Não sei se corajoso é a palavra certa. – reflito, mordendo o lábio inferior – Às vezes parece… Desesperado.
- De jeito nenhum. – Alice discorda firmemente, colocando uma mão em meu ombro – Sabe o que acho? Acho que você está fazendo o que muita gente teria medo de fazer: correr atrás do que realmente importa. E isso, minha amiga, é admirável.
Um sorriso tímido se espalha por meus lábios e sinto-me um pouco mais leve com as palavras de Alice.
- Além disso, – ela acrescenta, com um tom de voz brincalhão – estou adorando essa vibe de road trip cheia de confusões. Se precisar de um reforço para a Missão de Resgate Edward, estou à disposição.
- É bom saber. – respondo, relaxando pela primeira vez desde que partimos de Nova Iorque.
Nesse momento, Emmett se aproxima, carregando um grande saco de marshmallows.
- Hora de assar! Quem quer o primeiro?
Bella ri, olhando para Alice, que dá de ombros com um sorriso animado.
- Bem, parece que nossa conexão vai começar oficialmente com marshmallows. – ela me diz, segurando minha mão e me puxando para irmos para a fogueira.
Enquanto Emmett brinca com Rosalie e Alice me lança olhares encorajadores, percebo que, apesar de todos os meus medos e incertezas, talvez essa viagem esteja se transformando em algo inesperadamente bom.
(...)
O som do zíper de uma barraca se abrindo com violência me arranca de um sono mais ou menos profundo, e, antes que eu possa sequer entender onde estou, a voz estrondosa de Emmett ecoa pelo acampamento:
- BOM DIA!
Ainda me ajustando ao fato de que o chão da floresta é, de fato, muito menos confortável do que parecia na noite anterior, ouço Rosalie sair da barraca como uma tempestade. O cabelo dela, sempre impecável, agora parece uma nuvem loira desalinhada, e seus olhos carregam a intensidade de alguém que já está no limite da paciência antes mesmo do café da manhã.
- Se você acordar alguém assim de novo, McCarty, eu juro que vou te amarrar a uma árvore.
- É assim que você agradece o mestre churrasqueiro que manteve todos alimentados ontem à noite? – ele retruca, como se não tivesse percebido a ameaça mortal na voz dela.
Rolo para fora da barraca e me sento, esfregando os olhos enquanto Alice saí da sua própria barraca, os cabelos curtos e espetados parecendo ter sido estilizados com intenção. Ela parece perigosamente animada para alguém que tinha dormido no chão.
- Rosalie tem razão! – Alice comenta casualmente enquanto se espreguiça – Só existe uma regra sagrada de acampamento: não acordar pessoas irritáveis sem café.
- Eu ouvi isso. – Rosalie grunhe, já remexendo em sua necessàire, provavelmente em busca de algo para salvar o dia ou pelo menos seu cabelo.
Olho ao redor e percebo Jasper ainda enrolado no saco de dormir, tentando, inutilmente, se manter alheio ao caos.
- Parece que todos dormiram bem. – comento, minha voz carregando a ironia suficiente para fazer Alice rir.
- Bem o suficiente para estarmos prontos para o próximo destino. – Jasper anuncia enquanto finalmente se levanta. Ele olha para Alice e Emmett, que agora discutem animadamente sobre como preparar ovos mexidos no fogareiro, nem um pouco abalados com os olhares mortais que Rose despeja em ambos – E vocês dois? O que vão fazer agora?
Alice ergue os olhos, o sorriso dela crescendo como se já soubesse a resposta há muito tempo.
- Na verdade… – ela faz uma pausa, o suspense meticulosamente calculado para nos manter curiosos – Estávamos pensando em ir com vocês.
- Vocês… O QUÊ? – Rosalie para o que está fazendo e se vira para encarar Alice em uma velocidade que me faz pensar que seu pescoço irá quebrar.
- Você ouviu. – Emmett fala antes que Alice possa dizer qualquer coisa. Ele dá de ombros, mordendo uma barra de cereal com a casualidade de quem não tinha acabado de se auto convidar para uma viagem que nem é sua – Alice e eu estamos oficialmente nos juntando a essa aventura. Quer dizer, vocês têm um plano incrível para resgatar Edward e nós amamos um bom drama romântico.
- Isso não é um drama romântico. – tento corrigir, mas minha voz é abafada pela risada de Alice.
- Claro que é, Bella boba! – ela insiste, animada – Um grupo improvável de amigos em uma viagem épica para consertar corações partidos? Isso é cinema puro, Bella. Vocês são basicamente personagens de um filme. Ou melhor, de um de seus livros.
- Vocês não podem simplesmente se juntar! – Rosalie quase rosna, cruzando os braços – Isso não é a casa da mãe Joana!
- Por que não? – Emmett pergunta, ainda mastigando, mas parecendo se deliciar mais com o desespero de Rose do que com a sua barrinha – Eu sou ótimo em resolver problemas. E Alice… – ele lança um olhar exageradamente dramático para a baixinha – Bom, ela é meio que um gênio. Vocês vão precisar de nós.
Jasper parece mais divertido do que incomodado e ele se aproxima de Rose, passando o braço por seu ombro.
- Bom, eles não estão errados. O carro tem espaço suficiente. E, além disso, com mais gente, podemos nos revezar no volante.
Rosalie vira-se para mim, remexendo o corpo para se livrar de Jazz, e claramente ela espera que eu coloque um ponto final na ideia absurda.
Mas, enquanto todos me encaram, só consigo encolher os ombros e roubar o resto da barrinha de cereais de Emmett.
- Eles já estão aqui. E, honestamente, acho que qualquer ajuda é bem-vinda.
Alice bate palmas, triunfante, um pequeno som de sinos escapando de sua garganta.
- Então está decidido! Emmett e eu vamos para Seattle!
- Isso é loucura. – Rosalie murmura, balançando a cabeça.
- Certo, mas é uma loucura divertida. — Emmett contrapõe, se aproximando e colocando um braço ao redor dos ombros dela antes que ela possa se afastar – E vamos combinar, Ursinha, você secretamente ama isso.
- Não me chame de Ursinha! – ela rebate, mas sem a força que normalmente colocaria em uma reclamação.
Enquanto desmontamos o acampamento e arrumamos o carro, observo Emmett e Alice conversando animadamente sobre quais paradas faremos pelo caminho e Jasper, paciente como sempre, tenta evitar que o caos escale quando Rose começa a balançar seu amado mapa de um lado para o outro como se fosse um bastão de guerra.
(...)
Nós conseguimos avançar várias milhas durante o dia, com Emmett e Jasper dividindo o volante, enquanto Alice comandava a playlist com escolhas que agradavam todos nós. Rosalie até mesmo parecia se divertir com todas as provocações dos garotos, não conseguindo esconder o sorriso em seus lábios toda vez que eles a perturbavam. Nós fizemos poucas paradas, para abastecer, comer e ir ao banheiro. A viagem estava sendo tranquila e combinamos repetir o acampamento quando a noite chegasse. Jasper já tinha procurado parques de acampamento que dispusessem de chuveiros e programado nossas próximas pernoites.
O sol já está começando a se pôr quando finalmente paramos em uma pequena cidade para abastecer e dar uma pausa após longas horas ininterruptas dentro do carro que ficou mais apertado com o acréscimo dos dois amigos. Alice está animada com a ideia de explorar os arredores, enquanto Emmett está mais interessado em descobrir se há algum tipo de lanche disponível.
- Eu ainda não entendo por que precisamos parar aqui. – Rose fala, cruzando os braços e olhando para o posto de gasolina como se ele fosse um lugar extraterrestre – Estamos a o quê? 30 minutos de uma cidade maior?
- Sim, mas ninguém vai dizer que não tivemos uma experiência autêntica das estradas americanas! – Alice responde, pulando em seus pés enquanto tira fotos da paisagem – É quase obrigatório parar nessas pequenas cidades, Rose.
- É, porque todos sempre sonham em parar num posto de gasolina no meio do nada. – Emmett zomba, enquanto estica os braços para cima da cabeça tentando se espreguiçar após ficar tanto tempo encolhido entre o banco do carro e o volante – Aposto que a melhor parte da viagem será esse lugar super exclusivo.
Rosalie revira os olhos e começa a andar em direção à pequena lanchonete acoplada ao posto, claramente já decidida a passar por esse momento com a mesma expressão impassível que ela tem quando alguém sugere que ela pare para tirar fotos de uma paisagem. Eu a sigo por pura falta de opção, e Jasper vem logo atrás, mas tudo fica mais interessante quando Emmett e Alice ficam parados olhando para um cartaz grudado no balcão da lanchonete.
- Aposto que vocês quatro não conseguem comer esse hambúrguer em cinco minutos. – Emmett desafia, apontando para o cartaz com a inscrição “Maior Hambúrguer da Cidade” escrito em um amarelo neon quase nauseante.
Alice, que jamais recusaria um desafio, sorri como uma criança na loja de doces.
- É claro que conseguimos! Se tivermos tempo, comemos até dois!
- Eu vou olhar para o lado enquanto vocês fazem isso. – Jasper comenta, com um sorriso hesitante no rosto – Não acho que eu preciso ver isso.
- Não seja chato, Jazz. – Emmett diz, batendo em suas costas e já começando a andar na direção de uma mesa que caiba todos nós – Isso é sobre a experiência, cara.
O lugar é uma mistura dos clássicos diners dos anos 50 com um toque de decadência moderna, ou seja, o tipo de lugar onde as paredes têm mais personalidade do que a própria comida. Alice e Emmett pedem os gigantescos hambúrgueres enquanto Rosalie e eu pegamos algo mais simples, porque, sinceramente, eu não tenho certeza se quero ver qualquer um de nós tentar enfrentar um hambúrguer que parece maior do que nossas cabeças.
Em poucos minutos, a garçonete entediada traz nossos pratos, sendo dois com enormes hambúrgueres com três andares de carne, queijo, alface e tomate, com molho barbecue escorrendo pelos lados. Emm e Allie encaram as pequenas grandes torres com os olhos brilhando como se tivessem acabado de ganhar um prêmio.
- Preparados? — Emmett pergunta, tentando parecer sério, mas claramente não conseguindo esconder o sorriso.
- Acho que já ganhei isso. – Alice responde, olhando para o hambúrguer de Emmett com uma expressão de curiosidade e depois para o seu – o meu não parece tão grande assim.
Rosalie franze a testa e seu nariz enruga com nojo, observando Allie enfiar os dedos no pão aparentemente macio.
- Vocês são insanos.
- Vem cá, Rose, você não quer participar? – Emmett desafia, começando a morder o seu hambúrguer como se estivesse realmente em um concurso.
-Não, obrigada. — Rosalie responde de forma suave, mas com uma leve ameaça na voz — Eu não estou interessada em perder minha dignidade por causa de um, ou melhor, três pedaços de carne.
- Dignidade? – Emmett zomba, com os lábios sujos de molho e queijo derretido – Parece que você está com medo de perder para nós.
- Eu não tenho medo de perder para vocês dois. – Rosalie levantou uma sobrancelha – Mas tenho medo que você engasgue com esse monstro e me faça passar vergonha.
O que acontece em seguida é uma mistura de risadas, caretas e tentativas frustradas de morder o hambúrguer de forma decente. Emmett está realmente indo com vontade, mas Alice, surpreendentemente, parece mais focada no desafio do que ele. Quando ela dá mais uma mordida e quase não consegue fechar a boca de tão grande o pedaço, um alface voa da sua boca e acerta a testa de Jasper.
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- Eu juro que foi sem querer! – Alice grita envergonhada, mas logo começa a rir junto com todos.
- Você é impossível. – Rosalie fala divertida, se deliciando com Alice e Emmett se atrapalhando com a comida.
A situação só piora quando Emmett, em um gesto exagerado para impressionar, tenta engolir um pedaço maior e quase se engasga.
- Eu não… acho que vou… – ele começa a dizer, mas logo é interrompido por um ataque de tosse que faz todos o olharem preocupados.
- Bem, isso seria uma boa maneira de terminar a viagem. – Jasper comenta, com a voz completamente seca de tanto rir e com o celular em mãos filmando toda a cena – Aposto que será um excelente momento para cortar o vídeo e fazer um meme.
- Você está bem, grandão? Ou o hambúrguer ganhou de você? – Alice provoca Emm, dando pequenas batidinhas em suas costas com sua mão pequena.
Emmett dá uma última tosse e, com um sorriso aliviado, se encosta na cadeira.
- Esse hambúrguer é realmente imbatível. Eu acho que fui derrotado.
Rosalie não consegue mais se conter e gargalha, atraindo atenções de todos que estão na lanchonete. Eu também estava tentando não rir, mas quando vi Emmett, com a cara cheia de molho barbecue, tentando sorrir com dignidade, não consegui mais segurar.
- Esse é definitivamente o melhor momento da viagem. – falo, limpando as lágrimas que se acumularam em meus olhos de tanto que eu ri.
Emmett, ainda com pedaços de comida na boca, pisca para mim.
- Ah, sim, eu sou o herói dessa história. – ele alcança um guardanapo e começa a limpar a boca – Deixarei você usar essa cena em um dos seus próximos livros.
- Na sua cabeça, talvez você seja um herói digno, mas a realidade é que um hambúrguer te derrotou. – Rosalie comenta, mas o sorriso dela mostra que, por mais que toda a cena em si seja um desastre, ela não trocaria aquele momento por nada.
(...)
A fogueira estala suavemente enquanto as brasas lançam sombras dançantes no chão de terra. Alice e Emmett discutem animadamente sobre qual música colocarão para tocar no carro no dia seguinte, enquanto Jasper, já enrolado em seu saco de dormir, murmura algo sobre exigir que toquem pelo menos duas músicas country.
Rosalie e eu estamos afastadas, sentadas em um tronco caído à margem do acampamento, observando as estrelas que preenchem o céu límpido da noite.
- Você está quieta. – Rosalie comenta, sua voz mais suave do que de costume.
- Estou pensando. – respondo, puxando o casaco mais para perto do corpo.
- Isso é novidade. – ela provoca, batendo seu ombro no meu, mas seu sorriso é preocupado.
Deixo escapar uma risada curta, mas minha postura continua tensa.
- Falta pouco para chegarmos, sabe? E eu… Eu não sei o que me espera em Seattle.
Rosalie inclina a cabeça, como faz quando estava tentando decifrar algo complicado. Ela puxa uma mecha de cabelo que cai em seu rosto com o vento e a enrola distraidamente no dedo.
- Você está com medo?
Demoro alguns segundos para responder, sentindo a sinceridade escapar de mim de forma natural.
- Não sei se é medo. É mais como uma bagunça de sentimentos. Não sei se estou pronta para ver Edward. Não sei se quero estar pronta.
Ela fica em silêncio por um momento, apenas observando o fogo mais à frente. Quando finalmente fala, sua voz é calma, mas carrega uma firmeza que só Rosalie sabe transmitir.
- Você não precisa estar pronta, Bella. Só precisa aparecer. O resto você resolve quando estiver lá.
Viro-me para olhá-la, torcendo meus dedos gelados em meu colo.
- Você fala como se fosse fácil.
- Não é. – ela admite, os olhos ainda fixos no fogo – Mas as coisas difíceis costumam ser as que mais valem a pena.
Suspiro, abraçando os joelhos e trazendo-os para mais perto de meu peito.
- E se ele já tiver seguido em frente? E se ele não quiser me ver? Não consigo tirar essas ideias da cabeça.
- Você nunca vai saber se não tentar. – Rosalie responde sem hesitar – E se você não for, vai se arrepender pelo resto da vida. Confie em mim.
Fico em silêncio, absorvendo suas palavras. Seu tom confiante serve como um combustível para minha decisão em ir atrás de Edward, mas os pensamentos de dúvida ainda me abraçam como uma névoa invisível.
- Você acha que estou sendo egoísta por querer que ele volte? – questiono com a voz baixa, como se eu não quisesse que ela me ouvisse.
Ela finalmente vira-se para mim, seus olhos azuis profundos encontrando os meus com uma intensidade que quase me faz desviar o olhar.
- Bella, querer alguém na sua vida não é egoísmo. Você merece amor. Merece ser feliz. E, se Edward é parte disso, você tem todo o direito de lutar por ele.
Engulo em seco, sentindo as palavras dela ecoando em minha mente. Por um momento, o peso no meu peito parece um pouco mais leve.
- Eu só não quero me decepcionar de novo. Já passei por tantos momentos, Rose. Você sabe como foi com a minha mãe.
Ela assente, as linhas de seu rosto suavizando.
- Eu sei. Mas Edward não é sua mãe, Bella. Nem você é. Ele não te abandonou. Ele só seguiu um caminho diferente. E agora você tem a chance de fazer isso também.
A sinceridade em sua voz me pega de surpresa. Rosalie raramente fala sobre sentimentos de forma tão direta, e, quando o faz, é sempre com um propósito.
- Obrigada. – murmuro, sentindo uma gratidão genuína por ela estar comigo nessa jornada.
- De nada. — ela responde, sorrindo de lado e passando o braço por sobre meu ombro — Mas, se você me agradecer de novo, vou fingir que não ouvi. Não sou boa com essas coisas melosas chamadas de sentimento.
Deixo escapar uma risada, e, por um momento, o peso nos meus ombros diminui.
- Agora, vá dormir. – ela diz, cutucando minha perna com o pé – Você vai precisar de energia para encarar o Edward. E, honestamente, preciso de você lúcida porque não tem como eu aguentar meu irmão, Emm e Allie sozinha.
Balanço a cabeça, sorrindo. Enquanto me levanto para ir até a barraca, olho para Rosalie mais uma vez, sentindo um enorme amor por minha amiga. Eu não sei o que me espera em Seattle, mas, com ela ao meu lado, sinto que talvez eu posso enfrentar o que vier.
(...)
A parada é tão abrupta que, por um segundo, acho que Jasper tinha decidido frear no meio da estrada para nos pregar alguma peça. Mas o som estranho vindo do motor, um chiado seguido por um estrondo abafado, indica que não se trata de uma brincadeira.
- Ah, ótimo! – Rosalie resmunga, jogando as mãos para o alto – Eu sabia que não deveria ter confiado naquela maldita oficina no Brooklyn.
A loira bufa, já saindo do veículo e abrindo o capô com uma eficiência que faz parecer que ela já sabe exatamente qual o problema.
- Ok, calma. – Emmett diz, descendo do banco de trás e cruzando os braços enquanto observa Rosalie – É só um contratempo. Quanto tempo pode demorar para consertar?
Rosalie dá um olhar de lado para ele, como se sua paciência estivesse prestes a se esgotar.
- Isso depende de quão estúpida foi a falha. – ela responde, começando a examinar as entranhas do motor.
Alice, ao meu lado, também decide descer do carro e todos nós nos amontoamos ao redor de Rose.
- Rosalie com as mãos no motor de um carro? Isso vai ser melhor do que assistir a qualquer reality show. – Allie comenta, empolgada com a imagem e já tirando fotos com seu celular.
Eu dou um meio sorriso, mas a verdade é que estou mais preocupada com o tempo que estamos perdendo. Cada segundo parece um passo a mais para longe de Edward.
- Está tudo bem aí? – pergunto, inclinando-me para tentar ver o que Rosalie faz e descontando minha ansiedade nas minhas unhas que estão sendo castigadas por meus dentes.
- Está mais ou menos. – ela fala, com a voz abafada por estar quase dentro do motor, ajustando algo com uma chave estranha que tirou do porta-luvas – Parece que o sistema de resfriamento sobrecarregou e acabou vazando. Mas eu consigo consertar.
- Claro que consegue. – Jasper comenta de onde está, encostado ao carro com uma expressão entediada – Afinal, quem precisa de uma oficina quando temos a engenheira mais inteligente do país conosco?
- Pelo menos uma de nós é útil. – Rosalie retruca sem nem levantar o olhar.
Enquanto ela trabalha, Emmett parece cada vez mais fascinado. Ele começa a se aproximar, observando cada movimento dela como se ela fosse a única pessoa no mundo.
- Você entende disso tudo mesmo? – ele questiona, sua voz carregando um tom quase reverente.
Rosalie finalmente olha para ele, os olhos estreitos em fendas ameaçadoras.
- Sim, Emmett. Eu sou engenheira mecânica. Trabalho com pesquisa e desenvolvimento de motores para carros de corrida. É literalmente o que eu faço da vida.
Ele abre um sorriso largo, aparentemente ignorando o sarcasmo que escorre da voz orgulhosa da loira.
- Então você não é só bonita e mandona. Você também é um gênio.
- Obrigada, eu acho? – Rose responde incerta, voltando ao trabalho, mas seu rosto cora levemente.
Demora apenas mais alguns minutos até que ela se afaste, limpando as mãos em um pano e anuncia hesitante.
- Pronto. O carro deve aguentar até chegarmos à próxima cidade.
- Você é incrível. – Emmett diz, o tom dele tão sério que pega todos nós de surpresa.
- É, eu sei. – Rosalie concorda, levantando o queixo com um ar confiante, mas sua expressão suaviza aos poucos ao perceber como ele a olha com veneração.
E então, sem aviso, Emmett dá dois passos largos até ela e a beija.
É um beijo forte, cheio de emoção, como se ele estivesse decidindo ali mesmo que nunca mais a deixará escapar.
- O quê…? – começo a dizer, mas fico tão chocada que as palavras morrem na minha garganta.
Alice solta um gritinho animado, claramente se divertindo com a cena e filmando tudo.
- Ah, meus olhos! Meus olhos estão queimando! – Jasper resmunga, virando-se de costas e levando as mãos para cobrir os olhos – Porra, McCarty, eu não precisava ver isso.
Quando finalmente se separam, Emmett olha para Rose com um sorriso capaz de iluminar o país inteiro.
- Você sabe que é a mulher da minha vida, certo?
Rosalie, ainda um pouco sem fôlego, tenta manter a compostura, mas um sorriso pequeno escapa antes que ela o responda.
- Se você continuar falando besteira, vai virar a primeira vítima de uma chave de roda. – ela o ameaça, mas claramente se derretendo em seus braços.
Ele ri, completamente encantado.
- Ok, ok. – Jasper interrompe, virando-se de volta com um olhar de pura exasperação – Podemos continuar a viagem ou vocês vão continuar se engolindo no meio da estrada?
Rosalie volta para o carro e se senta banco do carona com a cabeça erguida, mas noto que ela desvia o olhar para Emmett, que acaba assumindo a direção. E ele? Ele simplesmente não para de sorrir.
E nem eu mesma consigo evitar que meus lábios também sorriam, quando vejo as mãos dos dois unidas por sobre o console do carro.
(...)
A placa anunciando que estamos entrando nos limites de Seattle passa por nós e para mim ela parece brilhar com a intensidade de dez mil lâmpadas. Minha boca fica seca, minha respiração acelera e sinto meu punho se fechando, querendo ir diretamente para minha têmpora.
Rosalie está sentada ao meu lado, espremida entre Alice e eu, e rapidamente sua mão envolve a minha e ela me observa pelo canto do olho, tentando não chamar a atenção das pessoas no carro para a minha crise de ansiedade.
As imagens do meu passado parecem rodar em minha mente como uma fita VHS travada, repetindo as cenas e as falas que me assombraram por anos.
- Destino final à nossa frente: Seattle, a Cidade Esmeralda! – Emm anuncia com uma voz de locutor, tamborilando os dedos no volante acompanhando o ritmo da música no rádio.
“Baby, turn the bright lights one, ‘cause I haven't forgotten where it is I'm from. Look out your window for me, here I come”.
A voz de Brandon Flowers, do The Killers, soa pelos alto falantes se tornando a trilha sonora perfeita para o momento, mas o gosto amargo em minha boca e meu cérebro repetindo a voz de Renée abafam tudo com a angústia do que encontrarei.
Vejo os prédios se erguendo sobre nós, os carros passando pelas ruas movimentas da cidade e sinto em meu nariz o familiar cheiro molhado que vem do porto. A chuva característica do Noroeste Pacífico parece que deu uma trégua quando chegamos e sinto vontade de agradecer a São Pedro. A chuva nessa cidade não me traria boas recordações e eu já estava me torturando o suficiente com as lembranças.
- Vocês querem parar em algum lugar ou ir direto até Edward? – Jazz questiona, virando-se para mim.
- Eu não sei seu endereço aqui, apenas o nome do hospital que o contratou. – reflito, com a voz grave de quem está lutando contra muitos sentimentos – Acho que o hospital é a melhor opção para eu encontrá-lo. Vocês podem me deixar lá e irem descansar.
- O quê? – Alice faz um barulho estridente que vem do fundo de seu peito, pulando no banco e quase subindo por cima de Rose para falar comigo – Nós quase fomos atacados por um urso, quase morremos engasgados com um hambúrguer do tamanho da minha cabeça, quase ficamos à deriva no meio do nada com um carro estragado e tive que ver o Emmett enfiando a língua dele na garganta da Rosalie para você nos deixar de fora da fase final da Missão de Resgate Edward?
- Allie, o urso era você e Emmett no meio da floresta, você que quis comer um hambúrguer do tamanho da sua cabeça e eu consertei o carro em menos de dez minutos… — Rosalie contrapõe, cruzando os braços.
- E meus olhos continuam queimando depois de eu quase pegar vocês dois transando ontem no acampamento. – Allie sussurra para Jasper não ouvir, mas pela careta que ele faz no banco da frente ele com certeza escutou tudo – Nós iremos ao hospital, Isabella Marie Swan. Todos nós.
Eu encolho os ombros quando a ouço me chamar pelo nome completo e quando um trovão soa ao longe, eu me rendo. Enfrentar a cidade e Edward será mais fácil com meus amigos ao meu lado.
(...)
A missão de encontrar Edward está prestes a se transformar em uma operação militar ou, pelo menos, é o que parece com o caos que está se formando ao nosso redor. Já estamos dentro do hospital há alguns minutos, tentando não chamar a atenção, mas com Emmett fazendo o oposto de tudo que planejamento para passarmos despercebidos como um desajustado grupo de cinco pessoas atrás do novo Chefe de Cardiologia do UW Hospital.
- Ok, galera, nós precisamos encontrar Edward rápido. Lembrem-se: nada de causar problemas. – Rosalie diz, tomando a dianteira e andando na nossa frente – Eu sei que é difícil, mas vamos tentar ser discretos. E lembrem-se que aqui é um hospital, ouviu Emm?
- Claro que seu Ursão ouviu, Rose. — Jasper resmunga, ainda observando Emmett, que está tentando flertar com uma enfermeira mais velha na recepção para conseguir informações sobre Edward.
A mulher parece ser pelos menos vinte e cinco anos mais velha que Emm, mas isso não impede nosso querido amigo de colocar seu plano sem sentido em ação. Rose vira-se na direção do novo namorado e seu olho esquerdo treme visivelmente, o que me faz me questionar quantas vezes no dia Emm é capaz de bagunçar o sistema de Rosalie.
- Então, o dia está bonito, já viu? Parece que o tempo está ótimo para uma caminhada no parque. – a voz do grandão é baixa e rouca, uma tentativa de flerte engraçada para quem o conhece e sabe o quanto ele é espalhafatoso com seu tom de voz retumbante – Ou um jantar, o que acha?
- Emmett! – Rose grita, sem conseguir segurar a exasperação – Nós temos uma missão, lembra? – ela diz rangendo os dentes, o que faz parecer que ela está os usando para segurar sua irritação.
- Ah, relaxa, loirinha. – Emmett responde com um sorriso enorme, que mais parece uma tentativa desesperada pedindo para Rosalie entrar em seu jogo – A minha amiga Maggie aqui ainda não me falou o que ela acha sobre o dia.
Enquanto isso, eu estou tão distraída com a interação entre os dois que não percebo um grande painel de vidro na minha frente. De repente, minha cara faz um estrondo alto contra a superfície, e eu sinto uma dor forte no nariz.
- AH! – eu exclamo, atordoada, sentindo a vergonha me consumir instantaneamente e meu nariz parece começar a jorrar sangue.
- Bella! – Jasper grita, se virando para ver o que tinha acontecido. Seus olhos se arregalam quando me acham e Alice coloca as mãos na boca em choque – Meu Deus, você está bem?
A enfermeira mais velha, que Emmett estava tentando conquistar, vira para nos olhar com uma expressão de espanto, mas antes que ela possa dizer algo, o próprio Emmett vem até mim, segurando meu rosto entre suas mãos como se fosse um médico pronto para me colocar em uma mesa de cirurgia.
- Caramba, Bells, olha seu nariz! – exclama, tentando manter um ar sério, mas com certeza se contorcendo de rir por dentro, divertindo-se com minha falta de coordenação.
Eu vejo seu nariz se enrugar quando o sangue pinga em sua mão e ainda um pouco tonta, dou um passo para trás, tentando disfarçar e me afastar de seu aperto.
- Não tem como eu olhar meu nariz, Emm... Ele está muito ruim? – digo, olhando nervosamente para todos eles que estão parados ao meu redor como se eu fosse um grande espetáculo.
- Bem...
As palavras parecem fugir de Emm, que vira para os outros como se pedisse ajuda. Jasper não consegue segurar o riso e sua gargalha soa por toda a recepção.
- Essa foi boa. Acho que estamos começando a chamar a atenção do hospital inteiro agora. – o loiro fala entre as risadas descontroladas.
- Ótimo, era só o que faltava. – Rosalie diz, com os braços cruzados e olhando para Emmett, com certeza o culpando pelo caos.
Foi então que uma porta se abriu à nossa frente e vemos um homem com jaleco branco impecável olhando diretamente para nós, sua expressão de surpresa logo se transformando em uma que eu jamais esquecerei.
- Vocês... – sua voz aveludada soa como um sopro que faz meu coração acelerar e seus olhos verdes correm por todos nós, que continuamos parados com meu nariz pingando sangue e meus amigos me olhando assustados – O que vocês estão fazendo aqui?
Eu congelo, percebendo que o momento que eu ensaiei, sonhei e imaginei várias vezes em minha mente está acontecendo na pior hora possível. Nunca foi assim que planejei reencontrar Edward para me rastejar pedindo-o de volta.
- Nós... – eu sussurro, ainda vasculhando em meu cérebro as melhores palavras para iniciar meu pedido de perdão.
- Cara, nós estamos aqui em uma missão de resgate que infelizmente foi interrompida porque a Bells aqui resolveu que queria se fundir com o painel de vidro atrás dela – Emm se intromete, enquanto Edward me olha confuso e depois seus olhos caem nos gêmeos que parecem se esconder atrás da pequena Alice – Será que tem como você olhar o nariz da Bella e depois nos liberar para a Missão de Resgate Edward? Aliás, você sabe nos dizer onde podemos encontrar o Dr. Edward Cullen? – Emm se vira para mim, com um sorriso conspiratório – Apesar que eu não conheço o tal Edward, mas esse médico aqui com certeza é muito mais bonito do que seu ex-namorado, Bells. Se o Cullen não te aceitar de volta, investe nesse aqui.
Eu congelo em meu lugar e todo o som ao nosso redor parece cessar, ainda sem acreditar no que Emm diz para todos ouvirem. Eu apenas escuto os lábios de Edward se entreabrindo em confusão e as gotas de meu sangue pingando no porcelanato brilhante da recepção do hospital.
Edward, por outro lado, pisca uma vez, depois outra e mais outra. Ele olha para Emmett, e depois para mim, com uma expressão de quem está tentando entender a piada.
- O Dr. Cullen sou eu. — ele explica calmamente, com um leve sorriso nos lábios – Eu sou o Dr. Edward Cullen.
Emmett olha para ele, depois para mim e sua expressão passa de confusa para abismada.
- Você… Você é o Dr. Cullen?! – ele exclama, um pouco sem graça, coçando a cabeça – Uau! Desculpa, cara, pensei que você era só mais um médico aqui. Acho que, na minha cabeça, Edward Cullen seria apenas um cara normal.
- Normal? – Rosalie pergunta, quase caindo na gargalhada, e eu posso sentir a tensão se dissipando levemente no momento – Como assim normal, Emm?
- Sim, tipo, sei lá, como um médico que atenderia meu tio, que sofre de gota, sabe? – Emmett explana, rindo da própria comparação sem noção – Porra, o cara parece um anjo caído de tão bonito.
Edward apenas sorri, mais uma vez demonstrando a paciência que eu sempre admirei nele.
- Não se preocupe, Emmett, acho que você tem um jeito único de se expressar e é sempre bom ouvir elogios. – seus olhos verdes viram-se para mim e eu vejo o calor conhecido neles – Agora, vamos dar uma olhada em você, Bella?
Eu mal consigo articular palavras, tão envergonhada quanto estava desde que pisei no hospital. Emmett, claro, está com as bochechas tão vermelhas quanto as minhas, mas é engraçado ver que ele está tentando deixar seu constrangimento de lado.
- É, bem, a gente… A gente vai dar uma folga para o Dr. Cullen e ir descansar agora. – ele anuncia, conseguindo puxar os outros três com suas mãos – Mas, Bella, boa sorte, ok? Com o nariz e tudo mais.
Eu só balanço a cabeça, tentando esconder o riso, e sigo Edward por um corredor, ainda sem minhas palavras, mas feliz por ele ser o médico que irá me atender.
Ao invés de irmos para uma sala de atendimento, ele nos encaminha diretamente para seu escritório no hospital, que claramente já pertence a ele. Há livros empilhados por todos os móveis, folhas espalhadas por sua mesa e uma máquina de café em um canto próximo aonde estão suas coisas pessoais. O cheiro de mel e cafeína me deixa um pouco tonta, arrebatada por todas as sensações que apenas esse aroma único, tão característico dele, consegue infligir em mim.
- Sente-se, Bella. – ele pede, apontando para um sofá de couro encostado na parede atrás de mim – Vou pegar as coisas para o seu nariz.
Ele sai e volta em menos de um minuto, com uma pequena bandeja com tudo o que ele precisa para me examinar. Seus longos dedos de quem praticou piano a vida inteira me tocam de forma trêmula e me inclino em seu toque, percebendo o quanto o seu calor me fez falta nessas quase três semanas separados. Há um sorriso singelo em seu rosto e é nele que me concentro enquanto ele me examina, movendo minha cabeça de um lado para o outro e me analisando com seus afiados olhos médicos.
- Não tem nada quebrado, graças a Deus. – ele parece aliviado e começa a arrumar as coisas para um curativo – Foi apenas uma pancada forte, que estourou alguns vasos capilares do seu nariz. Quando eu terminar de te limpar e fazer o curativo, já estará tudo bem.
A segurança em sua voz me faz ter esperanças de que realmente tudo ficará bem. Não só com meu nariz, mas com nosso relacionamento também.
“Sempre patética, Isabella. Você sempre será essa garota sem-graça e patética atrapalhando minha vida.”
A voz de minha mãe praticamente berra em meus ouvidos e fecho os olhos, tentando não deixá-la nublar o que eu vim fazer aqui. Eu espero Edward terminar o seu serviço, me concentrando em seu toque, seu cheiro, seu calor e em sua presença.
- Pronto, baby. – ele avisa, segurando meu rosto em suas mãos e abro os olhos vendo como ele me olha intensamente – Vamos conversar?
Sua sala está silenciosa, exceto pelo som do relógio na parede e o murmúrio distante dos corredores do hospital. Edward tem sua atenção completamente focada em mim, mas há uma tranquilidade em seu olhar, uma calma que me acolhe e sinto minha garganta seca, como se eu tivesse passado o dia em meio ao deserto. A forma como ele olha para mim, com tanta ternura que quase me faz querer voltar atrás e evitar essa conversa. Eu não sou merecedora de sua paciência. Eu não mereço nada vindo dele.
- Bella… – ele chama minha atenção, notando minha insegurança – Eu preciso entender o que está acontecendo. Por que você terminou comigo? E por que está agora aqui, em uma missão de resgate? Todas as vezes em que conversamos sobre nos mudarmos para cá, você foi absolutamente contra e nem ao menos ouvir a palavra Seattle conseguia.
Suspiro, passando os dedos pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos. É mais fácil fingir que tudo está bem e não passou de uma alucinação do que revisitar o passado. Mas, Edward não merece mais mentiras. Ele merece saber.
- Eu terminei com você porque eu não consigo vir para Seattle, para morar e construir uma vida aqui. – começo, hesitante – Mas, não é porque eu não te amo. É justamente porque eu te amo, Edward. Porque eu tinha medo de te prender, de me tornar um peso para você, caso você preferisse ficar em Nova Iorque com a minha recusa em mudar de cidade. Eu não podia destruir seu sonho de trabalhar aqui, no hospital que sempre quis, ao lado de seus pais.
Ele franze a testa, claramente confuso.
- Prender? – ele repete, com a palavra dançando por sua língua com estranhamento – Bella, eu escolhi estar com você. Eu nunca me sentiria assim ao seu lado.
Eu desvio o olhar, focando na estante com livros médicos que já os vi lendo várias vezes enquanto fazia sua residência em Cardiologia em Nova Iorque. Nos conhecemos na New York University enquanto Edward estava terminando Medicina e eu no meio da graduação em Literatura Inglesa. Nossa conexão foi rápida e arrebatadora, cinco anos de namoro e dois morando juntos em um confortável apartamento em West Village, que compramos juntos quando ele começou a trabalhar e eu lancei meu primeiro livro pela TwilightPublishing, gerenciada por minha amiga da faculdade, Tanya Denali.
- Eu pensei a mesma coisa uma vez. Sobre outra pessoa. E deu muito errado. – confesso, sentindo o amargor em minha boca ao perceber que eu estava pronta para lhe contar tudo.
- Sobre quem? – ele pergunta, com cuidado.
Fecho os olhos, sentindo o peso das lembranças me atingir como uma bala no meio da testa.
- Minha mãe... Renée. – seu nome sai em um engasgo, preso em meu peito há muitos anos.
Ele fica em silêncio, esperando, e eu sei que ele não falará até que eu esteja pronta. Respiro fundo antes de continuar e decido torcer meus dedos juntos, evitando que a necessidade de bater meu punho em minha têmpora se faça presente.
- Ela nunca quis ser mãe. Eu fui um acidente de adolescentes cheios de hormônios, sem proteção e Renée nunca me deixou esquecer disso. Sempre dizia que a gravidez dela foi o início do fim de sua vida, que eu era a responsável pela destruição de tudo. Quando ela me levava para escola, fazia questão de repetir, na frente de qualquer um que estivesse por perto, que eu tinha arruinado os sonhos dela. Dizia que eu deveria agradecer por ela ter escolhido me criar, porque eu não merecia nem isso.
Minha voz falha por um momento, mas Edward continua ali, imóvel, os olhos presos nos meus, como se quisesse absorver cada palavra e apagá-las de minha memória.
- Ela se casou com meu pai porque achou que seria uma solução. Charlie sempre foi bom para ela, atencioso e amoroso, mas ela nunca parava de reclamar da insuficiência da vida que ele podia nos proporcionar. Meu pai era um simples policial quando se casaram, um salário baixo, mas digno para uma pequena família do interior. Mas, Renée dizia que a vida em Forks a sufocava, que meu pai não era bom o bastante e muito menos eu. Quando eu tinha cinco anos, ela fugiu e me levou junto. Claro que não porque não saberia viver sem mim, mas sim porque ela precisava da pensão que Charlie mandava para mim todo mês. Ela fazia questão de deixar isso claro sempre, que minha presença em sua vida era exclusivamente para isso.
As palavras começam a sair mais rápido agora, cada lembrança me atingindo com mais força, derrubando o muro que construí ao meu redor.
- Ela me usava como desculpa para tudo. Se algo dava errado, era minha culpa. Uma vez, quando eu tinha sete anos, ela quebrou uma garrafa de vinho depois de uma briga com um namorado. Eu entrei na cozinha e ela gritou que eu tinha sido a razão pela qual ele tinha ido embora, porque nenhum homem a aceitaria sabendo que ela tem uma filha patética de um casamento mais patético ainda. Renée me mandou limpar os cacos, mas quando cortei a mão, ela riu. Disse que era o preço por ser tão inútil.
Eu ouvi Edward inspirar audivelmente, mas ele continuou quieto. Só seu olhar mudou, como se cada palavra minha estivesse rasgando algo dentro dele.
- E quando ela me deixou em Seattle… – minha voz treme e eu preciso de um momento para me recompor – Eu me lembro da chuva, que caía grossa e fria desde a hora em que acordamos. Eu lembro dela me chamar para irmos ao mercado, dizendo que precisava ir buscar alguma coisa e pediu para eu esperar na calçada, porque seria rápido. Eu esperei e esperei e ela nunca voltou. Eu fiquei lá, parada no concreto, com frio, molhada, achando que ela voltaria, porque… Porque mesmo depois de tudo, eu ainda achava que ela me amava, de algum jeito.
Minhas mãos estavam trêmulas agora, lutando para irem até as laterais de minha cabeça para tentarem tirar a memória mais dolorosa de todas com socos e violência, mas continuei, forçando ainda mais os meus dedos um contra os outros.
- Quando o policial me encontrou, eu estava segurando minha mochila com tanta força que meus dedos estava machucados, porque ela tinha me dito para eu cuidar bem das minhas coisas. Eu estava quase entrando em um estado de hipotermia por conta das longas horas sob a chuva congelante. Ele me levou para a delegacia e só então eu percebi que ela não ia voltar. Meu pai veio me buscar naquela noite. Ele dirigiu de Forks até Seattle sem parar, e quando chegou, me abraçou como se tivesse medo de eu desaparecer. Alguns anos depois, recebemos a notícia que o corpo de Renée havia sido encontrado boiando em um rio em uma cidade qualquer do país, assassinada por conta de uma dívida idiota.
As lágrimas começam a cair agora, mas eu as deixo fluírem livremente, porque Edward precisa ouvir.
- Eu cresci achando que eu era o motivo pelo qual ela era infeliz. Então, quando você recebeu a oferta de trabalho, para assumir o departamento de Cardiologia do hospital que sempre foi seu sonho, eu surtei. Seattle sempre foi um grande não geográfico em minha vida. Ver sua empolgação se esvaindo quando eu te disse que não me mudaria para cá e como você estava determinado em deixar seu sonho de lado para continuar comigo em Nova Iorque, fez a voz de Renée soar como a sua em minha mente. Naquele momento, eu vi a minha história se repetindo e eu não aguentaria se um dia você sentisse o mesmo que ela... Que eu era a razão pela qual você não viveu seu sonho.
Edward passa a mão pelo rosto, claramente tentando processar o que eu havia contado. Ele respira fundo antes de falar, a voz baixa, mas firme.
- Bella, nada do que você está dizendo é culpa sua. Nada.
- Eu sei que você acha isso agora. – eu digo, tentando manter minha voz controlada, sem que meus tremores medrosos a atinjam – Mas eu passei a vida inteira ouvindo o contrário. Não queria arriscar ser o motivo de você ser infeliz. Eu não suportaria ver seu amor se transformando no conhecido desprezo.
Edward se aproxima, segurando minhas mãos com força e entrelaçando seus dedos nos meus. Seu calor quase febril me atinge, aquecendo meu coração gelado pelas reminiscências.
- Baby, me escute... Você não é o seu passado com sua mãe. Eu reconheço que sempre tive o sonho de voltar para Seattle, trabalhar no hospital onde meu pai construiu seu legado na Medicina, estar mais perto dos meus pais que ainda moram aqui. – ele suspira, aproximando seu nariz de meus cabelos e inspirando profundamente – Mas, meus sonhos mudaram quando eu conheci uma universitária de Literatura Inglesa que trombou comigo nos corredores da faculdade porque estava concentrada demais lendo um livro erótico no Kindle. — um sorriso escapa de mim com a recordação – Naquele dia, meu sonho se tornou dormir e acordar sentindo o cheiro de morangos e frésias, o aroma criado especialmente para mim, um viciado em Isabella Swan.
As palavras dele são sinceras, mas ainda é difícil acreditar.
- E se um dia você mudar de ideia? Eu não aguentaria ser despedaçada novamente por uma pessoa que eu amo. Se um dia você olhar para mim e perceber que…
- Não existe “e se”. — Ele me interrompeu firmemente, voltando seu rosto para perto do meu e encostando nossas testas – Porque você é a razão pela qual eu quero viver meus sonhos, Bella. Não importa onde estejamos, não importa o que aconteça, eu nunca vou te ver de outra forma que não seja a de que meus sonhos se tornaram realidade. Você é a minha vida, Bella.
As palavras dele atravessam a barreira que eu havia construído por anos. Sinto algo se romper dentro de mim, algo que parecia estar me sufocando desde que Renée me deixou naquela calçada em Seattle.
- Obrigada. – sussurro, as lágrimas ainda caindo – Por me ouvir. Por entender. Por ser você e apenas você.
Ele sorri, aquele sorriso torto que sempre me deixa deslumbrada. E, pela primeira vez em anos, eu sinto que talvez será possível deixar o passado para trás. Principalmente quando seus lábios tomam os meus, em um beijo desesperado, cheios de saudades e promessas que enfim me permito sentir.
(...)
O sol entra pela janela do nosso apartamento em Nova Iorque, inundando tudo com uma luz dourada suave. O cheiro de café recém passado vem da cozinha e eu me viro para encontrar Edward parado com duas xícaras na mão, o cabelo bagunçado e aquele sorriso preguiçoso que sempre faz meu coração acelerar. Ele me estende a minha nova caneca da Boo, dessa vez ela está acompanhada do MikeWazowski e do Sullivan, abraçados com a porta de flores atrás deles. A xícara de Edward é do Toy Story, do caubói Woody em cima de seu cavalo de pano. Para me redimir, eu comprei uma coleção completa de canecas da franquia, desde os ETzinhos verdes até o cachorro de mola. Todos os dias Edward toma seu café matinal ou seu chá de camomila noturno em uma caneca diferente, fazendo com que eu me sinta menos culpada por meu rompante de raiva.
- Bom dia, futura Sra. Cullen. – ele me cumprimenta, dando-me um beijo suave e segurando a minha mão que contém a aliança de noivado de sua mãe.
- Bom dia. – murmuro, bebericando o café enquanto sinto uma onda de calor me envolver, onda essa que não vem só da bebida, mas de tudo que construímos juntos desde Seattle.
A cidade ao nosso redor parece vibrante e viva, e, pela primeira vez, eu também me sinto assim. Não há mais as vozes do passado me segurando. Depois de tudo o que compartilhei com Edward no hospital, algo mudou. Não apenas em mim, mas entre nós. E quando ele decidiu voltar para Nova Iorque comigo, deixando o hospital dos seus sonhos em Seattle para trás, percebi que amor verdadeiro não era uma prisão, mas uma escolha constante.
- Você acha que Alice conseguiu evitar que o Jasper e a Rosalie se matassem até agora? – pergunto, rindo, enquanto me sento ao lado de Edward no sofá da sala, vendo-o puxar minhas pernas para o seu colo.
- Duvido! – ele responde com um sorriso – Se eles não se mataram na última viagem, provavelmente estão discutindo sobre algo ridículo agora. Jazz deve estar provocando Rose sobre os imitadores de Elvis Presley nas capelas de Las Vegas.
Reviro os olhos, imaginando Jasper ao volante, Alice cantando no banco de passageiro enquanto Rosalie e Emmett ficam abraçados no banco de trás. Depois de tudo o que passamos na primeira viagem, é quase surreal imaginar que estamos todos ainda tão conectados.
- Você acha que eles já avançaram muito na viagem?
- Se eu conheço Emmett... — Edward diz, massageando meus pés e me fazendo ronronar feliz — Eles provavelmente pararam em algum lugar para comerem o maior burrito dos Estados Unidos em alguma cidadezinha que não aparece no mapa de Rose.
Eu rio, balançando a cabeça. Apesar de toda a confusão e caos que essa turma traz, é impossível não sentir saudade deles. E agora, com Jasper e Alice prestes a se casarem em Las Vegas, uma nova aventura está prestes a começar.
- Não acredito que eles acharam que seria uma boa ideia ir de carro para Las Vegas. — comento, ainda rindo.
Edward ergue uma sobrancelha e faz cócegas em meu pé.
- E nós vamos fazer o mesmo daqui dois dias. Você entregando as últimas páginas de seu próximo livro para Tanya e eu pegando as férias do hospital, partiremos atrás dos quatro inconsequentes e os encontraremos no meio do caminho.
Suspiro, fingindo indignação.
- Você sabe que só estou indo porque a Alice ameaçou cancelar o casamento se eu não aparecer.
- E eu estou indo porque o Emmett disse que vai me deserdar como amigo se eu não estiver lá para a despedida de solteiro de Jasper. – ele brinca, beijando minha têmpora.
É engraçado pensar em como a viagem para Seattle tinha mudado tudo. Alice e Emmett acabaram se mudando para Nova Iorque pouco depois que voltamos. Os dois decidiram abrir juntos uma agencia de marketing na Big Apple, ela por ter visão de mercado e ele para ficar perto de sua Ursinha. Rosalie e Emmett se casaram no mês passado, e, pelo jeito, estão determinados a nos arrastar para todas as suas aventuras.
- O que foi? – Edward me questiona, vendo meu sorriso.
- Nada. – balanço a cabeça e beijo sua bochecha – Só estava pensando em como tudo isso começou. Como essas pessoas completamente malucas se juntaram para me ajudar em uma missão de resgate e de repente se tornaram nossa família.
Ele segura minha mão, entrelaçando nossos dedos e beija minha palma.
- Foi uma jornada, sem dúvida. Mas, honestamente, eu não trocaria por nada.
Olho para ele, para o belo homem que escolheu caminhar ao meu lado, não importando o destino, e sinto uma onda de gratidão. Todas as estradas, com seus desafios, confusões e paisagens inesperadas, nos levaram exatamente onde devemos estar.
- Então, – Edward começa, com um sorriso travesso — pronta para mais uma road trip?
Sorrio de volta, sentindo aquela excitação borbulhando dentro de mim.
- Acho que nunca estou pronta. Mas, vale a pena tentar.
Ele gargalha, me puxando para um beijo suave. E enquanto o som de Nova Iorque preenche o ar ao nosso redor, eu sei que a próxima aventura será tão caótica e memorável quanto a primeira.
Porque, no final, não importa para onde estamos indo. Importa quem está ao nosso lado.
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