Requiem For A Friend

1 Obrigado, amigão.


Querido amigo,

Faz um tempo que não conversamos, não é? Tenho andado meio sem tempo ultimamente. Agora não há mais tempo, de qualquer forma. Espero que me perdoe. Eu também te perdoo por me trocar pelas suas amigas; é assim que acontece, afinal. E eu realmente não me importo.

Ei, lembra daqueles dias em que nós corríamos pelo quintal, e você me derrubou e eu me machuquei? Eu fiquei com raiva de você, mas você veio me lamber, e então tudo ficou melhor. Acho que vou sentir falta de um borrão preto e desengonçado correndo pelo quintal sem motivo algum. Você adorava fazer isso. Eu adorava quando você fazia isso, porque isso me divertia. Você me divertia, amigão.

Eu não tirei nenhuma foto sua, não é? Não estava preparado para isso. Que droga. Deveria tê-lo feito. Queria ter ao menos uma recordação de você que não estivesse apenas na minha memória, porque algum dia essa recordação vai sumir ou se distorcer. É, agora é tarde. Me perdoe. Se serve de consolo, eu vou tentar me lembrar de você todos os dias.

Olha pelo lado bom: agora vamos gastar menos dinheiro com comida. Você comia bastante, seu gorducho. Ainda assim, eu trocaria todos os sacos de ração do mundo para tê-lo aqui mais um dia, apenas para me despedir.

Você adorava unhar meu braço. Todos achavam que eu me cortava, mas eram suas patas fortes me cortando. Ou seus dentes. Por mais que você fizesse por brincadeira, isso doía, sabia? Hoje eu sinto falta da dor. Sinto falta de você pulando em cima de mim com uma força gigantesca, e eu quase caindo no chão. Às vezes eu caía, e doía. Nós brigávamos, e lá estava você me lambendo novamente. E então tudo passava.

Eu não posso chorar, porque você começará a uivar, e todos enchem o saco quando você o faz. Ou você lamberia minhas lágrimas, mas isso não deve ser algo bom para os olhos. Acho que minha visão é prejudicada por sua causa, seu maldito. Está tudo bem. Eu te perdoo.

Ei, você nunca teve a chance de fazer filhotinhos, não é? Você era muito grande para as cadelas com as quais você tinha contato. Espero que esteja fazendo muitos filhotinhos, seja lá onde você estiver. É muito vergonhoso um macho de três anos ser virgem, sabia? Mas não se preocupe, amigão. Eu não me importo.

Eu queria me despedir ao menos do seu corpo já desligado, mas isso me faria pior, e já o levaram daqui. E mesmo que eu pudesse, o que eu poderia fazer? Que se há de fazer, Marley?

Ah, e você pensou que iria embora assim do nada? Você comeu meu tênis e me deve um novo! Que falta de ética, Marley. Eu acho que te ensinei errado. Está tudo bem. Eu te perdoo.

Sabe, se me perguntarem se você está morto, eu vou responder “só um pouco”. Como “só um pouco”, você se pergunta. É que eu li uma vez em um livro que as pessoas estarão vivas enquanto alguém estiver pensando nelas. Espero que isso funcione para os cachorros. Se funcionar, você está vivo. E vai estar sempre vivo, mesmo que seja distorcido. É o que eu espero, pelo menos.

Obrigado, Marley.

Do seu.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!