Requiem Aeternam
12 Miscueratque
Notas iniciais
Tom Riddle tinha um certo problema com pontualidade. Ele sempre estava quinze minutos antes da hora prevista, então, irritava-se com facilidade quando alguém se atrasava. Ao que marcava as reuniões de comensais às 22:00, 22:02 já lhe causava um mau humor considerável, o que rendia uma série de Cruciatus infundada por aqui ou lá.
Aprendi que deveria respeitá-lo para manter totalmente o controle.
Naquela noite de 24 de dezembro, o jantar fora servido mais cedo. Inesperadamente, dei-me conta de que os pequenos grupos reuniam-se entre si, inclusive, eu e Tom estávamos convidados para a ceia de Natal de Slughorn em sua sala. As reuniões agora estendiam-se às parceiras dos alunos mais afortunados, e todos da Sonserina se encontrariam lá para beber um pouco de whisky (contrabandeado pelo próprio Slughorn) e petiscar algo mais refinado. O horário era 11 da noite. Dez e meia eu já estava pronta.
As masmorras estavam mais obscuras que de costume, pude notar. Para aquecer o ambiente, a lareira magicamente acesa crepitava um fogaréu tão alto que as chamas ultrapassavam a linha da minha testa, e nunca me considerei uma mulher muito baixa. O corpo jovem que eu habitava não era muito diferente da minha estatura original, coisa que Snape considerara um contratempo no acaso de me diminuir ou rejuvenescer demais.
— Já está aqui. — disse ele com uma voz quase rouca, descendo pela escada dos dormitórios até as poltronas do Salão Comunal. — Está linda.
Não respondi. Me limitei a encará-lo longamente, e Tom simplesmente atendeu-me, ficando tão parado que seria difícil distingui-lo de uma estátua perfeita. Seus cabelos negros estavam cuidadosamente alinhados para o lado, e usava um terno negro simples. Os sapatos, apesar de limpos e lustrosos, estavam gastos, porém, escondidos pela casaca igualmente negra de lã que lhe aquecia os ombros. Cheirava à madeira fresca. Seus olhos, sempre intransponíveis, lembrava-me uma noite sem nuvens. Pousei minha mão sobre seu rosto.
— Obrigada. — eu tinha me preparado para lhe servir como parceira aquela noite, e sabia o quanto importava que eu estivesse à altura. Escolhi um vestido verde escuro, de tecido grosso e aveludado, aproveitando para usar a belíssima echarpe prateada que ganhara de Aurora como presente de Natal. Possivelmente era dela mesma, e não usara, por ser bastante chamativo.
— Salazar Sonserina estaria orgulhoso da escolha do traje, devo admitir. — disse ele, oferecendo-me o braço. Seria uma lenta caminhada até os aposentos de Slughorn até que o relógio apontasse onze da noite. Entretanto, Tom andava depressa.
— Faremos um desvio? — questionei-o, vendo os corredores passarem por nós totalmente desertos, iluminados apenas por um feixe de luz de velas em seus candelabros enfeitiçados.
— Tenho algo pra você.
Foi o que se limitou a dizer. É claro que trocaríamos presentes, mas particularmente o meu lhe seria entregue na manhã seguinte, abaixo da árvore devidamente nomeado, uma tradição comum entre nós e os trouxas. Considerando o baixo orçamento de Tom, concordamos que faríamos apenas uma gentileza um ao outro. Então, o gesto me surpreendeu.
Estávamos de frente para a Sala Precisa, no sétimo andar, refúgio bastante conhecido por nós. Não bastou a proximidade para que a porta se revelasse, Tom colocou suas duas mãos na parede e aguardou pacientemente. Entrou, chamando-me em seguida. O ambiente continuava o mesmo que usávamos para os encontros de Comensais, que fora há mais de quinze dias antes, significado este que me trazia à tona a conexão com nosso primeiro beijo, e minha tendência de extravasar quebrando as coisas. Não pude conter um sorriso.
— Espero que não me convide pra tomar chá. — sentei-me na única poltrona que jazia perto da janela imaginável, empurrada ao lado para abrir espaço central de combate. — Hoje estou disposta a provar algo mais forte.
Tom Riddle me devolveu o sorriso, tirando de seu casaco de lã uma pequena caixa com papel envernizado, e a colocou no meu colo em sequência. Meu sorriso desapareceu num instante. Eu não esperava tamanho romantismo considerando o caráter autêntico da pessoa a qual ele fazia tanto esforço para ser, apesar da minha ciência de que, mesmo mantendo algum tipo de relacionamento com ele, ele não tinha mostrado nem metade do potencial destrutivo que levaria à abertura da Câmara Secreta e a morte de Myrtle Warren, pobre menina, em pouco mais de 6 meses.
Tom, por outro lado, franziu o cenho em preocupação, desfazendo o embrulho por si, ajoelhado a minha frente com expressão nitidamente preocupada.
— Não vou te pedir em casamento. — comentou com certa arrogância. — Pelo menos, não agora. — acrescentou risonho.
— Achei que tínhamos combinado gastos reduzidos nos presentes. Estou envergonhada. Nem me dei ao luxo de montar um embrulho decente que você pudesse ter pena de desmanchar.
— Mas você nem abriu. — protestou. — Pode considerar por apenas um instante que eu não gastei 1 galeão a mais do que o prometido?
Olhei para ele. Seus olhos não estavam tão escuros como costumeiramente me pareciam. Na luz fina da janela falsa, o brilho era intenso, cinza, e fluido, deixando-me extasiada apenas pela forma como sua íris perfeita se encaixava a todo o contexto: a pele branca levemente corada pelo frio, os cílios compridos, sobrancelhas largas. Lábios entreabertos no aguardo da minha resposta, ou da atitude, de abrir o presente e desvendá-lo, finalmente, tanto, que ansiava que o fizesse.
Mas não consegui. Ao contrário, eu o puxei pelo pescoço instintivamente e o beijei. Apaixonada, entregue, sem amarras ou pensamentos discordantes. Eu me arrependeria depois, contudo, percebi que gostava de provar a mim mesma o quanto ele era vulnerável estando comigo, de modo que me correspondeu com a mesma empolgação. Ergui-me da poltrona num átimo, segurando a caixa com uma das mãos e, com a outra, enlaçando-o de volta para mim, colando nossos corpos de uma forma que só era possível pela iminente ação do salto alto, o que logo despertou-me para a festa. Riddle, a seu modo, não parecia preocupado. Ele fechou os olhos e aproveitou a sensação, enquanto minha língua conversava com a sua e suas mãos passeavam pela textura aveludada das costas do vestido.
— Quero que saiba... — interrompi-o, colocando o presente entre nós. — que não me importa o que seja o quanto tenha lhe custado. É mais precioso por ter vindo de você.
Tom sorriu, ofegante e corado.
— Oras, Valery, isso soa ofensivo. — piscou, tomando minha mão livre entre as suas. — É certo que não tenho muito o que oferecer agora. Mas um dia, me escute... — sua voz se tornou séria a medida que eu intencionava questioná-lo. — Um dia vou ser capaz de comprar muitas coisas, e vamos esquecer toda a dificuldade deste tempo passado, eu prometo.
Soltei minha mão das dele, e abri a caixinha, ignorando suas últimas palavras. Oras, ele não mentira, afinal, o presente não deveria ter saído do orçamento de 5 galeões, aliás, não devia ter chego a tanto. Era um lembrol. Modificado em tamanho minúsculo, pouco maior que uma bola de gude, pequeno o suficiente para escondê-lo numa mão fechada. Útil, pensei, para uma jovem estudante. Porém, o significado real foi um tanto quanto sórdido.
— Gostou? — perguntou Tom em expectativa.
— Mas é claro! — eu disse, sacudindo o objeto para que em seu interior se formasse uma nuvem rosa, sinal de um pensamento guardado.
— Do que você quer lembrar?
Sorri abertamente, porém, atenção ao olhar, saberia que no fundo minhas palavras seriam de profundo amargor e tristeza.
— De quem você é, Tom.
—
— Ah, meus caros, eu já estava ficando preocupado... — Slughorn nos recebeu de braços abertos, nitidamente afetado pela bebida, vestindo um terno verde-limão incrustado de arabescos roxos, algo digno de Dumbledore. Tom revirou os olhos. — É claro que viria com a Srta. Westwood não é mesmo, Tom, meu rapaz? Não perderia a oportunidade se fosse você, veja bem, é a moça mais bela da festa!
Olhei para baixo, corando violentamente.
— Minha cara, não se envergonhe. Veja, ali estão eles, três representantes do Ministério, pessoas de grande influência... é claro que vocês dois devem ter com eles depois. Que falta de percepção a minha! Sentem-se...fiquem à vontade.
Arrisquei levantar meu olhar para o de Riddle, que novamente revirou os seus em protesto pela postura inadequada do professor. A verdade era que todos pareciam estar se divertindo, as conversas em alto tom, dança, música instrumental no mais completo estilo bruxo. Um desfile de amenidades. Membros de diversas casas se uniam para celebrar juntos o Natal, ainda que fosse uma comemoração extremamente trouxa, compreendi que se tratava de um motivo para que fosse feita uma reunião de exibições, e Slugh adorava isso.
— Vou pegar um drinque para nós. — Tom sussurrou para mim, afastando-se.
Permiti explorar um pouco do ambiente, sorrindo com delicadeza para quem me encarasse de volta. Nenhum rosto me pareceu relevante, seja pelos registros históricos, ou por apenas curiosidade. Até que eu a vi, estonteante, balançando os braços de um lado para o outro ao imitar algum movimento de Quadribol, entre dois rapazes que alternavam entre estimulá-la a continuar a história e se acalmar. Lazarus Smith me foi reconhecido de imediato, o sorriso que mostrava pra ela me dava a total certeza de que nutria sentimentos profundos e platônicos, enquanto o outro rapaz, mais velho e muito mais sombrio, lidava com a juventude de ambos com polidez. Grisha encarou-me de volta, e arrisquei sorrir, como feito antes. Não recebi um sorriso de volta, nem mesmo a intenção deste.
Oposto a imagem que eu tentara reproduzir, ela fechou-se completamente, seu semblante abatido acompanhado pelo olhar dos dois rapazes, que me encararam igualmente. Ao invés de sorrir, limitei-me a olhá-los, sem qualquer percepção mais ardilosa, até que a menina saiu em disparada, esbarrando nos colegas como um trasgo raivoso. E nessa onda de desavença, quase derrubou todo uísque de fogo que Tom equilibrava.
— Me perdoe! — pude ouvi-la dizer. — Ah, Tom, você está bem?
Tom notou minha aproximação, e estendeu os cálices para mim.
— Parece que perdemos um pouco, considerando a quantidade de barris que Slughorn conseguiu trazer desta vez, acredito que não fora um crime hediondo, Grisha. — abanou as mãos para desfazer do que havia caído, enquanto a garota lhe oferecia um guardanapo. — Está tudo bem com você?
Ela cerrou os olhos azuis para mim, incomodada.
— Nada. Estou ótima. Não sabia que vinha acompanhado. — teve a audácia de dizer. Por Merlin, causar ciúmes a uma criança não combinava comigo.
— Você não me perguntou. — Tom disse com simplicidade. — Grisha é uma excelente jogadora, Valery. Teremos sorte de vencer os próximos jogos, já que ela será a mais jovem apanhadora da Grifinória.
Todo o ódio que me cercava se desfez após o elogio bem-vindo de Tom, desviando a atenção de garota de mim para ele. Ela sorriu enviesada, dando de ombros, enquanto ele vestia sua forma mais charmosa, eu o conhecia bem. Dosava com perfeição seus trejeitos para deixá-la ao mesmo tempo encantada e indecisa, sabendo que sua proximidade com ele seria totalmente desfeita, fosse pela minha existência naquele tempo, ou pela própria questão do tempo em si, que a apagou das lembranças de Lord Voldemort como poeira ao vento.
— Já é quase meia noite, vou ficar com meus amigos. — disse ela. — Feliz Natal, Tom. Srta. Westwood...
A não ser que alguns grifinórios não tivessem o convite para a festinha e estivessem esperando a saída da garota pela porta da frente, estaria se retirando completamente sozinha. Minhas suspeitas foram confirmadas quando Lazarus seguiu seus passos quase desesperado, e refleti confusa.
— Ao menos agora ele sabe que tem uma chance. — comentou Tom, bebericando o líquido amarelo borbulhante. — Arg. Está batizado com água.
Ri da expressão de desgosto dele.
— Mas todos parecem mais felizes do que o normal... — Tom concordou comigo, incentivando-me a provar do meu cálice. — É, não tem o melhor dos sabores. Acho que são jovens demais para experimentar algo realmente forte, visto a reação exacerbada...
— Jovens demais? — o moreno bebeu tudo num gole único, sacudindo a cabeça teatralmente. — O que você é exatamente?
— Não sou fraca para álcool, se quer saber. — confessei. — Tom... O que deu nela? — retornei o assunto para Grisha, tentando compreendê-la. — Ela parece realmente incomodada comigo. Eu me sinto um peixe fora d'água.
— Por conta da Grisha? — ele estranhou. — Ela está com inveja de você, não se preocupe.
A música da festa parou por um instante, enquanto Slughorn reunia-se com alguns de seus companheiros para incitar um brinde, aproveitando a ocasião para convidar os presentes para a próxima reunião dali uma semana, no Ano Novo. Eu sabia que era aniversário de Tom e, como Dumbledore havia ressalvado, ele preferia passar a data sozinho. Arranjaria uma desculpa cabível depois.
— Por que razão ela teria inveja de mim? — sussurrei ao seu lado, erguendo-me um pouco até seu ouvido.
Ele virou-se abruptamente, roubando-me um beijo nos lábios.
— Por isso. Feliz Natal, Valery.
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