Requiem Aeternam
17 Hiatus
Notas iniciais
As atitudes de Tom após o inesperado encontro com o autodenominado herdeiro de Corvinal não mudaram em nada comparando-se a quantidade de informações que minha mente processava, sem cessar, deixando-me um pouco torpe — ou talvez fosse a péssima bebida distribuída na festa.
Prossegui com os diálogos triviais para não os decepcionar, e consegui, com dificuldade, encerrar a noite antes que a virada do ano fosse completada. Tom despediu-se com ares de tédio, encarando-me freneticamente para que eu dissesse algo: que estava cansada, que já estivera fora da cama além do horário permitido. Qualquer coisa lhe caberia uma desculpa para nos ausentar, aos pares, do ambiente sufocante criado por Slughorn, seus amigos no Ministério da Magia e agregados.
Como eles entraram ali, primeiramente?
— Senhor, Valery não parece bem. — disse ele, risonho, justificando nossa saída. — Vou entregá-la em segurança antes que a bebida lhe suba os nervos.
Slughorn riu alto, falando algo para ele que eu não conseguia entender. Tom corou, e não lhe deu resposta.
A existência de Wiglaf era completamente a parte de qualquer presença vinculada ao Tom Riddle de nossos estudos. Vasculhei, como pude, todos os detalhes da minha missão desde a primeira memória até a última, e nada. Nenhum sinal do herdeiro.
O mesmo havia acontecido com a bela menina loura da Grifinória — Grisha. Ela parecia relevante, e agora eu sabia o porquê. Tinham esses quatro formado algum tipo de aliança? Se os outros também se consideram herdeiros dos fundadores através de traços familiares, congênitos, saberiam que Tom era o responsável por, futuramente, matar uma garota trouxa no episódio da câmara secreta?
O quanto eles sabiam, afinal?
— Você realmente não parece muito bem. — observou Tom, próximo a mim. — Talvez as festas sejam um pouco demais pra quem esteve no campo de batalha mais cedo.
— Eu fui a Catedral de São Paulo. — expliquei. — Rezar.
— Você reza? — surpreendeu-se de repente.
— Ás vezes. — disse absorta em minha mentira. — Me ajuda a colocar alguns pensamentos no lugar.
— Entendo.
Tom demorou-se para, educadamente, dar conta de todos os ilustres convidados do professor de poções e, quando estendeu a mão ao último, ofereceu-me o braço para sairmos juntos. Aceitei.
O caminho de volta para as masmorras estava tão frio quanto antes. Pelas frestas escurecidas da janela via-se, de fora, um grande acúmulo de neve nos beirais e o sibilar do vento estremecia levemente as vidraças, em nada alterando a chama mágica que brilhava nos castiçais das paredes nos corredores eternos.
Acerquei-me dele um pouco, sentindo o calor de seu braço esquentar um pouco a lateral do meu corpo. Percebendo meu desconforto, abraçou-me.
— Você está fria, aceite meu casaco. — ofertou cordialmente.
— Não precisa. — rebati. — Você pode me aquecer assim...
Passei meu braço por sua cintura, aconchegando-me em suas vestes. Apesar da frieza de seu olhar, quase sempre um inquérito silencioso, o corpo de Tom em nada se parecia com a rigidez de suas feições a tentar ler meus pensamentos — era macio, suave, quente e tinha um aroma muito bom. Continuamos a caminhar assim por mais alguns metros, antes que me parasse sem aviso.
— Eu não sei ao certo se nasci hoje, ou amanhã. — comentou de repente, encarando-me com um misto de confusão e angústia. — Não sei se minha mãe morre agora, ou depois.
— Por que está pensando nisso? — eu tentei soar sincera, mas pareci rude.
— Você não reflete sobre a perda dos seus? Se pudesse alterar a história, modificá-la, teria que saber a hora exata, o momento exato, para cruzar a tênue linha do tempo.
— É claro que faço isso. Desde o momento que acordo, até quando me deito.
Tom baixou o olhar. Eu estava perdida, imersa em milhares de conclusões não concluídas, preceitos adotados sem razão aparente e, na necessidade de uma resposta, me vi entregue à tentação de roubar-lhe um pouco mais da sobriedade — a minha. Acariciei seu rosto jovem — ali, quase tão jovem quanto a própria idade — e sorri para o Tom Riddle de 16 anos. O rapazote solitário, órfão, de uma infeliz época rodeada de tristeza e destruição.
— Do que você se arrepende, Tom? — perguntei baixinho para que somente ele pudesse ouvir. Já era próximo da meia noite, e meus planos de degustar os doces comprados mais cedo pensando em minha irmã teriam que esperar.
— Hummm... — balbuciou, fechando os olhos. — Não sei ao certo, são muitas coisas.
— Você se arrepende da morte da sua mãe? — arrisquei. Tom fitou-me confuso.
— O que eu poderia fazer quanto a isso?
— Não foi o que eu quis dizer. Sei que sua morte, agora, é um fator inevitável do tempo, mas, você se arrepende?
— Me diga, Valery, a religião que você segue fala sobre perdão, sobre vida eterna?
— Não entendi.
— No mundo trouxa, isso faria sentido. Infelizmente são algumas poucas intervenções da minha criação desprezível no orfanato que perduram no meu inconsciente. — explicou, puxando-me pela cintura. — Às vezes me dou ao luxo de pensar que as coisas poderiam ter sido diferentes e sim, eu questiono os motivos pelos quais são como são. E, por fim, sinto raiva, pois fui deixado sozinho.
— Você não está sozinho agora. — argui seriamente, sustentando seu olhar negro. — E nem eu estou. O passado está atrás de nós, se ficarmos olhando para ele, vamos perder os passos em direção ao futuro.
— É uma pessoa peculiar, Valery Westwood. Geralmente outros olham o passado para corrigir o futuro.
— Eu vivi uma vida de privações, muito diferente das dos outros. Assim como você, não me foi dada a chance de ficar olhando através da janela, eu tive que agir, por mim, pela minha família, mas principalmente para ter a chance, mesmo que ínfima, de possuir algo que eu pudesse estender de ontem pro amanhã.
Tom sorriu, compreendendo-me.
— Portanto, — continuei, segurando seu rosto com ambas as mãos. — acho que faz pouco sentido pensar se nasceste ontem ou hoje. Você está aqui! É isso o mais importante.
E o beijei, sendo correspondida imediatamente. Seu corpo quente engoliu-me numa sensação maravilhosa de calor, que me faltava de maneira dolorosa. Seus braços envolviam-me toda e percebi, envergonhada, que eu tremia em insanidade todas as vezes que ele estava entregue daquela forma. Pensava, com malícia, como seria delicioso prová-lo todo, deixá-lo torpe, enlouquecido, com recursos que somente uma mulher experiente saberia usar, afinal, ele era um jovem rapaz de recém completados 16 anos e eu uma Auror de 24.
Não que eu não admirasse seus esforços e, admiti prontamente desde o primeiro beijo que ele sabia muito, mas muito bem, como tomar uma mulher. Se Tom já havia provado relacionar-se com uma, eu era indiferente. Contudo, duvidada seriamente que fosse possível para ele, com todas suas entraves sociais e receios, estar tão amortecido de consciência do que era para mim.
Subi meus dedos por seus cabelos, forçando nossos corpos a mais interação. Ele fez o mesmo. Pousou uma das mãos firmemente nas minhas costas, enquanto a outra prendeu-se a meu coro cabeludo com audácia. Em breve não conseguiríamos respirar, e eu nunca havia o beijado assim.
— Se continuar assim, ficarei maluco.
— Pois fique. — sorri abertamente, sem nada a perder. — O mundo não perdoa os normais.
— Ensinei a ti muito mais do que artes das trevas, suponho. — sorriu-me de volta, satisfeito. — Não consigo saber o que você pensa. Deve me dizer, Valery, ou terei que supor por vias próprias, e não sou uma pessoa naturalmente empática.
— O que quer que eu diga?
— Que me deseja. — disse simplesmente.
— E isso basta? Não pode ler os sinais do meu corpo?
— O animal humano é traiçoeiro. — explicou ele, recompondo-se um pouco. — Sua racionalidade vai muito além dos anseios de nossos corpos.
Surpreendi-me com a resposta dele. Não era exatamente o que eu esperaria do Lorde das Trevas.
— Eu desejo você. — respondi, prendendo meus dedos firmemente em seu casaco. Tom era pouco mais de dez centímetros de altura mais alto. Seu rosto pairava sobre o meu sem que se esforçasse.
— Eu desejo você. Muito. Não imaginava o tanto até você sumir o dia todo e me aparecer depois de horas saída de um portal que eu desconheço.
— Precisei provar sua retórica? A ausência alimenta a presença?
— Só fique comigo. Não quero estar sozinho esta noite.
—
Caminhamos de mãos dadas até o corredor esquerdo do sétimo andar, silenciosos como ratos. Mesmo que a monitoria permitisse a Tom passes livres durante a noite, minha presença ali o poria numa situação complicada.
Minha falta no colégio jamais seria percebida até que as atividades fossem normalizadas. Com o avanço da guerra, toda a situação tendia a piora, e eu sabia que cada vez menos alunos voltariam a ocupar suas vagas na escola de magia.
— Estou imaginando um cenário, mas, gostaria que você o fizesse. — pediu, indicando-me a entrada da Sala Precisa.
Fechei meus olhos com força, criando uma imagem realmente oposta — e pitoresca — daquele sereno corredor inerte e frio de pedra. Dentro da sala uma lareira aquecia e iluminava o cômodo, que possuía os mais diversos móveis que jamais caberiam numa casa comum. Era uma bagunça gigantesca de estofados, escrivaninhas, estantes altas com livros, armários e outros. O entulho confundiu Tom, que me encarou com curiosidade.
— Não entendi.
— Outros podem entrar aqui sem bater na porta, sabe. Não deseja um pouco de privacidade?
— Quer se esconder comigo, Valery? — ele riu enviesado, corando o rosto pálido bruscamente. — Isso é perigoso.
— Me dê sua varinha e eu te conto um segredo.
Tom cerrou os olhos desconfiado.
— Não sei porquê permito que seja tão audaciosa. A pior parte de ser seu namorado é infelizmente não conseguir arrancar-lhe os olhos para entender o que se passa na sua mente quando me provoca desse jeito.
— A varinha, Tom. E não somos namorados. Oficialmente, nunca houve um pedido.
Ele se aproximou de mim furioso e, por um instante, pensei que fosse me azarar ou, na melhor hipótese, me agredir. Parecia prestes a explodir, o rosto totalmente consumido pela ira. E então fui surpreendida novamente.
— Pegue o que você quer de mim. Mas quando eu quiser algo de você, terá que me dar.
— Combinado.
Tirei a varinha de suas vestes lentamente, apreciando a tortura que lhe cabia enquanto meus dedos passeavam por dentro do seu casaco. Ergui-a um pouco, perdendo-me em tantas conjecturas, desde a quantidade de tragédias pelas quais aquele artefato seria responsável ou a incrível capacidade destrutiva do dono. Coloco a varinha de Tom dentro das minhas próprias vestes, assegurando-me de que ambas estão no mesmo bolso. E então, me viro para ele, que aguardava:
— A passagem secreta fica no terceiro andar. É extremamente simples, mas precisa de magia para ser acionada. Fui até Hogsmead primeiro, e depois, quando notei que o feitiço que impedia aparatar enfraqueceu, passeei um pouco pelo centro de Londres. — expliquei a ele detalhadamente, conduzindo-o pela sala atolada. — Regent's Street, para ser exata.
— Eu quase nunca vou tão longe quando estou livre para as caminhadas por Londres. O metrô não é acessível para as poucas libras que recebo e administro.
— Você pode aparatar discretamente. Londres tem muitos becos, lugares ermos, próprios para estes fins.
Encontrei o lugar que procurava para enfrentarmos aquela noite fria — mas tolerável — de ano novo em 1943 fora dos dormitórios comuns da Sonserina. Uma cama grande, coberta com lençóis grossos e muitos travesseiros apresentava-se diante de nós envolta por grossas cortinas negras de veludo, que caíam nela aos quatro cantos. Estava quase invisível no meio de tantos outros objetos e mobílias, mas era ideal.
Tom corou uma segunda vez naquela noite, rindo pelo nariz com falsa ingenuidade.
— Entendo... — baixou os dosséis antes que pudesse pular de uma vez nos macios travesseiros magicamente conjurados. — É perfeita, exatamente como eu queria. — completou, arrancando os sapatos para fora do colchão.
— Tem um banheiro escondido naquele armário cinza, se eu fui capaz de imaginá-lo bem... — comentei, chegando mais perto do móvel que parecia pequeno com Tom esparramado sobre todo aquele conforto. — Se você já está satisfeito, vou dormir no sofá.
— Nem pensar! — arguiu maroto, puxando meu corpo de encontro ao dele e dos travesseiros fofos. — Tire os sapatos, vamos. E o casaco pesado, não precisaremos dele.
Aos poucos fomos nos despindo de nossos trajes invernais para o aconchego afável daquela velha cama colonial. Já estivera em seus braços antes, porém, eu podia sentir algo diferente naquela interação, depois de ter me confessado suas percepções sobre a morte, e também as reflexões sobre passado, culpas, Tom me pareceu mais humano que monstro — a memória prolongada de seu eu futuro em minha cabeça desfazendo-se diante do suave movimento de sua respiração. Todos os estímulos percebidos por mim eram simplesmente humanos.
— Não sei aparatar ainda. — confessou-me, aconchegando meu corpo ainda mais ao seu. — Você poderia me ensinar como fazer?
— De todas as coisas incrivelmente difíceis que você faz, aparatar é um problema? — respondi atônita. — É uma habilidade necessária.
— Eu não fui a muitos lugares. É difícil para mim prever um local específico, porque sempre frequentei os mesmos espaços.
— Tudo bem, este será meu compromisso com você. Mas quero algo em troca.
— Mais? — ele riu. — Você já tem minha varinha. Não me resta mais nada.
— Quero que você aceite tirar fotos sem perturbações. Entendido?
— De tudo que poderia me pedir, é realmente isso que deseja? — perguntou em tom de descrença. — Ou você é muito confiante com relação a minha pessoa, ou não sabe inferir direito o que lhe dá vantagem.
— Eu já tenho sua varinha, Sr. Riddle! Esqueceu-se? Posso fazer o que eu quiser. Este combinado foi apenas simbólico. Quero minhas fotos. — enfatizei.
— A Srta. Westwood as terá, como prometido. A propósito, será que algo mudou de antes pra agora? Estou mais envelhecido? Talvez o cabelo embranqueceu de repente...
— Não seja tolo! — ri junto dele, acarinhando seus cabelos negros e lisos com cuidado. — Não há nada fora do lugar; está lindo, como sempre.
— Mas estou mais velho. Mais perto da morte.
— Quem sabe? A morte para nós dois é a única certeza. O que há depois, um mistério: nem quando, nem onde.
Por que importa pra onde as pessoas vão?
— Existe uma lacuna nesta ideia sobre o antes e depois, Valery. Depende única e exclusivamente de qual é o espaço-tempo de referência. Segundos, minutos, horas, dias...
— Meses, anos, séculos...
— Viver para o futuro é cansativo.
Concordei silenciosamente com Tom, inspirando o perfume amadeirado de sua pele desnuda do pescoço.
— Não sei se deveria dar-lhe os parabéns por mais um ano, ou menos um ano, de vida. Naturalmente que as pessoas em geral comemoram as 365 voltas pelo sol. Mas vivemos em tempos tão sombrios que nem sinto o mundo girar.
— Estava mais cinza. Mais nublado antes.
Encarei seu rosto sereno antes de receber seus lábios apaixonadamente sobre os meus:
— Antes de encontrar você.
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