Notas iniciais
Vamos começar a queimar tudo!

Quando chegou o momento, percebi que minha memória jovial e despertada para as atividades disciplinares portou-se muitíssimo melhor do que o esperado. Os resultados dos NOM's saíram cerca de dois dias depois da aplicação do mesmo e, para surpresa geral, eu e Tom Marvolo Riddle fomos os dois únicos alunos do ano a cumprirem excepcionalmente todas as qualidades técnicas sem exceção.

O mais surpreendente, entretanto, fora Defesa Contra Arte das Trevas. Eu esperava que, pela época em questão, o conteúdo fosse diminuto e segregado entre meninos e meninas. Porém, Galatea Merrythough não deixou nada a desejar na cobrança quanto aos feitiços defensivos e maldições, grande parte aplicada parcialmente em nossos estudos práticos — quase que velados — durante a experimentação semestral. Ela, de certo modo, preparou aquelas crianças para guerra que havia chegado até nós.

E, com certeza, havia salvado parte delas.

Ao cruzar o Salão Comunal da Sonserina após as tensões das provas, o clima parecia de completo entretenimento. Alunos de diversas etapas conversavam entre si e discutiam em sua maioria sobre os planos de férias. No conforto de um lar Sonserino, majoritariamente estável em projetos financeiros, alguns combinavam entre si um isolamento nas montanhas escocesas, um tempo agradável no campo ou ainda uma viagem internacional para algum paraíso tropical longe dos bombardeios.

— Você é minha convidada, Valery. — escutei Malfoy dizer, despertando-me dos devaneios. — A mansão da minha família fica em um local magicamente oculto e temos diversos serviços à disposição. Tenho certeza que ficaria confortável conosco.

— Ponha-se no seu lugar, Malfoy! — Black riu, batendo sutilmente nas costas do belo loiro a seu lado. — Não dá pra convidar a jovem senhorita na ausência de seu senhor.

— Se Tom não vai, o problema é dele. — reclamou Abraxas. — Eu o convidei igualmente e sua recusa me deixou comovido.

Concentrei-me na face de Malfoy como se o reconhecesse pela primeira vez.

— O que disse?

— É, senhorita Westwood, o senhor Riddle não se juntará a nós esse ano. Aliás, como nos anteriores, certo, Lestrange?

— Uma mente brilhante como a dele não precisa se ocupar com as futilidades promovidas por você, Abraxas. — Lestrange cercou o amigo e bateu em suas costas exatamente como fizera Black. — Nós, por outro lado, iremos prestigiar cada segundo. Faremos a ausência de Tom passar desapercebida novamente.

— Tom não está aqui para responder por ela. — Abraxas continuou. — Vou mandar o convite e a localização mesmo assim. Esteja a vontade para decidir por si mesma. Suas amigas também irão para alguns eventos, então... Você é minha convidada.

­Sorri com a entonação da voz de Malfoy. Ele parecia querer me provocar com aquilo, fosse causando ciúmes em Tom, ou despertando minha curiosidade.

— Eu agradeço de antemão, meu caro. — estendi minha mão direita para ele, que a beijou instintivamente. Eu esperava um aperto, e aquele ato foi muito cavalheiresco. Vi Black torcer o nariz.

— É um prazer. Senhoras e senhores, preciso que me deem licença. Minha adorável mãe está importunando toda a juventude que me resta diante do último resultado das provas. Não serei expulso, é claro, mas confesso que me esforcei muito. Vou respondê-la cordialmente até que vá para o inferno. Obrigado.

Abraxas Malfoy era muito distante em personalidade equiparado a Tom Riddle. Sua segurança sobre cada ato, além da firmeza concebida do poder de seu nome, provia a si uma graça, uma delicadeza, que eu não podia compreender.

Estava ciente de seu relacionamento amistoso com Tom por causa da influência do segundo na Arte das Trevas. E mesmo que não estivesse totalmente comprometido em torturar trouxas — nunca vi nem ouvi a menção de seu nome nas sessões ou sabia, previamente, que era encarregado de alguma atividade extraordinária por Tom — ele fazia parte ativamente do grupo seleto de bruxos que Tom Riddle conduziria até sua ressurreição como Lord Voldemort.

Ele parecia não se importar com a vida ali. Estudava pouco, envolvia-se amorosamente com muitas garotas e conservava um sorriso alegre e despretensioso no rosto mesmo quando Tom falava-lhe grosseiramente, bravo por não ter executado um feitiço com maestria, ou por tê-lo interrompido.

Tom odiava ser interrompido.

Minhas amigas já estavam recolhidas em nossos aposentos quando abri a porta, dando-me conta de que aquela era a primeira noite que dormiria longe de um livro de feitiços em meses. Victoria, em seu tempo, chegaria em breve nos testes finais e com certeza gastava tanta energia no seu desempenho quanto eu. Ela também venceria uma guerra.

— Abraxas te convidou pra mansão, né? — balbuciou Aurora, virando o rosto para mim. — Ele disse que te chamaria, mas Tom provavelmente não vai.

— Foi o que ele disse. — reafirmei, tirando a capa e os sapatos. — Falta pouco tempo para as férias, de fato, não sei quais são os planos de Tom esse ano.

— Hum, até onde eu sei — ela se ajeitou na cama, ficando de lado. — ele voltava para o mundo trouxa mas, agora com 16 anos e uma guerra assolando Londres, talvez não seja uma boa ideia.

— Definitivamente.

— De qualquer maneira, ainda há tempo. Muita coisa pode acontecer no próximo mês.

Aurora nunca esteve tão certa.

— Você pode se juntar aos nossos amigos caso queira. Dizem que a mansão dos Malfoy é um paraíso inimaginável. Uma calmaria diante do caos, certamente.

— Não iria sem você. — falei firmemente enquanto andava lado a lado de Tom durante os últimos momentos de intervalo antes da ronda noturna. Os alunos não costumavam cruzar os corredores a noite e Hogwarts parecia ainda mais sombria sob a penumbra das velas.

— Por quê?

— Não tem graça. — suspirei.

— Que resposta indecente, Valery. — Tom sorriu, segurando minha mão. — Como se a minha presença fosse de tamanha significância.

Bufei, apertando seus dedos.

— Oras, de todas as suas qualidades Sr. Riddle, a modéstia com certeza não lhe veste a face, não é mesmo? — ri, percebendo que apreciava que eu reiterasse o quanto gostava dele. — Não vou a lugar algum sem você. Mesmo que decida ir pra Londres no meio do bombardeio. Eu posso dormir de dia.

Tom atravessou o corredor com passos curtos, parando na porta do banheiro feminino no segundo andar. Finalmente, pensei, fazendo-me de desentendida. Ali, jazia o primeiro passo para o fim.

— Iria mesmo a qualquer lugar comigo?

— Está duvidando? Se eu morrer por conta de um ataque nazista, volto para puxar o seu pé. — segui desinteressada, despretensiosa. Meu coração, por outro lado, pulava no peito.

— Estou falando sério. — sua voz tornou-se grave, e ele me olhou duramente. — Tenho algo pra mostrar a você. Não vai matá-la. Pode ser uma vantagem para nós, uma que ninguém imaginaria que tivéssemos.

Desmanchei o sorriso, prestando atenção em seus sinais.

— Eu... — Tom virou-se de frente para mim, tomando minhas duas mãos nas suas. — entendi que minhas origens mágicas não são triviais como pareciam. Sempre desconfiei que era diferente, desde pequeno, os encantamentos da arte proibida me eram mais acessíveis, o sofrimento advindo deles, tornavam-me cada vez mais forte...

"E quando cheguei até aqui, eu soube definitivamente que não era um qualquer. Eu não tinha sido abandonado em um orfanato trouxa desprezível. Mas demorou para que eu fosse capaz de reconhecer meus iguais, ou ainda, tornar-me um igual..."

— Tom, você achou sua família? — perguntei com ares de preocupação.

— Muito melhor do que isso. Eu encontrei a Câmara Secreta, Valery. Eu sou mesmo herdeiro do próprio Salazar Slytherin.

Fácil. Fácil demais, é impossível que seja assim, tão simples. Entreabri os lábios como se estivesse sido atingida por um mal súbito, e de fato, a surpresa pela sua tão jocosa confidência deixou-me em êxtase.

Que menino inocente era ele!

— Tem certeza? — tentei demonstrar indignação, instigando-o ao ferir seu orgulho. — Como?

— Os Gaunt. Herança genética. Foram horas, dias, meses pesquisando insistentemente de onde veio a desgraça do meu nome trouxa. Não há Riddle's em Hogwarts. Mas houve Gaunt. E Marvolo é o nome de um deles.

Olhei atentamente para a porta do banheiro feminino por alguns instantes, desviando-me da fronte de Tom. Ele já sabia. Estava procurando, muito antes da minha chegada e, mesmo com a minha presença, não se atrasara quanto ao mapeamento de sua origem familiar. Logo chegaria aos Gaunt de Little Hangleton e, assim, a Tom Riddle. Eu precisava agir rapidamente. O tempo corria contra mim.

— Quero mostrar a você. — disse por fim.

— Existe um monstro lá dentro. — sussurrei para ele, acercando-me.

— É controlável.

— Você sabe?

— Há uma única maneira de despertá-lo, um idioma que apenas os membros da família Slytherin dominam. Uma arte única. Sou fluente em parsel. Apenas uma pessoa sabe disso, além de você.

— Dumbledore.

Nesse instante, a porta principal do banheiro foi escancarada a poucos metros de nós. Dentro dele saía uma menina corvina, com cabelos negros e longos caídos sob a face pálida, os olhos castanhos inchados perceptíveis debaixo da franja umedecida pelas grossas lágrimas que lhe sondavam o rosto.

Ao nos ver, correu.

Myrtle voltaria àquele banheiro muitas vezes antes de seu trágico incidente. Talvez, pensando melhor, eu poderia salvá-la. O que isso mudaria no tempo?

— Valery. — Tom me chamou, desviando a atenção da menina que corria ruidosamente para longe de nossa presença. — Por favor, diga alguma coisa.

— Eu não falo parsel. Você terá que me ensinar.