Reputação imperfeita
1 Reencontro e indiferença
Notas iniciais
A bruxa entrou no recinto pouco iluminado e bastante mal frequentado com passos decididos, trazia um profundo descaso em seu rosto alvo e ignorando todos os pares de olhos que se pousaram sobre ela e os comentários pouco lisonjeiros que podia ouvir aqui e ali, se dirigiu para o balcão.
—Uma cerveja amanteigada, por favor. — sua voz era clara e meiga, o que denunciava que ela não era em definitivo o tipo de mulher que frequentaria um local daqueles, não que Helga Hufflepuff acreditasse que muitas mulheres passassem por ali. Recebeu o copo das mãos de um homem rude e muito mal encarado que a fitava de baixo em cima com cobiça, mas ignorando este fato também apanhou o copo e se afastou passando os olhos pelo ambiente, quem ela procurava não estava ali, porem isso não era um real problema, afinal ela esperara anos para descobrir onde o bruxo se encontrava, podia muito bem esperar alguns dias até que estivesse em sua presença.
Muito tempo mais tarde e tendo lançado inúmeros feitiços contra inoportunos homens que julgaram que poderiam tomar certas liberdades para com ela, Helga deixou o lugar, estava cansada e um tanto decepcionada, mas não seria apenas uma noite que a faria desistir de seu propósito. No dia seguinte Helga se fez presente no bar, e no seguinte, e no seguinte e no seguinte, já havia se feito respeitar e os homens não faziam mais do que lhe lançar olhares cobiçosos, com tudo nem um deles ousava se aproximar nem sequer lhe dizer nada isso devido a fama que ela conseguira ganhar naqueles dias, afinal seria ridículo se a fundadora não conseguisse repelir alguns homens bêbados que encontrasse em seu caminho. E foi quando Helga já pensava em desistir que Salazar Slytherin resolveu aparecer.
O loiro entrou sem dirigir o olhar para ninguém que fosse, caminhou até o balcão com cara de poucos amigos e pediu um whisky de fogo, Helga sorriu enquanto fitava as costas dele da mesa em que continuava sentada, Salazar sempre era tão previsível, ao menos para ela. Observou ele receber seu copo e escutar enquanto Rufos lhe falava sobre ela, reconheceu a pronuncia da palavra senhorita nos lábios dele e o leve inclinar de cabeça em sua direção, claramente a presença de uma mulher no bar era um acontecimento, mas o mesmo não pareceu importar a Salazar, ele apenas assentiu sem parecer nem minimamente interessado. Rufos meneou a cabeça e se afastou como se a apatia e indiferença do outro não o incomodasse.
Helga se levantou e foi na direção do bruxo loiro ,se sentando ao lado dele e o observando por alguns instantes antes de abrir a boca e receber em fim sua atenção.
—É muito bom revê-lo, Slytherin. — a atenção do loiro se voltou para ela assim como seu olhar de surpresa e fúria.
—Helga? O que você faz aqui? — sua voz era ríspida e ela tinha absoluta certeza de que ele a mataria ali mesmo se pudesse.
—Creio que o mesmo que você Slytherin, vim tomar uma bebida. — a voz dela era debochada e irônica o que só serviu para aumentar a raiva dele.
—Não brinque comigo. O que você faz aqui, Hufflepuff? — ele esticou a mão e segurou o braço dela com força, seus olhos faiscavam e sua voz estava perigosamente baixa. Helga manteve seu olhar e não demonstrou se abalar, no lugar disso puxou o braço com rispidez e fez um sinal para Rufos se aproximar.
—Mais uma cerveja. — voltou seu olhar para o bruxo e sorriu de leve, —Contenha-se Salazar, não lhe dei o direito de tocar em mim, apenas tentei ser cordial.
—Por que diabos você está aqui? diga logo Helga. Este não é lugar para uma mulher como você.
—Não se preocupe comigo, Slytherin. Todos neste bar podem confirmar para você o quanto eu posso cuidar de mim mesma, não é verdade Rufos? — ela dirigiu a pergunta ao homem quando este lhe entregou a bebida.
—Certamente, Senhorita. — Salazar o fuzilou com o olhar.
—Saia daqui, agora.
—Algumas coisas não mudam, não é mesmo? E sua grosseria é com certeza uma delas, acreditei que o tempo pudesse ter feito de você alguém melhor, mas vejo que me enganei quanto a isso. — ela bebeu um gole da cerveja e voltou a falar com tédio na voz: —Se bem que considerando meu histórico de enganos, já era de se esperar este resultado. — ele franziu os olhos como se fizesse esforço para não estrangulá-la.
—Ótimo. Se quer beber em um lugar sujo e mal frequentado como este, fique a vontade. Não serei eu a te impedir. — ele virou o conteúdo de seu copo em um gole só e jogou algumas moedas sobre o balcão antes de se afastar.
Helga suspirou assim que ele se afastou dela e empurrou a cerveja amanteigada para longe, sentia que havia desperdiçado todos aqueles dias de espera e os vários anos de procura infrutífera. Com tudo não pudera evitar a raiva que borbulhara dentro de si ao encontrar-se com Salazar, foram tantos anos de procura, tantas lágrimas e tanta saudade daquele homem que nem ao menos parecera sentir algo ao vê-la novamente. Quando ele partira Helga lutara para acreditar que ele o fizera por ela, mesmo contra as opiniões de Godric e Rowena ela ainda se mantivera firme, julgava que o loiro havia deixado a escola para trás, abdicado de seu próprio castelo, da companhia dos outros e se afastado dela porque tinha de fazê-lo, porque daquela forma deixaria de fazer mais mau para aqueles que amava, imaginava que por trás daquilo tudo ainda houvesse um ser bom e que fosse capaz de amar, quantas vezes se perguntava, se poderia relevar as atitudes dele para que eles pudessem retomar o que um dia tiveram? E então ao chegar a conclusão que sim, se colocara a procurar pelo bruxo incessantemente.
E a percepção de que Salazar Slytherin a tratara com uma simples e fria indiferença a machucara, na verdade no fundo esperava ver mais, muito mais, do que raiva e surpresa em seus olhos, tinha esperanças de que ele demonstrasse felicidade ao vê-la, de que ele fizesse mais do que deixá-la sozinha em um bar medíocre no interior da Irlanda. Se levantou e atirou algumas moedas sobre o balcão, talvez devesse aceitar que aquele capítulo da sua vida estava acabado, retornar para a escola e seguir sua vida, talvez devesse aceitar as inúmeras ofertas que Rowena lhe fazia e conhecer o tal parente de seu marido que a bruxa morena sempre insistia em lhe apresentar, de qualquer forma ela devia esquecer definitivamente daquele bruxo maldito. Sim, ela faria isso, Helga Hufflepuff não iria seguir chorando por causa daquele bruxo desprezível e egoísta, Salazar Slytherin não voltaria em seus pensamentos nem em seu coração, trataria de esquecê-lo definitivamente, na manhã seguinte deixaria a Irlanda e não pensaria mais nele, era isto e Helga estava convicta de sua decisão.
O fluxo de pensamentos da bruxa foi desviado quando ao virar uma esquina ela teve a nítida sensação de estar sendo seguida.
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