Represa
1 Represa
O ar estava úmido e abafado. Pesava. A terra molhada e arenosa cheirava à matéria em decomposição. O dia todo ensaiou para que chovesse, mas a chuva ainda não vira. Já era noite e as duas continuavam deitadas na represa.
— Você... acha que... ele vai prum lugar ruim?
Riu — Eu espero que ele já esteja lá.
— Ele não tem que passar prum estágio intermediário?
— Tipo a alfândega?
— Eu imagino mais um julgamento.
— Tipo a Barca do Inferno? Bem chato isso...
— É o que todo mundo fala, acho que tá no inconsciente coletivo.
— Eu imagino ele acordando e vendo que tá num lugar parecido com esse, só que bem pior, mais quente, mais úmido, mais fedorento, mais podre.
— Você acha o inferno é igual aqui?
— Sim... se não for aqui.
— Aqui não pode ser o inferno.
— Por que não?
— Porque senão, todo sofrimento seria justificado, e não teria ninguém inocente, e as pessoas que se dão bem na vida não poderia se dar bem porque, bem elas estariam aqui pra sofrer. O seu sofrimento seria justificado por uma coisa que você fez. Todo mundo estaria pagando coisas ruins que fez. E nisso entra crianças e recém-nascidos...
— Entendi... mas é que é tão aleatório... você encontra vários demônios por aí e só se dá conta muito tarde... às vezes tarde demais. Aeh parece que você passou a vida pagando por uma coisa ruim que você fez e não sabe o que foi. E o sofrimento vem e se repete e você não pode fazer nada. E você fica sem conseguir viver.
— Sim...
Alguns pontos luminosos apareciam e apagavam, insuficientes para clarear a noite.
— Então você acha que ele não vai sofrer pelo que ele fez?
— Hum... mas ele sofreu.
— Espero que sim. Mas parece que não é suficiente.
— Você não tá aliviada?
— Não... parece que meu ódio é infinito.
— Você parece bem calma.
— É porque eu tô cansada... Você tá cansada?
— Sim, mas eu tô meio que em paz.
— Isso é bom.
— Acho que o que a gente fez foi uma coisa boa. Ruim, claro. Mas tinha que ser feito
— Tinha que ser feito.
— E eu tô feliz, acho. Digo, por você.
As pererecas coaxavam e o céu estava escuro, sem estrelas. Talvez chovesse de madrugada.
— As coisas vão melhorar agora.
— Você acha?
— Claro.
— E se ele voltar?
— Ele não vai voltar.
— Não, digo, ele pode aparecer...
— Ah... bem, se isso acontecer, ele não vai poder falar quem foi. — E riu.
— Mas a ciência pode... evidências, provas, investigação.
— Que nada. Ele era um filho da puta, ninguém vai ligar, ainda mais nesse fim de mundo. Ele mereceu.
— Eu sei. Mas e se você for pega.
— Fica tranquila que eu não vou te denunciar.
— Não é isso.
— ...
— Eu vou ficar bem.
— ...
— Depois do que eu passei, eu aguento o que vier. Eu só não podia mais aguentar ele.
— Eu sei... mas eu me preocupo.
— Eu sei... E outra, ele vai virar comida de peixe rapidinho.
— E se alguém pescar ele antes disso?
— Fazer o que? Quem pescar, pescou.
— Dá pra falar que ele caiu, bateu a cabeça e afundou?
Riu — Acho que não. Eu fiz um puta estrago. Tava bem furiosa...
— Eu vi.
Suspirou — Nunca pensei que pudesse sentir tanto ódio...
— Tudo bem. Uma hora isso vai passar.
— E se não passar? E se ele fodeu a minha vida para sempre?
— Acho que... não sei... você não pode deixar isso acontecer...
— Mas e se eu não conseguir? E se eu não conseguir viver a minha vida?
— ... eu posso te ajudar.
— Como?
— Não sei... a gente vê isso depois, tô com sono, não consigo pensar.
Algum pássaro noturno conversava com outro. Nenhum vento refrescava a noite.
— Brigada.
Tateou o escuro a procura a mão da outra. — Não precisa agradecer. Você sabe que eu faria tudo de novo.
Riu — Não vamos precisar.
— É, não vamos.
Se aconchegaram e adormeceram profundamente.
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