Reparação
34 Pendências
Notas iniciais
Apesar do pouco tempo acordado e do corpo dolorido e esgotado, Minato sabia que precisava tomar as rédeas da situação. Ele não sabia o que havia acontecido com Tsunade, a atual Hokage, então, tecnicamente, ele era a pessoa hierarquicamente responsável pela Vila novamente. Olhou Kushina, que ainda dormia profundamente, e em seguida para o filho que estava também se recuperando na cama ao lado e suspirou.
— Kushina vai me matar quando acordar, por trabalhar tão cedo – e depois saiu do quarto. O coração dele estava ali, naquele quarto, mas ele sabia da sua responsabilidade perante Konoha.
Não demorou muito e logo encontrou Kakashi que também saia de um quarto que identificou ser o da médica-nin Shizune. O ninja copiador arregalou o olho ao ver o Yondaime e ex-sensei vivo, bem na sua frente. Ainda não havia o encontrado, tampouco sabia que havia despertado.
— Kakashi! Que bom vê-lo, faz algum tempo, não? – Minato disse com um sorriso acanhado no rosto.
— Sensei... – Kakashi não pode evitar o alívio que o tomou ao ver o Namikaze bem, não pode evitar a onda de alegria ao ver que ele estava recuperado e vivo, realmente vivo e não apenas um corpo em um leito de hospital.
— Sei que não estou nas melhores condições e nem sei em que posição estou no momento, mas preciso da sua ajuda – disse e logo o Hatake ficou atento às palavras do antigo mestre – Preciso que use os seus cães ninjas para verificar o paradeiro de Tsunade e dos líderes dos clãs. Precisamos reunir a todos e tentar reorganizar a vila o mais rápido possível.
— Certo! – e logo o Hatake formava os selos chamando os seus cachorros ninjas e passando as instruções. Após as ordens, cada cachorro se separou para cumprir o seu objetivo.
— Ótimo! Agora, vamos! – e começou a andar em direção a saída do hospital.
— Aonde vamos, Yondaime? – questionou o albino.
— Temos que verificar os esconderijos, as pessoas precisam de um lugar seguro para ficar e não amontoadas aqui no hospital. Vamos organizar a casa – disse resoluto e Kakashi aquiesceu.
—*-
Abriu os olhos lentamente, sentindo o vento no rosto e braços fortes, abraçando-a, levou um segundo para entender onde e com quem estava. Levantou o rosto e viu Sasuke encará-la com um pequeno sorriso no rosto.
— Desculpe, eu acho que acabei dormindo – comentou ao se sentar um pouco sem graça por ter dormido nos braços de Sasuke.
— Você estava esgotada, precisava descansar um pouco – disse tranquilizando-a. Mas logo outro pensamento invadiu a mente da garota que arregalou os olhos com o que foi dito e levantou-se rapidamente.
— Meu Kami! Eu dormi por quanto tempo? O hospital! Os pacientes! – disse preocupada e Sasuke levantou-se e segurou no braço da esposa para acalmá-la.
— Ei, tudo bem! Você dormiu apenas trinta minutos, precisava reestabelecer o seu chakra – tranquilizou-a – e ninguém apareceu aqui, o que significa que estão dando um jeito lá dentro.
Sakura suspirou um pouco aliviada ao ver que não havia perdido muito tempo e encarara o marido com um olhar mais atento e um pouco preocupado. Não queria tocar naquele assunto, nem sabia ao certo como falar sobre isso, mas precisava.
— Sasuke-kun, o que aconteceu lá? – e ao ver o semblante do Uchiha se fechar, soube que não iria gostar do que ouviria.
— Foi uma armadilha. Nos atraíram para sair da Vila e deixá-la vulnerável, eles planejaram tudo.
— Eles quem? – indagou tentando entender e encaixar tudo o que acontecera.
— Orochimaru e Yashiro.
— Yashiro? – questionou surpresa e sem acreditar no que ouvia – Aquele Uchiha? – e Sasuke aquiesceu soturno.
— Ele traiu o clã, traiu a vila em busca de vingança por não ter sido o líder dos Uchiha’s – Sakura ouvia atentamente, mas não acreditava que alguém pudesse ser tão egoísta a ponto de matar centenas de pessoas só por causa de um capricho como aquele.
— Eu acabei saindo de casa, quis espairecer perto do monte Hokage quando tudo aconteceu... eu não... consegui fazer nada para impedir aquele monstro – disse abaixando a cabeça, sem conseguir encará-lo e sentindo-se inútil por não estar presente, por não ter feito nada.
Sasuke ao ouvir aquilo, gentilmente, colocou o dedo no queixo dela e levantou o rosto para que pudesse ver os seus olhos. Como ele era grato por ela ser daquele jeito único, por não respeitar todas as regras do clã, por não ficar em casa quando todas as outras mulheres ficaram, pois isso havia salvado sua esposa, sua Sakura.
— Você não podia fazer nada e ao mesmo tempo você fez tanto – disse encostando a testa na dela, trazendo-a para mais perto de si – O fato de você estar viva já significa muito, Sakura... quantas pessoas você não salvou depois e continua salvando? – e colocou a mão dela no peito dele, na direção do coração dele – Você me salvou só por estar viva – e Sakura suspirou ao ouvir aquelas palavras. Como ela queria se entregar a ele, mas ainda havia dúvidas a serem respondidas e teve que se afastar um pouco para indagar:
— E os Uchiha’s? Como estão? – indagou incerta, sem saber se queria realmente ouvir a resposta.
O olhar de Sasuke vacilou e viu a fragilidade que ele tentava esconder. Foi aí que ela teve certeza de que não gostaria de ouvir o que ele diria. Nem ele gostaria de ter que falar sobre isso, mas tinha que contar à esposa o que acontecera.
— Quando voltamos para a vila, uma grande parte estava destruída, muitos escombros. E no distrito Uchiha... – engoliu em seco com dificuldade – O distrito... não havia mais nada ali. – Sakura ofegou com a notícia, mesmo que já esperasse, já que os Haruno’s também foram muito atingidos.
— E os sobreviventes? Ainda estão fazendo buscas? Já verificaram os esconderijos do clã? – indagou inocentemente e Sasuke a olhou tristemente, soltando-a e apagando as esperanças de Sakura.
— Que sobreviventes? Até onde vi, ninguém que estava no clã sobreviveu. O ataque se concentrou naquela parte, apagando tudo e todos que estavam ali.
— Mas... como? Eu saí naquele dia, Hana também, então tem que ter mais alguém! – começou a ficar desesperada com o que era dito a si.
— Não há! – Sasuke falou de forma firme, mas Sakura não se importou, sabia que ele tentava esconder o que sentia. Ele não mais choraria, como há alguns minutos, não queria mais demonstrar fraqueza ou se render àquele sentimento de perda, não ali. Fechou as mãos em punho, sentindo-se impotente, sem saber o que fazer, sem saber como se sentir, mas pensava que chorar não resolveria nada agora, ainda tinha trabalho a ser feito e depois teria o momento para prestar suas homenagens ao seu clã e à sua mãe, mas não ali.
Porém Sakura não se importava em mostrar o que sentia e logo lágrimas vertiam de seus olhos, de forma tão dolorosa que era como se ela tivesse perdido o próprio clã. Ele não pode deixar de ficar surpreso com isso, não esperava esse comportamento da esposa, ela não tinha por que se importar com o seu clã, não quando eles foram tão preconceituosos com ela e a trataram tão mal diversas vezes. E mesmo com tudo isso, ali estava ela, chorando por todos os Uchiha’s que morreram e aqueles que perderam a sua família. Antes que pudesse falar qualquer coisa, sentiu-a abraçar sua cintura e enfiar o rosto em seu peito enquanto murmurava:
— Sinto muito... sinto muito... – a voz embargada e ele mesmo teve dificuldade de controlar o próprio choro.
— Tudo bem, Sakura... – disse tentando acalmá-la, ao mesmo tempo que as palavras também serviam para si, e olhou-a nos olhos – Está tudo bem – mas ela sabia que não estava, talvez ele estivesse tentando convencer a si mesmo, mas a tristeza dentro de Sasuke transbordava para fora, mesmo que ele ainda não se desse conta. – Acho melhor nós irmos agora – tentou evitar o momento com a esposa que limpou os olhos, concordando.
Ele não falara nada sobre Mikoto, porém nem precisava, aquela conversa havia sido o suficiente para ela entender. Sua sogra não sobrevivera. As mulheres e crianças do clã haviam morrido nesse ataque. E ela não conseguia mensurar a dor que se espalhava dentro dos Uchiha’s. Mesmo que os Haruno’s também tivessem tido as suas baixas, muitos sobreviveram graças a sua mãe, mas pelo visto o mesmo não poderia ser dito do clã Uchiha, se é que ainda poderia ser considerado um clã com tantas mortes, muitos homens não aguentariam e ela tinha medo do que ainda estava por vir. No entanto, não poderia chorar para sempre, ainda havia muitas vidas a serem salvas e eles teriam que seguir em frente.
—*-
— Kizashi, que bom vê-lo – disse Minato ao encontrar o líder do clã Haruno que arregalou os olhos diante da figura a sua frente.
— Yondaime-sama?! C-Como?
— Sim, longa história, mas aqui estou eu, preciso saber como andam as coisas aqui – foi direto e Kizashi aquiesceu ainda surpreso antes de começar a reportar:
— Todos os civis localizados que não estejam feridos foram deslocados para os esconderijos na Vila, alguns foram direcionados ao hospital e deixados lá para cuidados e... – respirou fundo antes de continuar – ...e aqueles que não sobreviveram estão sendo recolhidos e levados para um campo para identificação dos corpos mais tarde. – lamentou ao lembrar a pilha que não parava de crescer de mortos.
— Algum sinal de algum inimigo ainda? – Kakashi indagou.
— Não. Quando chegamos em Konoha ainda encontramos alguns shinobis inimigos, mas depois de uma grande explosão de poder, parecem ter desaparecido – e olhou para o ex-Hokage em seguida – Foi o senhor quem conseguiu afastá-los?
— Não, foi o poder de Naruto que fez isso – Minato respondeu ainda preocupado com a situação do filho – Mas conseguimos controlá-lo a tempo e acho que preferiram se retirar, com receio do poder da bijuu. – e Kizashi aquiesceu ao entender o que fora dito.
— O que faremos agora? Retiramos as pessoas dos abrigos e as mandamos de volta pra casa? – Kizashi questionou.
— Que casa? A maior parte de Konoha foi destruída, a maioria ali não deve ter mais casa – Kakashi contrapôs.
— Precisamos pensar em um local, o abrigo não tem estrutura para que permaneçam ali – Kizashi tentou mais uma vez, também refletindo sobre o seu próprio clã que agora não tinha mais lar.
— Vamos reunir alguns shinobis que podem ser uteis e vamos levar quem pudermos para a academia ninja, lá não foi atingido, não é? – Minato indagou.
— Não, Kushina-san protegeu parte da vila, então alguns prédios continuam de pé, mas somente lá não será o suficiente – Kakashi disse até ter uma ideia – Acho que conheço alguém que pode nos ajudar!
Minato e Kizashi o olharam em expectativa, querendo saber do plano do Hatake.
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Sasuke e Itachi ao verem que Sakura tinha tudo sob controle no hospital e Hana e Megumi estavam fora de perigo, decidiram sair dali e ir atrás de mais sobreviventes ou ajudar em algo, afinal ajuda era o que eles mais precisavam. Não demorou muito e encontraram Kizashi junto de outro shinobi que parecia um pouco estranho. Ele tinha cabelo curto castanho, os olhos eram amendoados, grandes, quase esbugalhados, e davam um ar um pouco intimidador.
—Sasuke! Itachi! Que bom vê-los! – disse Kizashi um pouco nervoso – Algum de vocês têm notícias de Sakura ou de Mebuki? – e Sasuke ficou surpreso ao notar que o Haruno ainda não tivera nenhuma informação da família.
Sasuke encarou Itachi, admirado pela força do mais velho, ele estava a todo esse tempo empenhado na sua missão shinobi? Não tinha ideia de como ele conseguia ser tão forte ao ponto de ignorar os sentimentos dessa forma. No entanto, a verdade era que Kizashi apenas quisera camuflar o que sentia, a preocupação que o rodeava com o trabalho, pensando que ao ajudar outras pessoas, seria recompensado de alguma forma tendo a sua família protegida por Kami, torcendo para que alguém também estivesse ajudando os seus entes queridos também.
— Elas estão bem. – respondeu retirando um peso do coração de Kizashi – Estão no hospital e...
— Estão machucadas? – Kizashi interrompeu a fala do mais novo, um pouco afoito.
— Não, Sakura está cuidando dos feridos e Mebuki-san, apesar de ter se ferido, está ajudando-a também – comentou e o Haruno suspirou aliviado antes de sorrir orgulhoso das suas mulheres. Não esperava menos de Mebuki e Sakura.
— Certo. Então vamos continuar por aqui também e que bom que estão aqui – disse mais tranquilo e agora ansioso por vê-las após o trabalho. Os Uchiha’s aquiesceram esperando por novas ordens – Este é Yamato, ele é um ninja que possui uma habilidade muito interessante e necessária nesse momento.
— Qual? – Itachi indagou, analisando o desconhecido que finalmente sorriu e se pronunciou.
— É a minha kekkei genkai, sou usuário do estilo Mokuton – e observou os dois Uchiha’s ficarem descrentes de suas palavras.
— Até onde eu saiba, só o primeiro Hokage possuía essa kekkei genkai. – Itachi comentou desconfiado.
— Fui escolhido para um experimento quando mais novo – Yamato disse, tentando esclarecer as coisas – Injetaram em mim as células do primeiro Hokage, por isso desenvolvi essas habilidades.
— Como? – Sasuke questionou surpreso com a revelação.
— Era um experimento do antigo Conselho de Konoha, mas não foi para frente, o Yondaime não permitiu, mas as células já estavam dentro do meu corpo, então somente eu possuo essa habilidade agora. – e Kizashi aquiesceu, a fim de concordar e dar crédito ao que fora dito pelo outro.
— Kakashi e Yamato trabalharam juntos na ANBU. E agora Yamato irá nos ajudar na reconstrução da vila – Kizashi continuou a explicação.
Os Uchiha’s apenas menearam a cabeça concordando, à espera de mais explicações e como poderiam ajudar também.
— Yamato irá construir com sua kekkei genkai algumas residências para colocarmos aqueles que perderam tudo, mas precisamos limpar a área primeiro – e olhou em volta para os escombros que via e suspirou – Por isso, foi bom vocês aparecerem.
— Certo, então vamos começar – disse Sasuke, curioso em ver as habilidades do ex-ANBU.
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O cachorro de pequeno porte já havia corrido quilômetros até conseguir chegar naquele lugar. O cheiro estava ficando cada vez mais fraco e ele temia o que isso poderia significar, avistou o corpo recostado junto a uma árvore, a pele enrugada, velha, magra, parecia tão frágil e tão diferente do que sempre fora que ele temeu o pior. Mas ali estava, finalmente havia achado a Godaime, Tsunade. Agora era avisar Kakashi e torcer para que ela ainda estivesse viva até o resgate.
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Sakura nem acreditava no que via a sua frente. Sua mestra, sempre tão altiva e viva, parecia apenas a casca do que um dia já fora. Ela chegara às pressas carregada por Kakashi e, mesmo que tivesse sido difícil, ela conseguiu estabilizar a Godaime, mas não havia previsão de alta, não havia previsão dela nem ao menos acordar. Tsunade havia exagerado no uso de chakra e agora o seu corpo exigia por descanso, mas quanto tempo levaria para o corpo recuperar tamanho poder de chakra? Era impossível medir, Tsunade parecia ter trocado de lugar com o Yondaime.
— Então…? – Minato indagou e Sakura suspirou negando, antes de explicar a situação. – Ótimo – ironizou – Mais um problema!
— Sinto muito... – Sakura murmurou, mas o Namikaze sorriu para ela um pouco envergonhado pela explosão.
— A culpa não é sua, na verdade, tenho muito agradecê-la. – Minato disse, chamando a atenção de Sakura – Se não fosse a sua habilidade médica, provavelmente o hospital teria colapsado também.
— Eu não...
— Não diga que não fez nada, pois você fez, Sakura! – Minato a interrompeu – Mostrou ser uma verdadeira pupila de Tsunade e tenho certeza de que ela estará orgulhosa de saber o que fez quando acordar – elogiou a menor que sentiu os orbes se encherem de lágrimas.
— Hai! – disse com a voz um pouco estrangulada.
— Vou contar com você mais um pouco por aqui, tudo bem? – e Sakura aquiesceu, olhando para sua mestra, prometendo a si mesma que continuaria o seu treino para, quem sabe, poder ajudar a recuperação de Tsunade mais para frente e conseguir proteger Konoha tão ferozmente quanto a Godaime fez.
Após sair da sala, recolheu as suas coisas, já cansada daquele dia, mas sabendo que ainda havia muita coisa a fazer. Direcionou-se para a ala onde sua mãe estava, queria saber se estava tudo bem com ela, afinal, Haruno Mebuki não era a melhor das pacientes para seguir regras que a dissessem para descansar. Mesmo assim, agradecia à mãe tê-la auxiliado diversas vezes durante aquele momento caótico no hospital. Ao chegar aonde várias crianças descansavam e eram cuidadas, viu Mebuki, em pé sem usar as muletas que Sakura pediu, e outra enfermeira conversando com algumas crianças que pareciam agitadas.
— Eu já disse! Sobremesa só se tomarem os remédios direito! – apontou para as menores que chiaram e tentaram convencer a enfermeira que sorriu sem jeito, mas concordou com a mais velha. – Nem adianta chorar, isso não vai mudar nada. Tomem os remédios e ganhem a sobremesa, esse é o trato! – explicou novamente.
Sakura quis rir, era bom ver que algumas coisas não mudavam.
— É melhor ouvi-la, ela não vai se compadecer com cara triste, acreditem, eu sei – e suspirou dramaticamente – Tentei por anos – e sorriu para a mãe que revirou os olhos.
— Alguém tinha que cuidar de você corretamente e impedir que comesse só besteira – retrucou de forma suave.
— Vamos crianças, façam uma fila ali que já chego com os remédios e as sobremesas – mandou a enfermeira e os menores aquiesceram indo para o lugar indicado, deixando mãe e filha a sós.
— Parece que está tudo sob controle aqui, que bom – comentou Sakura.
— O que você esperava? Eu que estou no comando – rebateu a filha que aquiesceu. Mebuki era sinônimo de eficiência, não podia negar.
— E... como a senhora está? Sentindo dor? – indagou analisando a perna enfaixada da mais velha. Tecnicamente, não era para ela estar em pé daquela forma e nem se movimentando tanto.
— Ora, estou bem! Isso aqui não é nada demais – Mebuki fez pouco caso e Sakura não pode deixar de sentir que haviam trocado de lugar, afinal aquele tipo de resposta, geralmente, era dado por ela mesma. – Mas, Sakura... – continuou a mais velha um pouco receosa – Estive aqui o dia todo e... bom, poucos adultos têm vindo aqui procurar as crianças. Você acha... – mas parou de falar sem saber como externalizar o que pensava. E Sakura suspirou.
— Provavelmente, muitas delas se tornaram órfãs com esse ataque. – disse tristemente e Mebuki colocou a mão em frente ao peito, penalizada pelo destino de seres tão pequenos – Minato-sama está à frente de tudo, tentando organizar a vila, mas acho que ainda há assuntos e detalhes a serem esclarecidos.
— Sim, são muitas crianças... e não há espaço para todas aqui. O que eu estou falando? Mesmo que tivesse, não é como se o hospital fosse o lugar adequado para elas ficarem – Mebuki comentou.
— Elas precisam de um lugar e de gente para tomar conta até encontrarmos a família delas ou... ou não – Sakura pontuou e a mãe aquiesceu.
Observou o amplo cômodo que foi modificado para caber vários leitos e acomodar os menores feridos e que precisavam de algum atendimento. Havia tantas crianças, de idades, cores e sexo diferentes, algumas eram tão novas que ainda ficavam segurando a barra da roupa das enfermeiras e precisavam de ajuda para comer. Outras possuíam irmãos um pouco mais velhos que tentavam cuidar dos menores, mesmo que os próprios também ansiassem por cuidados. Havia aquelas que eram civis, mas também se reconhecia as oriundas de clãs da vila, clãs grandes, como era o caso da pequena Hyuuga Hanabi, que logo sairia da dali e teria quem cuidasse de si, enquanto outras pertenciam a clãs pequenos, que nem sabiam se ainda tinham um clã para retornar depois do que houve na vila.
O que aconteceria com aquelas que ficassem desabrigadas? Quem cuidaria delas? Olhou para a filha rapidamente e notou que ela também parecia preocupada com tudo aquilo, ambas estavam tão perdidas em pensamento que ficaram surpreendidas ao ouvir uma voz mais ao fundo da sala.
— Com licença, sabe me dizer onde encontro a doutora Uchiha? Ou Haruno Mebuki? – Mebuki prendeu a respiração ao reconhecer aquela voz. Não podia ser, podia? Virou rapidamente, quase caindo devido a instabilidade da perna machucada e Sakura teve que amparar a mãe, antes que fosse ao chão.
— Cuidado, oka-san! – reclamou Sakura, apesar de também estar nervosa com a voz que ouvira.
Mebuki nem ao menos ligou para a reclamação da filha e tampouco retrucou, apenas pegou as muletas encostadas no canto de uma cama e praticamente correu em direção a ele.
— Kizashi! – falou alto o suficiente para que ele, que estava do outro lado da sala, conversando com uma moça, pudesse ouvi-la. E funcionou. Rapidamente, o marido a encarou e sorriu aberto ao vê-la.
— Mebuki! – nada mais foi dito, logo ele correu e estava com a esposa nos braços, abraçando-a tão forte quanto podia ao mesmo tempo que as lágrimas se derramavam por todo o rosto – Graças a Kami! Graças a Kami!
Mebuki sempre fora uma mulher mais reservada, que preferia não demonstrar sentimentos na frente de todos, mas naquele momento, ao relembrar todos os horrores que passou, o medo de não sobreviver, de perder a filha, de não saber como estava o seu marido, depois de perder entes queridos do clã, foi impossível ela represar as lágrimas que há tanto tempo segurava para se manter forte e ajudar Sakura. Ali, nos braços do marido, o seu grande amor, era o único refúgio em que poderia se deixar levar e ela não se importava com mais nada.
Sakura não pode deixar de se emocionar ao ver tão tenra cena. Uma certeza que sempre tivera na sua vida era do amor que os seus pais sentiam um pelo outro. Mesmo que a mãe fosse rígida e sempre brigasse com o pai, era nítido o afeto dos dois, como o pai era louco pela mãe, como sempre fez de tudo por ela e como Mebuki cuidava dele, preocupando-se em cada missão, mal dormindo, e como o recebia quando ele chegava em casa e pensava que as filhas não estavam próximas para ver o entusiasmo que ela o recebia. Sorriu tristemente com as cenas que eram tão bonitas, mas ao mesmo não podia deixar de se sentir uma intrusa ali, naquele amor, como se não fizesse parte da família.
— Sakura! – Kizashi a tirou de seus devaneios ao se aproximar.
Ele a encarou, um pouco constrangido, sem saber se podia ou merecia ficar próxima dela, mesmo assim... mesmo assim, estava tão feliz por ela estar viva que tudo o que acontecera no passado, os erros que cometera, a vergonha, o arrependimento por não ter feito nada pareciam ínfimos se comparados com o alívio por ela estar bem, principalmente ao saber como o distrito Uchiha havia sido dizimado. Ela podia ter morrido, de novo, e mais uma vez ele a perderia sem ter conseguido dizer o que queria, sem consertar os erros do passado. Só de pensar em perder sua pequena garota um nó na garganta se formava e os orbes marejaram de novo. Tocou o rosto da filha suavemente que ainda o encarava um pouco atônita e não pode deixar de lembrar da garotinha que sempre lutava para ser uma ninja.
Sakura estava um pouco surpresa pela forma como o pai agia, há quanto tempo ele praticamente nem lhe direcionava um olhar decente? Parecia que aquela era a primeira vez que a enxergava há muito tempo, como se pudesse finalmente lhe ver, longe daquela penumbra de dor e indiferença. Tentou falar algo, mas ele a surpreendeu novamente ao ficar de joelhos em sua frente, a cabeça baixa enquanto abraçava suas pernas, chorando.
— Perdão, minha filha! Perdão! – pediu agarrado a ela que não sabia o que fazer, olhou para a mãe que a olhava de modo sofrido, como se soubesse o que aquilo significava, mesmo que a própria Sakura não entendesse – Tenho tanto a lhe pedir perdão, sei que nem mereço falar com você, mas eu... estou tão feliz por você estar viva... todos esses anos sem saber lidar com a dor da perda da sua irmã, eu simplesmente me apaguei e deixei que você sofresse tanto... nem mereço que me perdoe, mas eu preciso... – e levantou a cabeça para olhar nos olhos da mais nova – ...preciso agradecer por ter cuidado de sua mãe, de todas essas pessoas e, principalmente, por ter lutado por você!
A cada palavra dita pelo pai, Sakura sentia seu coração se quebrar, havia algumas crianças prestando atenção na sua conversa e uma ou outra enfermeira tentando distrai-las, para dar maior privacidade a eles, enquanto a mãe olhava com carinho para o marido e esperava ansiosamente por uma atitude dela. Mas o que faria?
— Otou-san... levante-se, por favor! – pediu. Não queria que o pai se constrangesse daquela forma. E ao ver o mais velho ainda agarrado a si, abaixou-se, abraçando-o – Tudo bem... eu...
— Não está nada bem! – retrucou Kizashi para a filha, encarando-a – Não está nada bem e todo esse tempo eu não consegui fazer nada para ficar bem! – e foi então que Sakura conseguiu compreender.
O seu pai, seu maior herói sentia-se assim por não ter sido o herói que ela esperava, por não conseguir ajudar a própria família enquanto ele lutava pelas famílias dos outros durante suas missões. Mas como ela poderia culpá-lo quando ele era apenas humano? Não pode deixar de pensar que, talvez, ela e sua mãe também tivessem colocado muita pressão nas costas de Kizashi. Sempre dependendo dele para apaziguar as brigas, sempre esperando pelas decisões dele, sempre por ele para proteger a família.
Kizashi era o líder do clã, com diversos afazeres e responsabilidades. Ele não podia parar por conta da filha que morreu anos atrás, ele não podia lidar apenas com o seu próprio luto, pois tinha a filha e a esposa a cuidar. Mas quem cuidava dele? Em que momento Sakura viu o pai chorar por conta de Sayumi? Quanto ele também não havia sofrido e não teve onde se apoiar? Sim, pois Mebuki não tinha condição nenhuma na época de fazer algo pelo marido e Sakura muito menos. Ele, então, se apagou, tentando colar cacos de sua família, enquanto continuava com o seu dever de líder.
Seu pai fez exatamente como ela quando Sayumi morreu, mudou, virou apenas uma casca. Mas ela conseguiu seguir em frente, havia resolvido suas pendências com a mãe, com Sasuke e até consigo mesma. Porém ainda faltava o seu pai e nem havia se dado conta disso. Como poderia? Para ela Kizashi sempre fora invencível, o melhor e maior ninja de todos. Sempre focado, sempre responsável e esqueceu-se que o pai também tinha sentimentos.
— Otou-san... – falou com a voz um pouco embargada – Gomen... eu também estive longe por tanto tempo... tudo poderia ter sido diferente se eu... – e antes de completar a frase, sentiu uma mão afagar seus cabelos e levantou o rosto para ver a mãe ao seu lado, sorrindo enquanto chorava ao mesmo tempo.
— Tudo foi do jeito que devia ter sido, ninguém poderia mudar isso. Mas devemos aprender com os erros do passado para que possamos ter uma chance de futuro – ela disse e depois olhou para o marido – E devemos fazer isso juntos, sem cobranças, sem pressão, apenas compartilhando – e Kizashi aquiesceu concordando, assim como Sakura, mesmo assim ela não pode deixar de se surpreender ao sentir o abraço da mãe em si, junto do pai.
Finalmente as lágrimas que tanto segurava, romperam-se e desabaram pelo seu rosto e ela começou a chorar como uma criança que era amparada pelos pais ao se machucar. Finalmente ela sentia que tudo havia voltado a ser como era, quando ela tinha uma família. Não era uma família perfeita e ainda estaria incompleta sem Sayumi, entretanto naquele abraço ela finalmente sentiu que era amada, sentiu que não havia mais mágoas e ressentimentos a serem despejados e que toda a culpa que sentia era lavada junto com as lágrimas que derramava. E sentiu-se grata por ter a chance de ter esse momento com os pais e resolverem-se quando tantos outros haviam perdido toda a sua família.
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Depois disso, o dia passou rápido enquanto todos em Konoha trabalhavam sem descanso. O estado de devastação da vila era claro, mas eles não desistiriam. Ninguém ali pararia enquanto houvesse alguém a ser resgatado, enquanto houvesse um ferido a ser curado, uma pessoa a ser salva ou um corpo a ser encontrado para que a família prestasse as suas homenagens. E cada vez mais pessoas se juntavam às atividades, reunindo comida e água para dar àqueles que necessitavam, doando casacos e mantas para manter os idosos e crianças aquecidos quando a noite chegou. Tudo o que podia ser feito estava sendo feito e Yamato, com sua kekkei genkai, construía pequenas cabanas para que os sobreviventes pudessem se alojar e ter um lugar para passar a noite.
Dizer que tudo estava voltando aos eixos seria mentira, os escombros ainda estavam ali para mostrar que as coisas não estavam bem, os corpos ainda apareciam e o luto ainda era sentido por todos que perderam alguém, mas eles ainda estavam ali. Vivos e tentando seguir em frente da melhor forma que podiam, até porque a luta ainda não havia terminado, ao contrário, agora era que a Guerra começaria e eles teriam que se preparar para a batalha novamente.
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