Renúncia
1 Se livrando das distrações
-Por favor, Moly, fique com ela...
-Como eu disse, eu não posso, ela é muito nova...
-Por favor, Moly, eu não posso perdê-la também, e você sabe como esta o mundo lá fora. Como posso protegê-la? Ela pode chorar e eles podem ouvir... Moly eu não posso.
Eu havia começado a implorar outra vez, Moly mantinha um olhar firme, mas eu sabia que ela estava com muita vontade de ajudar. Estava difícil para todos nós, Moly já tinha filhas adultas, que estavam caçando também,eu tinha certeza que Moly já havia abandonado tudo e uma hora deixaria que o mal a tomasse,um bebê naquele momento não seria fácil mas eu poderia implorar por horas.
-Onde ela está? –Moly perguntou com o rosto amável.
-Está no carro com Israel...
Moly olhou diretamente para o portão de sua casa, e viu o carro preto que reluzia o tom alaranjado do por do sol, então ela mordeu o lábio inferior, deixando formar-se uma ruga entre os olhos,eu sabia no que ela pensava, estava escrito em sua testa que Israel estava em seus pensamentos preocupados. Fingi indiferença a sua expressão, e olhei para o sol que se punha atrás da casa velhinha de Moly.
- Tudo bem, traga a menina.
Meu sorriso foi d imediato, Moly havia parado de resistir. Peguei o celular do bolso e disquei rápido pra Israel, Moly me fitava com seus olhinhos enrugados escondendo a felicidade de ter um novo bebê na família. Israel vinha trazendo um pequeno emaranhado de panos nos braços, a carranca de sempre formada no rosto, mas hoje ele parecia a ponto de socar o primeiro que viesse na frente,ele não concordava em deixar o bebê com Moly,não que ele não confiasse nela,mas porque ele queria ficar com a menina,ele não queria que eu abandonasse nossa Irma ali,ele não entendia que eu não poderia correr o perigo de perder ela também, ele dizia que dava conta mas afinal ele também era só um menino.
- Israel... – cumprimentou Moly com um sorrisinho – como vai?
-Estou bem, estava com saudade da nossa sabia vizinha...
-Ohh obrigada, você se tornou um rapazinho muito formoso.
-É...
E o assunto terminou aí, ambos olharam para o emaranhado de panos que se mexia revelando umas mãozinhas gordas de bebê.
-Qual nome vocês deram a ela? – perguntou Moly cobrindo as mãos que insistiam a se mostrar.
-Bem, eu a chamo de bebê – eu disse sorrindo.
Agora que eu percebia a crueldade da situação, ficar sem nome era um tanto estranho, mas com tantas caçadas e problemas, pensar em um nome para um bebê parecia meio sem importância naquele momento. Moly deu uma pequena gargalhada ao ver nossa cara de espanto.
- Bem, porque não escolher um agora?- disse Moly olhando para o rostinho da menina que permanecia brigando para se livrar dos papos velhos que a enrolavam. – que tal Lucy...
Israel me olhou com a expressão surpresa, ele parecia gostar da idéia, mas para mim, bem, Lucy era um nome melhor do que nome algum. Peguei a pequena Lucy dos braços de Israel e a ergui na altura de meus olhos, ela me olhou com os olhos curiosos, e eu retribuo o olhar com uma carranca, eu não queria deixá-la ali também, mas não poderia a deixar morrer nas mãos de desgraçados sem coração, então sim aquela era a melhor opção.
-eu volto... – foi apenas o que disse a ela quando ia deixando nos braços enrugados de Moly.
Israel vinha logo atrás de mim, entrou no banco de carona sem reclamar dessa vez, fechou as janelas do carro mas ficou com os olhos pregados no vidro escuro olhando a estrada deserta a nossa volta,se certificando se essa continuava deserta,olhei de relance para a casa verde a minha esquerda,qual eu sempre julguei ser segura,e naquele momento desejei com toda minha força que Moly nunca contasse a pequena Lucy que aquele fora o lugar terrível de seu nascimento. Chegamos perto do grande portão, Israel pegou a faca do sinto e me fitou saindo lentamente do carro, lá fora olhou precavido para os lados, pôs o ouvido no portão de ferro em busca de qualquer ruído ameaçador vindo do outro lado e entao o abriu dando grandes passos para traz, estava limpo, não tinha nenhum deles ali naquele momento, meu coração parecia ter parado por segundos mas entao Israel entrou no carro novamente.
-precisamos abrir uma janelinha neste portão, nunca sei o que esperar ao abri-lo e isso me mata. – disse Israel prendendo a faca no cinto.
Meu olhos percorreram a estrada estranhamente silenciosa, e como de costume olhei para o banco de traz a procura do bebê que já não estava mais lá. Meus pensamentos foram direto para casa de Moly, a situação me preocupava eu não sabia se seria aquele um lugar seguro para ela,mas naquele momento era o único lugar seguro. Lá um dia fora antes do mundo se tornar essa bagunça que ninguém morre realmente, uma base de um exercito que se dizia proteger o país de tudo e que agora seus grandes generais e comandantes estão andando mortos por ai esperando terem algo para enfiar seus dentes podres.
Israel olhava pelo retrovisor buscando com o olhar os grandes portões de ferro que já não podiam mais serem vistos, talvez ele estivesse escondendo a saudade do bebê ou talvez somente estava tão preocupado quanto eu em deixá-la com uma velha maluca e doente. Eu talvez o entendesse ele era muito novo e não entedia o sacrifício do “trabalho” e não entendesse que aquilo estava certo de uma maneira errada,porque para ele eu apenas estava abandonando nossa irmã, ele que me odiasse,eu conviveria com sua raiva,mas não conviveria com uma irmã constantemente em perigo.
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