Renascido do Gelo - One Shot
1 Viserion
Notas iniciais

Eu nunca senti frio.
Para mim, sempre existiu apenas o calor, dentro de mim e aquecendo minhas escamas.
Frio sempre me pareceu uma palavra vazia, sem significado.
Eu nunca soube o que frio significava, ou o que ele era.
Acho que faz sentido, afinal, eu sou um dragão. Mas coisas que não entendo, sempre me intrigaram, mesmo sabendo que era incapaz de experimentar tal sensação.
Ou pelo menos, era o que eu pensava...
Aquele dia era como qualquer outro, nós voamos e comemos, em nosso novo e recente lar, uma enorme rocha, com o odor de outros como nós. Quase podíamos sentir a presença de nossos antepassados.
Então nossa mãe nos convocou, até aí nada de mais, vínhamos lutando muito, o que era emocionante para nós, especialmente para Rhaegal. De qualquer modo, mamãe teve pressa naquele dia, voamos quase em linha reta, ela estava determinada.
Voamos até névoa aparecer, o chão se tornar branco e o vento silvar em nossas orelhas. Jamais havíamos estado em um lugar como aquele, era diferente do que conhecíamos. A chamada neve, o desconhecido gelo, e o tal frio do qual os frágeis humanos sempre reclamavam.
Não consegui admirar o local por muito tempo, logo entramos em batalha contra... Bom, eu estaria mentindo se soubesse o que eram aquelas criaturas. Pareciam humanos, mas cheiravam diferente.
Muitos cheiravam ao fedor da morte, não o cheiro agradável de uma presa recém-abatida, mas sim o cheiro podre de uma carcaça abandonada ao Sol. Enquanto outros ali... Não tinham cheiro, não tinham cor. Eu podia vê-los e ouvi-los, mas para meus outros sentidos, eles não existiam.
Nosso objetivo era salvar alguns humanos encurralados, alguns dos quais reconheci, incluindo o jovem de quem Drogon comentara tão solenemente.
Parecia fácil, estávamos ali para suprir uma desvantagem numérica e salvar os aliados. Queimamos, rugimos e voamos, tudo parecia bem, tudo parecia certo.
Até que não estava mais.
Foi como um silvo, não, um zunido. Um inseto faria o mesmo som ao voar perto de minhas orelhas. Uma dor me atingiu na base da asa, algo irrompeu dentro de mim, senti o fogo se espalhar por mim, mas ele não me feriu, era como quando eu o soprava, mas ao invés de voltar a queimar, ele se extinguiu.
Quando dei por mim, estava caindo.
Pude sentir o sangue jorrando de minha asa e se espalhando por fora e por dentro de mim. Jamais havia sentido aquele tipo de dor, e pude sentir que me entregava a ela.
Quando o chão de gelo estava próximo, pude ouvir Drogon chamando meu nome, ouvi Rhaegal dizer que me pegaria... E ouvi o que sabia também, não estar acontecendo ali. Minha mente se confundia.
Pude ouvir meus irmãos me chamando de fraco, quando éramos menores. Diziam que a palavra “gentil”, que os humanos usavam para se referir a mim, significava fraqueza.
Bati no gelo, tão duro quanto pedra.
Minha visão se extinguia e meus sentidos ficaram confusos. A dor não mais existia, e parecia que em breve, nem eu mesmo.
Ouvi a voz dela, uma das primeiras coisas que a ouvi dizer, no dia em que nos nomeou.
"Ao creme e dourado eu chamo de Viserion. Viserys era cruel, assustado e fraco, mas ainda assim, era meu irmão. Seu dragão fará o que ele não pôde fazer."
Desculpe mamãe... Acho que não pude ser aquilo que você esperava... Por favor, me perdoe...
Tudo ficou escuro, e pude me sentir afundar na água, uma sensação estranha se espalhou por minha pele e por minha garganta enquanto o lago me tragava.
Algo novo, que eu não conhecia.
Era o frio.
Então é assim...
E aí simplesmente, eu não existia mais. Nada. Apenas um grande e assustador, nada.
Ou era o que eu pensava.
De repente, do nada, eu estava lá novamente, e pude ouvir alguém falando comigo.
Olá.
Ele não realmente falava comigo, ele transmitia o que queria que eu sentisse, e na minha própria mente, fazia sentido.
Lute comigo.
...
Deixe-me voar com você. Montá-lo.
...
Estou trazendo você de volta. Para o meu exército, para o lado certo dessa vez.
... Por quê?
Porque eu preciso de você, não para quebrar alguns tijolos ou matar umas centenas de inimigos. Preciso de você, para que eles me temam, vejam do que sou capaz.
... Não... Deixe-me em paz...
Você vai gostar.
...
Vamos. Venha comigo, lançaremos morte, silêncio e frio no mundo. Todos se lembrarão de você como a história que pensaram ser apenas um mito, até que os destruísse.
... Aparentemente, eu não tenho escolha, não é?
Não.
Então pude sentir meu corpo novamente, cada centímetro voltando e se recuperando. Em meu peito, senti algo diferente, queimava, mas não era calor. Era fogo, mas um que eu não conhecia. Porém logo vi, minha mente tinha um novo habitante. Ele me controlaria, me daria ordens. Eu não seria mais eu mesmo.
Abri os olhos.
Tudo parecia enevoado, sem formas nítidas, somente com meus outros sentidos podia entender o mundo apropriadamente. Eu estava de volta.
Eu nunca senti frio.
Para mim, sempre existiu apenas o calor, dentro de mim e aquecendo minhas escamas.
Frio sempre me pareceu uma palavra vazia, sem significado.
Eu nunca soube o que frio significava, ou o que ele era.
Até o momento em que eu me tornei o próprio frio.
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