Renascer Dourado
7 Os Planos do Pai do Pai
GRÉCIA-
Mar Mediterrâneo
Uma brisa leve chegava junto com a noite que trazia um céu salpicado de estrelas distantes, minúsculos pontos cintilantes no fundo azul profundo. O mar continuava silencioso, mas a essa altura isso não parecia uma vantagem, era um silêncio de mau presságio, como a calmaria antes da tempestade.
No salão restaurante os rapazes não sem importavam com a quietude do mar. Talvez nem percebessem a sua estranha mansidão. Estavam preocupados demais em obter respostas, ocupados o bastante em ouvir o que Jana tinha a lhes falar.
E ela falou.
― Como sabem, Atena não os desperta por puro prazer em vê-los levar suas vidinhas como garotos normais dentro da sociedade humana cheia de seus costumes e velhos hábitos.Todos vocês estão aqui por um único motivo, o mesmo que nós, Caçadoras. Lutar.
“Lutar por sua deusa, lutar pela vida de seus entes queridos, lutar por suas vidas humanas, lutar pela segurança da Terra...
Não herdamos o privilégio de levar uma vida comum, não podemos trabalhar ou ir para o colégio, faculdade. Poucos de nós podem ao menos sonhar em construir uma família, porque esse não é o propósito de nossa existência. Existimos pela vontade dos deuses, servimos a eles como máquinas bélicas que protegem o que lhes é considerado sagrado.
Enganam-se aqueles acreditam que os deuses não podem travar suas próprias batalhas, pois eles podem sim se defender sozinhos quando quiserem. Porém, somente pelos Seus próprios interesses. Quando esses interesses envolvem os humanos, partimos para a guerra, para lutarmos ao lado de nossos seres adorados. No fim de tudo, fatalmente nos perguntaremos se nós não guerreamos pelos nossos próprios motivos, pela nossa sobrevivência.
Os deuses sabem que é o preço que pagamos por nossa existência, mostrar-nos capazes de defender os de nossa raça, os humanos que vivem na Terra. E por isso lutamos, porque nada foi nos dado de graça, porque se queremos nos preservar, precisamos contar com nossas próprias forças.
Lutamos por deuses sim, mas rezando para que seus propósitos sejam os mesmos que os nossos. A preservação de nossa família, de nosso mundo ou ainda, para os mais egoístas, de nossas próprias vidas.
Talvez por isso Atena foi considerada durante anos a deusa da humanidade, por ser ela aquela que mais se mostrou interessada pelos humanos durante eras. A que se prontificava a descer a Terra e protege-la cada vez que um novo mal se erguia, enviando seus guerreiros com amor suficiente para desafiar as leis do Olimpo, desafiarem os deuses.
Mas a vocês foram omitido, por séculos, através de todos os seus renascimentos uma verdade conhecida por todos os deuses. Atena nunca foi à porta voz dos humanos, Atena jamais ganhou de Zeus o direito sobre a Terra, ela nunca foi considerada a única protetora da humanidade, esse título nunca lhe foi consagrado.
O simples motivo é que todos os deuses depositaram parte de suas essências nos homens, podemos falar de Hermes, que sempre se considerou o ‘fã’ da humanidade até de suas fraquezas. Cada um dos imortais cederam um pouco de si para os homens, suas qualidade, seus defeitos. Sua centelha divina. E essa foi ruína deles.
Orgulhosos demais de seus feitos, os imortais se vangloriaram de suas existências à parte de tudo. Enquanto o homem pouco a pouco se libertava das amarras do destino e criavam para si novos caminhos a serem trilhados. E nesse exato instante, foi revelada a todo o Olimpo a grande verdade:
O homem pode existir em completa independência dos deuses.
Os deuses criaram os humanos por um motivo em particular e esse motivo caiu por terra com essa revelação.
Porque deuses existem para serem adorados, é dessa adoração que eles tiram sua força, é dessa forma que eles ganham suas batalhas e enriquecem seus palácios e templos. É assim que a lenda se torna realidade.
Parte dessa descoberta se deve aos Sagrados Cavaleiros de Atena, pois foram os únicos mortais que tiveram a coragem de desafiar os feitos egoístas dos deuses, o que lhes custou um preço.
A paga por essa “libertação” foi a “queda” coletiva de todos os imortais.
Depois que Atena concluiu sua missão ao lado de seus guerreiros e retornou ao Olimpo, os anos mostraram que os humanos não estavam aptos para controlar seus passos. Transformaram seus deuses em lendas, se entregaram a um novo deus que eles mesmos criaram dando nomes como dinheiro, prazer, tecnologia, poder.
Os deuses sentiram esse esquecimento e viraram suas costas para os humanos. Mas não se enganem, porque eles podem ter passado muitos anos sem adoradores, sem tirar forças das suplicas mortais, porém, ainda possuem poder suficiente para destruir cada homem, mulher e criança. Poder para devastar mil vezes a Terra.”
O silêncio se prolongou por alguns minutos, os rapazes pensavam sobre tudo o que Jana lhes revelou através daquela história. Aiolos perguntou.
― Então, se é assim, por que voltamos? Se os deuses já não se interessam por nós e o sentimento é recíproco de nossa parte?
Saga de braços cruzados analisou a situação usando-se das palavras de Jana.
― “Poder para devastar a Terra mil vezes”. Se é assim, se conforme a lenda os cavaleiros de Atena renascem cada vez que a Terra sofre com uma grande ameaça...
― Algo está para acontecer. ― concluiu Shaka ― É isso, não? Nós esquecemos os deuses, e eles estão se voltando contra o nosso mundo.
Valkyria negou com um gesto para Shaka, apenas parte de sua conclusão estava correta.
― Nem todos os deuses querem destruir os humanos. Muitos já se deram conta que o que fortalecerá ambas as raças é a união e não a disputa, porém, ainda restam aqueles que veem o homem como uma ameaça. E entre eles, o mais temido. O Primeiro imortal, que se levantou com fúria contra os deuses e contra a humanidade. O Pai do Pai, o Filho e Marido de Gaia...
Aiolos lembrou-se.
― Urano? O pai dos Titãs e de Cronos? Hmmm... “avô” de Atena?
― Exatamente. – Vakyria suspirou ― Urano ressurgiu. Unido do exército que comprou, para destruir seus filhos e descendentes. Para aniquilar os humanos.
― Mas... se os outros concordaram em deixar cada raça seguir seu rumo... por que Uranos se rebelou contra todos? – Quis saber Saga, ainda lutando contra acreditar naquele monte de históricas fantásticas demais.
― Uranos nunca fez parte dos deuses do Olimpo, Saga. Ele foi destronado, humilhado e destruído por seu filho, Cronos. Gaia implorou ao filho para destronar ao pai, já não suportava mais o domínio do esposo/marido. Não se sabe por onde ele vagou, o que passou e quanto ódio alimentou durante milênios de esquecimento e frustração, vendo seus descendentes triunfarem, seguirem adiante. Viverem livres enquanto ele permanecia a rabeira de tudo... exilado.
― Mas... – Aiolos parecia confuso ― Rezam as lendas que Cronos matou Uranos...
Atalanta foi quem respondeu com um ar de superioridade.
― Sabe qual a maior diferença entre um humano e um deus, Sagitário? A imortalidade!
― Então...?
― Então... – Continuou Valkyria enquanto encarava os rapazes cada vez mais apreensivos com o que parecia lhes aguardar num futuro próximo ― Nunca poderemos sequer imaginar o que é passar toda a eternidade construindo planos para destruir todos os culpados por nossa desgraça.
Shura viu de relance Katrine se remexer na banqueta, mas quando se virou para ela, a jovem já estava novamente na sua inércia mórbida. Valkyria não interrompeu sua explicação.
― Sabem o que isso significa, não é?
Camus arriscou um palpite.
― Significa que renascemos para lutar ao lado de Atena contra Uranos e seu exército.
Mu completou, usando os dedos para o gesto de aspas.
― Porque nós somos os “Matadores de deuses”.
Carlo foi o único que percebeu um detalhe curioso na história toda.
― Será que fui só eu ou todo mundo notou que temos uma fama contraditória?
― olhou com desdém para Atalanta ― Por que se um deus é imortal, como podem nos chamar de “Matadores de deuses”?
Atalanta lhe sorriu com afetação.
― Certas coisas, Câncer, serão explicadas no seu devido tempo. Não estamos aqui pra desvendar segredos do universo ou a fama que os “grandes cavaleiros de Atena” construíram para si. Aliás, eu não queria estar na pele de vocês, mas como diz o ditado, quem faz fama...
Dohko quis saber o que a Caçadora queria dizer com aquela ultima observação maldosa.
― Ah, é? Pelo modo que eu vejo, vocês estão no mesmo barco que a gente. Têm a mesma missão, só que lutam sob a proteção de outra deusa...
Ela sorriu, enquanto se levantava de seu assento.
― Não exatamente. Não fomos nós quem desafiamos e destruimos quase todo o Olimpo. A fama de vocês foi o que fez Atena lhes trazer para uma nova vida. Somos o grupo de apoio, mas adivinha em quem Uranos vai querer descarregar a maior parte de seu ódio?
― Mas foi Cronos quem o derrotou, por que Atena ou seus cavaleiros devem arcar com grande parte da responsabilidade? – Indignou-se Shura.
― Bom, vamos começar dizendo que ele ouviu todas as histórias sobre como os sagrados guerreiros de Atena que sob as ordens da mesma, destruíram titãs, deuses e o que encontraram pelo caminho. O que explica o fato dele ver Atena como uma traidora do Olimpo e por tabela repudiar a sociedade humana.
Milo observou com uma súbita revolta.
― Qualé!? Ele não odeia os deuses também? Devia é nos agradecer por ter dado fim num monte deles!
Jana deu de ombros, fazendo um gesto com o indicador junto à cabeça.
― Milo, doidão, lembra? Anos eternos rastejando e imaginando mil formas de massacrar e punir a raça de imortal e mortal. Para Urano o que Atena fez foi uma traição contra os deuses, tal qual a traição de seu próprio filho Cronos contra ele, que se espelha na historia toda. Sei lá, vai ver não tinha televisão lá no raio que o parta pra onde foi enviado.
O cérebro de Aiolia não suportaria mais tanta informação, estava mentalmente exausto, assim como todos os demais no salão, precisaria de tempo para repensar sua vida sob esse novo ângulo.
― Tá, mas você ainda não nos falou o que foi feito de nossos parentes... – Indagou o Leão ansioso a Valkyria.
― Claro que disse. Falei que estavam seguros por enquanto...
Camus sorriu a contra gosto com as palavras da Caçadora.
― Quanta generosidade de Uranos e sua corja, não?
Afrodite completou o deboche. ― A gente tem que acreditar que estão sendo bem tratados por que...?
A Caçadora do Fogo respondeu sem rodeios.
― Porque são moedas de troca. Urano os levou. Na verdade o plano dele era se apoderar de vocês, os Cavaleiros de Atena, para aumentar as forças de seu exército. Ou caso fossem contra sua ideia de domínio, exterminá-los.
― Mas como vocês chegaram primeiro a nós, então ele os levou como garantia... – Saga percebeu antes dos outros o destino de seus familiares. ― Ele pretende nos chantagiar para que mudemos de lado?
Atalanta respondeu sem conseguir conter certo prazer na posição mais que complicada em que os dourados se encontravam.
― Não mais. Ele sabe que estando conosco ouviriam toda a história e conhecendo a índole dos guerreiros de Atena, não guarda esperanças de que vocês se aliem à causa dele.
Aiolia parecia perdido diante dos fatos,o que seria feito de Marin? Sua voz soou preocupada, com uma urgência incontida.
― Então nós não podemos fazer nada para ajudá-los?
― Claro que podem. – Respondeu Valkyria num tom baixo para tranquilizar todos eles ― Uranos sabe o valor de cada um deles pra vocês. Está apenas esperando o momento certo para fazer a troca.
― Mas... se sabe que não nos terá como aliados... resta apenas uma opção...
A voz arrastada, monótona e rouca de Katrine ecoou pelo salão como um mau agouro, surpreendendo a todos por finalmente esboçar qualquer comentário.
― Aniquilação.
Um estalo ensurdecedor acompanhado de um lampejo branco encheu a sala, atravessando o navio de ponta a ponta, fazendo objetos tremerem e outros caírem no chão. Tudo escureceu durante alguns segundos, a tensão e surpresa impediam qualquer comentário ou reação.
O breu não durou muito, logo um foco de luz encheu o restaurante, era Jana que improvisara um pouco de iluminação com seu cosmo concentrado na mão que brilhava forte e pálida por trás daquela energia.
Milo reparou em seu semblante, notou que ela não sorria mais, agora mostrava-se mais séria do que no momento em enfrentou o louco na sala de Saga. Sua voz saiu tensa.
― Val, esse relâmpago caiu muito perto...
Uma agitação confusa tomou conta das Caçadoras enquanto Valkyria entendendo o perigo representado pela observação de Jana começava a dar ordens às garotas.
― Daphne, vá lá fora e descubra o que está havendo, Atalanta vá com ela. Jana e eu encontraremos o capitão, talvez haja tempo para dar a volta. E você, Palas, leve os rapazes em segurança até suas cabines!
― Deixa comigo! – gritou Daphne seguida por Atalanta deixando o salão.
Palas se preparava para escoltar os rapazes, quando Milo e Aiolia estacaram no lugar se recusando a sair.
― Nem a pau! Cês acham mesmo que a gente vai ficar quietinho trancados lá embaixo sem saber o que ta acontecendo aqui em cima?
― Vamos com as duas lá pra fora, afinal como vocês sabem muito bem, não viemos aqui a passeio.
Os outros se prostraram junto a eles. Valkyria olhou para Jana procurando apoio para sua ordem, mas não o encontrou no rosto da amiga, que virou os olhos impaciente para sair dali.
― Eles têm razão, Val! Uma hora ou outra, vão ter que aprender a se virar. Vá pra ponte, eu e Palas seguiremos Daphne e Atalanta junto com...
Outro relâmpago fez com que a Caçadora da Luz se calasse. Estavam cada vez mais próximos. Uma corrente violenta de vento invadiu o restaurante abrindo com uma rajada as portas, que bateram contra as paredes arrancando pedaços de madeira e lascas de tinta.
Agora era certo que o vendaval e os relâmpagos traziam perigo consigo.
Jana precipitou-se para fora, seguida de Milo, Aiolia e parte dos demais rapazes, ao mesmo tempo em que Valkyria juntamente com Camus, Saga e Shaka corriam até a ponte onde estava o capitão.
A visão que se seguiu foi de total horror, mal chegou ao deque externo Jana visualizou a tempestade que se formava a poucos quilômetros de distancia do navio. Nuvens carregadas e tomadas por relâmpagos que rasgavam o céu diretamente até o mar, ondas cada vez maiores atiçadas por uma ventania atípica, se jogavam contra a proa enchendo o piso de água fria do mar.
A Caçadora da Luz tentou se aproximar de Atalanta que ao lado de Daphne procuravam estabilizar a embarcação usando seus cosmos. Os rapazes estavam petrificados, aquilo não era a visão de uma simples tempestade e mesmo se a imagem assustadora das nuvens cobrindo o céu noturno não lhes desse essa certeza, a conversa de minutos atrás, lhes fazia crer.
Jana gritava para Atalanta e Daphne enquanto lutava contra o vento que a jogava para trás.
― Está perto demais, Atalanta! Não vai dar!
Com as mãos estendidas para frente, a Caçadora do Ar continuava detendo o vento que se jogava furioso contra a embarcação, para que ele não virasse o navio com a ajuda das ondas. Daphne em pé diante de toda aquela imensidão azul fez com que Aldebaran percebesse que de fato, a Baixinha não era tão pequena assim.
― Jana! Avisa a Valkyria! Temos que sair, eles estão perto, vê? – Atalanta apontou para a imensa nuvem negra que espalhava raios para todos os lados.
Daphne gritou para ela.
― Não! A Ilha ainda está muito longe! Não poderíamos nem mesmo com meu cosmo levar todo mundo em segurança, não enquanto eles nos atacam!
― Ele não ousaria! – Berrou Jana tentando que as amigas lhe ouvissem apesar de todo o barulho ― Não poderia! Seria uma declaração explicita de guerra! Ele não está em seus domínios, não pode influenciar os domínios de...!
Atalanta soltou um grito estridente e ensurdecedor. Fora atingida em cheio por um relâmpago que se desprendeu de uma nuvem desgarrada da maior.
― ATALANTA! – O grito de Daphne encheu os ouvidos dos rapazes, Jana ficou sem reação, boquiaberta diante da ousadia do ataque.
A Caçadora Atalanta sentiu seu corpo formigar com uma carga elétrica latente e incandescente. Girou no ar antes de ser arremessada para longe e desapareceu no mar escuro como a noite, junto com uma imensa onda que engoliu Daphne, que se distraiu vendo a amiga sumir na imensidão profunda.
A onda desabou no deque lavando o navio ao mesmo tempo em que o vendaval tomava conta de tudo agora que a Caçadora Atalanta não o estava impedindo mais.
...
Valkyria se desequilibrou no corredor de acesso à ponte, junto com os rapazes, e só não se chocou com maior violência contra a parede oposta porque Camus a apoiou num ultimo momento.
Ela olhou para trás averiguando se os outros dois estavam bem. Saga se apoiara no corrimão estreito e Shaka se segurava a uma maçaneta da porta que dava para um dos banheiros.
Camus ainda lhe segurava pelo ombro para ajuda-la a manter o equilíbrio dentro de todo aquele balanço incessante, quando ela lhe encarou desesperançada, sabia que não havia outra saída.
― Eles chegaram. Temos que sair.
― O que? – O Aquário estava confuso, porém acima disso a preocupação com a tempestade fazia com que a idéia de jogar-se ao mar, mesmo em botes salva vidas, fosse pouquíssimo atraente.
Saga chegou-se até eles com esforço para manter-se em pé.
― Sair?! Pra onde? Se eles realmente nos alcançaram, não há como fugir mar adentro, há?
...
Jana viu Daphne ser devorada pela onda gigante antes dessa varrer o deque. A Caçadora com o dom das Águas caíra também no mar revolto. Olhou a volta e reparou que os rapazes ainda estavam todos lá, agarrados como podiam ao navio, molhados até os ossos.
Palas colocou-se de pé, sabendo que de nada adiantaria, porém tinha certeza de que tentar era um ultimo recurso antes de tomar uma medida desesperada. A imensa massa cinza estava acima deles e a garota no centro da mesma, poderia ser atingida a qualquer instante por um raio.
Aiolos olhou assombrado para a garota gigante, que encarava a nuvem com um olhar desafiador. Ela gritou a plenos pulmões acima do som da tempestade de vento, a água do mar respingava com violência contra seu rosto.
― VOCÊ NÃO PODE! NÃO TEM ESSE DIREITO, ESSE NÃO É SEU DOMINIO! NÃO IRÁ LEVA-LOS!
Silêncio. A entidade ali não dava mostras de querer negociar.
Milo, ao lado de Jana, percebeu quando a nuvem se iluminou no centro exatamente sobre onde Palas se encontrava. Um vento ainda mais forte a envolveu, sacudindo seus cabelos e tentando arranca-la do chão, mas ela não parecia disposta a entregar os pontos à gigantesca nuvem negra.
Jana usou o braço à frente dos olhos para impedir que a ventania lhe atrapalhasse a visão e gritou para a companheira.
― Palas! Palas eles não vão te ouvir! Temos que sair! Agora!!
Em seguida a Caçadora da Luz virou-se sorrindo para eles, com uma firmeza na voz que deixava claro não haver opção.
― Pulem no três.
Afrodite apavorado arregalou os olhos. Pular? No meio daquela tempestade em pleno mar aberto, estando eles localizados no meio exato de lugar algum? Pra nadar até onde?
Mal percebeu o puxão no braço que Dohko lhe dera, arrastando-o consigo. Mais à frente Palas já mergulhava de um salto seguida por Aiolos, Carlo e Mu. Jana correndo ao lado de Shura, Aiolia e Milo, contava quase sem fôlego.
― Três, dois, um... AGORA!
Um ùltimo relâmpago maior e mais devastador, como a junção de todos os outros, caiu sobre o navio estendendo veios de eletricidade por toda a sua extensão.
Jana caiu com um baque surdo e dolorido no mar gelado, fechou os olhos ascendendo seu cosmo enquanto pensava num nome.
― Katrine!
No corredor, Valkyria e os outros viram o clarão do relâmpago, mas antes que sentissem o efeito da explosão de eletricidade, uma imensa esfera negra envolveu seus corpos, desaparecendo em seguida. No local onde estavam não restou mais ninguém.
O navio explodiu poucos segundos depois.
Mu abriu os olhos dentro d’água, viu os rapazes ao lado tentando lutar contra a forte corrente marítima, sabendo que os esforços deles seriam em vão. Mesmo que sobrevivessem ao afogamento, eles ainda estariam lá em cima esperando que todos subissem a tona para aniquila-los.
Afrodite tentou nadar até a superfície, porém, sentiu em seu pulso a mão de Jana, pesada como uma garra, e notou para seu desgosto que a garota exercia uma pressão de fazer inveja a muitos homens. Ele tentou se libertar, sem saber por quanto tempo mais suportaria segurar o fôlego, mas a Caçadora sacudia a cabeça numa negativa muda, sua boca cerrada e os cabelos negros numa dança desconexa cobrindo parcialmente seu rosto alvo.
Ela apontava com a mão livre para alguma coisa, algo estava chegando.
Aiolia sentiu um forte calor emanando as suas costas, uma luz dourada inundava o oceano. Aiolos foi o primeiro a ver e soltou um grito de exclamação, que dentro d’água tornou-se apenas uma enorme bolha de ar que fugiu rápida para a superfície.
Havia golfinhos, vários deles. Puxavam uma carruagem dourada e ornada de corais cintilantes como diamantes. Em pé, no meio da carruagem segurando as guias dos golfinhos, a figura de um homem. Cabelos azuis e olhar firme empunhando na mão direita um tridente, trajando uma armadura de ouro.
Era claro pela sua postura altiva somada ao cosmo dourado, que não se tratava de um homem comum.
Sem a menor duvida aquela certamente era a visão de um deus.
Ao lado da carruagem sereias com caudas compridas e coloridas nadavam numa velocidade inimaginável em direção a eles, duas delas carregavam em seus braços duas garotas desacordadas. Atalanta e Daphne.
Muita água. Água demais, o ar estava acabando e o frio fazia o corpo de Aiolia pesar. Seus pulmões ardiam numa pressão incontrolável e seus olhos teimavam em fechar. Tudo ficou escuro na visão dele, que com o corpo exausto e sem fôlego, desfaleceu no meio do mar noturno diante de tal visão.
CONTINUA...
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