Renascer Dourado
3 Descontrole
ESPANHA
Shaka se despedia da ultima criança da noite, porém, apesar de manter a educação, queria que o pequeno e sua família fossem logo embora, para finalmente poder ligar para os seus próprios pais.
Desde que eles telefonaram para seu celular, durante a aula, para avisa-lo de que chegariam tarde em casa por causa de uma visita a um velho amigo que estava muito adoecido, o jovem não conseguira se concentrar em mais nada. O que fez a alegria dos seus alunos!
Enquanto as pestinhas corriam de um lado para outro, cochilavam em posição de lótus ou simplesmente bocejavam e reclamavam o quanto à aula estava chata aquele dia, Shaka olhava angustiado para o telefone móvel que não conseguira atender a tempo, só o que faz foi ouvir o recado da mãe e sentir aquela sensação angustiante dentro do peito.
Tinha que ter chegado ao telefone antes do ultimo toque... E pra piorar, a má sensação aumentou logo após ouvir o recado, um alarme interno que tinha desde pequeno dizia que não era uma boa idéia, nada contra o senhor doente, mas alguma coisa estava o avisando que não era... seguro!
Era exatamente isso, sentia que os pais corriam um tipo de perigo.
Tentou ligar de volta pelo menos umas cinco vezes, mas o celular só caia na secretária, provavelmente eles o haviam desligado para dar atenção exclusiva ao doente...
Agora Shaka estava parado olhando fixamente para seu telefone portátil sobre o balcão de entrada da sala, tentando se concentrar num bom motivo para aquele sentido de prontidão que crescia dentro dele. Buscava alternativas para explicar o motivo daquele sentimento de perda que começava a pesar e apertar seu peito como se lhe tirando o ar...
Sua concentração era tamanha que não percebeu de imediato aquela energia dourada em volta dele, uma força palpável que envolvia seu corpo. Shaka olhou para as duas mãos, a angustia maior agora... desde quando? Desde quando aquela energia começara a aparecer nele, a transbordar de dentro pra fora de seu corpo?
Ele não se lembrava muito bem da primeira vez, porém, mais nítida era a lembrança de uma sala ampla e desolada, cheia de detritos de uma construção abandonada, ele tinha cerca de quatro anos, e estava sozinho. Enrolado em trapos e tremendo não pelo frio, mas pelo medo por estar sem um adulto para protege-lo... Comera pela ultima vez a mais de um dia e a fraqueza contribuía para sua tremedeira.
Sentado junto de uma mesa tombada de lado, encolheu-se dentro do tecido carcomido... Desde que os pais morreram há meses, ele vagava pelas ruínas do que um dia fora sua casa, que desabou durante uma tempestade matando seus únicos familiares conhecidos.
Embora chamar aquilo de casa era ser generoso, já que sua aparência não diferenciava tanto do barraco de outrora na visão de um humorista sarcástico, mas para Shaka era um refugio, um lugar para passar a noite mais perto dos pais que se foram.
Olhava fixamente para os pés descalços e sujos pelas andanças diárias sem rumo, quando ouviu um ruído atrás de si. Talvez nem o tivesse percebido se o silencio naquele lugar não fosse sua única companhia nas ultimas noites, e agora alguém estava perturbando seu amigo.
Olhou para o lugar de onde viera o ruído, metade de uma parede que antes servia pra separar o quarto da cozinha, agora tombada pela metade. Atrás dos tijolos ainda de pé, o som de passos arrastado... tinha mais alguém ali, uma segunda pessoa iria fazer de sua antiga casa um refugio para essa noite. Mas seria apenas isso? Será que o estranho não representava nenhum perigo...?
Shaka ainda pensava nessa possibilidade com sua mente infantil, no entanto com o já instinto de defesa se tornando forte dentro dele. Foi nesse exato momento, enquanto ainda olhava fixo para a sombra que se avolumava saindo da proteção da parede ruída, que ouviu a voz pastosa do homem:
– Ora, mas que coisa... um menininho tão sozinho como eu... – Shaka sabia que tinha alguma coisa errada na forma como ele articulava as palavras, elas saiam com dificuldade e tropeçando umas nas outras.
Ele se encolheu mais sob o manto esfarrapado ao ver o homem ainda coberto pelas sombras da noite, mas bem mais nítido agora. Ele usava roupas sujas, estava descalço e arrastava preguiçosamente os pés quando caminhava, na sua mão direito uma garrafa com o gargalo quebrado nas bordas... Mas era o cheiro dele que fez o garoto perceber o real perigo do estranho, um odor de sujeira de dias e dias acumulada, de urina ressecada contra a pele e roupas e o terceiro cheiro, agre-doce... inebriante. Shaka não sabia exatamente de onde veio a palavra quando essa brotou dentro dele como uma sirene: Bêbado. O estranho estava bebendo daquela garrafa e estava bêbado. Ele já havia visto pessoas assim, e geralmente elas se tornavam violentas.
“Corra!”
Disse uma voz aos seus ouvidos num tom calmo, porém firme.
Mas correr pra onde? Não havia ninguém por ali, e o adulto iria alcança-lo... Shaka olhou a sua volta, procurando algum lugar para se esconder...
– Nem pense nisso, garotinho! – A voz do homem agora se elevava de forma a mostrar que estava se zangando. Ele percebia sua intenção, pensou Shaka, e irá se enfurecer se eu correr e então, quando me alcançar...
“Corra porque nada vai te acontecer...”
Novamente a voz, Shaka não conseguia tirar os olhos do homem que estava se aproximando perigosamente dele.
– Mas não tem pra onde... – Shaka conversava com a voz, sem mover os lábios, sabia que tinha que ser assim, sabia que ela o ouviria dessa forma. – Ele vai me pegar... vai me machucar...
“Apenas corra, Shaka. Eu o protegerei!”
Shaka sentiu a mão do homem toca-lo no ombro, o forte odor invadiu seu nariz e o fez acordar do estado de pânico que detinha seus movimentos. O garoto gritou, se desvencilhando da mão do homem, correu deixando o manto na mão dele...
O bêbado soltou um grito atrás dele e mesmo sem se virar para ver, o garotinho ouviu os passos apressados, iniciando uma corrida para alcança-lo.
– Seu moleque desgraçado! Volta aqui sua peste!!
E ele continuou correndo, desviando dos móveis caídos, dos destroços de construção no chão. De olhos fechados num misto de pavor e revolta, ele cerrou o cenho para cobrar da voz – Você disse que ia me proteger... ele ta vindo...
“Não tenha medo, Shaka... Tudo será como deve ser.”
Uma viga exposta brotando de uma parede tombada, bateu fortemente contra a perna de Shaka, que sentiu a dor do corte na sua canela e perdeu a velocidade caindo segurando a perna ferida, choramingando de dor e medo. E então de novo aquele cheiro repulsivo e o estranho parado na forma do homem à frente dele.
Shaka tentou se arrastar, mas ele o agarrou com força pelo braço e o virou fazendo suas costas baterem com força contra o chão duro e frio de terra para depois colocar o joelho contra sua barriga, e jogar seu peso contra o garotinho, impossibilitando-o de fugir novamente.
Shaka olhava fixamente para o homem com lágrimas nos olhos, mas se recusava a deixa-las escorrer... ouvia novamente a voz, que transmitia-lhe uma estranha calma:
“Ele não irá te machucar... Não tenha medo... Eu estou aqui contigo...”
O homem tomou mais um longo gole da garrafa e a atirou para longe, sorriu com malicia para Shaka e limpando a boca com as costas da mão, disse:
– E eu aqui achando que ia ficar sozinho hoje, mas olha só que carinha bonita que você tem...
Shaka encarava-o com um olhar firme, com uma calma desafiadora, apesar das lágrimas retidas ali. Eram olhos quase vítreos. O estranho tomado de fúria pelo desafiador olhar do garoto, levou a mão ao seu pescoço, enlouquecido.
– Só que antes, a gente vai dar um jeito nessa sua teimosia. – Shaka não se movia, continuava olhando para ele, como um manequim sem vida jogado no chão.
Era como se não estivesse mais ali dentro de seu corpinho infantil, via tudo como uma terceira pessoa naquele lugar. Observava o homem tentando estrangula-lo, via seu corpode criança inerte diante da violência de um adulto embriagado... Perguntou para a voz:
– Quem é você?
O silêncio, apenas o estranho sobre seu corpo, machucando seu pescoço, impedindo-o de respirar e os seus olhos fixos no homem... imóveis.
Foi então que a voz falou alto dentro dele, como um grito ecoando poder, explodindo de dentro para fora.
“NÓS SOMOS O ILUMINADO!”
Respondeu a voz, e Shaka percebeu, que ela não vinha de outro lugar senão de dentro dele.
Seus olhos encontraram-se com os do homem que o machucava e o que viu o deixou surpreso... o estranho recuava com uma expressão de pavor, em seu rosto um reflexo dourado que saia dele, brotava do corpo de Shaka.
O estranho levou a mão à cabeça, enfiando os dedos na carne, marcando e arranhando o rosto com uma dor suplicante chorava e se lamuriava, enquanto Shaka levantando-se e olhando para as próprias mãos sentia todo o calor daquela energia dourada que emanava dele...
Caído de joelhos, o estranho se lamentava: -- Eu sinto muito, perdão... perdão senhor. Eu não sabia, eu não sabia...!!
Ele ergueu os olhos para Shaka, em pé a sua frente e seu temor aumentou ainda mais quando viu no olhar do garoto algo anormal para uma criança daquela idade. Havia mais do que frieza e desprezo ali. Se não tinha piedade no olhar impassível daquela criança, talvez não houvesse perdão também...
Ele recuou quando Shaka ergueu a mão rodeada com aquela luz dourada e tocou sua testa.
O grito de agonia ecoou contra os destroços, o homem sentiu seu corpo arquejar numa dor lancinante, sobre-humana... a visão do garoto ficou turva por causa das lágrimas e a ultima coisa que viu antes da escuridão total cobri-lo para sempre, foi o olhar do garoto... friamente calmo e fixos nele...
... Agora era tudo escuridão, não sentia mais seus braços nem suas pernas, apenas aquela dor percorrendo-lhe, dilacerando-o por dentro. Se ao menos pudesse gritar, mas sua voz foi calada para sempre... sabia que nunca mais veria ou falaria novamente.
Esse seria seu castigo, seria o preço a pagar por tentar fazer mal ao Iluminado.
Desde então Shaka sabia que havia alguma coisa muito diferente nele, aliás dentro dele. Nunca contou esse episódio aos seus pais adotivos, nem quando o levaram para a Espanha, um ano depois. Eles já lhe haviam dado uma família, uma vida, uma esperança e não agüentaria ver nos olhos de seus amados pais adotivos o pavor que vira naquele homem... Era melhor assim. Que ninguém soubesse o que nem mesmo ele podia entender.
Mas agora estava ali de novo falando com ele, sua voz interna, dizendo que seus pais corriam perigo, mas onde? Como encontra-los?
– Para onde? Eu não sei onde...
"Siga-os, sinta-os e vai encontra-los."
– Senti-los...
Shaka entendeu o que ela queria dizer e sem mais nenhuma dúvida correu para a rua, abandonando o telefone sobre a mesa, deixando a porta aberta...
...
ESPANHA
Dava pra ouvir a musica vinda do outro lado da porta no do fim do corredor, junto com o som eletrônico dançante os gritos estridentes das mulheres que assistiam ao show, se é que se podia chamar a apresentação daqueles rapazes de show.
Jovens vestidos com diversas fantasias para aguçar a imaginação e a libido das clientes, alguns de máscaras para ocultar sua verdadeira identidade, outros seminus, outros ainda com os corpos pintados e/ou tatuados.
Aquilo nunca foi problema pra ele, ganhava um bom dinheiro ali e era um trabalho honesto, embora um tanto fora do comum para os padrões da sociedade. Mas não era isso que incomodava Shura nesses últimos dias. Sempre que estava dançando para aquelas mulheres, não podia deixar de imaginar o rosto doente de seu pai desaprovando-o, sentido pela falta de forças para trabalhar e tirar o filho daquele lugar.
Não que Shura não se divertisse, mentira se falasse que não. Afinal consolar belas damas sozinhas na noite e ganhar dinheiro com isso, não era nenhum sacrifício... mas o olhar de seu pai naquela tarde...
Shura ajeitava a luva de couro de motoqueiro quando um dos rapazes do vestiário chegou rindo maliciosamente:
– Hahahah, ninã especial hoje, Shura?
Shura sorriu de volta, afivelando o cinto do jeans: -- No, Jean... Deixei algumas pra usted! Tô saindo mais cedo, não tô com cabeça pra fazer a alegria das ninãs na pista de dança.
O amigo se aproximou, agora desfazendo o sorriso e falando em tom mais cordial, demonstrando preocupação:
– Es tu patre, no? Tá na mesma?
– Ta pior... ahora ta numas de achar que vai morrer de um dia pro outro... Não ta dando mais pra deixar ele sozinho.
– Mas tenes que trabalhar, parceiro! Já que são só los dois, alguém tem que pagar os remédios dele e sobra pra usted.
– Yo lo sei... – Shura jogou a jaqueta de couro vermelha nas costas, e segurando-a por cima do ombro abrindo a porta, disse ao amigo: -- Mas acho que vou encontra-lo um poco mejor, uns amigos que conheceu no mesmo orfanato onde adotou-me, ficaram de visitar o velho hoje...
– Beleza. Fica em paz, hermano!
Shura já estava dando partida na moto quando teve a sensação de que esquecera de alguma coisa. Passou a mão pelos bolsos, deu uma rápida olhada na moto, mas sem conseguir descobrir o que seria, balançou a cabeça sorrindo com irritação.
A preocupação com seu pai estava começando a afetar sua memória, fosse o que fosse não devia ser tão importante e logo ele saberia do que se tratara.
Olhou o capacete e ficou na dúvida sobre se o colocava ou não... depois achou melhor não, precisava respirar, precisava sentir um pouco do vento balançando e despenteando seu cabelo para pensar melhor no rumo que a sua vida estava tomando, pensar no que fazer quando finalmente seu pai adormecesse para nunca mais acordar.
Shura já estava dando partida na moto quando teve a sensação de que esquecera de alguma coisa. Passou a mão pelos bolsos, deu uma rápida olhada na moto, mas sem conseguir descobrir o que seria, balançou a cabeça sorrindo com irritação.
A preocupação com seu pai estava começando a afetar sua memória, fosse o que fosse não devia ser tão importante e logo ele saberia do que se tratara.
...
GRÉCIA
Aiolos desviou os olhos, sorrindo divertido depois de ver seu irmão sem jeito fazer um carinho na namorada, Marin.
O rapaz não gostava do posto de segura-vela, então preferiu sentar numa mesa mais distante dos dois. Fazia um calor insuportável, o guarda-sol acoplado a mesa quebrava um galho, mas não podia se dizer que refrescava.
Estava com a boca aberta, pronta para abocanhar um bom pedaço do seu lanche cheio de gordura saturada que Aiolia provavelmente condenaria, claro!
Sendo seu irmão um amante de esporte, nada mais natural que condenar aquela quantidade de gordura, não que ele fosse algum tipo de hindu fanático por saladas... mas preferia um sanduíche de queijo branco e carne de chester, a um hambúrguer na brasa cheio de maionese e queijo derretido...
Aliás, igualzinho ao que Aiolos estava prestes a saborear.
Mas a boca permaneceu aberta e imóvel com o sanduíche a centímetros dela, porque seus olhos miraram numa garota que passava ao seu lado. Não pela sua beleza, ou pela forma como seu quadril se movia quando andava, e sim pelo tamanho dela.
A garota devia medir no mínimo 1,80 centímetros, e tinha um corpo de fazer inveja em qualquer marombeiro! Braços capazes de disputar uma queda de braço com ele e de obter um empate tranqüilamente, sem falar nas pernas... Dois troncos firmes e torneados onde nem uma fibra se mexia ou tremulava quando ela dava seus passos pesados.
Aiolia percebeu ter ficado durante um bom tempo observando aquela garota peculiar, porque mal notou que ela estava olhando pra ele, sorrindo simpática enquanto se dirigia a mesa ao lado da sua. O rapaz sorriu sem graça, enquanto colocava o sanduíche (agora um tanto desinteressante) sobre o prato descartável. Mas o sorriso desapareceu quando percebeu o pequeno acidente preste a acontecer...
A garota ainda olhando pra ele, não viu que a mesa estava perigosamente próxima, e tudo o que se ouviu e viu depois foi um forte baque e ela se estatelando de bunda no chão. Seria impressão dele, ou exatamente no momento em que ela caiu, pôde sentir um leve tremor no chão...?
Todos viraram a atenção para a garota alta, inclusive Aiolia, que só agora percebia impressionado o tamanho daquela mulher... Marin vendo o súbito interesse do namorado na moça caída, deu-lhe uma leve cotovelada enciumada.
Aiolos levantou-se e ofereceu a mão para ela se levantar e só então, depois de ficar cara a cara com a moça (o que não era muito difícil devido ao seu tamanho), reparou que apesar daquele corpo enorme, a garota tinha uma expressão meiga, quase infantil, proporcionada por seus olhos grandes e brilhantes.
– Obrigada... – Agradeceu numa voz sussurrada enquanto ele levantava a mesa que ela derrubara no chão com o corpo.
– Não há de que. Mas acho que... a perna ta meio bamba...
Ela corou ferozmente agora, a vermelhidão cobriu quase toda a face, perguntou:
– O que disse??!!
Aiolos sorrindo e coçando a nuca, se explicou melhor:
– A perna, da mesa!
A garota então abaixou a cabeça e esfregando sem jeito a mão na barra do vestido florido que usava, respondeu:
– Ah é. Eu estraguei, sou mesmo um desastre...
– Que isso... essa mesa tava mesmo capenga – O rapaz se aproximou dela e apontou a mão para mesa onde estava sentado e ao lado de sua cadeira havia mais duas vazias — Bom se você quiser, pode dividir a mesa comigo.
Ela arrumou o cabelo atrás da orelha, envergonhada.
– Humm... na verdade eu não posso demorar muito... e nem você...
Aiolia sem entender o que a garota quis dizer, olhou desconfiado pra ela, mas ainda com um meio sorriso no rosto – Como... o que você disse?
Mas não houve tempo para respostas, gritos, um forte barulho de mesas sendo jogadas e cadeiras sendo atiradas contra paredes, invadiram o pátio de alimentação do museu. As pessoas começavam a correr descontroladamente e a abandonar o local aos berros. Havia homens invadindo, homens usando vestimentas estranhas... não, não eram roupas eram... armaduras!
Homens usando armaduras em pleno século 21!! Cerca de cinco deles e o do centro, parecia o líder. Um guerreiro alto e corpulento, de cabelos louros claros caídos sobre o ombro numa cascada que deslizava sobre a capa pesada que ostentava, usava uma armadura vermelha e apesar de não ser mais alto que Aoilos, cada braço do sujeito dava dois do dele.
Aiolos imaginou o estrago que o soco daquele homem causou no rosto do segurança que cruzou o seu caminho quando ele avançava em direção as mesas. Mais perturbador que a sua força era a frieza com que falava... O tom monocórdio com que se dirigia a eles, deixando claro que os via apenas como criaturas inferiores, dispensáveis.
– Não percamos tempo com esses aqui. O que viemos buscar está à frente.
Aiolos foi tomado de um sentido de prontidão que nunca tivera antes. O dedo do estranho e bizarro homem apontava para seu irmão e Marin!
Viu quando Aiolia se levantou, furioso com o peito estufado e sabia o que o irmão estava pensando; ele podia ler os movimentos corporais dele ali estava escrito que não colocariam as mãos na sua namorada.
Não iria esperar até seu irmão caçula tomar o primeiro soco e correu para ajuda-lo, mas sentiu uma mão pesada e forte detê-lo pelo braço... era a garota:
– Não! Eles ainda não perceberam você... Não deve ir. – Ela tinha o cenho carregado e sério, nem sinal da menina tímida e desajeitada de antes. Mas isso não importava, porque o absurdo que ela disse não parecia digno de ser levado a sério. Aiolos se libertou de sua mão:
– Não devo ir? Que história é essa, garota?!
Ouviu um grito de dor, olhou novamente na direção do irmão e o viu socando um dos capangas de armadura do tal guerreiro de vermelho. Aiolia arrancou sangue do rapaz, e possivelmente quebrara o nariz dele também, foi o suficiente para que os outros três avançassem contra ele que se preparava para distribuir soco, cerrando os punhos.
Foi o suficiente para Aiolos sair do estado súbito de confusão em que permaneceu por poucos segundos e para correr para junto de Aiolia.
Que se danassem as explicações de quem eram e de onde saíram, o que importava agora era defender o irmão mais novo e a sua namorada. Mal percebeu que a garota corria ao seu lado, dizendo alguma coisa que ele não conseguia ou nem queria prestas atenção.
– Você não entende? Não podem lutar contra eles! Vocês não têm força suficiente contra um Herói do deus dos deuses!!
Aiolos só parou quando sentiu então alguma coisa atingindo-o no estomago, aliás não parou, voou alguns metros do chão. Não viu de onde viera, apenas sentiu a dor lancinante que parecia rasga-lo ao meio. Caiu de joelhos, amparando com a mão a barriga dolorida, sem nem notar o fio de sangue que escorria de sua boca... ao seu lado percebeu a garota parada olhando pra ele preocupada. Viu se aproximar o homem de armadura vermelha, ouviu sua voz forte.
– Quão tolos são os humanos... Poderia ter fugido como os demais que aqui estavam, rapaz. Mas por esse sentimento tão especial que une os irmão, entregou sua posição... Tsctsctsc... Acha que pode contra mim? Acha mesmo que pode derrotar...
Então ele gritou, cheio de um prazer cheio de arrogância destrutiva. Sua voz encheu o pátio e verberou contra as colunas altas e o teto.
– ... O ELEITO DOS DEUSES??
Ergueu o pé protegido pelo pesado metal de sua armadura e chutou Aiolos, que se viu novamente sendo jogado a centímetros do chão e caindo alguns metros à frente com o forte golpe.
Aiolia viu o irmão ser atacado, e a ira encheu ainda mais seu peito... Mas não podia ajuda-lo, não ainda! Tinha seus próprios problemas para resolver porque dois dos capangas de armadura o seguraram para que um terceiro o socasse no rosto.
Um deles, o que socava ria eufórico e cheio de desprezo.
– Então esses são os homens que preocupavam o nosso mestre? Achei que pudéssemos nos divertir pelo menos um pouco... mas não dão nem pra saída!!
Uma quarta voz chegou a eles, ela tinha um tom pastoso que deixava bem claro as intenções por trás de cada palavra.
– A nossa diversão fica por conta dessa gracinha aqui...
Então Aiolia viu, ele havia capturado Marin. Ela estava desacordada e uma grande mancha vermelha escorria de sua testa para sua bochecha... Vê-la desmaiada, sangrando e desprotegida nos braços daquele sujeito, fez seu corpo vibrar de ódio.
Sentiu uma explosão dentro de si e antes que se desse conta disso, os homens que o seguravam se afastaram, surpresos... A fúria era tanta que ele mal percebia a luz dourada que emanava de si.
Disparou contra o homem que segurava Marin, quando foi impedido pelos outros três que fizeram uma barreira a sua frente.
– Sai da frente!
Cego de raiva e com aquela energia ainda tomando de seu corpo inteiro, cerrou os punhos e partiu pra cima deles, mas parou de repente, derrapando no chão frio de mármore...
Alguma coisa estava acontecendo com o chão onde os homens pisavam, o mármore sob os pés deles começou a tremular, as peças brancas do piso racharam e o concreto grosso ficou a mostra, os três capangas caíram, sem entender o que estava acontecendo. A voz da garota alta chegou aos ouvidos de Aiolia, que se virou para então descobrir de onde vinha o poder que movia o chão daquela forma: A garota com os braços rígidos e esticados ao longo do corpo, dispensava uma energia, semelhante a que emanava do corpo dele em direção ao chão. A tal energia formava veios nele, rachando o mármore em direção aos três homens. Ela gritava para ele enquanto seus cabelos eram sacudidos pela forte energia que envolvia seu corpanzil.
– Vá salvar a garota, agora!!
Ele não esperou uma segunda chance, saiu correndo em direção ao homem que carregava Marin, ignorando os outros que já se levantavam e corriam em direção a garota que os atacara.
Aiolia ainda com o corpo cheio do calor que a energia dourada emanava, desviou de um ataque de luz que o homem jogou contra ele, e continuou avançando para acertar em seguida um soco no rosto dele... Ouviu e sentiu ossos estalando e não precisou de mais para saber que havia quebrado o pescoço dele com um único soco e que isso com certeza era resultado daquela luz cheia de poder que seu corpo liberava, e que agora vendo Marin cair ainda desacordada, mas a salvo daquele homem, sumia lentamente...
Estava se abaixando para apanhar a namorada no chão, quando sentiu um forte golpe atingir em cheios eu maxilar. Era como se seu cérebro estivesse sido sacudido, a carna de sua boca e sua gengiva cortando-se graças a pressão junto aos dentes cerrados... Mordeu a língua graças a pressão do golpe, rolou pelo chão com o impacto e tentou se levantar, mas sentiu algo quente encher sua boca e teve que inclinar-se para cuspir seu sangue no chão.
Mal teve tempo para limpar a boca com as costas da mão e mais um golpe, agora atingindo suas costas, fazendo suas costelas estalarem num protesto que atingia o limite da dor... Ele voou para bater de frente contra uma das colunas e o homem com a armadura vermelha caminhou sem pressa nenhuma para Aiolia, que tentava apoiar fracamente os braços no chão a fim de se levantar...
– Demonstre um pouco de sabedoria, mortal. Entregue-se junto com a garota, nosso Senhor pode demonstrar benevolência de Eras em Eras...
Ele agarrou com as duas mãos Aiolia pelo pescoço e o rapaz pode sentir os músculos rangerem debaixo da mão cheia de força sobre-humana do rapaz...
Mesmo assim, apesar da fraqueza pelos ferimentos e da falta de ar, ele ainda falou por entre os dentes, cheio de raiva.
– Pega essa benevolência e enfia no rabo do seu senhor!!
Os olhos do homem se tornaram duas chamas de fúria pela ofensa.
– Que assim seja, mortal. Prometo ser rápido!
A voz de Aiolos, repleta com um tom de aviso, falou logo as costas do guerreiro de armadura vermelha, que arregalou os olhos incomodados com essa intromissão.
– Mas eu não!
Ele foi atingido por um feixe de luz que se soltou do corpo de Aiolos e largou Aiolia, gritando de surpresa pelo golpe inesperado.
Aiolos avançou devagar contra ele, ainda com a mão no estomago dolorido pelo golpe que levara enquanto o guerreiro se recuperando, ria com desdém:
– E pretende me matar com um poder tão débil, mortal deplorável?
Aiolos sorriu, aquilo fez todo seu corpo doer, mas não importava. Agora não era só uma questão de defender o irmão e Marin, não sabia porque... mas algo lhe dizia que ali tinha muito mais envolvido.
– Matar eu não sei, mas fico feliz se conseguir arrancar uns dentes!
O guerreiro ferido no grande ego pelo deboche do rapaz, ergueu o punho e correu furioso de encontro a ele, Aiolos sentiu aquela energia dourada crescer dentro de seu peito, ergueu os braços para deter o golpe do oponente com um contra-ataque!
Mas foi impedido pela visão que tomou forma a sua frente. Novamente a garota alta, que agora se prostrou entre ele e o homem, agachada com as duas mãos espalmadas contra o frio chão de pedra.
O guerreiro cambaleou com o tremor que se formou sob seus pés, depois olhou com fúria para ela, avançando com os dentes a mostra contendo todo seu ódio, seus olhos quase soltavam faíscas em sua direção. Ele gritou quando ela jogou mais de sua energia para as mãos espalmadas contra o chão e paredes de terra, espessas como concreto circularam o corpo dele, formando uma prisão de argila ao seu redor.
– Maldita seja, sua Senhora e todos os que declararam guerra contra o deus dos deuses!!
Tudo que se viu sem seguida, foi a prisão de terra de fechar sobre a cabeça do rapaz e o eco de seus gritos morrerem ao longo do salão.
Aiolos olhou para ela espantado, estava preste a esboçar um sorriso, quando ouviram a voz desesperada de Aiolia.
– MARIN?!!
Correram para ele, enquanto o rapaz seguia jogando cadeiras e mesas para os lados, a fim de encontrar sua namorada.
– Onde ela está Aiolos?! Ela estava aqui! Eu vi!! Eles... eles...
Aiolos colocou a mão sobre os ombros do irmão, mas sua expressão não conseguia transmitir a tranqüilidade que Aiolia desejava... O irmão mais velho apenas balançou a cabeça, triste.
– Desculpa Aiolia, mas eu estava tão preocupado em proteger você que não vi...
A garota chegou até os dois, ainda tensa falou seriamente.
– Eles devem tê-la levado para fortalecer o outro exército... – Aiolia não esperou que ela terminasse, agarrou seu braço e o sacudiu com força.
– Eles quem?? Levaram pra onde?? Quem é você e de onde conhece esses caras?
Aiolos tentou acalmar o irmão, mas foi a garota quem o deteve ao agarrar sua mão e a retirar com força de seu braço, lançando a ele um olhar ameaçador.
– Todas as explicações serão dadas em seu tempo, Cavaleiros Dourado de Leão e Sagitário... mas agora devemos sair daqui...
Apontou para a prisão de terra que detinha o guerreio de armadura vermelha, ela começava a rachar e pequenos feixes de luz saiam de dentro dela.
– ... Se quiserem continuar vivos para salvar a garota.
CONTINUA...
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