Reminiscências
1 Único
Notas iniciais
Você está mudado.
É engraçado o modo como você se tornou absurdamente alto. Você já era antes, quando nos conhecemos, imaturos, pirralhos. Você ainda continua assim. Imaturo. Alto. Um tanto quanto magricela, devo dizer. Sua alimentação ainda é aquele terror do qual a sua mãe me falava?
Eu me peguei remoendo essas reminiscências há uns dias. Sempre tive ciência da posse que eu tinha sob seus desenhos — aqueles que você fazia mais rápido que a velocidade da luz e me dava entre uma aula e outra — mas então eu me encontrei, confusa, com aquele colar.
Aquele que nós dividíamos as metades. Eu não me lembrava dele até tê-lo entre os dedos. Parecia ter sido há tanto tempo, e olhando agora, ele me parece tão pomposo que até não me surpreende que eu tenha achado que fosse um pertence meu e de minha irmã a princípio. E agora aqui está você, na minha casa, sob o pretexto de passei pra dar um oi.
Um oi desapegado, despreocupado, tranquilo.
Queria estar assim, mas quando eu te acompanho até o portão de minha casa — aquele menor, já gasto, e que mais tarde eu teria apenas em lembranças — me dou conta, apavorada, de que estou usando o nosso colar bem quando você finalmente vira a atenção para mim.
Eu coloco a mão no pescoço como quem remexe despreocupadamente na gola da blusa, ansiosa e de repente, com medo de que você tenha visto.
Mas você não vê, é claro, já está se despedindo, sorrindo exatamente daquela forma que me faz querer voltar à escola, aos anos em que eu sentia coisas que não compreendia, mas que mantinha pra mim porque achava bonito, desde a forma como você me dava balas para curar a dor de uma nota ruim até naquelas vezes em que você metia o louco dizendo ter feito trocentos gols em meu nome só em uma aula.
Você vai, e de repente toda essa carga fica.
Você some na rua, e sua metade ainda está em meus dedos.
Você se abstém, e agora eu seguro a sua e a minha metade nas mãos.
Você vai, e não retorna.
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