Reminiscências

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá, gente linda! :D Olha só quem voltou para trazer dor e angst para o fandom de YoI! :'D (peço desculpas por isso desde já). A oneshot de hoje traz novamente uma história centrada na visão (um pouco OOC) do personagem Phichit. Pode ser considerada uma continuação de "Pôster", mas não é preciso ler a história citada para entender essa :3 Fanfic especialmente escrita para o Projeto Zine do Ciclo Lírico, promovido pelo grupo SBLAN (Sociedade dos Betas, Leitores e Autores do Nyah! A música que eu tirei para me basear e aplicar no andamento da fanfic foi Undisclosed Desires do Muse, indicação da minha beta! POR FALAR EM BETA, BridgesInTheSky foi um amor de atenção e prestatividade!! Me deu dicas valiosas e esclarecimentos ótimos nos erros gramaticais, dando um feedback super completo da leitura final. Recomendo DEMAIS o trabalho dela e estou muito contente com o resultado final do nosso trabalho, embora minha indisponibilidade nas últimas semanas tenha atrasado um pouco o martelo final :'D Contudo, fico o reforço: o trabalho dela foi maravilhoso. Se você tem alguma dúvida sobre valer a pena ou não contatar os betas do site, pelo menos para mim, a experiência foi maravilhosa! ➦ ANTES DE INICIAR A LEITURA, FOCA NA TIA NAT, RAPIDÃO, ALERTA DE [TW]!! >> Gente, muito possível que vocês encontrem referências, mesmo que sutis, a relação abusiva, então cautela na leitura, por favor. Não quero causar nenhum desconforto a leitor nenhum ;^; Acho que fiz todas as observações necessárias, hehe xD Quem ficou por aqui, muito obrigada pela atenção! Façam uma boa leitura e até as notas finais!

O celular de Phichit vibrou embaixo do travesseiro, atrapalhando seu sono. Embora desejasse tirar em suas férias tempo o bastante para descansar, não conseguia se ver longe das redes sociais, um costume não tão forte quanto em sua juventude, mas presente o bastante para se tornar um hábito, como escovar os dentes. Mesmo com parte de sua cabeça no mundo dos sonhos, abriu minimamente os olhos, tornando a fechá-los quando a luz da tela o cegou por alguns segundos.

Desbloqueou a tela e deslizou os dedos preguiçosamente em busca da origem das notificações. Seus contatos pessoais, como Leo e Guang, estavam tentando contato há quatro ou três horas, além das sete chamadas de vídeo ignoradas por um sonolento Phichit. Se os dois não estivessem tentando contatá-lo com tanto afinco, o tailandês pensaria que um dos dois tinha morrido, ou qualquer tragédia do tipo.

Preferindo checar o conteúdo das notificações sociais em vez de priorizar os amigos — Chulanont ainda não estava totalmente desperto para lidar com eles —, abriu um dos links que redirecionava a um site voltado à patinação artística, crente que algum escândalo o aguardava naquela busca. Perguntava-se o tipo de vergonha o aguardando ou se tudo não se tratava de alguma gafe divertida o suficiente para se tornar a pauta da semana, até que a notícia centralizada em letras garrafais afetou sua concentração por um um segundo ou dois:

FIM DO CASAMENTO VICTUURI

Por um breve momento, Phichit vacilou, quase deixando o telefone cair. Sabia que não poderia se deixar levar pelo sensacionalismo da mídia, repulsiva caça-cliques que vivia de escândalos para sobreviver, fossem esses verdadeiros ou não. Ainda mais se tratando de Yuuri e Victor, sob foco da câmera desde o anúncio de sua união como patinador e técnico há sete anos, sendo quatro dedicados à união matrimonial, manchetes como aquela eram muito comuns e de uma popularidade assustadora. Para quem dizia amar o casal on ice, o desejo de vê-los destruídos chegava a ser revoltante. Victor era o que mais se irritava com a exploração negativa de seu relacionamento, indo a público certa vez repudiar toda forma de mídia televisiva e impressa, o que refletiu de forma negativa em sua imagem. Sendo o clique preferido do meio profissional, Nikiforov ganhou o abandono dos paparazzi por quase um ano até um leve desentendimento público com seu esposo ebulir de uma só vez toda a saudade pela desgraça que sentiram os sensacionalistas. O anúncio coroando o retorno do russo para a primeira página? FIM DO CASAMENTO VICTUURI. Phichit se perguntava se todos eles tinham uma pasta personalizada apenas para deixar aquele título separado, a postos para quando precisassem anunciar o fim do casal ou pudessem colocá-lo em qualquer notícia de cunho duvidoso.

De todo modo, depois de cinco anúncios separando Victor e Yuuri, o aposentado patinador tailandês já havia se tornado especialista em caçar evidências e podia desmentir qualquer anúncio envolvendo Yuuri em poucos minutos — o que era uma pena.

Chulanont sentiria-se menos culpado se não torcesse para aquelas notícias terem ao menos um fundo de verdade. Sabia estar fazendo parte do grupo consumidor que só fazia popularizar aquele tipo de material mentiroso, além de ser uma vergonha apegar-se à expectativa do fim de um casamento, o mesmo em que fora padrinho.

Começou a procurar por fontes mais seguras para aquela notícia, em uma tentativa de esquecer a culpa por ser tão inflamado entusiasta da desgraça alheia. Todavia, a surpresa em encontrar cada vez mais sites reproduzindo a notícia o desnorteou totalmente. Não se tratavam de textos copiados uns dos outros, com fotos desatualizadas de três anos atrás; todos os veículos de informação, mesmo os menores e de limitado acesso, citavam links e davam seu quinhão em forma de texto, muito surpresos e até mesmo chocados em relatar pela primeira vez o fim do casamento de Yuuri Katsuki com Victor Nikiforov como algo real.

Baqueado com as confirmações aumentando assustadoramente conforme a pesquisa, Phichit abandonou as páginas de notícias e abriu os chats compartilhados com os amigos. Leo e Guang poderiam confirmar tudo aquilo ou causar a reviravolta decepcionante o avisando da mentira, Chulanont só precisava de coragem para enfrentar a decepção.

Abrir as mensagens ignoradas pelo seu sono foi de um teste de coragem sem precedentes. Emoticons com diversas expressões assustadas seguiam com prints e textos em inglês errado, dado a pressa de ambos em mantê-lo informado. Algumas notícias Phichit já conhecia, outras eram novidade, porém todas tinham em comum a mesma convicta afirmação: Victuuri não mais existia.

— Alguém confirmou isso? — perguntou, aguardando resposta.

PHICHIT!! — Guang exclamou em caracteres o que o tailandês conseguia ouvir de onde estava.

Você não viu a mensagem do Yuuri?? — A indignação de Leo seria capaz de fazer vibrar todo o continente americano.

Mensagem? Suspendeu a respiração com a ideia de ter recebido algum recado do japonês e ter deixado o contato passar despercebido. Após oficializada sua vida conjugal, Katsuki se afastou lentamente, até seus amigos só conseguirem notícias dele através de colunas sociais, as quais nunca eram confiáveis. Yuuri só não havia se tornado um completo estranho, pois fazia questão de cumprimentá-los sempre que possível, contudo, mesmo as raras apresentações de afeto eram apenas uma sombra de toda intimidade que um dia existira entre eles. O último contato havia sido no aniversário de Phichit, felicitações e desejos de muitos anos de vida, cumprimentos genéricos típicos da data. Esquecido no fim de sua lista de contatos, o nome de Yuuri notificava as mensagens ignoradas, abertas pelos dedos trêmulos de Phichit. Ele não sabia o que esperar além do próprio turbilhão emocional, tão agitado quanto as redes sociais.

Oi, pessoal — A saudação não especificada indicou a mensagem geral enviada aos amigos. — Provavelmente os sites ficarão uma bagunça depois de hoje, então preferi avisá-los antes que saibam por terceiros. Victor e eu nos separamos. Na verdade eu me separei. Não estou em condições de explicar agora e peço, se ainda estiver em condição para tal, que mantenham sigilo quanto essa informação. Prometo esclarecer tudo depois. Perdoem-me pela notícia repentina. Perdoem-me pela ausência nesses anos.

Leo com toda certeza havia garantido que tudo estava bem e Guang devia ter oferecido sua própria casa para acolher Yuuri, todos oferecendo seus fiéis ombros para amparo, como sempre havia sido entre os quatro. Todavia, a primeira reação de Phichit era totalmente errada e egoísta para tal circunstância: ele riu.

O sorriso contido foi a primeira amostra de toda sua alegria, alargando para um riso escancarado até o siso, por fim ressoando como uma muito satisfeita gargalhada. Yuuri e Victor não estavam mais juntos! Finalmente depois de tanto tempo, Victor estava saindo de uma vez por todas de seu caminho! Enfim aquela merda de estrela russa, que as pessoas não deixavam morrer, seria um brilho a menos ofuscando sua estrada em direção a Yuuri!

Aos risos, jogou os travesseiros pelo ar, fez dos lençóis parte de um bagunçado figurino comemorativo, improvisando em uma coreografia torta e sem propósito sua apresentação de gala; o divórcio Victuuri era a maior e mais reluzente medalha com a qual já havia sido presenteado, ainda que indiretamente. A felicidade de Phichit era imensurável e até mesmo um pouco egoísta. Embora soubesse quão difícil aquilo poderia estar sendo para Yuuri, não conseguia conter — e nem estava se esforçando para tal — sua alegria, ganhando com ela uma disposição que faria até mesmo a orgulhosa estamina do japonês sentir inveja.

Lembrar do — agora solteiro — amigo, voltou sua atenção ao telefone. Ele ainda precisava dar uma resposta e o fez sem pestanejar, digitando o mesmo tipo de mensagem pronta que ele sabia surtir efeito em Katsuki.

Não eram apenas os sensacionalistas que tinham suas cartas na manga.

— Sabe que quando precisar, estou esperando por você.

As setas na lateral do aplicativo acenderam, indicando a leitura de Yuuri. Embora tenha desistido de digitar algumas vezes, Chulanont teve sua resposta, a qual — foi divertido perceber — era extremamente previsível.

— Obrigado, Phichit.

Aquele convite sempre esteve aberto a Yuuri. Phichit sentia faltar muito pouco para o amigo aceitar.

.:.

A plateia não estava tão lotada quanto em seus sonhos multicoloridos, mas não deixava de ser mais realizador. Após aposentadoria, mais cedo do que os fãs podiam imaginar, a dedicação de Phichit resumia-se à pequena companhia artística liderada por ele. Ensaiando jovens e talentosos patinadores por ele próprio escolhidos a dedo, Chulanont dava seu melhor para passar aos contratados tudo o que a carreira no esporte o ensinou, responsável por transformar os quad flips e salchows em arte. Revezava sua rotina com apresentações anuais de seu show, todas organizadas em um semestre corrido e repleto de noites insones, enquanto os seis meses restantes eram emprestados à empresas cujas produções artísticas contavam com medalhistas olímpicos em seu cast. Contos de fadas jogados no gelo, como a Bela Adormecida, que por anos o assombrou ao ser associado ao casamento de seu melhor amigo, ganhavam uma dose extra de magia que apenas a patinação podia lhes dar. Porém, independente de quão belo fosse assistir nomes como Georgi Popovich marcando presença em Quebra-Nozes, nada era como voltar para a Tailândia e fazer de seu país, palco principal de suas criações.

O desfecho do show arrancou aplausos da plateia, flores dos mais entusiasmados e lágrimas de Phichit, o último a entrar para agradecer a salva de palmas merecidas. O holofote central o cegava e não permitia ver a plateia como um todo, mas isso era compensado por sua imaginação fértil e emocionada, capaz de ilustrar aqueles bancos com o mais variado tipo de espectador. Todo o esforço valia a pena.

— Phichit!

Riu alto, fingindo não buscar um rosto conhecido na multidão borrada e que sua mente não pregava uma peça de mau gosto ao fazê-lo ouvir seu nome ser ovacionado pela voz de Yuuri. Sentindo-se patético, curvou-se como o príncipe que aprendera a ser desde "O Rei e o Patinador", agradeceu uma última vez a presença de todos e se retirou com seu grupo, fazendo questão de parabenizá-los nos bastidores.

— Todos hoje, sem exceção, estavam maravilhosos! — O cumprimento exclamado poderia ser ouvido do lado de fora. — E ficaram sabendo do número de presentes? O dobro do ano passado! — Os punhos erguidos para o alto eram sinal do sentimento de vitória internalizado. — Nada disso seria possível sem vocês! Estou muito, muito orgulhoso do resultado que estamos tendo!

O entusiasmo era contagiante e o momento foi registrado com o clique certeiro de Chulanont. As curtidas e comentários subiam incansáveis com o registro massivo do camarim, assim como os votos e felicitações pelo sucesso do empresário que a cada ano conquistava mais espaço e elevava o nome da Tailândia a status mundial de atrações artísticas. O mundo não era de sorrir para Phichit, o que o obrigava a arrancar risos da esfera azul com seus melhores cliques.

— Certo, pessoal, uma última foto, por favor? — pediu, esticando o olho para o amontoado de arranjos floridos dados de presente, que vinham aumentando mais e mais. — Quero mostrar aos meus seguidores que vamos abrir uma floricultura.

A piadinha improvisada gerou uma risada coletiva, interrompida pela aparição discreta de um funcionário trazendo um sóbrio buquê de rosas cor-de-rosa. De olho no arranjo, seu tipo preferido de flor, Phichit quase perdeu o foco, precisando de mais registros que o necessário para enquadrar todo o elenco. Conseguida a foto, agora sem tanta importância, ele caminhou até o buquê rosado e admirou as pétalas frágeis, o suave tom de rosa embalado por papel transparente, onde um discreto cartão endereçava o destinatário.

— Phichit, você viu o lindo buquê que te mandaram? — um de seus contratados perguntou, encantado com o tamanho do arranjo feito de girassóis.

— Vi sim — respondeu em um murmúrio, deixando sala e flores para trás.

Do lado de fora, com os olhos presos na programação da noite, Yuuri Katsuki mantinha sua presença ignorada pelo horário, o cansaço dos transeuntes e a sombra projetada pelo poste mais próximo, quase como um fugitivo. Confortável no que pensava ser a segurança do anonimato, permitiu-se sorrir aliviado quando se deu conta de quem vinha a seu encontro.

— Yuuri… — Phichit pronunciou o nome do amigo calmamente, ao contrário de seu interior totalmente abalado pelo reencontro.

— Phichit. — Katsuki repetiu o gesto, rindo no fim. Não conseguia manter-se sério perto do tailandês e talvez fosse essa uma das razões que o fazia gostar tanto dele. — Seu show é ainda mais surpreendente quando o vemos ao vivo.

De forma certeira, Yuuri atingiu um dos fracos de Chulanont, acariciando sua vaidade. O elogio serviu de incentivo a ambos e a pequena distância foi diminuída com a aproximação de um abraço afobado, repleto de saudade pelos anos desencontrados. Era quase inacreditável terem ficado tanto tempo sem se verem.

— Por que não me disse que vinha? — perguntou Phichit, sem desfazer o abraço.

— Se eu fizesse, você teria uma preocupação a mais na cabeça. — A justificativa era válida. — E eu não queria roubar sua atenção da equipe.

Chulanont riu alto, estreitando o abraço uma última vez antes de sentir Yuuri desvencilhar-se de seus braços, trazendo um sorriso contido nos lábios. Sabia existir um outro motivo por trás da visita inesperada do japonês, mas Phichit preferiu evitar o esclarecimento da viagem e ficar com o benefício da dúvida, a de que era ele a razão pela qual Yuuri havia feito as malas para uma visita surpresa na Tailândia.

— Seu plano foi bem sucedido, porque agora você é minha prioridade. — Ignorou o constrangimento do japonês ser evidenciado pelo rubor crescente em suas bochechas e voltou-se para alguns patinadores que já deixavam o ginásio. — Avisem aos demais que eu estarei ocupado na próxima semana!

Reconhecendo no estrangeiro envergonhado Yuuri Katsuki, os artistas trocaram olhares assustados, cochichos escandalosos em seu idioma natal e sorrisos tortos. Ninguém acreditaria se eles contassem qual era a visita ilustre recebida naquela noite… Se tivessem metade do amor de Phichit pelas redes sociais, noticiariam aquilo com entusiasmo, porém eram tementes a seus empregos. Pelo menos daquela vez, ninguém falaria nada.

— Eu só passei para te cumprimentar e avisar onde estou hospedado, já estou voltando ao hotel.

— Por que hotel se você tem minha casa para ficar? — Phichit estava indignado tanto com a hospedagem quanto com a ansiedade de Yuuri em deixá-lo. De novo. — E como assim já está fugindo? Nós não vamos nem mesmo sair para beber?!

— Eu não podia vir para a Tailândia sem fazer uma reserva. — Katsuki riu ao informar o óbvio. — Também não sei se eu deveria beber, nem comi direito e cheguei faz cinco horas…

— E eu te convido para conhecer meu país há quinze anos. — Cruzou os braços, erguendo o queixo para cima em uma pose cheia de razão. Mais uma vez Yuuri cedeu e riu; aquela viagem era de fato a melhor decisão tomada por ele nos últimos anos. — Vem, eu vou te levar ao melhor e maior restaurante da cidade e…

— Que tal um bom e pequeno restaurante? — sugeriu Katsuki, cortando a empolgação do amigo pela metade. — Desculpe, eu só quero evitar um tumulto.

A mão de Phichit alcançou o ombro do amigo, depositando ali um gesto de conforto e suporte. Pôde sentir na ponta de seus dedos o leve tremor acompanhando o nervosismo, tal como no passado em Detroit. Aquela era a maior afirmação de que certas coisas não mudavam, e Phichit questionava-se até onde aquela resistência a mudanças poderia ser boa.

— Que tal a comida do maior e melhor restaurante da cidade embalada para viagem? — barganhou, convencido de que Yuuri cederia. — E no meu apartamento, já que eu estou certo de que você voltar ao hotel acompanhado não é bem seu plano.

Com um sorriso tentando neutralizar o semblante angustiado, o outro concordou. Phichit queria que o amigo pudesse se distrair, se ver livre da bagunça que vinha sendo sua vida, relembrar da calmaria de Detroit onde suas maiores preocupações envolviam treinos ao longo do dia e a escolha de algum filme para assistirem de noite, ou pelo menos até um dos dois pegar no sono. Maravilhosos e saudosos tempos que Phichit há muito tempo não se dava conta serem tão bons.

Apressado para o reencontro de anos, Phichit providenciou um táxi, não medindo esforços e cifras para chegarem logo em seu apartamento. Curiosamente, o lar de Chulanont não era como os shows promovidos pelo próprio; o excesso de brilho e cores ficava no gelo, enquanto o interior da casa nada diferia dos confortáveis tons neutros, acolhedores a seu modo. Ele esperava que Yuuri gostasse, embora o japonês apenas sorrisse e concordasse para todos os assuntos ditos apenas pelo tailandês.

— E como vai sua família? Fiquei sabendo que os Toshinori tiveram mais um filho, verdade? — da pequena cozinha, Phichit gritava perguntas, na vã esperança de obter respostas, ouvir a voz de Yuuri falar mais do que uma palavra solitária, condizente com sua aparência abatida.

Silencioso, não ouviu quando Katsuki arrastou os pés até a cozinha, encostando na lateral da porta como a sombra de um fantasma. Sua reação ao susto foi sutil, porém o suficiente para provocar um sorriso mais largo. Vê-lo mais à vontade, principalmente em um lugar livre de ameaças como o rosto de Victor, conseguiu fazer Phichit suspirar aliviado.

— Sinto que eu deveria estar organizando tudo, não você.

— Você é a visita, Yuuri! — desconversou, abrindo uma das portas do armário. — E você nem sabe onde ficam os pratos!

— Basta você me mostrar — sugeriu casualmente, caminhando até o amigo e se aproveitando dos poucos centímetros de vantagem sobre Phichit para apanhar a louça. — Viu?

A única coisa vista pelo anfitrião foram os olhos castanhos. Estava ali a segunda fraqueza dele.

— Phichit? Deve estar tão ou mais cansado do que eu, peço desculpas pelo inconveniente. — O tom de Yuuri era o de quem já sabe ser um incômodo e se conforma com tal sentimento. Abandonando os pratos sobre a bancada, ameaçou dar as costas e por um momento, o tailandês temeu vê-lo ir embora novamente. Era como se depois daquela porta, Victor estivesse o esperando com um casaco em mãos e um sorriso caricato, sua marca registrada que ainda fazia Phichit sentir vontade de rasgá-lo. Sabia no fundo que aquilo não era verdade, se tratando apenas de seu nervosismo somado ao cansaço da noite, no entanto, Nikiforov uma vez já havia levado o falecido cão a tiracolo em uma viagem ao Japão, logo após o anúncio do hiatus de sua carreira, Chulanont não duvidava de mais nada vindo do russo.

— Você nunca foi um inconveniente, Yuuri. Por favor, se fosse eu nem o chamaria para comer na minha casa. — Sem condições para fazer piada com a situação, Phichit baixou sua guarda emocional. — E se você realmente acreditasse nisso, não teria me procurado.

Os ombros de Yuuri caíram ao reconhecer a verdade nas palavras do amigo. Voltando a encará-lo com os olhos embargados, ele forçou um sorriso, culpado pela cena do autopiedade.

— Não queria brincar de vítima, eu só… — Engasgou, parando para respirar. — Eu não sei o que há de errado comigo.

Phichit também não, e por esse motivo não conseguia dizer nada.

— Todos dizem que estou louco, que estou jogando minha vida fora… — confessou o que vinha pesando em seu estômago há meses. — Mas eu já não lembro a última vez que vivi de verdade…

Palavras não se faziam necessárias. Phichit sabia como aquele desabafo era importante, principalmente vindo de Yuuri.

— Fiz as primeiras compras para meu apartamento novo em São Petersburgo e enchi os armários das marcas que o Victor gosta. — Riu desacreditado. — Eu nem comia aquelas coisas… Mesmo assim, as conservas estavam ali, uma de cada tipo. Me acostumei às preferências do meu ex-marido, para no final eu não ser da preferência dele.

— Não foi sua culpa, Yuuri. Todos nós sabemos que se dedicou a esse casamento. — Uma dedicação além da conta, porém não cabia à Phichit julgar. Ele não era o melhor exemplo de imparcialidade.

— Me dediquei a um casamento ou me anulei por um? Sabe, eu sempre pensei que era normal sentir medo de perder a pessoa amada, então fui ignorando meu pavor sempre crescente de um dia ser chutado porta afora por Victor. Eu sempre deixava o armário completo, as coisas arrumadas, aprendi suas refeições preferidas e as deixava feitas sempre no mesmo horário. Eu estabeleci um cronograma ao redor de Victor e seus hábitos e eu estava sempre tão cansado, porque ele simplesmente não para! — Levou as mãos aos cabelos, puxando-os para trás. — Está sempre ocupado com alguma coisa nova, quer inventar uma viagem diferente, não me deixava seguir com minhas anotações, eu só queria fazer tudo perfeito para agradar o homem perfeito… Eu não queria perder o homem que eu amava, até me dar conta de que não o amava mais — admitir aquilo em voz alta machucava. — E que ele não era perfeito. Fui o único culpado por projetar nele o deus que eu sempre vi, mas Victor é apenas humano… — Ergueu as mãos em sinal vago. Era tão óbvia a humanidade de Nikiforov que finalmente reconhecê-la soava patético. — Eu cobrei demais de um humano.

— Yuuri, o fim de um relacionamento não tem culpa apenas de uma das partes, a falha não foi apenas sua. — Tentou apaziguar, falando exatamente o que pensava.

— Mas como eu vou saber se ele também errou? Sequer conversamos sobre isso! — O abalo emocional explodiu em lágrimas grosseiras, contidas ao longo dos anos. — Nenhuma conversa! Nada! O que mais me incomoda não é nem a falta de elogio e reconhecimento pelas coisas que eu fazia, mas as reclamações, as cobranças que ele nunca fez! Passei anos temendo pelos cantos errar em alguma coisa, deixa-lo irritado, um medo descomunal por fazer coisas as quais não sabia se estavam certas ou não! Phichit, eu dediquei anos da minha vida para um estranho!

Vê-lo naquele estado e lembrar a festa feita quando o anúncio do divórcio se tornou oficial apenas aumentou a culpa sentida por Chulanont. Ele tinha certeza de nunca ter visto Yuuri naquele estado, completamente quebrado. Ressentia-se pelos anos de afastamento, sem imaginar o tipo de monstro enfrentado por Katsuki; o interno. Seu ciúme não o deixou ver em todo aquele tempo e ele admitia a culpa por ser o único a alimentar com frustração aquele sentimento que chegava a ser uma falha em seu caráter.

— Se você se negligenciou durante esse tempo, o mesmo fez Victor com você, Yuuri. — Agora era Phichit quem não conseguia conter as lágrimas.

— Mas os fãs não sabem disso. Não, os fãs não aceitariam isso em hipótese alguma! Victor é sim perfeito na cabeça deles, é maravilhoso, o herói da patinação russa, e em suas concepções, está profundamente desolado com meu abandono. Há também quem me ridicularize, dizendo que eu sou incapaz de causar dano a um deus como Victor e que eu deveria ter valorizado mais o que tinha, porque sozinho jamais teria a oportunidade de subir ao pódio. — A recordação das cruéis palavras dos fãs eram capazes de alterar o sentimento depressivo pela mais completa revolta. — Outros me acusam de ter usado o nome Nikiforov para conseguir status e destaque. Pode imaginar ler esse tipo de mensagem repetida à exaustão em todas as matérias que noticiavam o divórcio? — Infelizmente, Phichit podia. — Percebo que nunca fui o bastante para eles, começo a duvidar do valor e merecimento de cada medalha, inclusive. Eu sempre dependi de Victor para ser considerado alguma coisa.

— Isso não! Você nunca dependeu de ninguém para nada! — Phichit elevou o tom de voz, chamando atenção de Yuuri e provavelmente de alguns vizinhos. — Você estava inspirado, o que sentia por ele o inspirava e dessa inspiração nasceram seus programas e a disposição para vencer! Mas isso teria acontecido com qualquer outra pessoa, você poderia ter tirado inspiração de qualquer lugar se estivesse emocionalmente ligado a alguma coisa! Victor não é nenhum deus, ele não tem nenhum poder mágico que te fez subir naquele pódio, você era o melhor do Japão muito antes dos seus destinos se cruzarem! E eu não vou admitir te ver chorando por ele mais uma vez, como se sua existência não valesse nada!

Espantado com a declaração inflamada de diversas emoções, Yuuri levou algum tempo encarando Phichit, absorvendo cada palavra com cuidado. O tailandês perguntava-se até onde Katsuki conhecia a si mesmo para continuar reafirmando negativas quanto a sua existência. Ele quase podia ver o ex-patinador japonês trincar, desfazendo-se em cacos, pronto para desmontar totalmente no chão e ser varrido logo depois.

Com cuidado, aproximou-se cauteloso, ciente da fragilidade daquela peça tão rara que era Yuuri Katsuki. Levando suas mãos sem alarde, segurou o rosto abaixado, erguendo-o para ser assim capaz de encarar os olhos castanhos. Sentia estar sustentando nas mãos trêmulas os pedaços prestes a desabar, tentando com aquele gesto reencaixar as partes que ainda poderia salvar.

Se nos últimos meses — estes posteriores ao divórcio — em que voltaram a conversar, tivesse notado os sinais de toda aquela fraqueza, teria feito diferente. No entanto, não tinha tempo para remoer o passado, quando sabia poder a partir daquele instante construir um futuro diferente, nem que para isso ele usasse os cacos de Yuuri para começar a pavimentar aquela estrada.

— Você não está sozinho, Yuuri — garantiu e o fez com a intenção de ser entendido. — Eu vou te ajudar no que precisar, se você quiser.

Concordando em silêncio, o japonês se deixou ser abraçado, depositando no gesto todo o peso do cansaço sentido naquela luta solitária. Phichit sabia ainda existir fragmentos remanescentes de Victor Nikiforov ferindo o exausto coração de Yuuri, contudo, felicitava-lhe saber que o russo não passava disso, sobras de um sentimento, o resto.

E restos sempre eram jogados fora.

Estava disposto a reconciliar-se com o passado e preencher o buraco deixado com sua própria presença. Tendo o japonês em seus braços, entregue em total confiança, conseguia reconhecer que a beleza emocional de Yuuri não era somente uma máscara; ela estava ali, em cada toque, cada olhar, escondida e temerosa de ser um incômodo.

Phichit iria ajudar em cada novo passo dado, exorcizar cada um dos demônios passados, as reminiscências de uma vida a dois que não mais seria um problema; com a autorização de Yuuri, ele tinha mais do que certeza de ser capaz de satisfazer todos os desejos secretos de seu coração.

Notas finais
Um esclarecimento sobre o significado das rosas cor-de-rosa recebidas por Phichit e sua aplicação na capa que ilustra essa história: ➦Rosas Cor de Rosa : são consideradas como símbolo de graça, delicadeza e elegância e são usadas para expressar admiração, simpatia, agradecimento e amor poético. A admiração de Yuuri por Phichit... E o egoísmo de Chulanont em forçar uma situação. O que ele fez com as rosas de seu melhor amigo? O que ele fez com seu significado? Phichit quer mesmo revelar desejos do coração de Yuuri ou projetar nele as próprias vontades? Onde acabou sua boa vontade e onde começou a manipulação? Relações abusivas não acontecem apenas entre casais, elas também valem para família e amizade. Fica o alerta para essa questão, também. Muito obrigada pela leitura e quem acompanhou até o final. Reforço meu agradecimento à BridgesInTheSky (que pode me corrigir se eu errei aquela crase ali haha), sem ela essa oneshot não teria sido possível. E claro, ao SBLAN, pela oportunidade de participar desse Zine! A experiência foi ótima e espero poder participar em uma próxima! :D Grande abraço e até a próxima! ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!