Remember December

1 Capítulo 1 - Melodia


Notas iniciais
Leiam lá em baixo!

O pesadelo invadiu-lhe a noite mesmo antes de as pálpebras fechar.

As imagens felizes queriam sobrepor-se ao sonho. Tentava recorrer a memórias felizes, mas essas estavam tão enterradas no passado, que a sua mente sucumbiu à magoa e inquietação. Os flash's intrigantes desfilavam desordeiros pelo seu inconsciente: gritos, lágrimas, um adeus atribulado... até que a parte racional do seu cérebro tomou-o ciente de que tudo aquilo não passava de um sonho. Não! Atendendo ao ponto realisto, o termo mais ousado será mesmo — Pesadelo.

Jason McCann saltou sobre a cama, semierguendo-se, entre soluços interrompidos e batidas de coração descoordenadas. Por mero impulso, levou as mãos trémulas ao rosto, limpando parte do suor abundante. Não era natural, nada normal de facto, que Jason estivesse a ferver em pela noite de Dezembro.

Virou lentamente a cara para o seu lado esquerdo e deixou que os seus olhos de um castanho profundo, vislumbrassem a chuva que se precipitava para lá da janela. As gotas batiam com força nos vidros, mesmo assim, Jason ouvia algo para além do estrondo que estas faziam ao embater na superfície transparente.

Pestanejava os olhos, na penumbra do seu quarto. Foi inundado por uma estranha sensação de solidão, tinha tanto espaço ao seu dispor no entanto refugiava-se a um canto, como que (indirectamente) para manter-se à parte, à anos que era assim.

A sua respiração descompassada abrandou.

Sentou-se e colocou os pés a cru, no chão, sentindo vibrações vindas para lá da porta de madeira do seu espaço. Jason franziu as sobrancelhas, alimentando a ideia de que provavelmente era só a sua cabeça atordoada a criar essas ilusões. Claramente, não era. As vibrações ficavam-lhe cada vez mais sensíveis, e rapidamente se apercebeu de serem passadas cautelosas. Esticou o braço para o seu lado direito e acendeu o candeeiro, a luz era fraca, mas ele não precisava realmente de ver. No entanto, fora o suficiente para acordar Mars, seu gato, que lhe saltou para cima da cama, indo roçar-se no dono, ronronando baixinho. Jason afastou-o, como resposta, Mars revirou-lhe o focinho e descreveu um circulo sobre o edredon para assim aninhar-se. O rapaz levantou-se, franzindo a sobrancelha. Encaminhou-se para o exterior do quarto, logo depois de abrir a porta devagarinho.

Olhou os pés, procurando concentrar-se nas vibrações que ainda podia sentir. Seguiu o estremecer do chão, elaborado num azulejo castanho, caminhando ao longo de um extenso corredor limitado por uma outra porta. Jason abriu-o, e a diante estavam umas escadas de madeira. Subiu-as lentamente. Ele adorava a sensação de calcar as tábuas irregulares e ainda mais do chiar das mesmas. Coçou o tronco nu, estando apenas envergando umas calças de pijama, e pousou a outra mão no corrimão.

À medida que se achava cada vez mais próximo do que seguia, começava a ouvir algo... uma melodia sibilante quase mística. E Jason conhecia-a demasiado bem. Acelerou o passo, rangendo dentes e ao chegar a mais outra porta, abriu-a bruscamente. Estava no sótão da residência McCann.

Um momento depois, deparou-se com uma figura que ganhara forma com a luz ténue que trespassava o vitral, ficando momentaneamente hipnotizado pelo silêncio. Estava frente a frente com Lissa, algo que Jason sempre evitara fazer. Era como se ela, efectivamente, fosse portadora de algum vírus mortal ou pior.

Aquela melodia continuava a ecoar na cabeça de Jason. Os olhos frios dele fitaram o que a rapariga tinha entre mãos. Uma caixa de madeira elaborada num tema floral.

Jason, perdendo a cabeça, tirou-lhe das mãos e abriu-a. Lissa observou os olhos dele mudarem de brilho, agora estavam meigos e marejados, mirando a bailarina de porcelana ascendendo do objecto. Rodopiava sobre si mesma de braços ao alto e pernas entrelaçadas, emitindo a tal melodia sibilante.

- Estás bem? — Perguntou-lhe Lissa, quebrando o momento.

Jason alçou os olhos da caixinha de música à tanto tempo perdida naquele cubículo escuro e poeirento. Agora ele sentia-as. Sentia as memórias e a saudade de um passado impossível de reaver. Formou-se-lhe um nó familiar ao centro da garganta, um calor por detrás da vista e um ardor no peito. Jason estava hirto, completamente petrificado diante Lissa.

- Isto... não é teu — Exclamou ele, de voz quebrada.

- Eu sei, mas é tão linda — Afirmou Lissa, abrindo um sorriso inocente e deslumbrado.

- Isto não é teu! — Gritou-lhe Jason, fazendo-a recuar instintivamente.

Desta vez, quem ficou calada foi Lissa.

O pulsar do seu coração começou a bombear brutalmente, e fez um esforço descomunal para que as lágrimas não desabassem. Não à frente dele. Voltou a disparar na direcção de Jason, tencionando ultrapassá-lo a fim de bater ombros. Os cabelos negros e lustrosos dela embateram na face dele, e dessa maneira, retirou-se em choro. Indiferente, Jason caminhou para o parapeito da janela e encostou a cabeça no vitral, tacteando o objecto à medida que o passado fluía.

Havia uma canção presente, versos por cantar... rodopiavam na mente dele, palavras sinuosas, surdas e receosas. Jason fechou os seus olhos, querendo-se perder naquele silêncio cantado.

∞

Ajeitando o casaco de cabedal preto,e com uma mochila às costas, Jason parecia apressado.

Estava esperançado que ainda ninguém se tivesse erguido na herdade, ou não fossem apenas seis da manhã, mas ali, todos trabalhavam com as galinhas. Por assim dizer, pois na verdade só haviam cavalos e cães para cuidar. A propriedade era tão grande que só a residência ocupava metade do espaço, estendida ao comprido. O edifício apresentava uma arquitectura elaborada, semelhante à de um palácio moderno, com altos pormenores e trabalhos esculturais.

À frente da Residência McCann e cercados por grandes portões de ferro forjado, jaziam pequenos jardins tal como nas traseiras, mas esses tinham diversos acessos. Um deles iria dar aos estábulos, para onde Jason se dirigia a toda a velocidade, na fé de não se cruzar com algum trabalhador. Não queria de forma alguma passar pela cortesia de cumprimentar alguém e fazer-se passar pelo ilustre jovem bem educado, que de facto estava longe de ser. Jason assumia-se sendo um adolescente com os seus dezoito anos, reservado e alheio ao que o rodeava, pelo que muitas das vezes não atendia às regras de etiqueta que, desde pequeno, seus pais lhe tentaram impor. E servia isso, para? Tornar as pessoas ainda mais falsas? Queriam os seus pais, Carl e Glory McCann, que o filho se torna-se hipócrita a esse ponto? Mostrar um sorriso enquanto que o dedo do meio tomaria melhor curso do momento? ...Grrr.

Azar o seu, porque Johnny interceptou o seu caminho. «Logo agora que estava tão perto», praguejou Jason aos seus botões, olhando a porta do estábulo sobre o ombro do homem barrigudo e com uma barbinha em pente sobre o nariz.

- Bons dias rapaz, bons olhos te vejam! — Johnny, na sua melhor linguagem de rude camponês, deu um encosto no ombro de Jason e este retraiu-se um pouco.

- Bom dia Senhor Johnny — Jason inspirou fundo, antes de apertar a mão gordurenta e suada do homem. Comprimiu os vómitos assim que o fez.

Quando Jason pensou que a conversa ia ficar por ali, Johnny voltou à carga no discurso.

- Não te tenho visto por aí, Jaxon — Ou era dos dentes postiços, ou o homem tinha prazer em pronunciar mal o nome do jovem patrão.

Jason ajeitou o colete negro que envergava, sobre a camisa branca. Por norma, sempre que tencionava andar de cavalo, era assim que este se vestia, contando com as jeans pretas e as botas de borracha igualmente negras. Muito gostava ele de se camuflar na escuridão. Contudo, a sua tez pálida acabava sempre a contrastar nessas vestes arrojadas. Mas a intenção era sempre a mesma — passar-se despercebido.

- É Jason — Pronunciou o próprio -, e é normal que não me tenha visto. Não tenho andado por aí.

- Então? Andas doente?

- É. Doente disto tudo — Murmurou Jason, inaudível — Nem tanto. Com estas chuvadas, não há melhor que o lar para nos reconfortar.

Ambos olharam para os céus. Por acaso, o tempo estava estável. A chuva decidira manter-se nas nuvens carregas, ao que deu a entender aos dois que à noite voltaria à carga.

- Bem Jaxon, há trabalho para adiantar. Resto de um bom dia — Despediu-se Johnny, erguendo a mão em aceno já um pouco distante do jovem.

- É Jason, merda! — Rangeu o rapaz, contraindo o maxilar e cerrando punhos.

Voltou ao método da respiração a fundo, e acumular toda a paciência que conseguisse. Ou não se fosse cruzar com mais algum atrasado, pois na sua cabeça, não passavam todos de uns atrasados ambulantes. Burros e habituados à estrumeira. Obviamente que Johnny era o pior deles todos, assim pensava Jason. Sempre tão bronco e deslavado, naquela camisola cava encardida e as calças de ganga igualmente sujas.

Jason abanou a cabeça e encolheu os ombros, precipitando-se para o estábulo.

- Agora sim, põe "bom dia" nisso — Zombou Jason, mirando Catara, a que dava aulas de equitação na propriedade.

Muitas eram as crianças que vinham semanalmente para uma sessão com a linda professora, de apenas vinte anos. Loira e graciosa, corpo escultural, rosto de menina... respirava beleza.

Não estranhou a presença dela, pois Johnny sendo o pai da mesma — inacreditável -, tinha obrigatoriamente de andar nas proximidades. Distraída enquanto afagava a uma égua, Jason apareceu-lhe por trás, sussurrando-lhe ao ouvido:

- Bons olhos te vejam, menina — Imitou o tom retardado do pai dela, no gozo.

- Ai — Virou-se para ele, entre risinhas -, meu Deus, Jason assustaste-me. Odeio quando apareces assim.

- Pensava que adoras — Olhou em redor, vendo-se livre de a beijar.

- Pára com isso, tenho namorado e tu sabes bem! — Afastou-o, revoltada.

- Sim. Mas deixa lá, os tempos dele cá na quinta estão contados fofinha — Jason dirigiu-se à cancela do seu cavalo, uns metros ao lado de Catara.

- Desculpa? — Reagiu ela — O que queres dizer com isso?!

Ele fez tempo para responder. Adorava fazer isso às pessoas.

Libertou o cavalo, à medida que o puxava por uma corda, estalando a língua para o cativar.

- O que é meu é meu boneca — Disse ele então, já de saída.

- Não sou tua! — Gritou Catara, batendo o pé — Ordinário.

∞

A galope, Jason estigava Hércules a seguir pelo caminho estreito e comprido, a saída da Residência. Ouviu risos que o levaram a parar o cavalo e recuar o olhar. Lá estava Lissa, rindo com Johnny, de alguma piada camponesa típica do homem. Que hediondo. «Vê-se logo que és adoptada», murmurou ele, seguindo então com certa velocidade. Deu por si a perguntar o porquê dela estar levantada àquelas horas da matina, mas rapidamente dispersou esses pensamentos escusados. Não queria, de maneira nenhuma, perder o seu tempo a pensar na "substituta da irmã". Que falsidade. Que...que...que...que miúda mais irritante! Isto na cabeça de Jason. Era suficientemente mau que a culpa do falecimento de Lilith estivesse sobre os ombros de Carl, seu pai, porque é que ele tinha de piorar a sua situação com o filho? Sim. Fora Carl quem convencera Glory, sua mulher, na ideia de adoptar Lissa e integrá-la na abastarda família McCann.

No pensamento de Jason, nada disso fazia sentido, não estava certo simplesmente e por isso, jamais iria aceitar Lissa. Não iria passar de uma reles qualquer marcada pelo passado.

Mal se apercebeu, Jason estava já às portas do cemitério local. Fora inundado, novamente, por aquela sensação de vazio e magoa. Aquele sentimento atordoante que sempre tivera a capacidade de o enfraquecer a todos os níveis.

Jason caminhou sobre a terra mórbida, evitando olhar as campas, davam-lhe arrepios mesmo tendo a noção de que era algo banal. Sabia perfeitamente que na vida, nada era tão certo quanto a morte. Mas e o medo? E a impressão? Bem. Esses factores haviam sempre de estar presentes.

Agachou-se sobre "a" campa. Não trazia flores consigo, nunca trouxera antes. Sempre que visitava Lilith, trazia sempre algo material. Algo que não murcha-se ao fim de certos dias.

Dobrou as mãos à mala e retirou de lá a caixinha de música da noite anterior. Pertencia a Lilith, e sempre que em novinha esta custava em adormecer, Jason punha-lhe a tocar aquela mesma melodia. Era instantâneo, Lilith caia no sono momentos a seguir. Tristes mas felizes memórias. Gravadas no seu coração, mais permanentes que uma simples tatuagem.

Jason procurou abrir um buraco na terra, escavou, escavou e escavou, tingindo as mãos de um castanho lamacento. Lá colocou a caixinha, e assim a enterrou.

- Assim ninguém lhe toca — Disse Jason — É tua meu amor. Sabes que tenho pensado muito em ti? Quer dizer, penso sempre — Fungou, sentando-se sobre a campa de costas voltadas para a lápide. Não queria estar sempre a fitar aquela data horrível em que a irmasinha tivera fim. Que crueldade, morrer-se com cinco anos -, não há dia que não pense em ti, mas estes Dezembros são sempre tão nostálgicos sem ti. Sufocam-me, percebes? O pai e a mãe continuam a fingir que têm uma vida perfeita agora lá com aquela Lissa. Nem à um ano está connosco e pensa que te pode substituir. Achas bem? Como é que puderam fazer isto contigo?

Jason suspirou, querendo reaver forças nas palavras.

- Pergunto-me se ouves o que falo — Eis o que Jason tinha imensa curiosidade em saber — Pergunto-me se...sofres ou...não. Eu sofro. Sem ti, sofro muito. Queria encontrar aquele maldito homem e fazer-lhe o mesmo que fez contigo. Está preso, o pai acha-se um herói só porque o conseguiu prender. Não é o meu. Nunca será. E o teu Lilith? Quem é o teu herói bebé?

O silêncio bloqueou-lhe os sentidos.

Jason saiu dali, antes que as lágrimas voltassem em força. Não podia chorar em frente da irmã, no sentido figurativo.

Notas finais
Meu deus, acho que nunca escrevi com tanto pormenor na minha vida xD espero que não se tenham aborrecido, e a história vai ganhar sentido. Tudo aos poucos *w*
2 Reviews para o próximo capitulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.