Remember
1 Capítulo 1
Notas iniciais
11 de setembro. Dois anos que eu estava fora de Londres, da minha cidade. E tudo por que a droga de um segredo veio à tona e fui obrigada a me mudar. E um segredo revelado por quem eu menos esperava. Vendo dessa maneira o atentado não foi a única coisa catastrófica que aconteceu nessa data. Aconteceram tantas coisas nesses dois anos, mas a principal delas é o fato da minha abstinência forçada de tecnologia. Minha mãe tirou meu computador e guardou no banco. Isso mesmo, em um banco. Em um cofre fechado. Meu celular foi destruído, e o numero apagado, depois das tantas mensagens ofensivas que acabei recebendo. Eu utilizava o computador sob a vigilância dela. Dona Eliza podia sem bem difícil quando queria. E ainda mais difícil quando não queria. Mas lá estava eu, sentada na janela do meu quarto vendo as pessoas passarem sorrindo pelas ruas de Amsterdam, meu lar há dois anos. A cidade podia ser muito boa, mas um tanto tediosa se você não tem facilidade em fazer amigos, se tem a infelicidade de fazer os amigos errados. Eu gostava de ficar sentada ali, encostada na janela e com os pés nas telhas. No inverno é pouco complicado fazer isso, mas eu consigo dar meu jeito. De certa forma sempre fico esperando ver algo diferente dali. Sempre as mesmas pessoas, os mesmos turistas perdidos. Quem sabe por um acaso do destino ele não viesse parar ali. Mas sei que o destino não é tão ferrado assim. Quem iria parar em um bairro familiar assim do nada? Depois de tudo que me aconteceu, descobri que ter esperança realmente é algo fútil demais.
–Kathy? –bateram na porta. –Katherine? –Ela insistiu.
–Entra Eliza. –Resmunguei.
–Quantas vezes vou ter que pedir para me chamar de mãe? –Ela me olhava brava.
–O que quer?
–Robin me convenceu. Eu vou cumprir minha promessa.
–Sua promessa? –Meu corpo ficou rígido. Eu voltaria então para Londres?
–Devolverei seu computador. – Claro que eu não voltaria. Ela sorriu e da sua bolsa tirou meu computador, depositando em cima da minha cama. Minha gota de esperança foi pelo ralo, assim como sempre.
–Obrigada. –Disse e o peguei. Não sei pra que ter um computador se todas minhas redes sociais foram excluídas. E para paginas como Facebook, E-mail e Twitter havia um bloqueio contra a minha pessoa. Cuja senha só Eliza sabia, e obviamente não me passaria. Certamente com medo de eu acha-lo.
–As senhas continuam Katherine. –Ela resmungou. –Até você atingir 21. –Eu a olhei. –Não me olhe assim, só mais dois anos. –Ela sorriu e saiu do quarto e eu resmunguei pelas suas costas, como eu tenho feito nos últimos anos.
–Ah Hannah ligou. –Ela disse com a cabeça para dentro do quarto. –Ela irá te esperar na praça para as fotos que você prometeu. É um dinheiro bom Katherine, não desperdice essa oportunidade. Não temos condições de desperdiçar nada.
–Só a vida. –Resmunguei baixo.
–O que você disse Katherine Lewis?- Ela esbravejou.
–Que eu não vou encontra-la.
–Eu já avisei que você ia. –Ela sorriu e saiu. Ela e sua mania irritante de tomar as decisões por mim. De achar que suas escolhas sempre são as melhores. Foi uma dessas escolhas brilhantes que destruiu minha vida, que destruiu a vida dele.
Peguei minhas coisas, e joguei a câmera e o computador dentro da bolsa e caminhei até a praça principal, perto dos canais que todo mundo sempre comenta. Aquilo fede, de verdade. Hannah não havia chegado para minha sorte, ou não, odeio atrasos. Coloquei o computador no meu colo e comecei a vasculhar o Google. Ele ainda atormenta minha mente. Todas as noites. Havia uma imagem dele, exatamente do jeito que eu me lembrava, o cabelo bagunçado, a barba por fazer, o sorriso branco. Mas algo era diferente ele tinha pequenas ruguinhas nos cantos dos olhos talvez por estar sorrindo. As ruguinhas que eu tanto gostava. Um pânico tomou conta de mim, será que eu estava esquecendo-o? Eu nem me lembrava mais delas. Ele estava recebendo um premio por algum texto brilhante que escreveu. Não pude evitar que meus olhos marejassem ao ver ele depois de dois anos. Depois de todo esse tempo aquela imagem ali, opaca na tela do meu computador velho era tudo o que eu sabia dele. Era tudo que eu tinha dele. Ele só existiu na minha mente durante esses dois anos. E isso é torturante. Resolvi engolir meu pré- choro, e abrir a pasta privada em meu computador, que ficava escondida por uma senha que graças a Deus Eliza não descobriu. E lá estavam as nossas fotos. Ou o que eu salvei delas antes de minha mãe surtar e apagar mais da metade de meus arquivos. Eu e ele juntos em um café. Ele rindo de alguma bobeira que eu disse enquanto escondia meu rosto na curva de seu pescoço. Como eu sentia falta do cheiro dele. Daquele perfume que ficava grudado em minhas roupas todos os dias. Eu estava usando o moletom dele na foto, por ventura ou não, eu estava usando o mesmo nesse exato momento. Fechei o computador e o apertei contra meu peito, reprimi as lagrimas e sorri quando vi Hannah se aproximando.
–Vamos começar. –Eu disse e ela já se posicionou. Tirei um cigarro do bolso –meu habito que desenvolvi nesses dois anos– e o coloquei na boca.
Hannah era uma menina legal, um pouco intrometida demais, mas era legal. Porem estar com ela me irritava. Cada vez eu tinha mais saudades de Theresa, minha melhor amiga que deixei para trás sem nenhuma explicação. Na verdade eu não expliquei nada há ninguém.
–Tire desse ângulo. –Ela ordenava.
–Hannah eu sou a fotografa aqui. Faça o que EU mando. Esse ângulo realmente não te favorece.
–Mas ele é meu melhor ângulo Katherine!
–Então não existe um bom ângulo em você!- Eu gritei. –Desculpe. Eu estou fazendo meu trabalho e você está dificultando um pouco. –Resmunguei me sentando na pedra na margem do canal.
–Sabe Kathy, eu te conheço há dois anos e sei o quão difícil você pode ser. –Ela parou na minha frente. –Mas hoje você está ainda pior sabia? Meu Deus! Achei que iria ficar feliz te ter seu computador de volta, sua vida de volta!
–Minha vida nunca, escutou bem Hannah? NUNCA, será a mesma de antes. –Eu apontei o dedo em seu rosto e voltei a me sentar.
–O que aconteceu de tão ruim em Londres Kathy? Qual o motivo de você ter que fugir para cá? Eu sei que você não gosta daqui.
–Isso é coisa minha. Pergunte para Eliza. Ela provavelmente te contará a historia de como eu arruinei minha vida em Londres, e como obriguei a família se mudar. E como claro, fiz com que meu pai, a abandonasse.
–Robin não é seu pai? –Ela olhou espantada.
–Claro que não Hannah! Minha mãe e ele se conheceram em nosso curto período na França. E depois que ela descobriu que ele era daqui, a mesma cidade dela, obviamente ela resolveu se mudar e acabaram se casando.
–Caraca. –Ela puxou meu cigarro e deu uma tragada. –Eu vou deixar você relaxar sua mente um pouco. Vou até o café, quer que eu peça para o Matt te encontrar?
–Não. Não é um bom dia para vê-lo.
–Nunca é um bom dia pra você não é Katherine? Ele é seu namorado!
–Há quatro meses Hannah, não é nada especial.
–É especial pra ele. –Ela fez uma pausa. –você tinha alguém em Londres não tinha? –Engoli em seco. Ela nunca foi tão esperta assim para perguntar algo do gênero.
–Pela sua cara já notei que sim.
–É difícil de explicar Hannah.
–Você não se despediu dele não foi?
–É.
–Vou chamar o Matt, quem sabe ele te anima um pouco.
–Hannah não!- Eu disse, mas ela já estava longe de mim. Traguei meu cigarro e imaginei que se minha mãe me visse diria que é culpa dele, influencia dele, eu agir assim. Mas eu comecei a fumar depois que vim pra cá. Aliviar a tensão. Um habito que meu atual pseudo-namorado odiava. Jogando a fumaça para o alto e o cigarro entre os dedos mirei minha câmera para diversos pontos em busca de uma foto perfeita para aquela tarde chata. Foi quando a câmera focou naqueles olhos verdes. Não podia ser real. Eu já tive muitas ilusões, já tive miragens, já fui até ao psiquiatra por conta disso. Foquei a lente de novo e a imagem dele continuava lá, me encarando, como me encarou no dia em que fui posta a força dentro daquele carro. Com as mãos trêmulas eu tirei a câmera dos meus olhos, deixando o cigarro cair assim como a câmera. Ele estava mesmo lá. Theodore havia enfim me achado.
–Theodore POV.
Amsterdam era uma cidade agradável. Eu e ela sempre nos imaginávamos aqui. Brincando entre os canais. Imaginei se ela me visse aqui. Com outra garota que eu tenho absoluta certeza que ela iria odiar. 11 de setembro, dois anos depois e eu estava na nossa cidade sonho, com outra pessoa. Acho que namoro a Taylor por carência só pode. Ela ainda está em minha mente, sempre esteve nos últimos dois anos. Aquele segredo não podia ter vindo à tona, não antes de nos prepararmos. Não daquela maneira.
–Theo, você não está me dando atenção. Não sei por que eu chamei você para vir nessa viagem comigo.
–Desculpe Taylor. Estou um pouco viajado.
–É por causa daquela menina ainda?
–Que menina? –A olhei espantado, eu nunca havia comentado a respeito de Katherine com ela.
–A que você disse dormindo. A tal “K”. –Ela baixou o olhar, me senti péssimo por dizer o nome de outra mulher enquanto eu dormia ao lado de Taylor.
–Não, claro que não. “K”é de um filme que eu andei vendo no avião. –Menti.
–Bem, continue a ter devaneios com essa tal “K”. Eu vou comprar os ingressos para irmos a aquela exposição.
–Eu vou ficar aqui na praça, aproveitar e tirar umas fotos. –Eu disse e ela saiu em direção à fila enorme no museu. Tirar fotos foi um habito que peguei com Katherine, mas claro eu nunca seria tão bom quanto ela.
Sentei-me perto do canal a fim de ver melhor as construções do museu de lá. Lembrei-me do meu gosto para arquitetura e de como eu estava empolgado por começar a faculdade de arquitetura daqui a dois meses. Ela ficaria orgulhosa de mim ao contrario de Taylor que queria que eu fosse seu parceiro nos negócios. Vasculhei cada canto daquela construção que fazia a volta na praça. Foi quando meus olhos pousaram em uma menina loira que discutia com outra, ela gesticulava muito. Era inevitável não chamar atenção. Acabei rindo lembrando que se ela visse algo assim reviraria os olhos. Foi então que meus olhos voltaram para o ponto onde estavam as duas jovens, a única coisa que vi foi uma menina tirando fotos. Ela usava uma touca vermelha, e roupas pretas, tinha um moletom igual ao que eu costumava ter já que ela tinha pego. Ela tinha os cabelos caidos sobre os ombros, exatamente como ela tinha. Mordia a boca por trás da câmera exatamente como ela mordia. Meu coração então apertou. Minha garganta secou. Ela baixou a câmera e seus olhos méis se encontrassem com os meus. O cigarro que ela segurava e a câmera caíram no chão. Ela estava tão chocada quanto eu. Katherine estava ali, bem na minha frente depois de dois anos. Eu congelei, assim como ela. Eu de um lado do canal e ela do outro. Se eu não estivesse sentado teria me espatifado no chão. Ela estava abatida, mas ainda linda. Tão linda quanto no dia que partiu. E também parecia machucada igual. Obriguei minhas pernas a se moverem e corri em direção à ponte que ligava ao outro lado. Sem tirar os olhos dela, que permaneceu estática e depois resolveu se movimentar, jogando sua câmera sobre o ombro e apagando o cigarro com sua bota. Ela correu na minha direção. Paramos cada um de um lado da ponte, e começamos a caminhar um para o outro. Podia ouvir meu coração batendo na cabeça, e minhas mãos suando. Podia até escutar os batimentos dela! Aqueles que eu tanto senti falta. Eu podia ver seus olhos marejados, e sentir os meus ficando exatamente iguais.
–Theodore? –Ela sussurrou com a voz frágil.
–Katherine. –Minha voz falhou. Estávamos a dois passos um do outro. Eu já podia sentir seu perfume. Ela fechou os olhos e deixou que uma lagrima solitária percorresse seu rosto. E eu me esforcei para não deixar as minhas caírem. O silencio tomou conta demais parecia de que só o fato de estarmos pronunciando um o nome do outro já era o suficiente. Dei um passo longo e a envolvi em meus braços. Ela estava frágil. Ela ainda estava frágil. Senti ela soluçando contra meu peito, e o nó em minha garganta desfez quando as lagrimas começaram a rolar por meu rosto, molhando o topo da cabeça dela. Segurei-a em meus braços por mais de um minuto. Aquilo ainda parecia muito surreal. Segurei em seus braços e a afastei, o lápis preto pesado que estava em volta de seus olhos estava borrado, e seus delicados olhos vermelhos. Toquei seu rosto e ela suspirou. Continuei olhando-a.
“É real?” pensei comigo ao toca-la. E tinha certeza que ela pensava o mesmo quando tocou meu rosto e chorou mais um pouco. Caralho, como eu senti sua falta.
–Kath, K, Lewis, Little kat, Katherine. –Eu disse e a abracei novamente. –Eu não acredito.
–Você me achou. –Ela conseguiu dizer com certo esforço.
–Katherine!-Um menino loiro observava a cena com uma cara não muito amigável, foi quando ele apareceu ao lado dela. –Quem é ele?
–Theodore. –Eu disse recuperando a voz.
–Ok. Quem é Theodore, e porque estão chorando? –Ele disse olhando para ela, mas seu olhar ainda estava em mim.
–Ele, ele, ele... Ele é meu amigo de Londres. –Não esperava que ela me chamasse de amor, ou algo do gênero, mas amigo foi como enfiar uma faca na ferida. Ela também tinha outra pessoa.
–Ah. –Ele pareceu conformado. –Sou Mathew Van Peterson. Namorado dela. –Ele sorriu e apertou minhas mãos amigavelmente.
–Sou Theodore Morgan... O amigo dela. –vi que ela reprimiu um sorriso, e aquilo me deu vontade de gritar. Eu tinha mesmo a encontrado.
–E eu sou Taylor Allen. Namorada dele. –Taylor pousou uma mão em meu ombro e vi o sorriso do rosto dela desaparecer. Ela não podia me culpar, ela também tinha alguém. –Todos devidamente apresentados, hora de ir. –Ela foi me puxando.
–Espera. –Eu disse me soltando e deixando uma Taylor furiosa seguir caminho sozinha para o museu. –Como eu te encontro de novo? –Sussurrei a ela enquanto seu namorado a chamava de volta, um pouco longe de nós.
–Sexta. Oito horas. No café vermelho do outro lado da praça. –O tom entusiasmado em sua fala era visível.
–Sexta. –Eu disse enquanto ela caminhava de costas ainda olhando em meus olhos.
Voltei para o hotel depois de explicar a Hannah do porque eu chorei. Inventei uma desculpa qualquer, e inventei uma maior ainda para me livrar do jantar com uns compradores dela na sexta. De certa forma eu imaginava que quando eu a encontrasse, eu a abraçaria, a beijaria, e ela nunca mais sairia de meus braços. Mas não foi assim. Eu sabia que um felizes para sempre não existiria em nossa historia. Não depois de tudo.
Os dias passaram rastejando até sexta. E quando finalmente chegou eu não sabia o que vestir. Isso me lembrou a primeira vez que sai com ela. De como eu estava nervoso. Me senti um garoto de colegial tendo pensamentos como aquele de novo, pela segunda vez. Com a mesma pessoa.
“Foco Theodore, você não tem 15 anos. Tem 23. Aja como homem.”
Coloquei uma blusa que sabia que ela gostava, e me dirigi à praça. “café vermelho” isso seria um nome ou a cor do café? Ela ainda não sabia dar localizações, era uma péssima navegadora. Caminhei ao redor da praça, eu estava atrasado. E se ela fosse embora? Comecei a correr, foi quando avistei um pequeno café espremido entre duas construções monumentais. “Café vermelho” era o nome do café. Intrigante, assim como ela sempre foi. Entrei e ela não estava lá. Não podia ser em outro lugar. Tinha que ser ali. Ou será que ela desistiu de esperar, sei como ela é com atrasos. Ou será que ela havia desistido de mim? Dois anos é muito tempo. Foi quando a porta fez barulho atrás de mim, e uma Katherine com o nariz rosa por causa do frio, sorriu para mim, aliviada assim como eu. Caminhamos juntos até a ultima mesa. Aquela noite seria longa, e eu estava gradecendo por isso.
–Katherine POV
Haviamos pedido uma bebida quente, já que a noite estava bem gelada. Era estranho estar sentada na frente dele, era ainda muito surreal. Ficamos em silencio os cinco primeiros minutos. Nenhum de nós sabia o que dizer, era confuso para nós dois isso daqui. Imaginei tantas coisas que gostaria de falar para ele quando eu o encontrasse e agora tive que me esforçar para dizer um simples oi.
–Eu sinto muito. –Ele quebrou o silencio me olhando nos olhos. Aquilo foi como atirar uma pedra em mim. Na minha cabeça a historia passou como um flash, e o nó em minha garganta se formou de novo. Coloquei minha mão sobre a sua e fechei os olhos. Ele acariciava as costas de minha mão, com seu gesto suave que tinha o poder de me acalmar. Como sempre foi.
–Matt então? –Ele me olhou de novo, tinha algo divertido em seus olhos.
–Taylor então? –Retruquei. Interessante começar o assunto falando dos atuais parceiros.
–Há alguns meses, e você e Matt?- Ele perguntou.
–Há alguns meses. –Respondi no mesmo tom de voz e ele sorriu. Puta que pariu, aquele sorriso. Eu podia desmaiar ali mesmo.
–Não sabia que fumava. –Ele disse meio que repreendendo eu diria.
–Adquiri esse habito. Como você dizia para mim “para aliviar o estresse”. –Disse e ele deixou um sorriso escapar.
–Eu procurei você por Paris inteira. –Ele falou baixinho, sem largar da minha mão. –Não quero que pense que eu desisti. Eu só não sabia onde procurar mais.
–Você o que?- Eu estava realmente chocada.
–Quando você foi embora, seu pai havia me dito que estava em Paris, num hotel com uns amigos. Eu viajei. Fiquei um mês na França. Procurei você em cada hotel que conhecia e os que não conhecia também. Mas não te encontrei. Foi a maior decepção pra mim até agora. Eu falhei.
–Theo. Não fala isso. –De novo as malditas lagrimas peregrinando pelo rosto. –Eu fiquei duas semanas lá. Até acertar as coisas e vir pra cá.
–Está há tanto tempo assim aqui?
–Sim.
–Katherine, eu senti tanto sua falta. –Ele disse. Suas palavras tinham um peso gigantesco.
–Eu também Theo. Eu também.
–Você nunca mais vai voltar?
–Cristo! Não fale algo assim! Eu preciso de 21 anos pra fazer o que eu quiser e voltar a Londres. Ou de uma carta de aprovação.
–Como é? –Ele estava curioso.
–Eu pedi para meu pai me inscrever na faculdade de fotografia em Londres. Se eu passar eu vou. E Eliza não vai me impedir.
–vai morar onde lá Kath?
–Com meu pai. –Ele pareceu assustado. –Longa historia. Os dois se casaram de novo, depois de...você sabe. Tudo que aconteceu. Ele nunca foi contra Theo. Apenas foi contra a decisão da minha mãe.
–É compreensivo. –Ele sorriu.
–E como. –Olha lá o silencio de novo. –E você? O que andou fazendo, fora me caçar? –As palavras saíram divertidas, mas elas carregavam uma dor que só nos dois entendíamos. Talvez por conta disso pudéssemos brincar com ela.
–Vou começar em arquitetura. –Ele pareceu envergonhado.
–Isso foi tudo que você sempre quis Theo. Isso é ótimo.
–Sabe Kath, eu me sinto um estranho falando com você aqui. Mas mesmo sendo como um estranho, eu estou tão confortável. –Ele suspirou.
–Compartilho desse sentimento. Theo, você tem alguma noticia de Theresa? Eu não consegui...
–Ela morre de saudades suas. Ela e o Alex namoram agora sabia?
–Está brincando? Eles se odiavam!
–A gente também. –Ele sorriu sem graça.
–Eu tentava falar com ela. Mas Eliza cortou qualquer forma minha de comunicação.
–Eu notei mesmo. Mas acho que posso te ajudar nisso.
–Como.
–Grave um vídeo para ela. Eu prometo entregar.
–Você vai voltar? –É claro que ele voltaria. Ele nunca ficaria aqui para sempre.
–Sim. Domingo.
–Domingo agora?
–Sim.
–Ah
–Eu vou estar te esperando em Londres Kath. Você sabe que eu vou. E agora que eu sei onde você está, se você não voltar, eu te busco.
–Posso te entregar o vídeo amanhã?
–Aqui nesses mesmo lugar, nessa hora, ok? –Ele parecia triste.
–Ok. –E o silencio de novo.
Conversamos sobre algumas coisas, ele me explicou como as coisas ficaram de ponta cabeça para ele e para todo mundo quando eu fui embora. Eu contei de como me mudei para o sótão da minha avó ao invés de morar com minha mãe e o novo marido dela. Não tocamos na nossa historia, nem mesmo mencionamos como ficaríamos. Mas só aquele “Eu vou estar te esperando em Londres” fez com que a esperança que eu não tenho voltasse a vida.
–Eu preciso mesmo ir. Eliza vai acabar ficando louca se eu não chegar.
–Tudo bem.
Caminhavamos um ao lado do outro em silencio. A companhia bastava, o silencio bastava.
–Eu vou por ali. –Apontei. –Acho melhor você ficar. –Isso doía, mas já estávamos acostumados. –Até. –Ele me puxou e me abraçou.
–Katherine?
–Oi?
–Você o ama?- Fiquei surpresa com suas palavras.
–Você a ama?- Ele sorriu.
–Acho que entendi. –Ele disse e saiu sorrindo.
Entrei em casa, e minha avó estava cozinhando alguma coisa com um cheiro horrível. E minha mão não estava. Era a hora perfeita. Sentei-me em frente a janela e posicionei a câmera na cômoda. E apertei o play.
“Oi Theresa aqui é Katherine, é eu sei que eu estou diferente. Mas eu sei que ele vai te entregar isso. Tenho que ser rápida, me desculpe, estou morrendo de saudades suas. Mas o negocio aqui vai ser rápido e claro. Eu tenho uma historia pra lhe contar. Do porque eu fui embora, e você vai gostar de ouvir”...
...continua
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