Remember
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Gongchan foi o último a deixar o veículo, logo atrás de Sandeul. Seus cabelos negros e brilhantes esvoaçavam levemente por conta do vento frio que parecia vir de todos os lados, e apesar de envolvido por um grosso casaco de moletom, tremia ligeiramente.
Correu os olhos pelo edifício logo a frente. Era alto, devia ter uns 20 andares, e composto por várias janelas de vidro que refletiam o céu de um azul forte, quase que completamente limpo, a não ser por algumas nuvens muito brancas e gordas que lembravam grandes porções de algodão doce vagando lentamente pelo ar lá em cima.
Correu ao encontro dos outros meninos. Jinyoung andava depressa, esfregando as mãos e, vez ou outra, baforando o ar e observando a fumaça que deixava sua boca e desaparecia pouco tempo depois. Sandeul caminhava em seu encalço, cantarolando alegremente enquanto brincava com o zíper do casaco. Baro se encontrava um pouco atrás, segurando o boné contra o peito para impedir que fosse levado pelo vento, e parecia completamente distante, absorto em seus pensamentos. CNU, parecendo igualmente distraído, se sobressaltou ao sentir uma mão tocar seu ombro.
– Ah, você está aí, Gongchan. Olá! — murmurou, sorrindo gentilmente para o maknae.
– Você está um pouco estranho hoje, Hyung. Está tudo bem? — hesitou o menino, olhando com atenção a expressão do colega, que parecera se espantar com a acusação.
– Eh? Não, não, estou ótimo, não se preocupe. — disse, e em seguida se desvencilhou da mão leve que pousara em seu ombro segundos atrás, apressando-se em encontrar o restante do grupo, no interior do edifício. Estavam em um aposento luxuoso e bem iluminado, e um grande balcão de mármore o dividia em dois. Jinyoung, que conversava com um homem bem vestido, de aparência jovial e cabelos bem negros, voltara poucos minutos depois, se reunindo aos demais. Guiou-os até uma escadaria que levava diretamente ao andar inferior, no subsolo. Logo ao final do patamar havia uma estreita porta branca. A atmosfera era completamente diferente ao que haviam encontrado até então: se depararam com um aposento lotado de pessoas, falando alto, carregando coisas de um lado para o outro, rindo alegremente e esbarrando nas prateleiras dispostas próximas às paredes, abarrotadas de roupas e fantasias.
No outro extremo do salão, havia um cenário bem iluminado, com paredes brancas da mesma cor do chão, com holofotes pendurados ao teto, e câmeras que captavam todos os ângulos possíveis.
– Ah, finalmente! Bem-vindos, meninos. Estávamos esperando vocês. — Disse uma voz às costas do grupo, fechando cautelosamente a porta que dava acesso às escadas. Era um homem gorducho, de cabelos curtos e grisalhos cobertos por um boné preto. Usava um óclinhos com aros quadrados, e tinha uma aparência cansada. Curvou-se em uma profunda reverência.
– Olá! Desculpe-nos o atraso. -disse Jinyoung, cordialmente. Seguiu-se um murmúrio geral de concordância por parte dos demais.
– Sem problemas — sorriu o homem, paternalmente — Então, estão prontos para começar a gravar o videoclipe, suponho?
O grupo se entreolhou, expressando enorme satisfação, e o líder sorriu, acenando positivamente com a cabeça.
–
Já era de madrugada. O céu estava limpo e escuro, quase sem estrelas.
A única coisa que quebrava o breu daquela noite eram os postes de luz dispostos nas calçadas, e as luzes das janelas de uma ou duas casas. O vento irrompia pelas frestas da janela do quarto, e fazia com que as vidraças vibrassem furiosamente.
Baro acordou então, no meio da noite, esfregando os olhos e checando as horas no relógio pela quarta vez. Não conseguia dormir muito bem, estava demasiado ansioso para o dia que viria a seguir. Os dias de gravação foram bastante cansativos, e tiveram que trabalhar muito no decorrer da semana. Seus músculos estavam doloridos, tendo sido maltratados por conta do esforço físico exercido pela coreografia de "Only Learnt Bad Things", durante cinco dias seguidos. Porém, nada poderia ser comparado ao que viria a seguir, pensou ele. Teria de se esforçar em dobro, pois iria contracenar com uma menina.
Estava certo de que ele não era a pessoa certa para o papel. Sempre havia sido tímido em relação à garotas, e sabia que não iria ser diferente dessa vez.
Observou as poucas estrelas que havia no céu, através da janela. Sorriu, preocupado, e virou-se para o outro lado, adormecendo quase que instantaneamente.
Acordou, pelo que lhe pareceu, poucos minutos depois, com o rosto sorridente de CNU próximo ao dele, os narizes quase se tocando. Havia uma expressão abobada no rosto do amigo, e seus óculos estavam ligeiramente tortos.
– Bom dia, flor do dia! — gritou o menino, como se estivessem a quilômetros de distância, alargando ainda mais o sorriso, deixando seus grandes dentes à mostra. — Vamos levantar, que a sua garota te espera. — brincou, rindo da própria piada, tal qual Baro não achou a menor graça.
– Quer sair de cima de mim, seu panaca? — bradou o menino de cabelos pretos, incrédulo. Sentia um misto de irritação e divertimento, e não foi capaz de conter um sorriso.
CNU lhe lançou uma piscadela quase que imperceptível por trás dos óculos redondos, e tornou a se levantar, seguindo em direção ao aposento vizinho, dançando de forma atrapalhada, imitando uma planta.
O percurso até o local das gravações fora bem mais tranquilo. Todos haviam se despertado na hora certa, e não foi preciso apressar ninguém (com exceção de Sandeul, que só se levantou quando Jinyoung ameaçou subir as escadas do beliche).
Se depararam com o mesmo salão grande e movimentado, no subsolo do edifício em que frequentaram durante toda a semana. O cenário, na extremidade oposta à entrada, porém, se encontrava um tanto diferente. Antes, vazio, agora abrigava uma certa quantidade de móveis, como que montado para se assemelhar a um quarto. Havia ainda várias bexigas em diferentes tons de rosa, vermelho e roxo.
Os olhos de Sandeul brilharam, e antes que pudessem impedir, já corria adoidado por entre as pessoas e pulava na cama, amarrotando o grosso edredom branco e florido, e agarrando três bexigas de uma vez.
– Isso é tão legal! Vamos gravar aqui? — sorriu Sandeul, correndo os olhos por todos os lados.
Gongchan, igualmente encantado, agarrava uma bexiga roxa aos seus pés, e a atirava contra o rosto de Jinyoung, que largou uma risada gostosa e devolveu o golpe.
– Vamos gravar uma parte aqui, mas — começou Jinyoung, porém sua voz falhou ao avistar uma menina que passava pela porta, acompanhada pelo mesmo homem gorducho que lhes dera boas vindas. Seus cabelos eram compridos e castanhos, e chegavam quase à sua cintura. Tinha a pele branca, o rosto redondo e um par de olhos grandes e brilhantes. Era muito bonita.
Sandeul seguiu o olhar do amigo, e a mediu de baixo para cima. Logo em seguida, desviou os olhos, voltando sua atenção novamente às bexigas, com uma visível expressão de aborrecimento no rosto.
Baro a observava boquiaberto, e começava a sentir um rubor subir por todo seu rosto, e um incômodo embrulho no estômago. Por um momento, pensou que suas orelhas iam liberar cortinas de fumaça, ou que poderia vomitar a qualquer segundo.
A dupla se aproximou rapidamente, e o homem, ajeitando os óculos sobre a ponte do nariz, anunciou:
– Meninos, essa é Kim WonHee, vai contracenar com vocês no videoclipe. Ou melhor, com Baro. WonHee, esses são Jinyoung, Gongchan, Baro e CNU — informou, apontando para cada um dos meninos conforme pronunciava seus nomes, enfatizando o terceiro. — Onde está Sandeul?
– Ali, brincando de autista — murmurou CNU, apontando por cima do ombro a cama do outro lado do cenário, onde Sandeul os observava sentado, com as pernas abertas e um falso sorriso no rosto. Seguiram-se risos abafados por parte de Gongchan e Jinyoung, que faziam gestos, pedindo para o menino se juntar à eles, enquanto Baro ainda observava, paralisado, o rosto da menina, completamente distraído. Tão distraído que se sobressaltou com um salto quando CNU lhe deu uma cotovelada de leve nas costelas, e lhe lançou a mesma piscada sutil que havia lhe lançado na manhã daquele mesmo dia, porém, com um sorriso malicioso e uma expressão de completa satisfação no rosto, indicando com um movimento, a menina que os observava.
–
– Eu fico ainda mais tímido com seus cabeções me encarando por trás da vitrine! — rosnou Baro, escondendo o rosto com as mãos e enterrando os dedos por entre os cabelos escuros.
Estavam em uma loja apertada, e um tanto abafada, o que de certa forma era bom, já que o frio lá fora era de trincar os dentes. Jinyoung, CNU, Sandeul e Gongchan observavam a cena com extrema atenção, as bochechas quase grudadas contra o vidro embaçado por conta da respiração em forma de fumaça que se desprendia de seus lábios. Todos usavam enormes casacos, e procuravam se aquecer esfregando as mãos contra os braços. Sandeul estava envolvido nos braços de Jinyoung, e não parava de dar pulinhos e soltar exclamações durante as cenas entre Baro e WonHee.
Do lado de dentro da loja, encontravam-se apenas Baro, que estava corado como um tomate e não parava de caminhar entre as prateleiras, sussurrando uma série de palavras inaudíveis, como se estivesse decorando um texto; e a menina, WonHee, que parecia um pouco entediada, o que já era de se esperar, por estarem execultando a mesma cena pela milésima vez; além do câmera e o homem gorducho, que descobriram ser o diretor.
– Bom, então é isso por hoje. Tentaremos amanhã novamente. Baro, tenha uma boa noite de sono, e procure ensaiar olhando para o espelho, certo? — sorriu, bondosamente o diretor, dando uns tapinhas em suas costas e se afastando pouco depois, em direção à uma van, acompanhado pelos outros dois, acenando para o restante do grupo.
– E aí, garanhão! — riu-se CNU, caminhando em direção ao interior da loja, se esquivando do grosso casaco de moletom e atirando-o em qualquer lugar.
– Ah, não enche. — revidou Baro, com os olhos baixos, olhando fixamente para seus pés.
– Vamos, precisamos ir embora, a nossa van está esperando no outro quarteirão. — informou Jinyoung, apressando-os.
Baro ia caminhando em direção à porta, quando algo o puxou pelo braço. CNU estava logo atrás, com uma das mãos segurando firmemente o pulso do amigo.
– Vai devagar, alcançaremos eles mais tarde. Preciso falar com você.
– Ah, é? — disse, descontraído, encarando seu próprio reflexo nos óculos do garoto — O que é, vai me zoar, ou algo assim?
– Para com isso, hyung. Olha, nem está tão ruim assim, aliás, as cenas de total desprezo estão perfeitas, só as cenas românticas que... — interrompeu sua fala subitamente, ao fitar a expressão de extremo desgosto no rosto do amigo.
– Olha, eu sei, tabom? Era só isso que você tinha para me falar?
– Não... Olha, eu posso ser a sua WonHee, que tal?
Baro o encarou, pelo canto dos olhos, e deu as costas rapidamente em direção a porta, se esquivando do aperto de CNU.
– Espera, eu estou falando sério, Baro. Eu quero te ajudar.
O menino parou, virando-se para o colega para encará-lo novamente. Não percebendo nenhum vestígio de sorriso em seu rosto, começou a achar que CNU queria realmente ajudá-lo.
– Você... quer ser a minha WonHee?
– Bom, não pra sempre, claro. — gargalhou, passando os dedos por entre os cabelos e apanhando o grosso casaco que havia largado no chão, vestindo-o. — Os amigos devem se ajudar, não é? Bom, então eu quero te ajudar. Eu vou ser a sua dama temporária, apesar de eu achar que eu é quem deva ser o homem da relação.
Baro não pode deixar de sorrir. Revirou os olhos, e retomou a caminhada, sem olhar para trás. Algum tempo depois, ouviu CNU gritar às suas costas "Te vejo hoje, meia-noite, aqui no mesmo lugar!". Claro que ele poderia ter esperado qualquer momento para combinar o local e a hora, já que se encontrariam na van, no próprio apartamento, e dormiam até no mesmo quarto, mas daquele jeito parecia mais dramático, e mais perigoso, pois era bem possível que o restante do grupo voltasse à procura da dupla, mas CNU gostava, e muito, de um desafio.
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