Reloaded
3 II - Muralhas
Notas iniciais
Dentro das instalações subterrâneas, disponibilizaram-me imagens de Berlim, da catedral, do povo acolhedor e alegre, das festas multifrequentadas, enfim, imagens alegres e recordativas antes de tudo transformarem-se em pó pelos Norte Americanos.
Após uma pequena aula sobre algumas coisas importantes e outras nem tanto com uma senhora de idade, fui convidado por MBakker, ou melhor, meu pai, para ter uma noção do desastre que os Estados Unidos trouxeram para a Alemanha. Vesti-me com um uniforme preto apertado, porém confortável, ao meu corpo, um par de coturnos de couro e um óculos negro. Meus cabelos foram militarmente penteados para trás por uma serviçal com um tapa-olho, que pelo tamanho deve ter a mesma idade que a minha. Fitei-a por um momento, fixando meu olhar em sua imperfeição, mas, quando ela notou que eu a olhava curiosamente, virei o rosto, envergonhado. Após a serviçal retirar-se do meu quarto, Jeje veio até mim, para me acompanhar até a superfície.
- Oi menino – Diz Jeje, na porta, abrindo um sorriso forçado. – Está pronto? – Recompôs a compostura.
- Estou, estou bem. Confuso, é claro, mas bem! – Digo, levantando-me da confortável cadeira do meu quarto.
- O que te aflige? – Pergunta, olhando para fora do quarto, assoviando, como sempre. Voltou os olhos para mim. – Tem cada belezoca aqui em baixo!
Olhei para ele e soltei um riso desabafado, com um pouco de vergonha.
- Olha aquela gata, ai meu coração... – Diz ele, fitando uma mulher, fora do quarto. Tornou a atenção a mim, e disse: — Hoje à noite, rapaz, vou lhe levar para conhecer algumas garotas! – Disse, abrindo um sorriso zombeteiro.
- Mas o Mbakker me deixou claro que eu não posso aproximar-me de nenhuma das garotas. – Comecei, envergonhado. – Isto é regra!
- Garoto... você sabe por que existem regras? – Respondo sacudindo negativamente a cabeça. – Regras existem para serem quebradas! – Jogou a cabeça para traz e entoou uma gargalhada ríspida.
- Tudo bem, vamos logo – Entoei, saindo do quarto e deixando Jeje para trás.
Segui para a cabine que nos levaria para o ar livre, para fora da instalação. Ao virar-me vi Jeje receber um tapa no rosto ao tentar flertar com uma mulher, provavelmente uma de nós, já que se vestia e usava um óculos como tal.
[Fora das instalações]
Quando saio pelas enormes e grossas portas que protegem as instalações subterrâneas de Mbakker – que o mesmo chama de Casulo -, uma rajada de vento pesado e pesaroso choca-se contra minha face. Vejo que estamos em uma enorme muralha, provavelmente feita de algum material resistente, com recortes idênticos na estrutura a intervalos de dois ou três metros. Provavelmente são usados para que possamos ver o enorme penhasco que se encontra abaixo.
Caminho até Mbakker, que fita além da muralha.
- Aquilo é o que restou de Berlim – diz Mbakker, quando me aproximei dele, apontando para a imensidão que um dia foi a capital da Alemanha, segundo as palavras de Mbakker.
A imagem que se passa diante dos meus olhos agora é uma imensidão povoada por cinzas e fumaças. Imagino o povo alegre que ali vivera, perdendo família, amigos e a vida que construíram com esforço e dedicação. Vendo tamanha devastação, uma raiva repentina cresce dentro de mim. Pelo meu novo sentido de visão – o olho azul e assombroso, que se dispersa em fragmentos quando uso meus dons incrédulos -, vejo além da fumaça tóxica e dos resíduos. Posso ver restos mortais, cabeças e outros membros dissipados do corpo, entre outras coisas macabras e difíceis de descrever.
-Ainda há cidades e pequenos vilarejos que estão sobre nossos cuidados, mas sei que os Estados Unidos planeja atacar-nos – diz Mbakker, fitando-me com uma expressão melancólica. – Por isso preciso de sua ajuda, meu filho. Sei que você é o único que pode me ajudar!
Fitei-o, franzindo o cenho, e entoei:
- Você tem milhões de pessoas assim como eu lá em baixo – apontei para a entrada das instalações subterrâneas, nervoso. – Por que precisa justamente de mim?
Ele me fita com uma expressão de desaprovação, e caminha em minha direção. Encosta a mão em meu ombro, apertando o com força. Suspira e percorre o meu corpo pequeno com os olhos, não de uma maneira apaixonada – o que seria estranho -, mas sim com tristeza e desaprovação.
- Eu realmente adoro você – diz, aproximando a sua face da minha. – E sei que você é especial. Mas isso não medirá pontos quando for necessária uma correção! – Ele balança a mão, de um lado para o outro.
Abaixo a cabeça, severamente repreendido e envergonhado. O meu orgulho – que eu descobri há poucos dias, no refeitório da instalação (uma longa história) – não me deixaria levantar a cabeça e encarar Mbakker, mas o faço mesmo assim. Sem hesitar, pergunto:
- O que eu preciso fazer?
Mbakker fita-me com uma expressão de aprovação no rosto. Provavelmente veria um brilho nos seus olhos, caso não estivesse usando óculos – assim como eu e todos os “filhos” de Mbakker.
- Ótimo! Sabia que você me ajudaria – diz, apertando firmemente a minha mão.
Mbakker conduziu-nos para a entrada das instalações, e nesse mesmo instante, um alarme ensurdecedor soa em meus ouvidos. O pânico toma conta de alguns servos “sem-olhos” e alguns “filhos” de Mbakker, mas o mesmo permanece em total controle.
- Naves inimigas a norte. – diz ele para algum dispositivo no relógio.
Minutos depois, mísseis – que emergiram da terra árida – são lançados contra as naves inimigas, que, ao tentarem desviar-se dos mesmos, fracassam e explodem no ar, restabelecendo a paz, ali, novamente.
- Fiquem calmos! Foi só mais um ataque em vão dos Estados Unidos – diz, sorrindo e debochando do inimigo.
Uma serva “sem-olhos” aproxima-se de Mbakker, e lhe entrega uma bebida viscosa e alaranjada. Percebo a inquietude em que a serva sobrepõe-se ao ficar perto de Mbakker. Deve temê-lo – o que não e difícil de acreditar -, ou respeitá-lo. Descartei a segunda opção. A primeira é a mais óbvia.
Aproximo-me de Mbakker, que, ao me perceber, com um aceno de mão, expulsa a serva. Ele me dirigiu o copo com a bebida estranha, que pelo cheiro da mesma é alcoólica, e rejeito negando com a cabeça.
- Problema e seu então – diz, atirando o copo e sua respectiva bebida ao penhasco.
- Eu quero... saber o quê eu posso fazer pra te ajudar – digo, encarando Mbakker. – Você disse que precisa de mim para deter os Estados Unidos... Eu quero ajudar!
Ele caminha ao meu redor, e suas mechas douradas reluzem e esvoaçam à medida que o vento provindo das cinzas de Berlim toma a posse contrária do vento que atravessa sua longa “juba”.
- Você é especial, creio que já sabe disso – ele fita, novamente, meu pequeno corpo com uma expressão preocupada. – E você pode me ajudar a deter meu inimigo.
- Mas eu não sei fazer quase nada – digo, em um tom melancólico. E digo a verdade! – Eu sou fraco, não tenho nem tamanho.
Ele inclina-se e solta uma risada desgrenhada e assustadora, e retorce o corpo à medida que a risada o contagia.
- É para isso que existem os treinos, garoto – diz, contendo-se. – Vamos logo. Os treinos demoram alguns anos! É melhor começar logo!
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