Gostaria que o sonho não tivesse acabado. Sei que estava em uma situação bem precária, mas eu conseguiria sair dela como eu sempre consigo na minha vida. Pelo menos lá eu era alguém.

Acordo no beco escondido que usualmente durmo, ninguém nunca olha aqui. Que fome cara. Subo no telhado de uma casa qualquer, para procurar a primeira vítima do dia.

Uma garota de cabelos azulados está segurando uma bandeja, com quatro potes lacrados de geleia. Pelo seu jeito bobinho, ela é um alvo fácil.

Salto da casa, esbarro nas costas dela, quando ela se vira dou um pulinho na direção na qual ela não está olhando e pego uma das geleias. Antes que ela perceba o que aconteceu, eu já estou de volta ao telhado da casa.

Fico observando por quanto tempo ela continuará seus afazeres até perceber que falta um. no caminho da entrega do último para a mulher do vendedor de armas da cidade ela percebe, solta um gritinho agudo e grita o usual

– Fui roubada! – ela berra. Garota burra.

Deve estar perto de meio dia, hora de me encontrar com aquela crápula. Desço o telhado, o local de encontro é sempre perto do porto norte, no bar Bela Incas.

Abro a porta, me encontro num bar em estado deplorável, bêbados caídos que passaram a noite aqui, janelas quebradas que são resultados de recentes brigas, o bartender está com seu rosto sem expressão limpando uma caneca.

– Bom dia Siv – Ele fala para mim – Gostaria de se encontrar com o Cabeça?

Assinto, ele sai de trás bar e se dirige a uma porta irregular à aparência do local, é uma porta vermelha com maçaneta de ouro muito bem cuidada, com uma ordem de batidas feitas pelo bartender na porta, uma vez responde.

– Mande-o entrar logo – Grita o homem.

A porta se abre, uma comissão de homens se encontram sentados em um extenso sofá preto. No meio deles está o Cabeça, ele ganhou este apelido por ter levado um tiro na cabeça e não ter morrido, isto o deixou temido na cidade.

– O que deseja hoje garoto? – O cabeça pergunta- quer um cavalo ou novamente um barco para fugir da cidade e voltar correndo como fez da última vez?

Os seus comparsas riem.

– Eu vim lhe requisitar uma moradia. – Digo com imponência, todos me fitam. – Estou cansado de dormir em um beco.

Ele gargalha.

– Você sabe que o preço disso não é pequeno, certo? – Ele faz uma expressão pensativa – Acho que sei o que você pode fazer por mim.

Ele estala os dedos, um servo aparece. Ele requisita uma caixa prateada. O servo volta alguns minutos depois, segurando-a com o maior cuidado do mundo.

– Eu quero que você deixe isto no cata-vento – Ele mostra o topo da caixa – E pressione este botão ao coloca-la lá.

– O que é isto? – Pergunto curioso.

– Você não está em posição de perguntar nada garoto. – Ele sorri – Estou lhe fazendo um favor.

Pego a caixa, reverencio diante dele e saio do bar. O cata-vento fica perto do porto sul da cidade, é para lá onde tenho que ir.

Avisto o local, puxo um colchão jogado que estava jogado do lado dele. Deixo debaixo da janela.

O cata-vento está tão decrepito que é muito fácil colocar minhas mãos e pés entre as rachaduras, escalo ele com facilidade e entro na primeira janela.

Deixo a caixa no topo do cata-vento, salto da janela e aterrisso de costas no colchão.

Caminho de volta para o porto norte, para me encontrar com o Cabeça. No meio do caminho passo pelo hospital, observo pela janela e o Cabeça está dentro dele, conversando com o médico. Duas garotas estão no chão próximas dele.

Ele olha pela janela e me vê. Uma brisa bate, no momento seguinte me vejo caindo no chão.