Relatos de uma Suicida
1 O Suicídio
Não tenho muitas lembranças desse dia. São apenas flashs que passam pela minha cabeça como cenas de um sonho. Eu estava muito sonolenta por conta das medicações que eu tinha tomado.
Lembro de tomar a cartela inteira de remédios. Lembro da minha amiga ir me consolar sem saber quantos comprimidos eu tinha tomado. Era normal eu tomar medicação controlada porque já fazia tratamento para transtorno de ansiedade e depressão. Ela me levou até o alojamento e me deitou na minha cama e eu rapidamente adormeci. Não sonhei, não senti nada, apenas adormeci.
Lembro de ser acordada pelas minhas companheiras de alojamento, elas tentaram me acordar e eu respondi mas eu não conseguia me mover, elas pediram ajuda e me lembro de me levantarem para me levar para a ambulância que estava 3 andares de escada abaixo de nós, me colocaram de pé e eu reclamava que não sentia as pernas.
Depois disso eu me lembro de gritar no hospital para me deixarem morrer logo e que eu não queria tratamento. Eles fizeram uma lavagem gástrica em mim e lembro de apresentar muita resistência, tanto que uma médica ginecologista que trabalhava na parte administrativa do hospital e me conhecia como paciente foi até a emergência para tentar me acalmar. Meu psiquiatra também esteve na emergência mas eu não me lembro muito bem do quê falei com ele. Eles me deram medicação para conseguir me sedar e colocar o tubo de lavagem pelo meu nariz e garganta. Eu dormi até retirarem todos os vestígios da medicação de mim.
E a partir da hora que acordei começou a verdadeira confusão. O que fariam comigo? Me mandariam para casa? Me tratavam como se eu fosse de vidro. Eu não tinha troca de roupas, não tinha vontade de fazer nada, muitos amigos meus me visitaram, meus comandantes me visitaram para ver como eu estava e discutir sobre o fato de eles terem de contatar meus pais, que não sabiam de nada que estava acontecendo: nem que eu estava fazendo tratamento há meses, nem das tentativas falhas de suicídio.
Foram dias bem difíceis no hospital e todos tentavam me deixar o mais confortável possível. O médico que estava de plantão no primeiro dia era um ortopedista que também me conhecia por eu ter problemas de saúde ortopédicos no ano anterior e ele me comprou sanduíche, refrigerante, batata-frita e sorvete de um fast-food próximo do quartel para eu me animar um pouco, além de liberar visitas até mais tarde para eu não ficar muito sozinha.
Meus pais foram para Resende, Rio de Janeiro, para resolver os tramites burocráticos para me levar para casa, eu não queria ir com eles, mas eu não podia ficar no hospital então não tinha muita escolha. Me deram a opção de ir para a casa da minha tia no interior de São Paulo, a qual eu escolhi porque me sentiria mais a vontade e com menos problemas para enfrentar enquanto me recuperava e realmente faria um tratamento adequado para poder voltar a minha antiga vida.
Eu tenho 21 anos, nasci em São Paulo, capital, cresci nos arredores da cidade com a minha mãe, meus pais são separados mas fizeram de tudo para que eu tivesse uma boa vida. Sou Cadete da Academia Militar das Agulhas Negras, do Exército Brasileiro, há 3 anos e tentei suicídio duas vezes. Ainda estou tentando descobrir os reais motivos que me geraram pensamentos suicidas, e é por isso que estou contando a minha história.
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