Relatos de uma Suicida
2 Lembranças
Depois da tentativa de suicídio fui afastada do Exército por um ano. Nesse período não tive vontade de ir para a casa nem da minha mãe nem do meu pai; por isso, fui para a casa da minha tia. Continuei a terapia com a psicóloga, dessa vez com mais afinco e com um psiquiatra novo que alterou todas as medicações para fazermos testes.
Nesse período foi o momento que pude rever minha vida até aqui e pensar em como certos acontecimentos influenciaram nos eventos que ocorreram. Tudo era uma mistura muito grande na minha cabeça. Era como se as memórias vivessem na minha cabeça com um grau muito grande de realidade, me impedindo de diferenciar o presente e o passado.
Iniciei a pensar na minha infância, que foi muito boa e normal na medida do possível. Nasci em São Paulo e cresci até os 4 anos com meus pais casados. Não tenho muitas lembranças dessa época, somente de acordar com meu pai me dando bom dia e me levando para o banheiro para escovar os dentes. Ele prendia a toalha de rosto no meu pescoço com uma presilha de cabelo para que eu não sujasse a roupa com pasta de dentes. Depois, me levava até a cozinha, onde minha mãe preparava o café da manhã, uma mesa bonita com pão caseiro, bolos e sucos. Não me lembro de ver meu pai e minha mãe brigando mas hoje sei que eles o faziam muito.
Com quatro anos, meus pais se separaram, e começou efetivamente a briga pela guarda, pensão, divisão de bens e todas as tribulações de uma separação. Lembro da minha primeira casa em época de mudança, era uma casa grande demais para apenas minha mãe e eu. Ela empacotou as coisas, meu pai não morava mais lá. Eu brincava com uma boneca e minha mãe chorava na beira da cama dela quando ela recebeu uma ligação de um amigo da faculdade de publicidade; ele ofereceu pra ela um emprego. Foi o primeiro divisor de águas na nossa vida depois da separação.
Quando minha mãe era casada ela não trabalhava e receber essa oferta de emprego mudou tudo. Ela conseguiu alugar um sobrado perto da casa das tias dela e eu lembro que no dia da mudança meu pai me buscou e me levou para um passeio. Quando voltei, ele me deixou na casa nova e minha mãe tinha arrumado tudo, inclusive meu quarto e meus brinquedos. Fomos muito felizes ali. Nessa época ficou acordado que meu pai me buscaria para passar o fim de semana com ele a cada 15 dias e no começo ele fazia isso, mas hoje eu sei que essa fase da vida foi muito difícil também, sobre onde ele iria morar e tudo mais.
Nesse mesmo tempo foi quando meu pai me trouxe para o interior para conhecer minha família, seus irmãos e irmãs mais velhos. Meu pai é o caçula de doze irmãos, então tenho muita família grande. Lembro de estar na estrada com meu pai indo para Atibaia, eu olhava os montes, o verde, os animais no pasto, meu pai dirigindo e eu brincando com ele enquanto ele dirigia; pegava a carteira dele e fingia que um ratinho havia roubado a carteira dele. Chegando na casa da minha tia Rosa, fiquei bem tímida mas conheci todos: minha tia Rosa, casada com meu tio Paulo, sua filha Ana Paula que tinha 3 anos a mais que eu, minha tia Isabel e seu marido João com seus dois filhos, João e Manuela, com respectivamente 5 e 10 anos a mais que eu, minha tia Silvia com sua filha Erica que já tinha um filho, Felipe que tinha minha idade. Todos nos sentamos para comer e eu observava a casa da minha tia em cada detalhe. Ela tinha um quintal enorme com um galinheiro, vários cachorros, uma horta e uma piscina. Com a timidez de lado comecei a brincar com meus primos. Ficamos um dia e meu pai me levou de volta para casa.
Desde então minha mãe tinha que me levar para Atibaia para visitar meus primos. Mesmo não sendo família dela, ela sempre teve muita consideração por todos, então nunca foi um problema me levar, ela deixava eu ficar lá as férias inteiras, foi assim que eu cresci com uma visão de família.
Com o tempo, meu pai conheceu outra mulher, que não aceitou muito bem a ideia de ele já ter uma filha de um antigo casamento. Foi nesse momento que as coisas ficaram difíceis entre eu e ele. Ele passou a vir cada vez menos e , quando fazia uma promessa que viria, não aparecia simplesmente e sem dar satisfações. Fiquei inúmeros finais de semana esperando ele sozinha em casa, porque minha mãe achava que ele ia me buscar e ia trabalhar. Uma vez, fiquei esperando ele na portaria, sem chave e minha mãe saiu, não lembro a razão; Ele não apareceu e eu fiquei algumas horas para fora, sem chave de casa, chorando na porta .Um casal de vizinhos ouviram o choro e abriram a porta, me levaram pra dentro da casa deles e ligaram para a minha mãe. A partir daí comecei a ter uma chave.
Esta logística se manteve até meus 7 anos: meu pai ausente, minha mãe trabalhando o máximo que podia, ela arrumou uma pessoa pra cuidar de mim na parte da tarde e a moça me levava ao clube, onde eu fazia todo tipo de aula de ginástica, dança, natação e ioga. Nas férias, vinha para Atibaia ficar com meus primos e tinha momentos únicos, brincadeiras inúmeras e um carinho enorme por todos daqui. Acho que por conhecer uma rotina familiar mais normal na casa dos meus primos, sempre quis morar com eles. Não imaginava que esse sonharia se tornaria realidade anos mais tarde, com 21 anos e não com o motivo que eu imaginei.
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