A casa parecia estar diminuindo e o espaço entre os dois ficando mais curto. A respiração cada vez mais pesada, estava difícil para Josh controlar o nervosismo. Ele olhava assustado para Henrique, mas o garoto não tinha nenhum sinal de medo no rosto, apenas ansiedade, os treinamentos de caçadores de sombras o fez forte para essas situações.

O brilho da lâmina celestial dançava no rosto do ruivo que respirava fundo e olhou uma última vez para Josh antes de adentrar o quarto. Ele chutou a porta que fez um estrondo e entrou se mantendo em posição de defesa olhando para os lados. Josh não queria entrar, não queria relembrar profundamente do pai, mas ele precisava.

Seguindo Rique que permanecia a sua frente ele olhou para o quarto relutante. Lembranças tomaram conta de sua mente como uma onda se chocando em uma pedra, lembrando de momentos com Jefferson e o irmão, risadas e histórias, contos do mundo das sombras.

O quarto estava a mesma coisa da última vez em que ele havia fechado por dois anos. As cômodas intocáveis, a cama sem nenhum resquício de bagunça ou alguém que esteve ali, mas algo estava errado? Sim, com toda certeza. A janela que outrora estava fechada se encontrava bastante aberta, dando vista ao jardim ao lado de fora.

Josh andou alguns passos mais para dentro desconfortável, a cabeça virava para a esquerda e direita tentando encontrar o rosto branco que viu pela fissura da porta, mas ele não estava lá.

— Está sentindo esse cheiro? — Perguntou Rique se aproximando do garoto.

Ele não estava prestando atenção no cheiro, mas sim em seu pai e na criatura, porém quando o outro falou ele sentiu. Um cheiro pesado e forte, como enxofre. Os pelos da nuca dele se eriçaram, não era um cheiro humano e sabia disso, mas ainda não estava conseguindo pensar muito bem, sentia que o cômodo nunca houvesse pertencido parte daquela casa, como se ele fosse um grande intruso no local. Josh balançou a cabeça positivamente para Henrique, o ar parecia lhe faltar.

— Tinha um demônio aqui. — Ainda carregava a lâmina na mão, mas o corpo havia relaxado um pouco. — Não podemos ficar mais tempo nesse local, não é seguro.

Pela primeira vez Josh compreendia, aquele local não era mais sua casa, por isso se sentiu muito incomodado. Tão normal, tão...Mundano, era aquele lar, que por muito tempo ele fez sua fortaleza e se sentia confortável e seguro, mas toda aquela sensação se foi. Nenhum lugar fazia Josh se sentir seguro além do instituto.

— Eu vou dar um tempo pra você aqui dentro, se quiser pegar algo esse é o momento. — Os olhos dele percorreram mais uma vez o quarto. — Estarei esperando na porta, grite se algo aparecer.

E assim ele havia se retirado deixando o garoto sozinho no imenso quarto que parecia um fantasma voltando a assombrá-lo. Josh andou novamente sendo cauteloso e com os olhos bem abertos, estava muito inquieto, o coração acelerado. Ele não gostaria de levar nada, nem mesmo queria. Seu pai foi um bom homem, mas mentiu para ele e seu irmão, não queria trazer essas lembranças para Brad também, ele não iria precisar de nada daquilo.

Se virou para a porta e voltou a andar rápido, mas quando encostou a mão na maçaneta ele sentiu algo como eletricidade percorrer seu corpo. Aquela energia do sonho, aquela estranha e sombria energia, que sentiu atrás de si naquele momento. Se virando no mesmo instante, Josh olhou para o local temendo que visse seu pai de pé, mas não havia nada, parecia tão normal quanto antes, mas a sensação havia sido real. Foi real.

Estava assustado e o corpo em tensão novamente, sentiu uma adrenalina estranha tomar conta do corpo, ficou tentado a averiguar o local, mas ele não queria demorar mais um segundo ali. Voltou a se virar para a porta e saiu do quarto.

. . . . . . . . . . . . . .

Quando ambos voltaram estavam exaustos e foram dormir sem nenhuma pausa para relembrar os detalhes da noite. Josh teve mais uma sensação de ter dormido por um minuto quando na verdade havia passado horas. Ele não havia sonhado com nada, mas sentia de momentos em outros aquela estranha energia que tentava lhe possuir de alguma maneira. Se perguntou o que poderia ser e de onde vinha aquilo, e claro, se o pai estava envolvido.

Quando a luz do sol atravessou a janela e iluminou o quarto o garoto já estava acordado por minutos, tendo um momento de silêncio e calma para pensar de como tudo aquilo era tão novo e ao mesmo tempo antigo para ele. Depois de algum tempo Josh se levantou da cama, tomou um demorado banho e saiu do quarto em direção a cozinha.

Todos os outros já estavam sentados em volta da mesa comendo, como pessoas absolutamente comuns. Rose estava sentada ao lado de Brad, tão juntos que os ombros se tocavam, Josh se perguntou o por que daquela demonstração de afeto naquela hora da manhã, mas estava com a cabeça cheia para tentar descobrir o que eles tinham. Shelly estava ao lado de Lyssander, ele sempre parecia mais jovem e radiante acompanhado dela. Henrique conversava com Dias que estava sentado a sua frente.

Os olhares de preocupação ficou estampado no rosto de cada para Josh, só agora ele percebeu que estava parado na entrada de braços cruzados, ombros encolhidos, cabeça inclinada para baixo e testa franzida. Ele ainda não se deu conta de que estava pensativo quando chegou ali, mas se sentiu muito desconfortável quando entrou na cozinha e viu todos conversando como se a presença dele não fizesse falta.

Josh cruzou o cômodo e pegou um prato na bancada de mármore escuro, voltou a mesa e colocou algumas frutas e um iogurte no prato, ele não se sentou junto aos outros, queria comer sozinho, ainda precisava de um momento com seus pensamentos.

— Você está bem? — Perguntou Rose, quebrando o silêncio.

Todos pareciam estar querendo fazer a mesma pergunta, porém o desconforto na sala estava maior do que anteriormente. Josh ignorou a pergunta, mas não foi de modo intencional, a mente dele estava gritando e uma dor de cabeça havia começado a se formar. Ele franziu a testa novamente.

— Josh? — Quem perguntou foi Henrique. — Está bem?

E dessa vez ele olhou para o pessoal que continuava a fita-lo. Não, eu não estou nada bem. Ele queria dizer a todos, mas uma coisa que ele detestava era pessoas sentindo pena dele ou incomodar alguém com seus problemas.

— Estou ótimo. — Respondeu bem seco e rápido.

Ninguém pareceu convencido, mas Brad sabia mais que todos que era mentira o que ele havia dito. O irmão viveu com ele a vida inteira e sabia quando Josh estava confuso e chateado com algo, mas não quis tocar no assunto ali, sabia que o outro não iria gostar.

Dando meia volta ele saiu da cozinha com seu prato em mão, não estava afim de conversar com ninguém. Quando deixou o cômodo todos se entreolharam depois olharam para Brad com expressão de quem queria uma explicação, mas o garoto apenas deu de ombros, ele não iria contar nada. Henrique se levantou em seguida e Diaspro fechou a cara no mesmo momento, ele sabia que iria atrás do Josh.

— Nem adianta ir falar com ele. — Advertiu Brad. — Dá um tempo, quando Josh está assim ele precisa de espaço.

Rique voltou a se sentar inquieto e encontrou o olhar de Diaspro, o andrógino estava com uma sobrancelha arqueada e uma expressão de surpresa e deboche ao mesmo tempo.

— Que foi? — Perguntou Henrique a ele.

— Nada, apenas é curioso. — Ele respondeu com um tom bastante aveludado.

— O que é curioso? Seja mais claro. — De imediato Rique falou.

O andrógino se levantou revirando os olhos, todos estavam com a atenção voltada para os Parabatais. Henrique ficou sem saber o que ele queria dizer, mas os outros sabiam, estava evidente desde o dia que os gêmeos pisaram no instituto. Diaspro se retirou da cozinha depois de se levantar.
O cômodo ficou silencioso e a tensão desceu sobre eles.

— Então... — Disse Shelly mudando de assunto. — Hoje vai ser um dia quente, né?

. . . . . . . . . . . . . .

Josh estava deitado na cama tentando calar as perguntas que perturbavam sua mente, estava cansado, esgotado, não estava mais aguentando aquilo, não aguentava mais a história de ser caçador de sombras pois seria um peso morto. Ele nunca conseguiria matar algo, muitas vezes tinha medo do desconhecido, mas o mundo das sombras era vivo nele e não poderia negar isso, porém seus sonhos de criança mudaram conforme ele cresceu.

O prato estava jogado no chão com algumas frutas que não havia conseguido comer. Josh não queria sair do quarto, queria descansar, pensar, queria fazer algo para amenizar suas dúvidas, queria respostas. Passos ao lado de fora do corredor o deixou alerta e escutou três batidas na porta de madeira.

— Entra. — Disse baixo.

Brad adentrou o quarto sorrindo para o irmão, ele estava usando roupas que Josh trouxe na mochila, o cabelo despenteado e bagunçado. Percebeu também que ele havia um cordão com uma pedra azul esverdeada, sabia que era uma pedra encantada, se pergunto quem havia dado a ele. Brad sorriu de leve para o irmão e se moveu para a cama dele, sentando na beirada.

— O que está acontecendo? — Perguntou ao irmão com a voz carinhosa.

Tudo, está acontecendo tudo que não tenho controle. Ele teve o desejo de berrar, mas não fez.

— Eu... Eu não consigo mais, Brad. — Respondeu ao gêmeo, se sentando na cama. — Isso tudo é demais pra mim.

O outro avaliou Josh, seu rosto estava submerso e tinha uma expressão triste. Ele passou a mão sobre o cabelo como se estivesse preocupado.

— Mas isso é o que sempre brincamos, sonhamos com isso, agora é real. — Brad assumiu uma expressão confusa enquanto fitava o irmão.

— Não...Isso é o que você sempre sonhou. —

— Não gosta daqui? — Perguntou novamente a Josh.

— Aqui é fantástico. Tudo me agrada, é lindo, tem história mas...Eu não consigo me ver como um caçador de sombras, eu tentei mas... — Ele se calou fazendo uma pausa.

Brad continuava o olhando, o rosto ainda mais triste que anteriormente.

— ...mas você sente falta da vida mundana. — Completou a frase do irmão.

Josh assentiu com a cabeça ainda olhando para ele com os olhos marejados.

— Eu quero voltar a andar nas ruas, quero voltar a sair. Quero poder cruzar uma esquina e não se preocupar com um demônio me atacando. — Disse com a voz o mais perto de alguém que estava desistindo de algo.

— O que vai fazer? — Perguntou Brad.

— Eu vou fugir. — Respondeu determinado.

Ele chegou mais perto de Josh e segurou na mão do irmão apertando forte.

— Eu vou com você. —

— Não, não vai. — Ele acariciou as costas da mão do irmão com o polegar. — Isso é tudo que você sempre quis, não vou deixar que largue tudo por mim.

Brad estava prestes a chorar, mas tentou manter o rosto firme, ele era mais sensível que Josh, só que conseguia mascarar muito bem o que sentia.

— Hey...Eu vou me cuidar. — Ele continuou a falar. — Já me viu fazer algo estúpido? Prometo tentar manter algum contato, nem que seja um sinal de fumaça.

Ambos deram uma risada tristonha, aquilo estava sendo como uma facada no peito de Josh, porém ele não conseguiria mais ficar ali. Se separar do irmão doía mais que levar um tiro.

— Quando vai? —

Ele não tinha parado para pensar na fuga, mas precisava ser o quanto antes melhor, ele não queria ficar muito tempo preso no instituto, mas precisava descansar antes de partir.

— Amanhã a noite, não quero chamar atenção. — Josh concluiu.

Brad balançou a cabeça positivamente, ele estava gritando por dentro, chorando, e a cada vez ficava mais difícil esconder o que sentia, mas todo o esforço do mundo nunca iria esconder de Josh os sentimentos, o irmão o conhecia melhor que ninguém.

Ele se levantou da cama e caminhou em direção a saída, estava quieto, o clima mais próximo de um funeral. A postura de Brad estava murcha, ele tinha mais nada na cabeça agora, apenas queria ir para o seu quarto. Saindo e fechando a porta ele deixou Josh sozinho novamente.

O garoto voltou a deitar-se na cama e se encolheu, não conseguiu segurar as lágrimas que corriam a bochecha rapidamente deixando o travesseiro úmido. Ele estava acabado de diversas maneiras possíveis. Muitas pessoas poderiam ter desejado a existência daquele mundo e fazer de tudo para ser parte, como o Brad, que era corajoso e heroico, mas Josh não. Ele sempre foi o oposto, o quieto, o que sempre gostou de tudo sobre controle, onde as coisas começavam e terminava em seu eixo cotidiano e normal.

Ele voltou a escutar passos no corredor e só teve tempo de virar o corpo para o lado da parede e reprimir as lágrimas. A pessoa entrou no quarto dele sem nem ao menos bater.

— Treino daqui a dez minutos. — Falou Henrique.

O rosto dele ficou sério e os olhos arregalaram ao ver Josh em posição fetal em cima da cama. De subto ele começou a se aproximar do garoto.

— O que aconteceu? — Perguntou a ele.

Josh não queria que ele soubesse de nada, não gostava nenhum pouco das pessoas saberem seus problemas ou sentirem pena dele.

— Vai embora, Henrique. — Lutou para as palavras não saírem carregadas de choro.

O outro nem ao menos recuou, ficou de pé ao lado da cama olhando para o garoto.

— Não vou sair, vou esperar você. — Disse se locomovendo e sentou na única cadeira do quarto.

Josh se ajeitou na cama para olhá-lo e secou o rosto que estava úmido, o ruivo ficou ainda mais espantado e preocupado quando percebeu que ele estava chorando.

— Me esperar, para que? — Perguntou a Henrique.

— Para descer e treinar. — Ele arqueou as sobrancelhas como se fosse algo óbvio.

Se levantando da cama ele andou alguns passos e abriu a porta do quarto.

— Olha, não estou afim de treinar e nem vou. — Fez uma pequena pausa. — Agora sai, por favor.

Rique não se moveu na cadeira, ao contrário, ele deu uma pequena risada permanecendo parado. Josh sentiu o sangue ferver, não estava achando a menor graça.

— Olha só, o beato não quer treinar para ser um caçador de sombras? Típico. — Disse rindo novamente.

— E se eu não quiser ser mesmo, sabe?! Ninguém me enviou nenhum convite a fazer parte disso, apenas me colocaram aqui contra a minha vontade! — Ele gritava agora.

O ruivo parecia que havia levado dois tapas na cara e se levantou indo em direção a ele, aquilo era a coisa mais absurda que escutou na vida.

— Não quer ser um caçador de sombras? Deixa eu te contar, você não tem escolha. — A voz dele se tornou perigosa.

Josh andou mais alguns passos na direção dele igualmente ficando com o rosto bem próximo ao do outro, mas o clima não era o mesmo de antes quando se aproximavam, aquele era um clima tenso e mortal.

— Deixa eu te contar uma coisa... — Ele fez uma grande ênfase no ''eu'' — ...Sempre temos escolhas. Por favor, sai do meu quarto.

Eles ficaram se encarando por um minuto, mas Rique foi o primeiro a ceder.

— Então pode ficar aqui, mundano. — Disse ríspido.

Rique voltou a andar com passos pesados em direção a porta e batendo ela forte ao sair.
Josh novamente se encontrou no imenso quarto sozinho, mas dessa vez não sentiu vontade de chorar, sentia uma raiva enorme dentro de si crescendo cada vez mais, não aprovou nada o tom de voz de Henrique.

. . . . . . . . . . . . . .

— Foco, Brad! — Disse Lyssander.

Os dois estavam na sala de treinamento e Brad socava o boneco, mas ele não conseguia se concentrar, não estava com disposição para treinar e era evidente. O pensamento no irmão ficava cada vez maior. Se sentia despedaçado, viveu protegendo o irmão a vida toda, agora iria ver ele partir e não poderia impedi-lo.

— Ok, para. — Lys andou e sentou no tatami. — Vem aqui.

O corpo dele não tinha nenhum suor, mas tinha no rosto a expressão de alguém que havia recebido uma surra. Ele se aproximou do tatami e se sentou ao lado do tutor.

— Vai me contar por que está com essa cara? — Perguntou ao menino.

Ele não iria contar sobre o plano do irmão, Lys não conseguiria convencê-lo a permanecer no instituto. Desconfortavelmente ele se mexeu e encolheu os ombros, coisa que era difícil de fazer.

— É sobre a Rose, estão tendo algo? — Fez outra pausa. — Vamos lá cara, só quero conversar.

Ele abriu a boca para contar tudo, mas lhe faltou o ar e as palavras não saíram, ele não conseguiria contar o que o irmão planejava fazer, não queria que ele fosse embora mas também não queria que Josh ficasse preso a um lugar que não o agradava.

— Eu só estou me sentindo mal, só isso. — Finalmente respondeu baixo, olhando para as mãos.

Lyssander não pareceu convencido pois sabia quando alguém estava mentindo, também tinha uma irmã e sempre descobria quando estava chateada.

— É sobre seu irmão? Alguma coisa aconteceu entre vocês? — Continuou a insistir.

Brad se manteve calado e apenas balançou a cabeça positivamente, não importava quantas vezes ele fosse pressionar o garoto, ele não iria falar nada.

— Bem...Sugiro então que descanse, não adianta treinar dessa maneira. — Disse com carinho.

Ele deu dois tapas nas costas do outro para que se animasse e levantou do tatami indo a saída da sala de treinamento.

Ao mesmo tempo que Lys saiu, Henrique entrou. Ele estava com passos tão pesados que faziam um alto som no chão, o rosto com uma expressão de fúria estampada inconfundível, os punhos cerrados. Rique ia em direção a Brad com o olhar pegando fogo, o garoto logo se pôs se pé em defesa, mas o outro foi mais rápido e agarrou a gola da camisa dele.

— O que você está colocando na cabeça do seu irmão? — Ele gritava ferozmente.

O garoto pareceu empalidecer mais.

— Nada. — A voz dele saiu baixa em resposta.

Henrique continuava agarrando Brad pelo colarinho da camisa, o rosto dele dizia que não estava para brincadeira e queria respostas.

— Ele não quer ser mais um caçador de sombras, sabia disso? — Perguntou a Brad, respirando pesado. — O que você está dizendo pra ele?

O outro não estava entendendo absolutamente nada e nem sabia o motivo de ser acusado, mas havia ficado bravo com o comportamento de Rique. Em um movimento rápido ele se soltou dele e o fitou nos olhos com raiva também.

— Sim, eu sei, acha que estou feliz? — Ele andou um pouco tentando pensar. — Eu não aprovo que ele esteja fazendo isso, mas não posso segurar ele aqui.

O ruivo arregalou tanto os olhos que iriam parecer pular do rosto, estava agora chocado e ao mesmo tempo com raiva, não acreditou no que ouviu.

— Segurar ele aqui? Por acaso ele vai a algum lugar? — Disse se aproximando de Brad.

Engolindo em seco ele recuou alguns passos de Rique e abaixou a cabeça, havia falado demais.

— Me responde! — Gritou.

O garoto estremeceu onde estava parado, então se lembrou da maneira que o irmão ficava ao lado de Henrique. Se alguém conseguisse impedir Josh seria ele sem nenhuma mancha de dúvida, mas ele teria que trair a confiança do irmão para isso, porém haviam poucas escolhas.

— Ele vai fugir daqui. — Acrescentou. — A noite.

Rique deu alguns passos para trás e passou a mão pelo cabelo bagunçado, ele soltou uma risada baixa e quando voltou a olhar para Brad, estampado no rosto tinha um sorriso torto e descrente.

— Ele não vai fugir. — Se encaminhou para a porta. — Eu não vou deixar.

E apenas deixou essa frase morrer no ar enquanto Brad o assistia deixar a sala e ficar sozinho no que acabou de fazer que por um lado foi bom, mas sabia que o irmão não iria mais confiar nele depois daquilo.

. . . . . . . . . . . . . .

Josh continuava fechado em seu quarto se excluindo do resto do instituto, o tempo ao lado de fora parecia passar em câmera lenta, ele estava ali a horas. Submerso em seus pensamentos ele conseguiu ficar sozinho pelo menos uma vez dês de que pisou no instituto. O irmão voltou novamente na cabeça dele, o olhar protetor que sempre mantinha quando estava perto de Josh, ele o amava.

A pedra enfeitiçada no pulso de Josh pareceu pulsar e brilhar um pouco, então ele compreendeu. Brad o amava, ele não o deixaria ir embora e tentaria impedi-lo de alguma forma amanhã. O garoto se levantou da cama em um salto e pegou o mochilão que estava perto dele e enfiou algumas roupas dentro, ele não iria perder tempo, iria embora naquela noite sem nenhuma interrupção.

Ele se preparou para a chegada da noite nervoso e ansioso, já tinha tomado uns três banhos enquanto esperava a lua resplandecer no céu. Desejava sair de madrugada, assim ninguém notaria a presença dele enquanto saísse. Josh sentou na beirada da cama e sentiu a barriga protestar de fome, ele não comeu nada dês de o café da manhã e estava com a barriga vazia, precisava comer algo.

Saindo do quarto ele atravessou o corredor e desceu as escadas e se dirigiu para a cozinha. Já estava arrumado para a noite, apenas queria comer algo antes de sair. Ao entrar ficou feliz ao ver ela vazia, ainda tinha algumas frutas na mesa embora soubesse que a panela no fogão estava com comida. Ele pegou algumas frutas e um copo de leite, se sentou e começou a comer sem pressa alguma voltando a pensar.

— Nossa...Todo arrumado, vai a algum lugar? — A voz de Rique soou sarcástica.

Josh levou um susto tão grande e quase caiu da cadeira. O olhar em chamas foi ao encontro do ruivo que já havia entrado no cômodo e sentado a frente dele.

— Não. Eu sempre fico arrumado. — Mentiu tentando ser mais natural possível.

O outro a sua frente arqueou as sobrancelhas e riu divertidamente, Josh odiava quando ele fazia aquilo, rir como se estivesse sendo um palhaço ou um divertimento para Rique.

— Qual a graça? — Perguntou rápido.

Henrique balançou os ombros ainda parecendo divertido, os olhos castanhos claros em um tom puro de desafio.

— Nenhuma. — Falou pegando uma maça e dando uma mordida, fazendo o suco escorrer pelo canto da boca.

Josh ainda continuou a observá-lo com cuidado, tinha alguma coisa de errado e sabia disso. Semicerrou os olhos para ele inclinando a cabeça levemente para a direita, se perguntou se Rique sabia o que faria, mas era impossível ele saber, Brad nunca quebraria a confiança dele daquele jeito, ou era o que pensava.

— Bem...Então te vejo mais tarde. — Ele sorriu um tanto forçando se pondo de pé.

Acho que não. Josh pensou, mas ele estava tão distraído e com fome que nem deu importância ao que Henrique havia dito.

— Até então. — Respondeu sem olhar pra ele.

O garoto apenas o ouviu Rique se levantar e sair do cômodo silenciosamente, deixando-o sozinho ainda comendo. Depois de saciado ele se levantou e saiu da cozinha voltando pro quarto, só restava esperar agora para Josh.

O tempo passou devagar depois e a noite caiu com calma mostrando uma lua imensa no céu. Ainda era cedo para colocar o plano de fuga em prática, mas já estava perto. Josh se colocou a vigiar fazendo pequenas rondas no instituto de tempo em tempo para ver a movimentação, que a cada vez que saía parecia mais deserto.

Ele estava com medo e não podia negar. Ainda sentia que o instiuto era o lugar mais seguro para ele, mas ao mesmo tempo que transmitia segurança continuava a sentir também o de que estava deslocado, que nada ali fazia parte dele.

Josh olhou pela janela mais uma vez e viu a rua quase deserta somente por uma pequena movimentação de carros. Estava na hora. O nervosismo dele cresceu e ele ficou inquieto, andando pelo quarto como se esperasse algum sinal para que partisse, mas tudo dependia somente dele. O garoto pegou a mochila e colocou nas costas, abriu a porta do quarto e saindo tentando fazer menos ruídos possíveis para a partida.

A sala de entrada brilhava de história e beleza da mesma maneira que ele pisou ali alguns dias atrás. O local o cativava, fazia se apaixonar mais pelo vislumbre da história entre os séculos, contos daquele mundo inacreditável e que existia.

Descendo os degraus da escada central se aproximou a passos bem largos da porta de entrada com a respiração pesada, o coração acelerado, o corpo em resposta de puro nervosismo, pavor e ansiedade ao mesmo tempo. Ele não acreditou que estava fazendo aquilo, pois na verdade sempre foi o irmão que conseguia compreender um pouco mais as coisas, mas não naquela vez, Josh não queria compreender, não queria entender ou fazer parte do mundo das sombras.

Chegando na porta ele colocou a mão na maçaneta e abriu sem nenhuma cerimônia, mas quase deixou a mochila cair no chão quando viu Henrique sentado ao degrau. Ele estava de costas mas se virou ao escutar o ranger da porta, no rosto um sorriso de descrença dançava nos lábios. O ruivo ficou de pé e se aproximou de Josh que estava pasmo sem cor nenhuma no rosto.

— E eu achei que seu irmão estivesse mentindo. — Se aproximou dele com um olhar feroz, mas o rosto totalmente inexpressivo.

— Sai da frente, Henrique. — Ele retrucou de imediato, não estava com paciência para aturar o garoto.

Rique chegou ainda mais próximo dele com os braços cruzados sobre o peito, a cabeça levemente inclinada para o lado, agora ele havia ganhado expressão no rosto. Desafio.

— Me obriga a sair. — Estava ainda mais perto do outro, o tom da voz em um sussurro aveludado.

— Não pode me prender aqui. — Falou empurrando o garoto de sua frente e voltado a andar, mas não conseguiu.

Henrique o havia puxado pelo braço e com um impulso o trouxe para mais perto de si, ele apertava forte o braço de Josh enquanto o arrastava para dentro do instituto novamente.

— Vai descobrir... — Fez uma pequena pausa. — Que eu posso.

E apenas agarrando o braço de Josh ele o guiou para dentro de novo e voltando a subir a escadaria central. O garoto resmungava de dor, mas Henrique não pareceu se importar nenhum pouco, pois ele tinha tomado uma decisão imprudente ao tentar sair do instituto, precisava arcar com as consequências.

Eles não subiram ao lado do dormitório de Josh, mas para o outro lado, fazendo o garoto não entender nada. Andaram mais um pouco e pararam em frente a uma porta, Rique bateu nela, apenas três toques suaves. O garoto continuou o encarando com raiva, mas sua atenção se desviou quando a porta abriu.

— O que estão fazendo? — A voz de Shelly soou baixo.

Shell olhou para os dois confusa e com o rosto agravado de quem precisava dormir. Henrique entrou no quarto passando por ela, puxando o garoto junto pelo braço. Quando entrou e a porta fechou ele o soltou.

— Preciso que você fique de olho nele Shelly. — Pediu Henrique.

Josh não poderia acreditar novamente no que estava acontecendo. Ele estava sendo tratado como criança mimada que precisava de uma babá. A garota estava passando a mão no rosto cansado tentando entender o motivo.

Ele deixou cair o mochilão que carregava nos ombros, estava descontente e com pura raiva do seu irmão que o traiu.

— Josh tentou fugir do instituto. — O ruivo fitou o garoto ainda com aquele olhar de fúria.

Shelly o olhou surpresa, ainda parecia um pouco cansada e com sono, mas bem alerta agora.
Josh percebeu que o quarto dela havia mais livros e a cama era uma beliche de madeira escura, mas ela estava sozinha ali. Henrique andou para perto da porta esperando uma resposta da garota que estava a pensar, e dando de ombros ela desistiu.

— Ok, eu fico de olho nele, mas quero saber melhor sobre isso amanhã. — Fitou Henrique e continuou — E, não conte isso a Ramona, sabe como ela é. — Advertiu.

Rique acenou com a cabeça insinuando que entendeu, olhou mais uma vez para Josh e saiu do quarto em silêncio, fazendo pouco barulho. A garota se virou para o menino de pé diante de si com aquela expressão '' Mas, por que? '', porém ele não disse nada, apenas andou um pouco e colocou a mochila em um canto do quarto.

— Quer conversar sobre isso agora? — Ela perguntou e Josh soube que teria que conversar com ela de qualquer maneira, mas aquele não era o momento.

Ele bufou entediado e novamente esgotado, tudo parecia estar dando errado, achou que não era justo ter que ficar ali. Pensou também na atitude de Rique, como ele ficou tão bravo e obrigou Josh a ficar, a maneira como ele estava esperando o outro ao lado de fora do instituto.

— Olha Shelly...Depois, ok? — Respondeu cansado.

Shel confirmou com a cabeça e sentou na beirada da cama debaixo da beliche.

— Você fica com a de cima. Caso queira fugir de novo, vai ser difícil. — Falou sem medo de parecer ofende-lo.

Ele sem nenhuma conversa a mais ele subiu as escadas que ficavam na lateral da cama e deitou olhando pro teto escuro. O silêncio dominou todo o local não demorou muito para que o sono visse e tomasse conta do seu corpo.

. . . . . . . . . . . . . .

A lapa estava iluminada naquela noite, o chão sujo de confetes e restos de fantasias, o carnaval estava no auge e um samba tocava bem baixo em um dos bares. Josh andou sobre a rua que estava lotada de pessoas, mas elas não se moviam, não falavam, estavam inexpressivas e nem pareciam respirar. Ele cruzou o mar de cabeças que estavam em transe até chegar no centro da lapa, aquela imensa parte onde deveria ter pessoas dançando, cantando ou fazendo outras coisas estava irreconhecível.

As criaturas encapuzadas corriam de um lado para o outro sibilando e matando as pessoas que estavam desacordadas, sangue jorrava por tudo o que era lado, mas essa não foi a parte que deixou Josh com horror. Jefferson, seu pai, estava lá bem no meio do banho de sangue. Ainda tinha os olhos dourados, caninos grandes e a aura sombria e sinistra que fez o garoto se arrepiar da cabeça aos pés, mas dessa vez tinha uma mudança. O sorriso dele.

Não era o sorriso habitual do pai, era como se alguém tivesse costurado o sorriso de outra pessoa no rosto de Jefferson, até suas expressões estavam mudando, mas ele reconhecia aquele sorriso de algum lugar. Ele encarou Josh dentro daquela imensa distância e paralisou o garoto que parecia ter ficado como os outros.

O cheiro diferente e estranho foi ficando mais forte a partir do momento que ele chegava mais perto do garoto, a cada passo parecia surtir efeito no corpo do mesmo. Quando ele se aproximou o suficiente a ficarem cara a cara, Josh teve aquela estranha sensação se não conseguir respirar, de estar sendo sufocado, mas dessa vez seu pai apenas observou ele morrer lentamente a sua frente. Foi ai que ele viu.

Atrás de Jefferson como se fosse uma sombra estava o demônio que ele havia visto na casa dele em seu quarto. O rosto pálido e com cicatrizes grandes e feias cortando o rosto. Josh estremeceu e caiu por terra, finalmente no seu último suspiro.


Ele ergueu o corpo no maior impulso que seu corpo conseguiu produzir para a frente que quase o fez bater a testa no teto. Josh se lembrou que estava no quarto de Shelly, ainda estava lembrando o que aconteceu na noite anterior.

Saindo da beliche em um salto ele se pôs de pé com o corpo ereto ao tocar o chão. Da última vez que teve um sonho com seu pai ele acordou todo empapado de suor, mas dessa vez estava ao contrário, ele estava pálido como cera e gelado, o corpo em tensão. Respirando fundo ele passou a mão sobre o cabelo que já estava bagunçado tentando colocar os dois sonhos em ordem para notar as semelhanças que eram muitas.

Depois de um tempo pensativo ele olhou em volta, o quarto estava bem mais iluminado que o seu e tinha também um tom mais agradável. Shelly não estava ali, mas sabia que ela não gostaria que ele mexesse em suas coisas sem devida permissão.

Saindo do quarto apressadamente ele desceu toda a escadaria indo para a cozinha, e antes mesmo de chegar lá escutou a voz dos outros lá dentro, inclusive de Brad e Henrique. Ele entrou na cozinha e eles estavam lá como todos os outros dias, menos Shelly e Lyssander que não estava presentes.

— Bom-dia! — Disse Henrique em uma mistura de tom animado e debochado.

O garoto o fuzilou com o olhar enquanto adentrava a cozinha e ficou ainda com mais raiva quando viu o outro sorrir abertamente, como se estivesse tudo numa boa. O olhar dele depois pairou em Brad, que se encolheu no assento culpado, fazendo Rose desconfiar ainda mais do clima que se agravou um pouco quando ele entrou.

No prato de Josh havia o que ele comia habitualmente no café da manhã, frutas, iogurte e suco de laranja. Ele comeu em silêncio se tentando a não olhar para os companheiros a mesa, por que se olhasse saberia que iria discutir com algum deles.

— Dormiu bem, lindo? — Perguntou Rique, fazendo Josh o olhar. Ele ainda tinha aquela incrível expressão debochada.

Ele estava o provocando cada vez mais, e a feição dura de retribuição de Josh surpreendeu até Diaspro que olhava os dois interessado, como se fosse uma novela e perder um minuto seria como perder um capítulo.

— Me diz você. — Retrucou de volta, bem seco.

— Nossa...Hoje ele está feroz. — Provocou ainda mais.

O garoto estava prestes a se levantar e dar na cara do ruivo quando Lyssander entrou com aquele ar sério e porte maduro que os outros não tinham. Ele olhou para todos da mesma forma, fazendo Josh deduzir que ninguém mais além de Shelly, Rique, Brad e ele sabia da tentativa de fuga. Todos fitaram Lys, ele tinha no olhar um tom de quem não estava ali para brincar.

— Ramona quer falar com a gente. — Ele passou a mão na nuca bem preocupado. — Com todo mundo mesmo. Agora!

Todos se entreolharam preocupados e se levantaram juntos para a saída. Josh havia se esquecido da raiva que sentia por Rique e até o outro parecia ter dado uma trégua. Eles saíram da cozinha seguindo Lys para o escritório dela, havia entrado uma vez lá e falou com ela, mas de uma coisa tinha certeza. Ramona era uma mulher que não gostava de brincadeiras, bem séria e direta. Então se convocou todos os jovens caçadores de sombras do instituto é por que algo estava errado.

Notas finais
Peço perdão pelo tempo que demorei para postar, a última semana foi muito complicada para mim. Tentarei postar os capítulos mais rápido, prometo. Espero que tenha gostado desse capítulo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.