Reila

14 Afinal, quem é Reila?


:: CAPÍTULO 14 – Afinal, quem é Reila? ::


Pé ante pé, Yutaka adentrou o quarto de Takanori. Tamanha cautela era aplicada porque tinha consciência de que duas pessoas provavelmente dormiam no lugar.

Cada passo mais próximo de seu alvo, apesar de todo o cuidado, não conseguiu passar despercebido. Reila dormia, mas era um sono atento o suficiente para notar a aproximação do baterista. Levantou a cabeça de leve e, ao ver de quem se tratava, começou a passar as mãos mecanicamente pelo cabelo provavelmente bagunçado.

– Olá, Yamaguro-san! – Sussurrou o moreno, radiante. Seu sorriso sempre tão contagiante fez a garota sorrir, mesmo que de leve, sibilando um “bom dia” de volta enquanto se espreguiçava. Kai prosseguiu. – Na verdade, agora é de noite, mas... Bem, já que você tá aí do lado, pode dar isso pro Ruki? – E estendeu para ela um copo com água e um comprimido, vendo-a acenar positivamente com a cabeça. – Quando terminar, vem aqui fora comer algo, por favor... – Saiu do quarto rapidamente, fechando a porta atrás de si.

Delicadamente, Reila voltou a virar para olhar um Takanori completamente inerte. Dava dó de acordá-lo só pra fazê-lo tomar um comprimido... Fitou o remédio que tinha em mãos e rapidamente o reconheceu como um popular remédio que dizia curar febre, dores de cabeça e outros sintomas da gripe comum.

Talvez isso o ajudasse. E, apesar da pena que sentiu, levou a mão delicadamente ao rosto quente do loiro, fazendo uma leve carícia que o acordou. Sua primeira reação foi um barulho que parecia um ronronado.

– Ah, Akiii... Deixa eu dormir mais um pouco, seu malvado... – Instantaneamente, a morena tirou as mãos do rosto dele. Aki...? Seria Akira? Por que Takanori pensaria que Akira o estava acordando? Seria algo natural para ele acordar desta forma?

– Não, Ruki... É a Reila... Só toma esse remedinho aqui, olha... – Lentamente, tentou colocar o remédio nas mãos do vocalista, que não parecia estar nada acordado ainda.

– Mas eu preciso ir comprar chá de chocolate com caramelo, Reita... E... – Yamaguro sorriu. Completamente adormecido, provavelmente era um pouquinho sonâmbulo. Qualquer coisa que ela respondesse não surtiria efeitos lógicos sobre ele.

– Certo, A gente vai logo. Mas abre a boquinha...


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Yuu bateu a porta atrás de si sem nem ligar para o susto que deu em Uke, que carregava uma bandeja com dois copos de suco e quase as deixou cair.

O que Uruha tinha na cabeça? Ou não tinha nada, ou tinha muitas coisas. Como achava que tinha direito de fazer esse tipo de coisa consigo? Era inaceitável! E se ele achava que iria ficar barato... Ah, mas não ia mesmo!

Só tinha um problema: não fazia ideia de como se vingar de alguém tão perspicaz. E foi com esse pensamento que adentrou o quarto: teria que pensar em algo. Nem ligou para Yutaka que o olhava, indagador.


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Desde mais cedo, entrou em seu quarto e lá ficou. Ele realmente havia conseguido provocar Aoi, e não sabia por que, mas amava fazer isso. Quer dizer... Qual é a graça de ter a vantagem se não se pode esfregar na amável face de quem está perdendo?

Não conseguia tirar o sorriso sapeca dos lábios infantis. Estava tudo saindo bem, tanto que até assustava.

Nesse mesmo momento, Reila devia estar cuidando do pobre Takanori. Só isso que lhe escapara dos cálculos. Não queria, de jeito maneira, ver seu Takanori doente. Era a última coisa da qual precisavam. Logo as férias que a gravadora os concedeu para a mudança e um pouco de descanso acabaria, e o vocalista tinha que estar com a voz perfeita novamente até lá.

E incrivelmente, só pensar em Yamaguro já o trazia muitas lembranças. Em todos os momentos que podia se lembrar de sua infância, a morena o acompanhava. Seus olhos começavam a pesar e não pôde evitar um bocejo de sair.

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– Reilaaaa! Não me pega! – O garotinho de longos cabelos negros corria pelo campo aberto com uma bola mediana em mãos. Atrás de si, uma menina que teria aproximadamente sua idade o perseguia, os risos infantis gostosos ecoavam em todo canto. Os pais, que os supervisionavam, sibilavam coisas para si sobre como os dois se davam bem e como aquilo seria bom para os próprios negócios.

Era incrível como um garoto de seis anos, mesmo sem saber, já tinha seu destino completamente traçado. Casar-se-ia com a caçula da família Yamaguro e tomaria algum cargo importante na empresa que o sogro possuía. E tão logo, quando este morresse, tornar-se-ia dono do lugar. Ninguém o perguntou o que achava, afinal, era uma criança e simplesmente tinha que acatar o que lhe era mandado. Mas simplesmente não sabia do que o aguardava, apenas brincava com a prezada colega.

Não demorou muito, entretanto, e a garota caiu no chão. Abaixou a cabeça e ficou ali, em silêncio. Os pais dos garotos nem notaram nada: estavam muito envoltos em sua conversa. Coisa de adultos. Contudo, Kouyou já estava acostumado com esse tipo de coisa. Aproximou-se da menina, mas só o suficiente para enxergá-la bem. Mais que isso não era prudente.

– Reila... Você se machucou? – Achegou lentamente uma mão até o rosto da morena, mas logo foi repelido por um tapa nada sutil no pulso.

– Não me toque. – O sotaque infantil de Reila sumira repentinamente. Estava acontecendo de novo...

E mesmo tendo apenas seis anos, o garoto tinha ideia dos procedimentos a ser tomados melhor que os próprios pais dela. Acalmá-la parecia fácil quando eles ainda eram tão pequenos. Mas antes que pudesse fazer algo, a senhora Yamaguro aproximou-se deles, provavelmente notando o que estava acontecendo. E julgando Kouyou pequeno demais para lidar com isso, pegou a garota nos braços, e ela começou a se debater loucamente.

Takashima suspirou ao ouvir a futura sogra simplesmente dizendo “Pega o carro querido, precisamos ir...
.”

Era engraçado como evitava falar que iriam a um especialista na frente de outras pessoas. Adultos eram complicados. Levantou-se do chão e passou as mãos pequenas por entre os fios negros da amiga, que se acalmou um pouco ao toque. Logo depois, pegou sua bola e se despediu cordialmente dos adultos, que nem se deram conta de tal gesto.

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Abriu os olhos. Estava ficando sonolento, já estava “pescando” um pouco. Talvez fosse hora de dormir, ou pelo menos hora pra uma soneca. Mas será que ficaria tudo sob controle? Mais um bocejo lhe deixava os lábios. Uns minutos de sono eram necessários. E após tal decisão, não pensou em rejeitar a ideia: deixou os olhos pesarem.

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– Você não pode fazer isso, Takashima Kouyou! – Esbravejava seu pai. Nunca pensou que veria o parente assim tão descontrolado algum dia. Sua mãe apenas estava parada num canto da sala, chorando baixo enquanto seus pedidos para que o marido parasse eram completamente ignorados.

– Não só posso como vou, papai. – Respondeu o filho, agora loiro, com roupas justas, um estojo contendo uma guitarra apoiado nos ombros. – A vida é minha, e não é problema meu se você a planejou sem meu consentimento.

– Você tem um compromisso para com a família Yamaguro, não vai desistir de sua palavra para viver de música junto com aqueles... Aqueles...

– Aqueles – interrompeu Uruha – são meus amigos. E eu não tenho compromisso algum com ninguém. Você tem, e isso não é problema meu.

– Takashima Kouyou, se você sair por aquela porta... Não precisa nunca mais voltar. – Mas ele não pretendia mesmo voltar. Seria um músico de sucesso.

– Então... Adeus, Otou-san. Me desculpe pelos problemas, Oka-san. – Pegou a mochila que repousava perto de si e saiu sem olhar para trás, batendo a porta de correr do cômodo, ainda tendo tempo de ver o pai vermelho de raiva.

Saiu pela porta da frente, sem se importar em trancá-la, com rumo à casa vizinha, onde vivia sua noiva.

Eles haviam conversado sobre isso antes. A garota concordava com tudo, afinal, também tinha seus sonhos e aspirações, e ambos decidiram que sairiam de casa. Seus pais esperavam de si que ela fosse uma esposa tradicional, que ficasse quieta em seu canto obedecendo às ordens que Kouyou a daria. Ela queria ser médica, para ajudar as pessoas. E isso era inaceitável para uma moça decente. Eram famílias muito tradicionais. Mas acima de tudo... Entre Reila e Kouyou, havia apenas uma grande amizade, e essa separação repentina lhes doía um pouco. Ficariam muito tempo sem se ver, mas fazia-se necessário. Ambos seriam felizes assim.

Antes de ir procurar Takanori, amigo com o qual passaria uns dias vivendo, apenas deixou um bilhete na caixa de correios da casa vizinha, previamente escrito, apenas para se despedir formalmente. E se foi.


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Olhou sobre o ombro para confirmar que Shiroyama dormia. O moreno há pouco lhe dera a notícia de que Reila estava na casa. Aquela garota, de novo.

A notícia foi muito mal recebida, com um surto de raiva aparentemente sem motivo. Afinal, por que odiava tanto a morena com quem mal tinha contato? Sexto sentido? Santo não bateu? Quer dizer... Para ele era claro que Reila era uma lambisgoia que deveria permanecer longe de todos, principalmente de Ruki. Como os outros não viam isso, que era tão claro? Só Takashima mesmo pra ter amigas assim.

Ia saindo do quarto para comer algo quando ouviu uma voz feminina dizer algo sobre ter conseguido dar os remédios. O rosto crispou-se em uma atitude automática. A porta entreaberta foi perfeita para que visse e ouvisse tudo o que viria a seguir.


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– Senta, Yamaguro-san... Como você não jantou com a gente, fiz uns lanchinhos pra você... Muito obrigado por cuidar do nosso mascote. – Disse Kai, abrindo seu encantador sorriso logo em seguida. Reila acenou com a cabeça e aceitou a refeição improvisada sem rodeios; estava com fome. Deu uma leve mordida, mas algo ainda remoia sua mente. Assim, mastigou rapidamente o conteúdo da boca para finalmente engoli-lo e poder falar.

– Uke-san... Que tipo de relação tem Takanori com Suzuki-san? – A pergunta surpreendeu o baterista.

– Eles são amigos desde muito pequenos. Bem próximos... – Vacilou por um momento. Teoricamente, o último relacionamento de Matsumoto teria chegado ao fim por causa de ciúmes doentios por parte de Hana. Resolveu que era melhor não deixar isso acontecer de novo. – Mas são só amigos, sabe...

– Ah, claro, entendo... – Completou, mordendo de novo o lanche. Ao notar o embaraço de Yutaka, ainda completou. – Os lanches... Estão muito bons mesmo. Obrigada. – Abaixou levemente a cabeça e o mordeu novamente.

O silêncio pesava no ambiente. Kai pegou um dos vários lanchinhos para si e mordeu, engolindo rapidamente.

– Você e o Takashima se conhecem de onde, Yamaguro-san?

– Hm... – Ela engoliu o que ainda mastigava antes de prosseguir. – Ele era meu vizinho. Também nos conhecemos de muito tempo atrás, nossas famílias faziam negócios. Mas já fazia muitos e muitos anos que eu não via Kouyou. Nós nos falávamos às vezes por telefone e eu sempre acompanhei a banda de vocês, claro... Fiquei surpresa quando ele disse que queria me ver, depois de tanto tempo.

– Ele nunca falou nada disso para nós...

– Ah, eu sou a amiguinha problemática. Quando ele fugiu de casa, a gente nunca mais se viu.

– Fugiu...? – Aquela era uma informação nova. Por que Kouyou fugiria de casa? Seus pais sempre o apoiaram... Apesar que... Uke não conhecia os pais de Uruha.

– Takashima-sama não aprovou muito essa ideia da banda. Mas isso faz tanto tempo...

De repente, antes que pudessem continuar com o diálogo, o citado guitarrista emergiu abruptamente da porta de seu quarto com um tanto de urgência em interromper aquela conversa.

– Reila-chan! Olha aqui... Já está tarde pra você ir pra casa, e o Ruki precisa mesmo de alguém que o observe à noite... Como você tem sono leve, pode dormir lá no quarto? Tem uma cama que está desocupada ali ao lado, então você pode pernoitar, e...

– Claro, Kou. – Respondeu a moça, notando a afobação do colega. Enfiou o resto do lanche goela abaixo com a ajuda de um pouco de suco e logo se despediu dos dois homens. Possivelmente teriam algo para conversar, já que as revelações que ela própria fizera não pareciam ter sido muito propícias.

– Boa noite... – Cochichou Yutaka antes de ela desaparecer pela porta.

E mais uma vez, o silêncio tomou conta do ambiente com facilidade. Uruha ateve-se a passar uma mão levemente por entre os fios negros do baterista, uma vez que estava atrás dele, em pé.

– Ela é uma boa menina, Kai-chi. Não precisa se preocupar... – Terminando a frase, apenas virou-se e voltou para seus aposentos. Ainda tinha muito sono, mas ao acordar e ouvir que Reila dava com a língua entre os dentes, resolveu pará-la antes que falasse mais que o necessário.

E o moreninho deixado para trás com um turbilhão de perguntas em mente apenas ficou paralisado. Resolveu que precisava fumar. Estava tentando parar com isso, mas era um vício por demais tentador. Pegou um cigarro dentro da caixa mais próxima que encontrou, não se importando com quem era o dono dos mesmos, e saiu pela porta em direção à varanda.

Enquanto isso, a última coisa que passava pela mente do baixista agora era o lanchinho que pensava em fazer há alguns minutos.

Notas finais
N/A: Reescrevi os capítulos anteriores e re-postei. Eu sei que ninguém lerá de novo, mas pra quem quiser, aí está. As notas finais também mudaram, então é capaz de tropeçarem com alguma coisa interessante se lerem. Enfim, enfim... Quem gostou da trágica vida do Shima levanta a patinhaaa! Eu amay.bgs