Reia
2 Parte 1 - Quando tudo desaba.
Notas iniciais
Parte 1
“Às vezes agimos por instinto, impulsionados pela dor, pelo dever, ou pelo amor; esse é nosso ponto de partida, o que nos mantêm de pé e também nos derruba.”
(Shamõ 10)
Quando tudo desaba.
Éden – Semeada, MA – Brasil.
A cidade Semeada recebeu esse nome por ter sido um espaço povoado por pessoas de diversas cidades e lugares, sendo semeada aos poucos, habitante por habitante, tijolo por tijolo, planta por planta. Conseguiu sua independência e reconhecimento como cidade em agosto de 1997.
E então o garoto abraçou o extraterrestre para se despedir e cada um seguiu seu caminho para casa.
— Ah – as crianças falaram alto formando um coro de desapontamento pela história ter acabado.
— Agora vão lanchar – Nicole falou rindo
Enquanto as crianças dirigiam-se para o refeitório, ela arrumava sua bolsa, colocando o livro infantil que lera cuidadosamente em um canto separado dos outros objetos. Agora que havia acabado a história teria que conseguir outro bom livro para eles, nada que os desapontasse, afinal Nicole amava ver os sorrisos daquelas crianças, tão doces e ingênuas, e ela sabia que também se encaixava nessas categorias, para ela sua ingenuidade era seu maior defeito.
— Tia – um menino gritou sorrindo e correu em sua direção, chamando sua atenção – Você acredita em extraterrestres?
— Bem, Iago – ela parou por um instante para pensar – Não sei, muitas pessoas dizem ter visto naves e tudo mais, mas eu nunca vi, então não posso afirmar nada.
— A Clara disse que eles querem invadir a terra e controlar a gente – Iago disse com a expressão duvidosa, como que esperando um comentário.
— É, todos dizem isso – Nicole riu – Queria saber de onde tiraram essa ideia.
— Eu também – ele sorriu e continuou – Ah, tia, eu tenho uma coisa para a senhora – Iago colocou a mão no bolso de sua bermuda e em seguida a posicionou em frente ao corpo para que Nicole pegasse – Eu que fiz, achei os guizos e consegui a fita com uma menina. É para prender o cabelo, eu sei que a senhora gosta.
— Obrigada – ela disse sorrindo e pegando o presente, uma fita azul celeste com um guizo prateado amarrado em cada ponta.
— A Julia me ajudou a fazer – ele fez uma expressão de desapontamento enquanto passava a mão nos cabelos – Não levo muito jeito com essas coisas.
— Eu amei, bobo. Obrigada!
— De nada – ele respondeu alegremente e saiu correndo.
Nicole amava esse tipo de presente, esteticamente simples, mas com um valor inestimável. Isso a fazia se sentir querida, e ela sabia que aquelas crianças eram sinceras, afinal ela era como elas. Crescera naquele mesmo orfanato, e como lá permaneceu até conseguir seguir seu próprio rumo, decidiu voltar e trabalhar lá mesmo, como professora. Nicole quase não tinha uma vida fora daquele lugar, e não se importava, tudo o que queria era fazer companhia aos órfãos como ela, porque sabia o quão pesada é a solidão.
Ao final do dia, Nicole passou nos dormitórios para desejar boa noite para as crianças, o que era bastante comum, depois de fazer isso ela costumava recolher-se em seu quarto, mas naquela noite resolvera sair um pouco, pois as vezes gostava de relaxar antes de dormir.
— Você vai lá fora? – perguntou a coordenadora do lugar, uma mulher baixa de meia idade, cabelos ruivos e olhos castanhos escondidos atrás de um grande par de óculos redondos.
— Sim – Nicole respondeu sorrindo.
— Não demore menina, não vá se resfriar. – alertou como uma mãe protetora. Ela era isso mesmo, sempre fora.
— Pode deixar. – a jovem deu uma curta risada.
A coordenadora, Carolina, era uma senhora muito doce e atenciosa, sempre foi como uma mãe para Nicole, que crescera escutando as histórias da mulher, sua maior inspiração. Ao sair, ela afastou-se um pouco e sentou-se na grama, era uma linda noite, o céu estava estrelado e a lua cheia, a brisa esvoaçava os cabelos castanhos claros de Nicole, era uma ótima noite para esvaziar a mente e relaxar, muitas noites eram assim, do tipo que permitia sonhar, ela crescera vendo as estrelas pelas janelas do dormitório feminino, e depois de adulta finalmente pode sair para aproveitar o repertorio completo.
O Orfanato Esperança ficava um pouco afastado da cidade, ao final de uma estrada de terra, subindo a montanha, havia um portão enorme que dava acesso ao lugar. A enorme casa ficava em meio a um campo bem aparado onde Nicole sempre correra enquanto brincava com as outras crianças. Era um lugar adorável, tranqüilo e familiar, capaz de ser chamado de lar, e as pessoas que lá trabalhavam eram como uma família.
— Carolina me disse que você estava aqui – a diretora, Suzana, disse, despertando Nicole de seu transe enquanto a cobria com um cobertor – Não sei se um dia entenderei esse seu apego pela noite.
— É o fim do dia, hora de descansar – ela riu.
— Isso, é o fim do dia. É um dia a menos de vida, como virar a página de um livro.
Nicole assentiu e sorriu.
— A senhora tem razão. Nunca tinha visto por esse lado.
— Entendo, acho que é porque diferente das outras pessoas, você não fica se prendendo ao dia de amanhã. Está apenas vivendo não é? – Suzana disse sorrindo.
— A senhora me conhece muito bem.
— Você sempre foi uma criança encantadora, Nicole.
— Particularmente eu acho a noite linda – ela disse, olhando para o céu – E também gosto de dormir, porque assim posso sonhar.
— E se você tiver pesadelos?
— Eu devo parar de viver por ter medo de morrer?
— Entendo – a mulher sorriu docemente – Vou entrar agora, não demore.
— Tudo bem.
Quando escutou a porta da casa se fechar, Nicole deitou-se na grama, observando o céu, até que seus olhos foram se fechando, já sonolentos.
***
Um barulho no portão acordou a garota alguns minutos depois. Ela levantou-se para ver o que era, mas estava escuro, então aproximou-se devagar, com um crescente medo. A poucos metros do portão Nicole paralisou, um dos lados estava sendo aberto. Ela começou a andar para trás enquanto uma pessoa vestida com roupas negras como a noite, e uma capa preta segura sobre o braço entrava e aproximava-se dela.
— C-como? – ela gaguejava, com os olhos quase saltando para fora – Como entrou aqui? – então tropeçou e caiu.
De repente a pessoa parou, a poucos centímetros dela. Era um rapaz um pouco mais alto que ela, pele clara, cabelos curtos e ruivos, os olhos castanhos. Ele abriu um sorriso discreto e disse:
— Desculpe por te assustar – e ofereceu a mão para ajudá-la a levantar.
— Quem é você? – ela perguntou ainda parada.
— Meu nome é Ash, vim aqui na esperança de encontrar ajuda.
— Como entrou aqui?
Ele ficou inexpressivo e depois de um segundo respondeu:
— Acho que esqueceram de trancar.
Nicole finalmente segurou em sua mão e levantou.
— Obrigada – disse seriamente.
— Bem, você poderia me ajudar?
— O que você quer? – franziu o cenho.
— Ficar aqui essa noite – Ash sorriu envergonhado.
— Não posso decidir nada, isso é um orfanato e sou só uma professora.
— Não tem nenhum lugar onde eu possa ficar? – insistiu.
— Por que está vestido assim e por que quer um lugar para dormir? – ela perguntou desconfiada.
— Ah, isso? – ele perguntou olhando para a roupa – É uma espécie de agasalho, é uma roupa de motoqueiro. Eu bati minha moto no início da estrada de terra, em um poste, então caminhei até aqui.
— Entendi. – Nicole assentiu, observando a capa que pendia de seu braço.
— Você pode me ajudar?
— Existe um porão externo.
***
Quando amanheceu Nicole acordou sobressaltada, olhando para os lados.
Droga, não acredito que peguei no sono, e agora?— sentiu uma pontada na cabeça.
Ela havia abrigado o estranho chamado Ash no porão localizado do lado de fora da casa, mas como não o conhecia resolveu ficar ali também, o vigiando. Porém falhou miseravelmente quando o cansaço lhe venceu. Ao acordar constatou que ele não estava mais lá. Andou pelo lugar procurando algum sinal, mas nada encontrou. Não sabia o que fazer, sem saber quem era o homem e onde tinha ido, e se fosse perigoso?
Automaticamente sentiu-se culpada, pois possivelmente havia colocado todos em perigo, ou talvez ele houvesse simplesmente ido embora, tentar concertar sua moto, era do que tentava miseravelmente se convencer.
Isso, a moto. Nicole precisava ir até o local do acidente, talvez assim tudo se esclarecesse. Ela voltou para dentro com cuidado para não ser notada. Abriu a porta devagar e andou nas pontas dos pés.
— Onde estava? – a voz de Carolina a assustou.
— Eu peguei no sono enquanto olhava o céu, então, bem... – Nicole procurava uma boa desculpa – Fiquei com medo de acordar alguém fazendo barulho, então resolvi dormir no porão – finalizou com um sorriso inocente, sentindo-se repentinamente fria. Mentir não era seu forte.
— Você não tem jeito – a mulher sorriu de volta.
Nicole foi ao seu quarto e pegou roupas e toalhas para banhar, precisava agir com calma para que ninguém desconfiasse. Ao sair do banho e vestir-se, penteou os cabelos e retirou o presente que Iago havia lhe dado de dentro do bolso da calça que usara. Fez uma trança e amarrou a ponta com a fita azul, enquanto os guizos balançavam. Encarou o espelho por um minuto e saiu.
— Onde você vai? – perguntou Alana, a secretária, que estava segurando uma caixa de documentos perto da porta de entrada.
— Vou procurar um livro para as crianças – Nicole sorriu, tentando disfarçar.
Ao sair ela andou rapidamente até o portão do orfanato e o abriu devagar, pois tudo o que menos queria era chamar atenção. Andou pela estrada de terra e quando chegou ao final, um pouco antes da ferrovia, ficou surpresa ao constatar que não havia qualquer sinal de um acidente.
Quem era aquele homem?— era o que gritava em sua mente.
Continuou andando, pois precisava passar um tempo fora ou poderiam desconfiar, e iria atrás de um livro infantil na livraria mais próxima, afinal era essa sua desculpa.
— Desculpa – ela disse ao esbarrar em alguém enquanto andava.
— Tudo bem – o tom de voz da pessoa era alegre e tranquilo.
— Você – Nicole começou a falar ao levantar o rosto e reconhecer os recentemente familiares olhos castanhos – Ash, certo? – ele estava com roupas comuns, muito diferentes das que vestia na noite passada. Usava calças jeans de cor acinzentada, uma camiseta preta e tênis brancos.
— Ah, você é a moça do orfanato né? – ele sorriu.
— Sim. Acordei e vi que você não estava mais lá, então achei estranho. – disse sem expressão, desejando que seus argumentos fossem suficientes para que Ash explicasse o que havia acontecido, afinal Nicole não queria ser indelicada e falar que o achava muito suspeito.
— Bem, eu precisei sair cedo – ele respondeu ainda sorrindo.
— Sabe, eu passei pelo começo da estrada e não existem sinais de nenhum acidente – ela deixou escapar, devia ter sido o suficiente para deixar bem claras suas suspeitas.
— Já levei minha moto a uma oficina – Ash explicou – Bem cedo procurei por ajuda e consegui – Ele parecia bem descontraído ao falar, natural.
— Entendi.
— Então, você veio até aqui só para me procurar? – o rapaz perguntou um pouco constrangido.
— Não – Nicole disse rapidamente, desejando disfarçar – Vou comprar um livro para as crianças.
— Um livro infantil? Talvez eu possa ajudar – ofereceu, passando a mão nos cabelos desajeitadamente.
— Não precisa – retrucou por educação, mas desejando que ele insistisse, pois ainda tinha medo de ter cometido um erro ao deixá-lo passar a noite no orfanato.
— Não tem problema, não vou fazer nada agora.
— Então tudo bem. – Nicole forçou outro sorriso.
Os dois caminharam até a livraria mais próxima sem dizer uma só palavra.
Após andarem bastante por entre as estantes e prateleiras enquanto folheavam alguns livros, Nicole tateou um de ficção científica, do jeito que as crianças gostavam. Ash pegou de sua mão, sorriu parecendo divertir-se e disse:
— Histórias com extraterrestres?
— Eles amam – ela assentiu.
— Não entendo qual é a da pele verde, do cabeção, e dos olhos enormes – ele gesticulava conforme fazia a descrição, utilizando as mãos e os braços para formar grandes cabeças e olhos em seu rosto até que, de repente, franziu as sobrancelhas seriamente e pensativo.
— Ah também não sei, parece bem feio não é? – ela riu – Alguém deve ter visto algo para poder criar essa imagem.
— Duvido muito – Ash riu e devolveu-lhe o livro.
— Não sei se acredito nessas coisas – Nicole folheava a obra em suas mãos.
— Então, vai levar esse?
— Vou.
Os dois dirigiram-se ao caixa e a jovem professora pagou pelo produto. Saíram da loja em silêncio e, ao atravessarem a rua um carro em alta velocidade ia em sua direção, mas antes que a alcançasse Ash a empurrou, entretanto não foi rápido o suficiente para desviar-se. Quando o acidente ocorreu todos ao redor pararam para olhar e, desesperada, Nicole pegou o celular para chamar uma ambulância.
— Não precisa – o ruivo segurou sua mão – Eu estou bem.
— Você precisa ir ao médico. – ela insistiu.
— Meu braço direito... acho que machucou mesmo – ele suspirou – Mas pegamos um taxi, tudo bem?
— Eu levo vocês – o motorista responsável pelo acidente se voluntariou, com uma expressão bastante preocupada.
***
Levou algum tempo até Ash ser atendido. Precisou engessar o braço, o que levou o resto da manhã e metade da tarde. Nicole o ajudara com tudo e estranhara a maneira como o rapaz permanecia calado, como se temesse que alguém o escutasse. Quando saíram do hospital o sol já estava se pondo, e ele sugeriu que fossem a algum estabelecimento para comer. Como resultado pararam em uma lanchonete a poucos quilômetros dali, pois a fome não lhes permitiu ir mais longe.
— Devem estar preocupados comigo – Nicole respirou profundamente.
— Por que você não liga para explicar a demora? – Ash sugeriu enquanto dava um gole em seu refrigerante.
— Esqueci o celular. – ela franziu o cenho.
— Você mora lá? – ele falou após um tempo, quebrando o silêncio, e Nicole assentiu. – Desde quando?
— Desde que me lembro.
— Você é órfã?
— Sou – Nicole sorriu sem jeito – Me levaram para lá quando eu tinha cerca de um ano, me colocaram na porta.
— Lembra da sua mãe? – perguntou concentrado.
— Não, nada mesmo – ela suspirou.
— Sinto muito – o jovem franziu as sobrancelhas.
— Eu sou feliz no orfanato, minha família está lá – Nicole sorriu – E tem um garoto que eu gostaria de adotar.
— Que bom – ele sorriu.
Quando acabaram de comer pegaram um taxi para voltar. Pararam em frente ao caminho de terra e desceram, mas Ash ofereceu-se para acompanhar Nicole até o orfanato. O céu estava escuro e estrelado quando um misto de laranja, amarelo e vermelho começou a invadir a paisagem. O cheiro de fumaça preencheu o ar, e instintivamente Nicole correu.
O orfanato estava em chamas.
— Espere – Ash segurou sua mão e a puxou quando ela estava quase abrindo o portão.
— Eu tenho que ir – a professora berrou desesperadamente e puxou a mão com muita força.
O rapaz a agarrou pelo pulso e soltou o braço da tipoia, puxando o corpo da jovem para buscar seus lábios. Rapidamente algo liquido desceu pela garganta de Nicole, e quando conseguiu soltar-se do abraço apertado, sua cabeça estava girando. A garota apoiou-se no portão enquanto sua visão ficava cada vez mais embaçada. Quando finalmente conseguiu abrir a fechadura quase desabou pela tontura. Sem saber o que fazer apenas tentou correr, cambaleando a cada mísero passo, os cabelos soltando-se da trança e os olhos lacrimejando. Parte do orfanato estava em chamas, e o fogo alastrava-se lentamente. Em um ímpeto ela correu para a entrada e abriu a porta.
Haviam gritos.
As chamas dançavam no interior do estabelecimento, e tossindo pela quantidade de fumaça Nicole entrou.
— Carolina! – conseguiu gritar – Onde você está?
Não obteve resposta alguma. Ela começou a cambalear pelo lugar enquanto desviava-se do fogo. As crianças pareciam estar em seus quartos, pois os gritos vinham do segundo andar, onde todos os outros deviam estar. Quando Nicole pôs uma das mãos no corrimão da escada uma porta a sua direita abriu-se e alguém a puxou para dentro, tapando sua boca com a mão. Quando a pessoa a soltou, ela virou-se rapidamente para ver quem era e imediatamente franziu o cenho raivosamente.
— O que você quer? – berrou para Ash, que agora parecia confuso.
— Você não devia ter entrado aqui – ele disse com a expressão preocupada – Em pouco tempo este lugar vai desabar.
Os olhos de Nicole quase saltaram para fora enquanto suas sobrancelhas se pregueavam, formando uma expressão chorosa. Ela virou as costas para Ash e tentou correr, as lágrimas já escorrendo por seu rosto.
— Por favor, me escute – ele agarrou seus cotovelos e a puxou enquanto a jovem se debatia, tentando soltar-se.
Nicole caiu de joelhos, aos prantos.
Isso não pode estar acontecendo— pensava repetidamente.
— Desculpe – o ruivo disse, aproximando-se – Nós tentamos achar um modo de ajudar, mas quando chegamos o fogo já estava na casa toda, e só estávamos eu e um amigo. – a garota nada falou, os soluços eram o único som que emitia. – Que bom que veio até aqui, Hayato – o rapaz continuou ao ver seu parceiro chegar – Por favor, leve ela daqui.
Nicole levantou o rosto molhado e viu um homem parado na porta. Alto, a pele bronzeada, cabelos negros como a noite, e olhos acinzentados, vestia roupas escuras como Ash, mas haviam linhas reluzentes por toda a vestimenta, da mesma cor de seus olhos. Sua expressão era dolorosa, mas também parecia bastante irritado. Hayato aproximou-se da garota e pôs suas mãos sob suas costas e pernas, sussurrando um segundo antes de carregá-la:
— Não acredito nisso.
Com Nicole segura em seus braços ele acenou com a cabeça para Ash, apertou a garota contra seu corpo e pulou pela janela, estilhaçando o vidro. O homem caiu firmemente agachado sobre o gramado, sem demonstrar grande esforço para tal feito, levantou e correu pela colina a frente, até o topo. Chegando lá, colocou Nicole sobre a grama e ajoelhou-se atrás dela.
As lágrimas já não jorravam pelo rosto ensopado da jovem, que agora parecia paralisada, em choque, enquanto um tremor constante percorria seu corpo. Ela olhava para baixo, de joelhos e com as mãos em frente à cabeça, apoiando-se no chão. Seus dedos começaram a agarrar as folhas e a terra, enquanto fechavam-se em punhos. Um estrondo a fez levantar os olhos, que imediatamente imobilizaram-se. O orfanato estava desabando rapidamente, tornando-se uma pilha de madeira, como uma gigantesca fogueira. Novamente as lágrimas escorreram por seu rosto, e em uma expressão dolorosa ela arrancou a fita de seus cabelos, com os guizos tilintando ao fraco vento que soprava, e a segurou firmemente perto de seu peito.
— Não pode ser, não é? – sussurrou para si mesma – Não... – seus olhos fecharam-se e suas mãos seguraram a fita junto ao corpo com tanta força que quase chegava a doer, enquanto seus dentes cerravam-se.
— Vamos – Hayato a segurou pelos ombros – Não podemos ficar aqui.
Ainda ajoelhado, ele a segurou firme, com um dos braços abarcando seus ombros pela frente. Ela estava leve, largada e maleável como uma boneca. Uma forte luz a fez levantar a cabeça, e quando olhou para cima seus olhos doeram com a luminosidade. Nicole sentiu seu corpo fraco, como se sua vida estivesse se esvaindo, e lentamente fechou os olhos.
Ah, eu devo estar morrendo.
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