Regret
5 Desperation
Notas iniciais
Qual é o som da morte?
Acordou sozinho, sem a ajuda do despertador novo que comprara dias atrás. Os olhos doíam, como se estivesse doente. Desde o diálogo que ele manteve com aquele ser... Aquele demônio... Suas palavras preenchiam toda sua mente. Mal conseguira pregar os olhos à noite. Porém, o cansaço lhe foi maior, e adormecera por algumas horas, por puro involuntarismo de seu corpo.
Ruki ergueu-se e permaneceu sentado em sua cama. Ainda era cedo o suficiente para que ele fizesse alguma hora. Passou as mãos pelos cabelos e torceu para que todas as imagens presas em sua cabeça não fossem apenas flashes de um “sonho ruim”.
A fala apelativa de Miyavi soou em seus ouvidos como um sussurro. “Mate-os” ecoou pelo quarto como um som grave ecoa pelo estúdio de gravação. O vocalista sorriu, ainda descrente de tudo que lhe estava ocorrendo. Porém, lembrou-se do que o demônio falou por último e ergueu seus olhos.
Lá estava ela, apoiada sobre a cômoda e ao lado do porta-retratos. O objeto que garantiria a paz de Takanori. Aquela arma, refletindo a pouca luz solar que penetrava pela janela fez com que o coração de Ruki disparasse. Não, não era uma ilusão. Muito menos um “sonho ruim”.
Era um completo pesadelo...
O vocalista levantou-se, caminhou vagarosamente em direção à cômoda, pegou a arma nas mãos e por um instante, hesitou. Em seguida, levantou-a e aponto para a própria cabeça, fechando os olhos e contraindo-os.
“Takanori, você está fazendo errado. Não é assim que se resolvem as coisas, não é, filho?”
“Você é idiota o suficiente para não perceber quem é que está fazendo mal para si.”
“Taka-chan, você deveria dar um jeito naqueles que estão lhe perturbando...”
(...)
— Mas vejam só, será que alguém deveria ter me ouvido? – Aquele mesmo jovem de antes falava para Miyavi, enquanto o vi se aproximar.
— Não pense que eu desisti, demônio idiota. – Miyavi parou ao lado dele.
— Então por que deixou o “brinquedinho” com aquele japonês e voltou pra cá?
- Esse jogo está ganho. – Miyavi sorria, com satisfação.
— Não seja convencido. – O outro demônio levantou-se. – Eu acho que ele não parece muito afim de matar aqueles amigos andrógenos dele...
- Aposte e verá. – Miyavi respondeu.
— Cinco almas humanas, está bom pra você? – O outro retrucou.
— Seu saldo de almas chegará no negativo. Aposta ganha.
— Seu maldito convencido. – O demônio emburrara-se enquanto Miyavi ria tranqüilo.
Os dois demônios permaneceram ali, enquanto observavam um jovem vocalista à beira de um colapso...
(...)
Ruki abriu os olhos. Suas memórias passaram sobre sua cabeça novamente na mesma velocidade com que as vozes de seus pais e de seu irmão sumiram. O vocalista afastou a arma da cabeça e sorriu. Começou a olhar para os lados e para todos seus pertences. Era como se tudo fizesse um barulho desconcertante para seus ouvidos.
Estava visivelmente perturbado.
Porém, o sorriso não lhe abandonara mais o rosto.
“Revidar...?”
“Não lhe parece loucura...?”
— Louco eu ficarei se tudo continuar assim... – Sussurrou para si mesmo.
(...)
— Não acham que deveríamos entrar em hiatus? Digo... Sabem, o Ru-san... – Aoi apagava o cigarro no cinzeiro.
— Takanori está realmente estranho. Há algo muito errado com ele e nós não conseguimos descobrir o que é. – Kai completara a fala do guitarrista.
— Estamos juntos há tanto tempo e é a primeira vez que eu o vejo assim... – Uruha olhava pela janela.
— Quem sabe não seja algo passageiro... Eu sei que ele está agindo estranhamente, mas... Não podemos parar com as atividades da banda por causa disso. – Reita foi contra.
— Akira! Você não sabe o que está acontecendo com ele, não pode falar algo assim! – Kai retrucou, bravo. – Precisamos ajudá-lo a superar o que é que seja que o esteja incomodando. Somos os melhores amigos dele, não é? Não devemos abandoná-lo.
Reita olhou para o chão. Parecia estar insensível ao fatos que perturbavam Ruki, porém, a verdade era que ele não sabia o que fazer.
Mas nunca se sabe quando alguém ouve o que falamos.
É sempre bom tomar cuidado com as palavras...
Afinal, não são elas que estão fazendo tanto mal para o vocalista...?
— Justamente por isso eu concordo com Aoi. Vamos pausar as atividad—
— Parar? Estão loucos? – Uruha colocava um ponto final na discussão, quando Ruki entrou na sala, sorrindo.
Os integrantes se entreolharam.
— Só porque eu estava meio depressivo esses dias não quer dizer que eu vá morrer. Não podemos parar agora, que estamos fazendo tanto sucesso. Se não, perderemos o “gás”! – O vocalista colocava suas coisas sobre a mesa e falava, sem abandonar o sorriso.
Por um momento, os outros integrantes da banda ficaram ainda mais apreensivos. Não sabiam se aliviavam suas mentes ao ver o vocalista tão bem disposto novamente. Mas também não sabiam se aquilo era apenas uma máscara estampada em seu rosto.
Reita parecia o mais confuso. Não estava sabendo medir seus atos...
... Nem suas palavras.
— Eu disse que era só passageiro! – O baixista levantou-se e passou as mãos sobre os ombros de Ruki. – Não fica assim, chibi!
Kai poderia ter erguido-se e socado a cara de Reita com toda a força, dizendo para ele parar de ser tão impulsivo. Vontade não lhe faltou. Mas o líder da banda sabia o que o baixista estava sentindo. Todos estavam com um passo atrás sobre as ações de Ruki. Mas queriam acreditar que o jovem que materializou o sonho de formar uma banda estava lá novamente.
Enquanto o vocalista sufocava seu próprio ser...
(...)
Alguns dias se seguiram na PS Company, com o staff alegre por ver Ruki empenhado em ensaiar. Já planejavam a criação de um novo single, e as idéias passeavam pelas cabeças dos jovens integrantes da banda. Divertiam-se como de costume, porém, tentavam medir o que diziam para Takanori.
Kai ainda sentia que aquela atmosfera estava estranha.
Resolveu dizer algo.
— Ruki, você... Está realmente bem?
— Do que está falando, leader? – Ruki olhava para Kai, que parara de organizar os papeis sobre a mesa.
— Digo, até uns dias atrás você parecia tão... Perturbado. E agora... Não para de sorrir...
— Quer dizer que eu não posso mais ser feliz? – A feição de Ruki era a mais sarcástica possível.
— Claro que pode. E deve. Nós queremos ver você assim. – O baterista respondeu, cauteloso.
— Que bom. Então está tudo bem. – O vocalista riu novamente.
Kai percebera que não conseguiria tirar nenhuma palavra da boca de Ruki. Resolveu acabar de organizar os papeis e ir se retirando daquela sala.
— Kai... – Ruki o chamou, enquanto o via sair pela porta.
— Sim?
— Até quando nós podemos ser felizes...? – O vocalista olhou para o líder da banda com uma sombra nos olhos, o que deixou Kai totalmente assustado, sem conseguir dizer nada. – Estou brincando, vamos logo voltar para o estúdio! – E Ruki bateu com a mão no ombro Kai, passando por ele e dirigindo-se à frente.
O baterista apenas contraiu as mãos contra os papeis que segurava, acompanhando Takanori com os olhos.
(...)
— Por que está aqui? Não devia ir até lá embaixo procurar algum humano a mais para enganar?
— Por que eu faria isso? Já estou satisfeito com Takanori.
— Você pensa pequeno. – O demônio coçou a cabeça.
— E por que “você” está aqui? Passando o tempo? – Miyavi retrucou, irônico.
— Qual é... Eu acabei de voltar do mundo dos humanos. – O outro bufou.
— Mas não ficou com uma alma sequer. – Miyavi zombou.
— Seu maldito... Não tenho culpa se você engana os humanos com mais facilidade que eu! – Irritou-se.
— Ora, não tenho culpa se você é incompetente...
— Seu desgraçado... – O outro demônio exalava fúria. – Eu sou incompetente? E você é um desperdiçador!
— Por que diz isso?
— Não pense que eu não sei que você já desperdiçou almas humanas! – Mostrou a língua.
Miyavi ficou em silêncio.
— Há! Quem é o esperto agora?
— Cale a boca, idiota. – Miyavi bufou.
— Sabe do que eu me lembrei? Uma vez, uma humana me deu um nome que me lembra esse tal de Takanori.
- É? E qual foi?
— Takeru!
— Que nome mais ridículo. – Miyavi mostrou-se indiferente.
— Ora seu...—
— Fique quieto e preste atenção... Está na hora do show... – E Miyavi direcionou o olhar para baixo, sorrindo, acompanhado pela curiosidade do demônio ao seu lado.
(...)
O staff chamara os integrantes da banda para passar o som mais uma vez, e experimentar novas melodias. Estavam presentes apenas Kai, Reita e Ruki.
— Alguém vá chamar aqueles dois inseparáveis e adorados guitarristas... – Kai falou, impaciente.
— Tudo bem, eu vou procurá-los. – Ruki ofereceu-se.
O vocalista passava pelos corredores do estúdio, sempre com a cabeça baixa, em busca dos outros dois integrantes. As paredes pareciam fechar-se ao seu redor, enquanto segurava a respiração para não se afogar em meio há tantas imagens que rondavam sua mente.
Desespero...
Até que ele parou atrás da porta onde ouviu a voz dos dois guitarristas.
— Acredita que Ruki está realmente normal? Toda vez que eu olho para ele, ele está sorrindo. Está... Assustador... – Uruha dedilhava algumas notas em sua guitarra.
— Eu tive a mesma impressão. Ru-san nunca ficou assim, desde que eu o conheço. Espero que ele esteja realmente agindo normalmente... – Aoi completou.
— Ultimamente vocês tem falado bastante de mim sem que eu saiba, não é? – Ruki entrara na sala, e sorria.
— Ru-san, você... Você estava aí? Bem, nós—
— Não se preocupem comigo. Eu vim aqui apenas para lhes dar um pequeno aviso. – O sorriso abriu-se no rosto de Ruki, e os seus olhos começaram a ter o mesmo brilho púrpura dos olhos de Miyavi.
Antes que Aoi e Uruha pudessem dizer algo, a porta atrás de Ruki já havia se fechado...
— Leader, me dê algumas batidas para que eu sincronize com meu baixo. – Reita falou, enquanto ligava o instrumento.
— Tudo bem... – Kai sentou-se e começou a tocar sua bateria.
As batidas nos tambores do instrumento soavam normalmente pelo estúdio. Até que algo ecoou mais alto, e o baterista parou de tocar.
— O que foi? – Reita parara também.
— Você ouviu isso? – Kai levantara, ainda com as baquetas nas mãos.
— Isso o quê? Sua bateria? – Falou irônico.
— Não, foi algo... Algo mais alto. Parecia... – Kai mal completara suas palavras e saíra do estúdio, apressado.
— Kai?! Hey, Kai! – O baixista pousou seu instrumento no apoio e saiu atrás do líder da banda.
Kai andava apressado, como que para seguir a fonte daquele som que ouvira. Reita vinha logo atrás, caminhando tão rápido quanto o baterista à sua frente. Até que os dois chegaram onde Ruki, Aoi e Uruha se encontravam e entraram na sala.
O único som agora foi das baquetas de Kai caindo ao chão.
Suas pupilas se contraíram, enquanto Reita colocou as mãos sobre a boca.
Na frente dos dois, estavam dois corpos caídos ao chão, cobertos de sangue e Ruki, com uma arma nas mãos.
O vocalista virou parcialmente o corpo, o suficiente para ver a reação de espanto dos outros dois integrantes que acabaram de adentrar àquela sala. Sorriu, com o rosto manchado pelo sangue dos dois guitarristas caídos à sua frente.
— T-T-Taka... O que você... O quê... – Kai não conseguia crer no que via.
— Sabe Yutaka... – Ruki virou-se completamente e deu alguns passos á frente. – Você me disse uma vez que podíamos mesclar o sofrimento com a vontade de viver. É, eu concordo. – Exalava um sorriso assustador. – Eu sei que você quer viver, mas acho que você deveria sofrer um pouco também. Você é autoritário ás vezes, mas sempre está sorrindo. Você nunca entrou em desespero? – Ruki olhava para sua arma, mas agora com raiva.
— Takano—
— Vamos ver se agora você para de sorrir, leader... – Levantou a arma novamente, apontou-a para o baterista e disparou três vezes.
O sangue de Kai espirrou no rosto de Reita, que não conseguia dar um passo sequer, em nenhuma direção. Não tinha forças para se mover. Virou apenas o olhar para o lado, enquanto via o corpo do líder da banda cair ensangüentado no chão.
— O que foi, Akira? Você está tremendo. Está com medo? – Ruki dizia com o mesmo tom de sarcasmo de Miyavi, enquanto soprava a fumaça que exalava de sua arma.
Reita não conseguia de mexer. Apenas olhava, desesperado para o vocalista à sua frente.
— Sabe que... Você tem que tomar mais cuidado com o que você fala... – Ruki aproximou-se e ficou bem perto de Reita. – E quer saber mais? Eu não acredito na história dessa sua faixa no nariz... “Para pararem de nos confundir”? E quem é que nos confundiria, Akira? – Ruki retirou a faixa do rosto de Reita com a arma e a deixou cair lentamente ao chão.
— T-Ta—
— Passageiro, passageiro... Muitas coisas são passageiras. Sabe o que mais é passageiro, Akira? – Ruki sorriu e encostou a arma no nariz de Reita. – A sua vida. – E disparou.
Ruki observou o corpo do baixista a cair á sua frente. Seu rosto e suas mãos estavam cobertas de sangue. Mas em sua face pairava uma completa feição de tranqüilidade.
O vocalista respirou fundo. O cheiro de sangue preenchia toda a sala. Pousou a arma sobre a mesa, retirou um cigarro do bolso e o acendeu. Sentou-se no meio daquele lugar e ficou a observar o que acabara de fazer.
E agora...?
“O silêncio...”
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