Regnum Viperarum - Interativa
6 Capítulo 5 - O Começo do Fim
Notas iniciais
Capítulo 5
O Começo do Fim
— A situação foi de fato trágica, é impossível negar isso. Mas foi um evento isolado. Tomar alguma atitude agora seria precipitado – argumentou o conde Alfred, um homem corpulento e grosseiro, com uma espessa barba cinzenta que mantinha provavelmente com a intenção de disfarçar seu queixo duplo. Tal truque, porém, não estava funcionando.
— Não posso acreditar que está minimizando o que aconteceu com meu filho e meu marido! Eles quase morreram! – a rainha Celine exclamou, chocada. Subitamente, seus olhos se encheram de lágrimas, o que lhe garantiu expressões de pena por parte da grande maioria das pessoas ali reunidas. Julian, entretanto, apenas a encarou. Era inquietante vê-la chorando por ele, ainda mais porque sabia que não era um choro sincero. É claro, seria compreensível uma mãe chorar pelo filho, e talvez Celine de fato fizesse isso, mas não em público, não assim.
A última semana havia sido uma das piores da vida de Julian, se não a pior. Desde a sua adolescente, quando passou a se envolver mais ativamente na política, se considerava alguém ciente das necessidades do povo, do que lhes faltava e das suas insatisfações. Mas a verdade é que não fazia ideia que a situação da fome era tão grave, e lhe doía admitir isso. Quão alienado ele deveria ser para não perceber algo assim? Mataram seu cavalo bem em frente a seus olhos simplesmente porque ele fornecia alimento, coisa que a mulher que o atacou não via a dias.
E agora ela estava morta, todos que atacaram o grupo de nobres estava. Todos que muito provavelmente só recorreram aquilo por desespero. E Julian não conseguia deixar de pensar neles. A culpa o consumia, pois sabia que era uma coisa que podia ter sido evitada. Não sentia raiva, afinal eles não avançaram nele, apenas nos cavalos, apesar de que isso não impediu que a queda de cima do animal fizesse com que quebrasse o pulso e o braço em três lugares.
Mexeu ligeiramente a mão, admirado com o trabalho do médico da família. Havia passado duas horas em uma mesa de cirurgia enquanto ele reconstruía seus ossos, mas ainda assim era uma alternativa bem melhor do que usar um gesso por semanas, como acontecia um século atrás.
— O que sugere então, Majestade? – perguntou o conselheiro Alphonse, um dos generais franceses de maior prestígio e pai de Edward, o melhor amigo de Julian. Ele se parecia bastante com o filho, mas enquanto seu cabelo era ralo e branco, o de Edward era espesso e castanho.
Celine soltou um leve suspiro em uma tentativa de conter as lágrimas e olhou para o marido. Christophe estava sentada na cabeceira da mesa, posição que seu status como rei lhe conferia, mas estava distraído, mais do que o normal. A garrafa de vinho que abrira no começo da reunião estava vazia e Julian percebia os efeitos da bebida no modo como seus olhos estavam vermelhos e pesados. Christophe exagerava em seu consumo de álcool, beirando ao alcoolismo, sempre que a situação da França se agravava. E isso abria ainda mais espaço para Celine assumir o controle, como fazia naquele exato momento.
— Christophe e eu conversamos... – começou a dizer Celine, apesar de que Julian duvidava que isso tivesse acontecido. Desde quando Celine consultava o marido para tomar decisões? Christophe, porém, não a corrigiu. Em fato, não esboçou nenhuma reação – E, como todos vocês devem saber, a França é o país mais próspero da Europa em termos agrícolas. Temos grandes áreas de terrenos férteis e plantamos grande quantidade de comida. Então por que nosso povo está passando fome? Porque exportamos grande parte do que produzimos. E para quem? Principalmente para a Inglaterra.
— Mas não podemos simplesmente parar de exportar para a Inglaterra – disse o conde Alfred.
— Não pretendo fazer isso. Quer dizer... meu marido não pretende fazer isso – corrigiu-se, rapidamente – Mas achamos que seria sensato diminuir. Afinal, devemos priorizar o bem-estar dos franceses e não dos ingleses.
— Diminuir em quanto, Majestade? – perguntou Alfred, receoso.
— Christophe não definiu ainda, mas cerca de 90% mais ou menos.
— Majestade! Você não pode fazer isso! – exclamou Alfred, chocado. Vários conselheiros se mexeram desconfortavelmente e trocaram olhares. A descrença pairava no ar, pois todos sabiam o quanto isso abalaria a economia inglesa e o quão enfurecido o rei inglês ficaria.
— Por que não? – perguntou Celine, suas sobrancelhas ligeiramente franzidas como o único sinal do ódio que sentia. Ela era rainha. Podia fazer o que quisesse.
— Isso poderia começar uma guerra! – argumentou Alfred – Você conhece o temperamento do Rei Lucius. Nossas relações com a Inglaterra já são tensas porque seus filhos mataram o filho dele, e ele realmente não vai gostar se você prejudicar o país dele dessa forma. O solo inglês é pobre!
— Sim, mas isso não é realmente problema da França, certo? – Celine sorriu, gentilmente – Além de que Christophe, muito sabiamente, decidiu convidar o Rei Lucius para uma reunião aqui no palácio, onde poderão discutir o assunto – Alfred começou a abrir novamente a boca, mas Celine o interrompeu – E devo lembra-los, caros amigos, que a decisão já foi tomada.
Os olhos de Julian encontraram os do pai, implorando para que ele falasse alguma coisa, para que proibisse Celine de fazer o que planejava, mas ele apenas desviou o olhar, terminando, com um longe gole, sua segunda garrafa de vinho.
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Adrius observava a garota que se aproximava com curiosidade. Conversara com nove até agora, e nenhuma havia chamado sua atenção. Mas nenhuma se aproximou dele do modo como essa se aproximava. Ela exalava confiança em cada passo que dava, a cabeça sempre erguida e os olhos grudados nos dele em todo o caminho que levou para se aproximar de onde estava sentado, na extremidade do Salão das Mulheres. Quando estavam próximos a suficiente para se tocarem caso ele estendesse o braço, ela fez uma leve reverência, seus olhos azuis cintilando como duas safiras das quais a cor se assemelhava tanto.
Ela era bonita, o cabelo loiro e liso descendo por suas costas e a pele branca e macia, mas não era o tipo de garota que normalmente chamaria a atenção de Adrius ou que alguém associaria a ele. Ela era clássica demais, delicada demais, enquanto Adrius sempre tivera uma preferência por mulheres exóticas, com lábios cheios e belas curvas. E isso só o deixava mais surpreso por estar tão fascinado por ela.
Adrius indicou a poltrona em frente a ele, pedindo-a para se sentar. Ela o fez com elegância, ajeitando habilmente a saia do vestido rodado decorado com flores azuis que usava.
— Qual é o nome dela? – perguntou, em francês, para a tradutora, um moça parada ao seu lado.
— Anastasya – respondeu a garota, com um fortíssimo sotaque que fazia sua voz soar como se estivesse rouca, o que era, por si só, bastante provocante.
— Você fala francês? – Adrius sorriu, um pequeno sorriso de canto de boca — Isso facilita as coisas. Mas você não é francesa.
— Não. Sou russa. Não pôde deduzir isso simplesmente pelo meu nome, Alteza?
— Só estava tentando puxar assunto. A maioria das garotas com quem conversei eram tão tímidas que só diziam algo quando eu perguntava. Mas você não é como a maioria, é? Você é diferente. Bem mais atrevida que todas elas. Não tem medo que eu te castigue ou algo assim?
Ela arqueou as sobrancelhas.
— Você faria isso?
— Não, mas como poderia ter certeza? Você não me conhece.
— Intimamente não. Mas sua vida não é exatamente privada.
— E você gostaria de me conhecer intimamente? – perguntou Adrius, se inclinando para ficar mais próximo a ela, seu tom de voz malicioso.
— O que você faria se eu dissesse sim?
— Muitas coisas. Você está dizendo sim?
— Não, não estou. Não sou esse tipo de garota.
— E que tipo de garota você é?
— Não seria mais interessante você descobrir por si mesmo?
— Talvez. Por que se inscreveu na seleção, Anastasya? Não acho que seja por estar apaixonada por mim – Adrius sorriu, seu tom de voz brincalhão – Quem sabe pelo meu irmão. Julian é com certeza mais galante do que eu.
Julian era muitas coisas que Adrius não era, ele tinha que admitir. Julian era um líder nato, sabia fazer com que as pessoas o seguissem sem questionar e praticamente personificava o que as garotas imaginavam ao pensar em um príncipe. Responsável, gentil, inteligente.... Não era à toa que todos gostavam dele muito mais do que do irmão. Tal pensamento era amargo e certamente não deixava Adrius feliz, mas vinha a sua mente com uma frequência maior do que gostaria.
Adrius desviou o olhar para Julian, que estava sentado a alguns metros dele, conversando com uma selecionada. Ele a observava com atenção, como se o que ela estivesse dizendo fosse a coisa mais interessante do mundo. Adrius trincou o maxilar, irritado. Por que Julian tinha que ser tão perfeito?
— Não, não estou apaixonada pelo seu irmão – respondeu Anastasya, atraindo o olhar de Adrius de volta para ela.
— Não? Como não ser apaixonada por ele? Ele é perfeito, não é? Tudo que uma garota possa querer – disse Adrius, a irritação visível em seu tom de voz.
Anastasya não pareceu se abalar, mas suas sobrancelhas se ergueram em curiosidade. Ótimo. Estou entretendo-a com meu drama familiar, pensou Adrius.
— Me inscrevi na seleção por sua causa – disse ela — Mas não por um motivo que você possivelmente queira ouvir.
Adrius fez um gesto de mão, pedindo-a para continuar.
— Me inscreve por pura insistência do meu irmão – falou Anastasya – Ele queria que me casasse com alguém importante.
Adrius soltou uma risada sem nenhum traço de humor, mas completamente sarcástica.
— E como você teria que usar algum dos príncipes, me escolheu. Por que? Eu sou mais fácil de manipular, por acaso?
— Não – respondeu ela, com um traço de irritação na voz, o que agradou Adrius. Pelo menos conseguiu que ela expressasse alguma emoção. A garota era tão fria quanto uma pedra de gelo – E devo lembra-lo, Alteza, que só estou contando isso porque você me perguntou.
— Então prossiga. Por que me escolheu?
— Meu irmão escolheu por mim. Não tive nenhum controle sobre nada disso, o que é bem irritante. Ele queria ver como eu lidava com alguém tão... – Anastasya fez uma pausa e Adrius se preparou para o que viria. Pelo visto, nada bom — Teimoso, direto e malicioso quanto você.
A expressão de Adrius se fechou, o que pareceu irritar Anastasya ainda mais. Vê-la irritada por ele estar irritado deixou Adrius completamente desconcertado. Que garota era aquela?
— Ah Anastasya.... Você está querendo que eu te mande para casa? Por que mais admitiria que a seleção só te atraiu pelo título de rainha que ela te daria e que está competindo por mim baseado em três palavras que acha que definem minha personalidade? Acha mesmo que três palavras são suficientes para me definir?
— Só achei que você era o tipo de homem que suportaria algumas verdades duras. Parece que me enganei – respondeu ela, com frieza. Os dois se encararam por longos segundos, em silêncio.
— Os sete minutos que nós tínhamos para conversar acabaram – disse ele finalmente, apesar de ainda faltar mais de um minuto para tal – Pode voltar para seu lugar, Anastasya.
A garota se levantou e fez o que lhe foi pedido, sem dar sequer uma olhadela para trás.
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