Regis Um Menino do Planeta Terra
7 Traição
Acordei tarde da noite, com alguém batendo na minha janela e chamando:
— Regis... Acorde. Sou eu... Erick.
Levantei-me assustado e abrindo um pouco a janela especulei:
— O que você está fazendo aqui? Pensei que já estivesse a bilhões de quilômetros da Terra!
— Chame o Regis e venha comigo até a nave pra podermos conversar — pediu o rapazinho.
— O que está havendo? — Insisti.
— Na nave eu explico.
Encostei a janela e percebendo Arthur dormindo tranquilamente, resolvi deixá-lo assim.
Saí para o quintal e de longe Erick insistiu:
— Cadê Regis Primeiro?
— Deixe-o dormir — insisti. — Ele está muito cansado.
— Nada disso! Vá chamá-lo. Preciso falar com ele também.
— O que houve?
— Vá chamá-lo! — Reclamou Erick — Vou esperar na nave, pois aqui fora está frio!
Retornei ao quarto, chacoalhei Arthur, chamando-o:
— Arthur... O Erick e Luecy estão no quintal e querem falar conosco.
— Por quê?
— Não sei! Vamos lá verificar.
O menino se levantou preguiçoso, forçou os braços acima da cabeça, se espreguiçando demoradamente, abriu o guarda roupas, apanhou uma blusa de lã, vestiu-a e sem ascendermos qualquer lâmpada da casa, saímos juntos para o quintal, onde encontramos a gigantesca nave espacial, com sua escada iluminada por pequenas luzes de talvez neon, azuis. Sem nos preocupar e ansiosos para saber o motivo do retorno dos dois viajantes do espaço, subimos e encontramos Erick no grande hall de entrada.
— O que há Erick? — Perguntou Arthur.
— Vamos até o quarto!
Seguimos o rapazinho até o mesmo belo quarto da nave, o qual já me serviu de aposento. Ele sentou-se em uma das duas belas camas azuladas, preparada em cetim e disse:
— O senhor Frene não aceita que retornemos à Suster sem vocês.
— Então fique conosco na Terra — deu de ombros Arthur.
— Não podemos! Pertencemos à Suster!
— Você é terráqueo Erick — aleguei. — Fique conosco.
— Vamos todos de volta à Suster — insistiu ele. — A menos que Regis Primeiro concorde em ir conosco.
— Não quero voltar pra lá! — Negou o menino — A não ser que Regis vá!
— Não vou! — Neguei convicto.
— Então eu também não vou! — Negou Arthur.
— Sinto muito — insinuou Erick, de certa forma triste.
— Sente muito o quê? — Me espantei.
— Vamos todos pra lá!
— Eu não vou! — Gritei assustado, me retirando do quarto, seguindo para a saída da nave.
A porta estava fechada.
Erick e Arthur apareceram no hall.
— Já não estamos mais na Terra — informou Erick.
— Mentira! — Gritei muito nervoso, com jeito de choro.
— Infelizmente. Assim que vocês entraram à bordo Luecy tirou esse troço da Terra. Já estamos a milhões de quilômetros fora do sistema solar.
Nervoso e chorando, esmurrei o local, o qual seria a porta da nave, pedindo:
— Abra esta porta! Me deixe na Terra!
— Não vai dar — negou o rapazinho, sério.
— Você me traiu! Mentiu pra mim e me forçou a entrar nesta porcaria! Eu achava que você era meu amigo.
— Sou seu amigo, Regis! Sinto muito. O senhor Frene quer Regis Primeiro em seu mundo.
— Também não quero ir pra lá! — Negou o outro menino — Quero ter um pouco de felicidade!
— Não tenho culpa de nada — negou o rapazinho. — Falem com o senhor Frene.
— Você me traiu! — Insisti com ódio na expressão — Nunca mais me dirija à palavra.
— Acho que você deveria rever seu pensamento — ironizou Erick. — Faremos uma longa viagem juntos.
— Mesmo que viajemos um século juntos, nunca mais fale comigo.
Corri para a cabine, onde Luecy permanecia em pé, a frente dos comandos daquele enorme disco. Pelo grande visor frontal, se era possível vermos milhões de pontos luminosos, parecendo vagalumes que se aproximavam rapidamente em uma noite muito escura. Na verdade, eram luzes mortas, em uma visão distorcida, de estrelas longínquas, refletidas a uma velocidade menor do que a percorrida por aquele enorme disco voador. Luzes geradas a centenas... milhares... milhões de anos no passado.
— Veja só se o menino Regis não vai mesmo nadar peladão para pagar sua aposta — gracejou o robô, em sua voz metálica.
— Cala a boca seu robô hipócrita e me devolva já pra minha casa! — Insinuei faiscando de ódio.
— Não obedeço a ordens de um pivete, fedendo a leite azedo — negou o robô.
— Luecy, você foi programado pra me obedecer — lembrou Arthur. — Então lhe ordeno que nos devolva à Terra!
— Só obedeço a ordens de Erick — ironizou o robô.
— Então é simples: — Insinuei com sarcasmo — Erick vai reconciliar conosco e nos devolver à minha casa.
— Não vou contra as ordens do senhor Frene — negou o rapazinho.
Sendo assim, fiquei desesperado e avancei à frente de Luecy, me sentando em uma das poltronas e mexendo nos comandos, gritando:
— Então eu mesmo vou levar esta porcaria de volta pra Terra!
Luecy, apenas colocou um de seus dedos metálicos em minha fronte e acho que desmaiei...
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... Acordei no leito daquele que teria sido meu quarto de hóspedes. Arthur estava sentado na mesma cama, me olhando ansioso.
— O que aconteceu? — Perguntei, me sentando sobre a cama.
— Luecy te tirou fora da jogada — explicou-me o menino.
— O que ele fez?
— Você tentou mexer nos comandos da nave e ele te apagou.
— Como ele fez isso?
— Você tentou alterar a rota da nave e Luecy te fez desmaiar. Mas não seria necessário, pois ninguém pode alterar a rota criada pelo computador central.
— Como não? — Questionei — Qualquer um pode fazer a nave viajar no controle manual.
— Não há como fazer isso — negou Arthur, suspirando desanimado. — Eu estudei muito sobre este assunto e sei que se a nave for colocada em comando manual, ela com certeza se desviará pra sempre de sua rota correta.
— Pra que serve o mapa estelar?
— Pra nada! Acredite. Nem Luecy seria capaz de pilotar este troço, sem seguir a rota pré-estabelecida.
— Ele já fez isso uma vez! — Insisti convicto — Ele já me trouxe pra Terra, sem existir uma rota feita por ninguém.
— Não sei como ele fez, mas é impossível. Não adianta você ou eu, tentarmos sabotar a rota.
— Não sei como — dei de ombros. — Mas ele fez!
— Será que não existia a mesma rota criada, desde quando te levaram pra lá? O senhor Frene tirou apenas o comando de acionar a nave.
— Sete anos! — Exclamei — Fazia sete anos que eu tinha ido pra lá.
— A rota poderia estar armazenada por todo esse tempo. O chip de memória só se apaga se alguém mandar.
— Quanto tempo fiquei desacordado?
— Em torno de cinco horas.
Pensei um pouco e concluí triste.
— O dia está amanhecendo na Terra. Daqui a pouco meus pais deverão acordar e ficarão desesperados com o nosso desaparecimento.
— Ouvi falar que o dia é mais curto na sua Terra.
— Você disse cinco horas... Mas não da Terra?!
— Não sei como é a hora na Terra — negou ele fazendo careta.
— Cinco horas de Suster?!
Ele acenou que sim.
— Espere — pensei um pouco. — cinco horas de Suster, equivalem há quase nove horas na Terra! Isso quer dizer que... Já é quase meio dia... Meus pais estão loucos!
Levantei correndo da cama e corri até a cabine, seguido pelo outro menino, onde Luecy permanecia em pé diante dos comandos, enquanto Erick estava sentado na poltrona mais próxima da porta.
— Quero falar com o senhor Frene! — Gritei com raiva.
Erick levantou a mão esquerda, pressionou uma tecla no monitor esquerdo, ao alto, que se ascendeu rapidamente, aparecendo à sala do grande computador central, no mundo do senhor Frene.
— Sente-se garoto Regis — convidou-me educadamente o robô.
Sentei-me em silêncio na segunda poltrona e permaneci de olho fixo no monitor, enquanto Arthur continuou de pé atrás de mim.
Alguns minutos depois, resolvi reclamar:
— Cadê aquele cretino?
— Menino mal educado! — Reclamou o robô, como se fosse gente.
— Não lhe devo satisfações!
— Quer dormir mais algumas horas?
— Não ouse colocar suas mãos em mim! — Reclamei me levantando.
Arthur pressionou meus ombros, para que continuasse sentado, como a mostrar que estava protegido por ele.
— Que horas seria agora na Terra?
— Doze horas, trinta e seis minutos e quarenta segundos, no ponto de pouso da nave — informou-me o robô sabichão.
— Itsla nary crosty persuants rakitso! — Interrompeu-nos uma voz eletrônica, pelo monitor da nave.
Era o senhor Frene com sua voz original.
— Que linguagem mais ridícula! — Insinuei, fazendo careta.
Arthur riu exageradamente, tirando seu aparelhinho tradutor do pescoço e me entregando.
Ao sairmos de casa de madrugada, não me preocupara com aquilo e estava sem o meu, por isto não conseguiria entender o que o senhor Frene dissera. A não ser que ele falasse em Língua Portuguesa, a qual ele teria aprendido em minha época de escolar primária.
Coloquei o aparelhinho de Arthur, que sendo cidadão de Suster, não necessitaria mesmo dele.
— Olá meus caros viajantes do espaço — saudou-nos novamente o senhor Frene, de jeito que agora eu pudesse entendê-lo.
— Quero voltar agora pra Terra! — Exigi.
— Olá querido Regis — riu ele. — Quanto tempo!
— O senhor prometeu que jamais me buscaria na Terra, novamente!
— Não fui lhe buscar. Regis Primeiro queria lhe visitar e depois de tanta insistência, acabei por concordar. Só não sabia que ele tinha um plano de nos abandonar.
— Este problema o senhor tem que acertar com ele — insisti com raiva. — Me devolva à Terra e pode levar sua tripulação de volta pro senhor.
— Não mandei ninguém lhe trazer! Quero apenas meus compatriotas. Não que não queira você! Caso queira vir: seja muito bem vindo. Todos por aqui te amam como a um filho.
— Não quero ir!
— Acerte isto com meus tripulantes e fique feliz em seu mundo.
— Também não quero ir! — Negou Arthur.
— Regis Primeiro: — insistiu o senhor Frene — Você é um garoto susteriano. A Terra não é seu mundo!
— Não me importa em ficar na Terra ou em Suster! — Negou o menino — Quero apenas ficar com minha família!
— Sua família somos nós! — Estranhou o senhor Frene — Você nasceu aqui e pertence a este mundo.
— Sou sangue de Regis! Minha família é a família de Regis!
— Você não é sangue de Regis! — Negou o homem pelo monitor, com expressão de ira — Você é apenas um microscópico de-ene-a[1], expelido a partir de uma gota de suor.
— E sou o que, de seu mundo?
— Milhares de anos de estudos científicos e um milagre da vida, transformada em laboratório.
— Tenho alma? — Questionou o menino receoso, sentindo lágrimas.
— Tem vida! Saúde e um povo que te adora!
— Não tens percebido que não passo de uma marionete nas mãos de poderosos, que gostam de brincar de deus?
— O que é isso menino? — Se comoveu o homem — A gente o ama muito! É por isso que você nasceu.
— Quero viver com Regis! — Insistiu o menino — De preferência na Terra. Pra que ele também seja uma pessoa feliz.
— Você virá pra casa! — Insistiu calmamente o homem, com voz de palavra única.
— Existem milhares de bonecos iguais a mim, pro senhor brincar de filho — reclamou o menino com raiva.
— Cada um de seus irmãos, é considerado um ser único pra nós. Não estamos brincando de sermos pais. E os respeitamos e os amamos muito.
— Me deixe ficar com Regis! — Se emocionou ainda mais, o menino.
— Tudo bem! Espero os dois aqui em Suster.
Pressionou uma tecla em seu computador central e desapareceu da tela.
Percebendo a real situação e me vendo de volta à Suster, permanecendo sei lá quanto tempo ausente de meus pais, os quais, ao contrário de antes, que tinham outros filhos para cuidar, agora estavam sozinhos e envelhecidos, a emoção surgiu e assim como um menininho perdido, comecei a chorar desconsolado.
— Começou a vazar como sempre! — Caçoou o robô.
— Cale a boca pedaço de lata velha! — Gritei me retirando da cabine.
Segui até o aposento e deitei-me de bruços na cama, onde permaneci chorando.
Poucos segundos depois, a porta tornou a se abrir, deixando que Arthur entrasse em silêncio, se despisse de sua blusa de frio e se deitasse a meu lado.
Permaneci por muito tempo chorando e planejando mil vinganças, sem ser interrompido pelo outro menino, que se sentia tão revoltado quanto eu. Ele não só queria ficar comigo, mas queria mesmo era ficar definitivamente na Terra.
Sei que ele deveria se sentir feliz em seu mundo, onde nasceu e foi criado, mas por algum motivo mais sério, ele não era feliz por lá.
Enquanto planejava minhas vinganças, ainda com lágrimas, lembrei-me de quando a nave apresentou um defeito estranho, nos fazendo pousar no tal planeta dominado por seres parecidos com aves. Sabia onde o senhor Tony e Rud investigavam o tal defeito e acreditava que poderia interferir por ali na nave, fazendo-a se desviar de sua rota original e forçar meus opressores a me devolver a meus pais.
Por outro lado, eles poderiam não ceder e isso não resolveria minha situação, nos levando talvez, a nos perder nesse tal Universo, de meu Deus Todo Poderoso.
Outra ideia vinha a de contrariar meu irmão, implorando a ele, pelo amor que tínhamos um pelo outro, para que cedesse e então voltasse a seu mundo de tristezas e me concedesse o direito de retornar ao meu. Seria um grande sacrifício, pelo qual ele teria que suportar em troca de minha felicidade. Mas na verdade, a gente praticamente nem se conhecia e ele já teria vivido em Suster por seus sei lá, talvez vinte e oito anos de idade, se fosse medido ao tempo terráqueo. Eu não sabia ao certo quando ele teria nascido; só sabia que ele teria aparecido depois que eu saí de lá, quando eu tinha meus dezessete anos de idade. Só que ele já era de meu tamanho, não sei por qual forma de crescimento milagroso.
Era isso. Teríamos que ter uma conversa séria sobre este assunto complicado. Ele teria que me entender e aceitar.
Sentei-me sobre a cama para lhe falar, mas tive uma pequena surpresa, ao perceber que o danadinho, meio que sem jeito, estava dormindo de costas, com os pés caídos do lado de fora da cama.
Acabei de me levantar, apanhei seus pés e os coloquei sobre a cama; ele resmungou alguma coisa sem nexo, se virou de lado e continuou dormindo.
Sendo assim, o primeiro plano, seria agora o mais viável.
Quando já sairia do aposento, a porta tornou a se abrir e entrou Erick, sentando-se na cama, ao lado do outro menino, suspirou forte e me pediu:
— Me desculpe Regis.
— Claro que desculpo! — Exclamei, franzindo o lábio inferior esquerdo — Vire essa nave cento e oitenta graus, me deixe novamente na Terra e estarás perdoado.
— Você sabe que não posso fazer isso!
— Pra quem fez amizade comigo através de mentiras, não iria ser diferente agora!
— Você está me ofendendo.
— Eu nem quero falar com você — neguei quase gritando, porém me contendo para não acordar Arthur.
— Regis, poderíamos formar um grupo de amigos em Suster!
— Hipócrita! Você nunca teve uma família e acha que todos são iguais a você! Não percebe que todos os meus irmãos já se casaram e que meus pais estão envelhecidos! Meus pais não suportarão minha ausência por muito tempo!
— Me ajude a convencer Regis Primeiro em partir comigo e te devolvo à Terra na mesma hora!
— Ele está dormindo! — Apontei para o menino na cama — Amarre-o!
— Não posso fazer isso! — Negou Erick — Seria tortura!
— E o que está fazendo comigo é o quê? Uma turnê de cortesia pelo grande espaço do Cosmos?!
— Se eu te levo comigo, você me odeia... Se eu o levo, — apontou para Arthur. — também me odeia. O que faço pra agradar a todo mundo?
— O justo! — Insinuei.
— O que é o justo pra você?
— Nos deixe na Terra.
— O senhor Frene não quer assim!
— Que se dane o senhor Frene, cara! — Quase gritei — Cuide daqueles que são seus verdadeiros amigos!
— Aí o senhor Frene não me quer por lá!
— Então ele não é seu amigo! Sendo assim, fique também na Terra!
Erick começou a chorar e insinuou:
— Você tem uma bela família na Terra! Eu não tenho ninguém! Não consigo ser feliz por lá!
— E quer tirar minha felicidade? — Cobrei.
Apontei para o outro menino dormindo e conclui:
— E a dele? Ele não quer voltar pra Suster! Por quê? Deve ter algum motivo real. Ele é de lá e não quer ficar lá!
— Todos gostam dele lá, Regis! Ele é tão amado quanto com certeza você era. Por que ele não quer ficar eu não sei!
— Vai nos deixar na Terra? — Insisti.
— Sinto muito — insinuou ele de cabeça baixa, ainda com lágrimas. — Não posso!
E se retirou daquele quarto, me deixando ainda mais furioso.
[1] O DNA (ácido dexociribonucleico) é a molécula orgânica que quando transcrita em RNA, tem a capacidade de codificar proteínas. Tem a forma parecida com uma escada espiral cuja disposição dos degraus se dá em quatro partes moleculares diferentes. Esta disposição constitui as chamadas quatro letras do código genético.
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