Reflexo de um gume
1 Capítulo único
Notas iniciais
Reflexo de um gume
Escrito por Meiline Damestein
— Era como uma faca de dois gumes. Onde um gume quando falhava, o outro via socorrê-lo.
Os fios dourados se afoitaram, espalhando-se conforme o espasmo que o corpo tinha. Os olhos azuis lacrimejavam e se escureciam a cada penca de dois segundos. Os últimos segundos de sua vida e era isto que via? De seus lábios apenas se permitia sair gemidos. Gemidos que buscavam ar, um ar que a ajudasse. Um ar que oxigenasse novamente seu cérebro e desse a luz de que tudo era uma ilusão, um terrível pesadelo. Seus cílios superiores roçaram nos inferiores, seus olhos estavam desistindo da visão, logo também da vida. Nem mesmo suas mãos a ajudavam, não tinha sequer força para resgatar seu ar de vida. Suas pernas estavam meio flexionadas, exceto a direita, a qual não sabia definir seu estado. Não a sentia mais. Seu corpo tentou mais uma vez lutar, mas sua recompensa pela árdua batalha só fora um baque em seu crânio. Não tinha mais gemidos, espasmos, dor e talvez sequer vida. Tudo que conseguiu proferir fora uma palavra de quatro letras. Nem mesmo sua alma sabia o porquê de dizer aquilo. Então tudo se escureceu. Não havia mais ajuda. Era tudo agora escuro. Era tudo agora nos braços de uma entidade superior. Tudo em sua alma estavam nos braços desta entidade. Tudo de si estava nos braços da Morte.
Os arranhas céus de sua cidade, escureceram. O céu escureceu. As pessoas escureceram. Era como se tudo escurecesse para ela, tudo agora lhe reprovava. Como se nada tivesse acontecido — ou deixado de acontecer, levantou-se. Suas pernas ainda bambas e os pés descalços, fora até a pia, abriu a torneira com cuidado. Uma violenta torrente cristalina de água, em forma de prece colocou suas mãos abaixo da torrente. Aquela água tão pura, um rubor saltou em suas bochechas, queria ser como a água. A água limpava todo tipo de impureza e ainda saia limpa, como uma santa de devoção na história. Suas pernas bambearam mais uma vez, levou as mãos até o rosto, lavando com cuidado. Ainda tinha um rubor em suas bochechas e agora sua respiração estava entrecortada. Nada aconteceu, repetia. Apenas um sussurro, sua voz andava rápida com medo de ser pega. Passou a mão esquerda ainda levemente úmida sobre os fios dourados, seus olhos lacrimejavam, mas não queria cair em prantos. Ignoraria tal sentimento até se livrar do problema. Sentiu um espasmo em seu corpo, subitamente avançou sobre a torneira, abrindo-a novamente. Colocou suas mãos novamente abaixo da torrente. Assim como a torrente liberava água violentamente, agora seus olhos também se permitiam a derramar prantos também. Droga, sussurrou. Subitamente uma onda elétrica percorreu seu corpo, uma onda de desespero e culpa. Seus joelhos bateram contra o azulejo frio e bem limpo. Seu torso inclinou-se para frente, suas mãos em forma de prece apertaram-se contra o peito. Tremia e chorava violentamente. Como a torrente d'água da pia.
Me desculpe, pedia meio aos sussurros. Suas têmporas latejaram e uma dor enorme invadiu sua cabeça. Tudo ficara turvo, seu corpo bambeou para os lados, mas tudo clareou novamente. Um enorme clarão. Minha irmã... me desculpe, gemia. Afastou a mão direita de seu peito e a olhou, estava tremendo. Sua irmã mais nova. Sua pequena irmã gêmea. Nascida alguns segundos depois de si. Sua mão tremia e se contraia em cada penca de dois segundos. Assim como sua irmã buscava ar através de gemidos a cada dois segundos, como a cada dois segundos seus olhosescureceriam e se fechavam para a vida. Mas uma dor invadiu sua cabeça, como grandes agulhas tocando e perfurando sua massa encefálica. Seus dedos tremiam meio a um sangue escarlate e viscoso. Ela tremeu e soltou um baixo urro. Havia lavado suas mãos duas vezes, como haveria sangue ali? Seu estômago embrulhou-se e sua temperatura corporal caiu. Uma ânsia de vômito. Sua visão escureceu mais um pouco, sua mão ficara inerte, e agora limpa. Não havia nada. Apenas a pele alva. Minha irmã, chamou. Chamou mais duas vezes, tinha esperança de sua irmã mais nova a abraçasse por trás com ternura e tenacidade. Mas nada. Gemeu. Como pude?
Desde sempre a irmã mais nova e a irmã mais velha se deram bem. Exceto por brigas aqui e ali, disputas cotidianas que qualquer ser humano teria com outro, ainda mais entre irmãos. Uma apoiava a outra. A primogênita sempre com maior senso crítico, preciso e altruísta sempre preocupada com consigo, com a irmã e o futuro. A caçula sempre fora mais doce, sociável e com tenacidade. Ambas se amavam, não só no modo Ágape mas também no modo Eros. Era esse o problema, a posse da primogênita sobre a caçula, e não só isto como também a inveja de melhores características sobre a mais nova. Embora a mais nova admirasse a condição cautelosa e astuta da irmã mais velha, correspondesse o amor no mesmo nível — ou até mais e jurasse fidelidade, nunca sequer apaixonando-se por outra pessoa. Apenas por seu reflexo, sua irmã mais velha. Ambas viveram feliz até atual fatídico dia. Correspondiam-se e estavam satisfeitas com sua atual situação, não só casual mas em outros aspectos mais banais. A mais velha, amava e possuía de todas as formas seu próprio reflexo. Mas... sua mente entrava em total paradoxo quando se levantava a suspeita da existência da mais nova.
Sua cabeça latejou. Nunca via seus pais se dirigirem a irmã mais nova, somente a si. Mas talvez fosse porque sua irmã não entenderia tal assunto e era a caçula. Logo também seus amigos nunca convidavam sua irmã caçula para algo, era como se todos negassem a existência de sua irmã caçula. Mas ao tentar questionar algo para a mesma, via que ela não se incomodava com isto — ou talvez sequer percebia. De acordo com a caçula, contando que ela, a primogênita, reconhecesse seu amor, era tudo. Um lado seu sempre questionou... seria tudo um lado de sua personalidade? Não,balbuciou. Pensando melhor, sua irmã só "falava" com os outros quando a primogênita não tinha mais modos de como lidar com a situação. Era como uma faca de dois gumes, onde um gume quando falhava, o outro vinha socorrê-lo. Era sua irmã caçula ou um lado de sua personalidade? Teria então um distúrbio mental, como dupla personalidade? Não. Jamais. Sua irmã existia. Logo assim, levantou-se assustada. Se tudo fosse um engano, sua irmã ainda estava viva. Não teria a empurrado da cama, deitado-se sobre ela, a sufocado com as próprias mãos até a mesma dá o último suspiro devida. Talvez apenas tivesse perdido a consciência. Gemeu. Quando estava a sufocando, apertando com tudo seu fino e delicado pescoço, via-se como em um espelho d'água. Onde seu reflexo estava sendo esganado até a morte por elamesma. Saiu da cozinha e foi até o quarto, onde tudo aconteceu.
Sua cabeça latejou e um espasmo violento a consumiu. Suas bochechas saltaram em chama e suas mãos tremeram. O corpo de sua irmã não estava lá. Sua mão avançou contra a própria cabeça, agarrando com força os próprios fios dourados e puxando com média violência. Onde? Onde? Onde? — Sua voz antes temerosa, agora estava resoluta. Seus olhos freneticamente avançavam por todo quarto. Correu até a cozinha. Abriu uma das gavetas de seu armário. Tirara uma faca, com uma grande lâmina, afiada e pontiaguda com o cabo branco e grosso. De soslaio, seus olhos capturaram uma sombra perto da saída da cozinha. Avançou rapidamente para lá, sem exitar bateu a lâmina da faca no vão da porta, penetrando com força na madeira, seu braço puxou a faca com força e saiu pisando duro rumo ao quarto.
— Onde você está, sua vadia? — Esbravejou com um grito estridente. Não houve resposta — Apareça! Ande! — Avançou com os pés descalços até a sala de estar, abriu a porta com o cotovelo e ante braço. Nada. Seus olhos se estreitaram.
Rumou até atrás do sofá. Sua cabeça latejou novamente. Suas pernas bambearam e ela caiu de joelhos no chão, soltando a faca meio a queda. Suas mãos cobriram o rosto que novamente derramava lágrimas. Por que estava fazendo aquilo? Se havia matado sua irmã, o amor de sua vida, como poderia avançar sobre ela daquele jeito? Por que fizera aquilo tudo? Lembrou-se. Sua posse e inveja sobre a caçula havia feito aquilo. Havia feito ela tomar posse sobre a mesma e no fim, matá-la. Levantou-se, arrastando-se com dificuldade, sentia a perna direita adormecer aos poucos e a respiração entrecortada. Chegou ao corredor onde dava ao quarto. O lugar onde dormia com o amor de sua vida, com seu reflexo, com a outra parte de sua personalidade — vulgo chamado de irmã gêmea mais nova.
— Apareça. Já estou calma... — Se apoiou nas paredes, sua perna adormecia mais a cada passo, sentia a visão ficar turva, a respiração falhar cada vez mais e agora um desconforto no pescoço. — Me desculpe. Era isto que queria ouvir? Então tá. Me desculpe! Vamos apareça, quero um abraço seu.
Chegando ao quarto, seus olhos se fechavam cada vez mais, assim permitindo a visão ficar mais turva. Próximo ao local onde deu fim a seu reflexo. Sua perna direita praticamente se desfez ali mesmo, fazendo com que ela caísse com tudo no chão, seus fios dourados afoitaram-se. De bruços no chão, procurou virasse de barriga para cima, sua respiração piorava a cada segundo. Flexionou sua perna esquerda, já não sentia sua perna direita. Sentiu um aperto no pescoço. Sua voz não saia mais. Seus olhos começaram a lacrimejar. De súbito lhe veio a lembrança que quando empurrou sua irmã mais nova da cama de casal onde dormiam, a mesma havia quebrado a perna direita. A mesma perna que sequer conseguia também sentir. Além disto veio também que as últimas palavras de sua irmã caçula. Quatro palavras. Sabia que a primeira letra era uma consoante e a última uma vogal. A letra 'A'. Logo em sua mente veio a voz doce de sua irmã caçula, a mesma sussurrava com ternura: "Viva". Um último espasmo a invadiu. Então era isto. Acabaria como sua irmã, só que desta vez não havia ninguém lhe sufocando. O pior é que sua mente não queria reconhecer a situação.
Uma réstia de raciocínio e senso crítico a invadiu. Esta era sua personalidade, sua personalidade sóbria. Seu verdadeiro lado. No fundo sabia a verdade, sabia que a irmã gêmea mais nova era apenas uma lasca de refúgio de sua personalidade. Ainda sim, um lado doentio seu, amava tal lado e o possuía, dando a visão resoluta para seus olhos, a imagem de uma irmã gêmea. Agora havia matado seu refúgio, o outro lado da faca de dois gumes, seu reflexo e amante, logo assim, matando ela mesma. A caçula era a primogênita. Hilário, sua mente cogitou. Que mente fascinante e doentia, eu recebi ao nascer. Impressionante. — Cogitava em silêncio, ao sentir as batidas de seu coração falhar aos poucos. Ela mesma havia se matado. Que pena, poderia ouvir sua irmã sussurrar. Fazendo beicinho com os lábios e o semblante sarcástico. Tudo escureceu. No fim, os vizinhos acharam o corpo já em estado de decomposição. Ninguém da família era próximo a elas, notando seu desaparecimento somente após um mês. A causa foi dada como asfixia por estrangulamento. O culpado? Ninguém considerou a chance de um suicídio, mas apenas de uma tentativa de assalto. Ao longo da casa viram sinais de luta, uma faca, tudo em desordem. O ladrão, no momento que não conseguiu o que queria, matou a proprietária e fugiu. Essa era a verdade para todos.
Que gracinha, uma voz doce e cínica proclamou. Fez um beicinho característico e sorriu.
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